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terça-feira, 4 de agosto de 2026

TEM QUE OUVIR: Beth Carvalho - De Pé No Chão (1978)

A história de Beth Carvalho faz jus ao prestigio de rainha do samba que ela adquiriu. Filha de um advogado, estudou na infância piano clássico, balé e apaixonou-se pela bossa nova. Através da convivência com amigos em escolas e rodas de samba, aproximou-se do gênero mais brasileiro por essência, desenvolvendo uma carreira musical brilhante.

Com um faro apurado pra seleção de repertório e voz tão poderosa quanto graciosa, atingiu o sucesso comercial. Buscou parceria com bastiões do gênero, como Cartola e Nelson Cavaquinho, jogando luz em canções hoje tidas como clássicas. Com isso, tornou-se não somente uma das maiores intérpretes do samba, mas da música popular brasileira.

Atenta as rodas de samba do subúrbio carioca - os pagodes -, passou a frequentar o bloco do Cacique de Ramos, onde conheceu os integrantes do Fundo de Quintal (Bira Presidente, Ubirany, Sereno, Almir Guineto, Jorge Aragão, Sombrinha, Arlindo Cruz, dentre outros). Dessa parceria vieram ótimos discos, sendo seu 11º trabalho, De Pé No Chão (1978), um clássico maravilhoso desde a capa.


Foi determinante para o êxito, frescor e potência do disco as inovações na instrumentação aqui presentes. Surgem instrumentos mais volumosos, criados pela necessidade festiva do gênero: o tantã, repique de mão e o banjo de 4 cordas.

Mas é o cavaquinho, instrumento de Beth, que abre o disco. "Vou Festejar" dispensa apresentações. Uma faixa emblemática que traz a atmosfera de descontração presente tanto na letra quanto na capa do álbum. O coro de voz, o falatório, o ritmo frenético de matriz africana... tudo é brilhantemente arranjando por um grupo que tinha na química da prática o principal aliado. Um dos refrãos mais memoráveis e cantados Brasil afora. 

A crítica a como o samba e carnaval foram tratados enquanto meros produtos econômicos - engana-se quem imagina que a problemática é recente - é abordado na elegante "Visual". Seu arranjo crescente é um espetáculo.

O som percussivo dos terreiros orienta a empolgante "O Isaura". Por sua vez, vale se atentar até mesmo ao uso de um acordeom, trazendo uma mistura cultura propriamente brasileira.

O lirismo do canto de Beth em "Marcando Bobeira", somado ao ritmo carnavalesco, revela Beto Sem Braço como brilhante compositor que é. Aqui o velho "malandro carioca" é mais uma vez retratado. Curiosamente, aqui ele se encontra num lapso momento de responsabilidade, não visto com bons olhos pela comunidade.

O violão de 7 cordas (por Dino 7 Cordas), a flauta e o estilo composicional do Nelson Cavaquinho na lindíssima "Meu Caminho" mostra que Beth estava atenta as novas sonoridades, mas sem abandonar a tradição do samba. Vale notar um breve momento em que o violão de 7 é substituído por um baixo elétrico, para logo depois voltar o instrumento acústico.

A clássica "Goiabada Cascão" celebra o passado e a excelência do samba através de uma frase que virou bordão. Composição divertida e inteligente de autoria de Wilson Moreira e Nei Lopes. Por sua vez, a sacana "Você, Eu e a Orgia" é assinada por Martinho da Vila e Candeia. Ela tem a alegria, malemolência e refinamento que tão bem marca a obra da Beth.

A dobradinha "Lenço" traz aquela espirito portelense na dinâmica do disco. Canção linda, genuinamente rica em melodia e ritmo. O mesmo vale para "Passarinho", dona de uma melancolia terna que tanto adoro no samba. 

A exuberante "Linda Borboleta", com direito a arranjo de cordas e presença da Velha Guarda da Portela, faz jus a composição do Monarco. Já a poética e elegância melódica do Cartola em "Que Sejam Bem-Vindos" recebe um tratamento caprichado, com arranjo e interpretação charmosa.

Chega a ser curioso um disco que trouxe tanto frescor ao samba - verdade seja dita, com propriedade e sem invencionismo e oportunismo descabido - ser encerrado com a desolada "Agoniza Mas Não Morre" (Nelson Sargento). É até irônico. É também um manifesto, uma declamação de amor.  

Impossível pensar no fenômeno cultural e comercial que tornou-se o samba e o pagode omitindo Beth e De Pé No Chão dessa história. Disco esplendoroso. 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

TEM QUE OUVIR: My Chemical Romance - The Black Parade (2006)

Eu lembro quando o emo 00's reinava. Não vou mentir: eu achava uma bosta! Nem tanto quanto outros, que usavam o gênero para externar toda sua homofobia e arrogância com fenômenos comportamentais de gerações mais novas. Eu era apenas um adolescente metaleiro, ouvindo Lamb Of God e Deftones no meu quarto, enquanto compartilhava os mesmos ambientes com os emos do grande ABC (região que moro e que ajudou na solidificação massiva do movimento). Eu achava musicalmente uma bobeira, mas até aí, desde minha infância o pop rock foi predestinado a derrotas estéticas, então lidava com normalidade. E vale dizer que, mesmo os expoentes do gênero no Brasil, não souberam defender a própria classe, sendo assim improvável que os tiozões à la Régis Tadeu o fizessem, e muito menos eu, um jovem incapaz de articular qualquer pensamento sólido.

Mas voltando ao emo em si, por mais que hoje o estilo seja reavaliado e compreendido em toda sua complexidade comportamental, estética e de transformações da indústria musical - com direito a bandas como Fresno e Paramore ascendendo musicalmente em novas direções, levantando a bandeira do emo com verdade, mas também ironia -, não podemos omitir que boa parte do que pintou no emocore dos anos 2000 era uma porcaria. Ou no mínimo um produto de baixo valor agregado. Não vamos agora por revisionismo grosseiro enfiar goela abaixo Good Charlotte, Simple Plan e Panic! At The Disco, né?

O estilo incomodou até por ser uma "deturpação" não intencional do emotional hardcore (a.k.a. real emo). Na linha cronológica havia Rites Of Spring, Sunny Day Real Estate, Jawbraker, American Football, dentre tantas outros grupos que acumulavam prestígio do cenário alternativo. Mas foi naquele misto de euforia pop punk (já com Jimmy Eat World e The Used), rebelião de classe média (diante da falência do "sonho americano", do governo Bush), carência familiar e apelo publicitário juvenil, que a coisa desandou na virada do século, bombando na MTV bandas desprovidas de urgência, atitude, talento composicional e genuinidade. O emo não somente fez muito sucesso, mas virou um padrão comercial repetido massivamente em série.

No meio deste reboliço estava o My Chemical Romance. Superficialmente eles não destoavam. O visual dramático, com franjas escorridas, palidez estereotipada e olhos pintados até acentuavam os símbolos do movimento. Mas um olhar mais atento logo revelava diferenças.

A começar que a dramaticidade tinha uma raiz mais profunda. Musicalmente chegava até a trazer ecos de Smashing Pumpkins. Já a dupla de guitarras era muito acima da média. Por sua vezes, os clipes traziam roteiros e direções mais apurados, fugindo da estereotipia colégio/skate/festa. Tudo isso fez do My Chemical Romance a mais ambiciosa e emotiva das bandas emos. E, por incrível que pareça, isso era ótimo.

A banda já havia chegado ao sucesso com o hit "Helena", presente no (apenas) bom Three Cheers For Sweet Revenge (2004), mas quando saiu The Black Parade (2006) o patamar subiu. Não dava pra ignorar.


Produzido por Rob Cavallo, o disco trouxe um acabamento técnico, conceitual e performático gritante. Gêneros como hard rock, glam, rock alternativo, rock de arena, gótico, post-hardcore e pop punk se misturam ao emo. Resumidamente: foi o que Green Day tentou com o American Idiot (2004) - e de certo modo conseguiu! -, mas aqui com mais profundidade, inspiração e frescor. 

The Black Parade é um álbum conceitual. Da até pra chamar de ópera rock. O tema central é a morte, sendo as etapas da vida (principalmente memórias da infância) o embrião narrativo. Para isso foi criado um personagem em conformidade diante de um câncer em estágio terminal. Poderia soar batido, apelativo, pueril, enfadonho ou dramático demais, mas sendo o Gerald Way um artista talentoso (inclusive roteirista e escritor prestigiado), há exuberância tanto no enredo quanto na interpretação.

"The End" abre o disco expondo referência latentes. Tem Pink Floyd (fase The Wall), David Bowie e Queen. Isso tudo numa canção épica de menos de 2 minutos. Impressionante! Seu desaguar na excelente "Dead!" impressiona. A produção densa/massiva colocam as guitarras no centro da canção, destacadas inclusive por ótimos solos (meio Ace Frehley) do subestimado Ray Toro. Backing vocals enormes trazem ainda mais grandiosidade para o arranjo.

Se muitas vezes o emocore foi lembrando por falta de vigor, "This Is How Disappear" desmente a tese apresentando sensibilidade através da energia. O mesmo vale para "The Sharpest Lives", dona de melodias pegajosa, ritmo quase dançante e ótimas guitarras.

Eis que surge "Welcome To The Black Parade", que devido se devido o sucesso tornou-se quase um hino geracional, mas que tem como verdadeiro triunfo servir de catarse emocional, vislumbrando a morte através de memórias. A interpretação vocal teatral, a bateria marcial, a melodia de guitarra (à la Brian May) e, no seu cume, a energia pop punk. Não vou julgar um adolescente que chegou as lágrimas em seu final. É uma tremenda canção!

De beleza pop, "I Don't Love You" tem uma melodia certeira. E aqui fica nítido que mesmo diante do comercialismo, o grupo não era rasteiro. É uma música verdadeiramente bonita. 

Tiozões rockeiros se descabelando por uma juventude ouvindo canções como "House Of Wolves" só revela o rancoroso choque geracional. A música obedece todos os critérios de uma ótima música de rock.

Com teor melancólico, melodia afiada, belo arranjo de cordas e inteligente progressão harmônica ao piano, "Cancer" é uma baladona que deixaria Paul McCartney e Freddie Mercury orgulhosos.

"Mama" é uma das música mais singulares do período, inclusive revelando o humor e a qualidade técnica do grupo. Isso se dá tanto pelo ritmo gypsy punk, quanto pela presença improvável da Liza Minnelli. Divertidíssimo.

A energia catártica de "Sleep" passa pelos grandiosos acordes de guitarra, pela consistência da cozinha e, obviamente, pela performance voraz do Gerald Way.

Por mais que "Teenagers" seja um pastiche descarado de rock n' roll, acho ela tão divertida e bem feita que não consigo ignora-la. Se o riff é bacana, o solo é mais ainda. Já o refrão é feito pra cantar junto. Não por acaso, com o beneficio da distância temporal - onde pouco importa se uma gravação tem 20 ou 50 anos -, uma nova geração abraçou a música como se ela fosse um clássico do rock. Talvez ela seja.

A tristeza volta a imperar em "Disenchanted", uma balada bem construída que muito remete ao período que foi lançada. Por sua vez, "Famous Last Words" é mais triunfante e traz um desfecho narrativo consistente (além de ótimas guitarras).

Após décadas de lançamento, The Black Parade se consolidou como um vestígio de excelência num cenário de muito mais erros que acertos. No fim, as canções e performances são mais fortes que tudo.

Ah, sabem quem é ama esse disco? Gary Holt (Exodus e Slayer). 

sábado, 30 de maio de 2026

TEM QUE OUVIR: Sonny Rollins - Saxophone Colossus (1957)

Sonny Rollins é o típico herói do jazz que, por mais prestígio que teve, não furou a bolha. Por não ter promovido transformações estéticas como as de Miles Davis e John Coltrane, ficou restrito aos apreciadores dos bons sons. Nada que pareceu tirar seu sono. Mas se Kind Of Blue e A Love Supreme já é assunto superado para você, talvez seja hora de dar o próximo passo em direção ao Saxophone Colossus (1957).

Esse foi o sexto álbum solo de estúdio lançado pelo Sonny Rollins. Oriundo do quinteto do Max Roach, o saxofonista chamou pela primeira vez o lendário baterista para participar do seu disco, assim como o pianista Tommy Flanagan e o baixista Doug Watkins, todos nominalmente apresentados na capa do disco, que traz uma imagem mitológica da silhueta de Sonny num fundo azul. Para fechar a escalação, contamos com a captação do mitológico Rudy Van Gelder. O trabalho saiu pela Prestige.


Sem qualquer tipo de afobação, o álbum tem um começo agradabilíssimo com o divertido tema de "St. Thomas", composição de melodia memorável de tradição folclórica. É interessante notar no início do solo de Sonny a insistência nas mesmas notas, como se não tivesse pressa de ganhar o ouvinte. Max Roach também já tira as manguinhas de fora, como se dissesse "esse disco não é meu, mas eu também vou bilhar!". A célula rítmica demarcada desde o início, a esteira da caixa fechada em seu solo, a condução no ride no segundo solo do Sonny... Tá tudo no lugar certo!

A profundidade do som do saxofone do Sonny Rollins encontra a luz na balada "You Don't Know Waht Love Is". Os saltos melódicos, o som grave, a projeção sonora com força não vulgar, o lirismo... que músico! Além de beleza e sofisticação harmônica, a condução do piano traz o charme esfumaçado e noturno pra gravação.

Adoro a pausa brusca da energia hard bop de "Strode Rode" logo no primeiro minuto, deixando o sax no centro da gravação num improviso descritivo em forma e conteúdo. A levada do Max Roach por toda a faixa é uma escola de bateria jazz. Interação brilhante com Sonny na metade final da música.

No Lado B do vinil estão as duas faixas mais longas do disco, a começar por "Moritat", que na companhia da(o) amada(o) e de uma bebida amadeirada, faz a vida valer a pena. Aqui fica nítido como a arte da improvisação pode alcançar resultados tão complexos quanto agradáveis. Tem ritmo, melodia, fluidez, inquietude e história. Seu final é emocionante.

Com um walking bass irresistível, "Blue 7" é um desfecho saboroso. O quarteto preenche os espaços com sutiliza, levando a música por caminhos de graça. A raiz blues do jazz fica nítida no solo de piano. A condução (e solo) do Max Roach é aula fundamental pra qualquer baterista. 

Esse álbum foi um sucesso de crítica e serviu de apelido para o estilo de tocar do Sonny Rollins. Não dá pra deixar escapar do radar algo tão belo quanto o encontrado aqui.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

TEM QUE OUVIR: Donny Hathaway - Live (1972)

Se o assunto for grandes vozes, não leve a sério a conversa se o Donny Hathaway for omitido. Ele é um ótimo parâmetro de seriedade entre os que gostam de música, visto que, embora não seja desconhecido, nunca encabeça as listas de "melhores" cantores, artistas da soul music, personalidades da música negra e, não menos importante, grandes discos. E por mais que seus álbuns de estúdio sejam majestosos, Live (1972) merece atenção por ser um registro intimista, espontâneo e orgânico desse astro oculto em cima dos palcos.

E não são quaisquer palco, visto que o Lado A é registrado no Troubadour e o Lado B no pequeno The Bitter End, ambas casas lendárias, a primeira em Hollywood, a segunda no The Village em Manhatthan.

Eu sei, todos amam "What's Going' On" com o Marvin Gaye, sendo uma versão definitiva, mas acredite, não suficiente, visto que Donny não se intimida diante da canção e à interpreta com graça, técnica e sabedoria. É lindo!

Vale de imediato se atentar ao som natural presente na captação. Da pra ouvir a reação da plateia e a magia no palco. Inclusive, um palco com músicos da primeira grandeza. A dupla de guitarras formada por Phil Upchurch e Cornell Dupree é a perfeição no que diz respeito a condução rítmica, e harmônica, onde ambos não atravessam o espaço de ninguém. É uma consciência de arranjo ao vivo que até mesmo grandes instrumentistas tem dificuldade de compreender. No baixo está o gigante Willie Weeks, que é melódico e dono de groove discretamente sacolejante. O som do seu instrumento é profundo. Fred White, aquele mesmo do Earth, Wind & Fire, fecha a cozinha. Ou não, visto que o percussionista Earl DeRouen traz ainda mais balanço, cor e latinidade. Instrumentalmente, não da pra omitir ainda a regência e as teclas (piano, piano elétrico, órgão) do próprio Donny Hathaway. Todos, em equipe, brilham na longa "The Ghetto". Nem a plateia é deixada de fora, visto que depois de uma sequência de improvisos, é levada a cantar o nome da faixa. É a força da música preta norte-americana em ebulição.

Escutando "Hey Girl" fica explícito que não estamos diante de "apenas" um disco de soul, mas de um time capaz de trazer tempero jazzistico para as canções. Tanto a harmonia quanto a melodia da composição são sinuosas. Nada que Donny e banda não sejam capazes de executar com facilidade espantosa. De tirar um sorriso do rosto!

"You've Got A Friend" da Carole King é aqui cantada em coro pela plateia, ganhando uma aura gospel. Eu, mesmo sendo ateu, canto dirigido aos céus. Se seu coração não balançar, pode se internar. É de chorar!

A voz do Donny não é de excessos, é de paixão. Ouvir "Little Ghetto Boy" com atenção permite passear por floreios, timbre, projeção e nuances melódicas de um cantor de soberbo. Isso enquanto a banda oferece a cama perfeita (que Willie Weeks chega a deitar, tamanha a elegância de sua linha de baixo).

Soul e blues se entrelaçam na vagarosa "We're Stills Friends", uma balada apaixonada que passa longe da cafonice. Amo as guitarras dessa música.

Sou capaz de afirmar sem pestanejar que "Jealous Guy" (John Lennon) nunca soou tão bem quanto aqui. O balanço, a voz, o sentimento... é cruel!

Passando dos 13 minutos, "Voices Inside (Everything Is Everythig)" é um desfecho com espaço para Donny brilhar também enquanto instrumentista. Já o solo do Willie Weeks é um dos grandes da história do baixo.

Depressivo e esquecido, Donny foi internado em clinicas psiquiátricas e diagnosticado com esquizofrenia. Seu suicídio em 1979, aos 33 anos, é um dos capítulos mais tristes da história da música.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

TEM QUE OUVIR: Jeff Mills - Live at the Liquid Room, Tokyo (1996)

A música eletrônica teve um caminho gradual de evolução estética e comercial, vindo desde experimentações de vanguarda no início do século XX, chegando em seu apogeu na década de 1990, quando virou uma cultura consolidada.

Dentre tantas expressões que trabalham diferente formas, BPM's, dinâmicas e climas, o techno explodiu como uma força de contracultura justamente num período onde a apropriação do emblema "música eletrônica" se difundia na música pop como uma saída para o futuro (feito isso de forma exitosa ou não). 

Oriundo de Detroit, berço do techno, Jeff Mills, um negro franzino de olhar singelo, se consagrou como um majestoso produtor e DJ, que fazia das suas performances a amalgama de uma geração. 

A Tóquio de 1995 vivia o esplendor de uma economia acelerada e noites movimentadas. Neste cenário, o Liquid Room se consagrou como um centro do que havia de mais efervescente no período. E foi lá que Jeff Mills fez essa performance histórica, que passado mais de três décadas, continua circulando de mão em mão como exemplo de mixagem ao vivo, com imperfeições técnicas (de execução e gravação), mas transparecendo na captação (com microfone, pegando também a plateia) o clima quente de suor, cigarro, entusiasmo, paixão e liberdade.

A gravação tem pouco mais de 60 minutos (dizem, de uma performance de 3 horas) e 38 faixas, traçando um apanhado do trabalho do Jeff Mills enquanto produtor, mas também de seus contemporâneos que se consagrariam nesse circuito, vide Joey Beltram, Surgeon, The Advent, DJ Skull, Morgan, dentre outros, muitos do coletivo Underground Resistance, organização fundada por Mills em Detroit com o intuito de aglutinar um setor desfavorecido pelas políticas do Reagan, dando a essa classe uma consciência social e identidade cultural.

Como instrumento artístico, Jeff Mills utilizou não "somente" o mixer com dois toca-discos, mas também dois toca-fitas de rolo. Com isso em mãos, Mills proporcionou uma mixagem intensa e ambiciosa, onde não bastava a mera seleção e transição fluida das faixas, mas também trocas e pausas bruscas, scratches (ou mesmo "rebobinagens"), alteração do pitch, manipulação nas frequências... tudo pra causar furor na plateia ali presente; tudo com transpiração e técnica. 

Jeff Mills se apresenta com uma faixa de nome sugestivo: "The Extremist". Mas é com "Magneze" (Surgeon) e a porrada "The Start It Up" (Joey Beltram) que o caldo começa a entortar. Em "Step To Enchantment" (Millsart) a plateia (e os ouvintes do disco) já está completamente rendida e absorvida pelo som paranoico que sai dos falantes. Quando começa a melodia de "Untitled A" parece que estamos diante de um hit das pistas.

Com a consciência rítmica de um atleta, velocidade de raciocínio de um improvisador de jazz, sujeira e rebeldia punk, além de uma personalidade urbana oriunda do hip hop, Jeff Mills vai construindo uma apresentação inesquecível.

É curioso ouvir "Play With The Voice In USA" (Joe T. Vannelli) hoje e perceber uma certa aura/alegria presente naquilo que entendemos como o elemento eletrônico do funk brasileiro.

Nas sobreposições de "i9" e "Changes Of Life" se revela o frescor não lapidado das produções executadas naquela noite.

Sou completamente enlouquecido pelo pelos timbres de "Eternal Sun" (IO), faixa que parece borbulhar em ondas elétricas. Sua junção com "Gameform" (Joey Beltram) é pra levar o ouvinte ao frenesi.

O pulso grave "AX-009" parece martelar no cérebro em BPM elevado. Dá até um certo calafrio. Ainda mais seguida da soturna "Move" (Surgeon). 

A segunda seção do disco começa eletrizante com uma mixagem viva entre "Bad Boy" (The Advent) e "The 187 Skillz" (DJ Skull). Entre tentativas e "erros", se cria uma violência sônica pulsante e irresistível. Tudo isso para desaguar no clássico de Detroit, "Strings Of Life" (Rhythim Is Rhythim), uma faixa quase libidinosa, como o brilho da disco music.

O som bruto de "Avion" (Damon Wild) tem tanto um caráter repetitivo da música industrial quanto minimalista. Adoro sua construção. Sua resolução nas herméticas/ambient "X-102" e "Growth" é de grande valor estético.

Em "Casa", início da terceira seção, há o registro do Jeff Mills lidando com o improviso, com o erro. Em tempos onde a música eletrônica abusa de recursos digitais e quantizações, ouvir um DJ mixando na unha, de verdade, é um alívio para os ouvidos. Sua conclusão com a saturadíssima "Life Cycle" é digna de afastar os móveis e abrir uma pista no meio da sala. 

Ao mesmo tempo que é papo de tiozinho apontar a pasteurização presente na música eletrônica comercial, é nítida também a discrepante força presente em registros como esse. É um documento de uma contracultura, um símbolo de resiliência. Pensada tecnicamente, é quase obsoleta, mas arte não é sobre isso. Se até mesmo o Jeff Mills as vezes é engolido pela demanda instantânea de um DJ histórico nos mais diversos festivais/casas ao redor do mundo, aqui se mantém registrado a essência de uma cultura que a cada dia soa mais imponente.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

TEM QUE OUVIR: Willie Colón & Rubén Blades - Siembra (1978)

Se é verdade que há uma demanda por "música latina", então um disco não pode passar batido diante dessa tendência. Me refiro ao histórico Siembra (1978), lançado pelo porto-riquenho Willie Cólon em parceria com o panamenho Rubén Blades. Ambos trazem o calor da salsa ao centro da música popular, principalmente na América Latina, mas também entre os imigrantes latinos nos Estados Unidos.

Cólon já era um trombonista e arranjador experiente quando saiu esse disco, tendo inclusive trabalhado com a grandiosa Célia Cruz. Mas foi com o Blades que sua música ganhou novo caráter, se revelando política em meio a alegria instrumental. 

O inicio funk de "Plástico" - com direito a baixo estrondoso, doce piano elétrico e tremendo arranjo de metais - logo é tomado por um ritmo irresistível. Citando Simón Bolívar e convocando a união entre os povos da América do Sul e Central, Blades relembra o verdadeiro valor dos jovens enquanto indivíduos e enterra deslumbramentos superficiais. Um começo fortíssimo.

O ritmo de "Buscando Guayaba" é de balanço especifico. O piano de escola cubana e os acentos percussivos (em bongos, congas, maracas) criam uma atmosfera quase delirante. 

De resultado comercial gigantesco, "Pedro Navaja" traz uma narrativa urbana fixante. É o mambo à serviço de um roteiro cinematográfico. Uma canção trágica e humorada.

Em meio ao crescente (e constante) ataque a Venezuela, "Maria Lionza" é um resgate a memória. Adoro seu refrão sendo entoado em coro, dando o caráter de unidade.

"Ojos" é um convite para puxar a(o) amada(o) para a dança. Uma canção apaixonada, de melodia lindíssima, interpretada majestosamente pelo Blades, um cantor muito acima da média.

Na balada "Dime" abre-se espaço para maior atenção aos trombones. Tremendo arranjo.

O desfecho com "Siembra" é altamente exuberante. Há uma dramaticidade no arranjo de cordas que proporciona um contraponto para o ritmo frenético. É como se as trilhas de blaxploitation englobassem os latinos. Soberbo.

Vale dizer que a gravação desse disco foi em Nova Iorque, despondo do que de melhor havia tecnicamente, incluindo músicos, vide o requisitado baixista Sal Cuevas, que debulha por todo o álbum.

Se hoje o reggaeton e mesmo a salsa são fenômenos da música pop, muito se deve a esse disco, que chegou a alcançar 3 milhões de cópias vendidas, uma marca insuperável para o gênero. Diante de uma ofensiva reacionária (vide a atuação do ICE e o sequestro do Nicolás Maduro), os jovens latinos podem encontrar aqui muitos elementos de diversão e conscientização.

terça-feira, 17 de março de 2026

TEM QUE OUVIR: Verdi / Callas / Giulini / Orquestra Alla Scala: La Traviata (1955)

Sem medo de ficar datado, apresento uma conjunção de fatores que levaram a escolha de La Traviata do Verdi como primeiro "Tem Que Ouvir" de 2026. A começar que tenho iniciado todo ano com música erudita nesta seção. É uma forma que encontrei de me expor a novas experiências (visto que sou um leigo nesse campo), acumular conhecimento e prazeres, treinar a percepção, ir contra essa besteira de descolonização europeia através do apagamento artístico, além de valorização de fonogramas tão negligenciados quando falamos em “discoteca básica”. Todavia, há ainda mais que isso.

Comecemos com o fato da Maria Callas - intérprete aqui escolhida -, ser um nome razoavelmente conhecido, embora pouco escutado pelo “público comum”. Vale lembrar que a Angelina Jolie interpretou ela no cinema há pouco tempo. Uma introdução auditiva a sua obra parece oportuno.

Já a cantora pop Rosália gerou furor lançando um belo e aclamado disco (LUX, de 2025) em que coloca o canto lírico como inspiração para suas interpretações.

Por sua vez, o ator Timothée Chalamet causou burburinho ao menosprezar a produção de óperas, alegando que ninguém se interessa por elas.

Com tudo isso, a ópera La Traviata (1853) do Giuseppe Verdi com interpretação de Maria Callas, orquestra e coro do Teatro Alla Scala e regência do Carlo Maria Giulini, pareceu uma tremenda pedida.

Verdi (1813 - 1901) é um mestre das óperas italianas. Seu estilo, comparado a outros compositores do romantismo, pode ser considerado mais melodramático e popular. Nada que aparente diminuir o valor estético de suas obras. 

Sendo a Maria Callas uma das principais cantoras líricas de todos os tempo, é de se admirar sua encarnação de Violleta, uma mulher mundana, frívola, dramática e apaixonada. Vale dizer que "traviata" significa transviada. Callas, aos 30 anos, expõe toda a intensidade da personagem com virtuosismo.

Essa gravação de 1955 tem brilho próprio. Não é tão cristalina, mas a orquestra soa organicamente enorme, ao mesmo tempo que serve de fundo para as acrobacias vocais da composição. Mérito não só dos cantores, mas também do Carlo Maria Giulini, um dos mais celebrados regentes do seu tempo. Não por acaso essa temporada foi um sucesso na época.

O Primeiro Ato da obra tem um inicio celebrativo/festivo. Vale aqui dizer que não vou discorrer atentamente sobre o enredo, por mais fundamental que ele seja. Meu enfoque é na música.

A valsa " Libiamo Ne' Lieti Calici" parece que sempre esteve presente no meu imaginário, tamanha sua força. Aqui se revela não somente a excelência de Callas, mas também do Giuseppe Di Stefano, um tenor brilhante que da vida a Alfredo, jovem abastado e par amoroso de Violetta.

Vale se atentar ao som da plateia, dos risos e dos passos da atuação, tudo isso presente em "Che è Ciò", trazendo charme e vida para a captação. Tanto que ao final "Un Dì Felice, Etera" o entrosamento da dupla de cantores é tão explendido que arranca palmas da plateia. Pode ser comum, mas desmistifica para mim muito da rigidez formal das gravações clássicas. Talvez em óperas o comportamento seja diferente mesmo.

Se por um lado "Ebben? Che Diavol Fate" tem em seu final dobras vocais que me remeteram a música caipira (entenda isso como quiser), a presença estonteante do coro e da orquestra do Teatro Alla Scala em "Si Ridesta In Ciel L'Aurora" é de arrebatamento heavy metal.

"È Strano, È Strano!" e "Follie! Follie!" são registros quase à capella da Maria Callas. É impressionante as notas altíssimas que ela atinge, passeando com desenvoltura, afinação, paixão, fôlego e volume pelos caminhos melódicos que Verdi propõe. Frutos da combinação de uma soprano e um compositor expendidos. "Sempre Libera" é um desfecho de malabarismo vocal para o Primeiro Ato.

Com um enredo marcado por negociações de Violetta com o Giorgio (pai de Alfredo, interpretado por Ettore Bastianini), envolto a separação, amores, conflitos familiares e tuberculose, temos um momento mais dramático (com direito a reviravoltas, insultos e rendições) e instrumentalmente sóbrio no Segundo Ato, sendo a performance vocal em meio a narrativa o combustível de fixação no ouvinte.

"Annina, Donde Vieni?" traz essa melancolia e clima de incerteza através de um diálogo cantando com profundida quase sombria. O mesmo vale para "Non Sapete Quale Affeito", mas aqui com um virtuosismo ainda maior.

Inicialmente um balanço dançante, "Morrò! La Mia Memoria" desagua na pura dramaticidade italiana. Lindo. O grau de emoção atingido em "Che fai? - Nula" é tamanho que arranca gritos eufóricos dos espectadores.

Com sua voz barítono densa (tipicamente autoritária e paternalista), Bastianini revela na ária "Di Provenza Il Mar, Il Suol" o porquê de ser considerado um dos grandes intérpretes de Verdi. Impactante!

Não posso deixar de mencionar que violinos velozes na introdução de "Inviato a Qui Seguirmi" me remeteu imediatamente a "Love Theme" do Barry White (!!!), música usada na abertura da novela Celebridades. Por essa vocês não esperavam, né? Isso posto, uma faixa de intensidade impressionante, que desagua na igualmente poderosa "Ogni Suo Aver Tal Femmina", dona de uma performance que arranca aplausos antes mesmo de chegar ao fim.

No Terceiro e último Ato, Violetta está desamparada, prestes a sucumbir diante da tuberculose. Adianto que na história, apesar do reencontro com Alfredo e juras de amores e arrependimentos (incluindo de Germont), restou apenas tempo da sua partida aos braços do amado. Não há final feliz. Com isso, não é de se estranhar a melancolia  (e beleza) do "Prelúdio".

É de chorar a performance da Callas em "Addio Del Passato". O calor na interação dos personagens com a orquestra em "Ah, Non Più, A Un Tempio" justifica a sobrevivência da obra. 

O desfecho narrativo melancólico com "Prendi, Quest'è L'Immagine" e "Se Una Pudica Vergine" leva aos céus personagem e público.

Com pouco mais de duas horas de duração, La Traviata é um dos pontos altos do Verdi, da Maria Callas, das óperas e música erudita. Sua apreciação, por mais intimidadora que possa parecer incialmente, traz momentos de graça. Não feche essa porta para você. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

TEM QUE OUVIR: The Harder They Come (1972)

Algumas trilhas-sonoras são determinantes para o desenvolvimento de uma cultura musical. The Harder They Come (1972), estrelada pelo Jimmy Cliff - trilha e filme -, é uma excelente amostra do poder avassalador da música no cinema.


Distribuído pela Island, o disco foi o primeiro grande salto mercadológico e cultural do reggae fora da Jamaica. Na verdade, não só reggae, mas também do rocksteady e ska.

É assinar o atestado de mau-caratismo ficar imune ao som que sai dos falantes assim que o disco começa. Com guitarra calorosa, ritmo envolvente, coro vocal encantador e naipe de metais, "You Can Get It If You Realy Want" (Jimmy Cliff) não é tão distante assim da música negra norte-americana, trazendo ecos do rhythm and blues dentro de um contexto caribenho.

De baixo profundo, oriundo das produções de dub, "Draw Your Brakes" aparece sob supervisão do Scotty, que faz do ato de falar em cima de uma reprodução sonora uma arte própria (toasting ou deejaying). Isso tudo muito anos do hip hop. O resultado é tão convidativo quanto inebriante.

Não bastasse esse disco ter difundido o reggae enquanto gênero musical, a cultura rastafári também encontrou aqui uma plataforma de difusão. Isso ocorre diante da irresistível "Rivers Of Babylon" (The Melodians). Os cantores do grupo, assim como na tradição do doo-wop, criam coro de vozes reconfortantes.

Jimmy Cliff pega novamente o bastião em "Many Rivers To Cross", canção altamente melodiosa, calcada na soul music e com uma performance vocal arrasa quarteirão. Que voz!

Os lendários Toots and the Maytals trazem a genuína música jamaicana através das involuntariamente complexas "Sweet And Dandy" e "Pressure Drop", essa última um hino do reggae. Que balanço, que groove, que baixo! Adoro a ranhura orgânica da captação.

Nomeando filme e disco, "The Harder They Come" nasce lendária. Uma música emotiva já na letra, que diante da interpretação do Jimmy Cliff alcança voo mágico. A banda soa redondíssima, a melodia é excelente, a gravação é calorosa. Não tem erro!

"Johnny Too Bad" (The Slickers) é um template do reggae. A guitarra martelada, o baixo grave/pontual, o órgão solar e as vozes cheias de alma. É uma maravilha.

Retratando a cultura rude boy, "007 (Shanty Town)" (Desmond Dekker) é uma pérola crua do rocksteady. 

"Sitting Limbo", com sua progressão blues, é um desfecho pop e americanizado (no melhor sentido dos adjetivos) para o disco. Ah, na verdade há ainda uma versão instrumental de "You Can Get It If You Realy Want" que é prato cheio para DJs.

Grande parte das canções que compõe o álbum são formadas de singles lançados entre 1967-1972, mas que encontram aqui a luz do público. Isso embaladas numa capa que aproximou as questões raciais da Jamaica daquelas retratadas nos filmes de blaxploitation. Documento fundamental da música pop mundial.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

TEM QUE OUVIR: Boris - Pink (2005)

Falar que a música do Japão é uma tendência na indústria musical ocidental seria forçar a barra. Por outro lado, de lá sempre vieram artistas referência em típicos específicos de som: Yellow Magic Orchestra, Ryuichi Sakamoto, Toshiko Akiyoshi, Loudness, Merzbow, Shonen Knife, Kyary Pamyu Pamyu, Otoboke Beaver, além de inúmeros nomes do hypadissimo city pop (Masayoshi Takanaka, por exemplo). Mas pessoalmente, uma banda sempre esteve em maior rotação aqui em casa, não necessariamente por ser japonesa, mas por levar aos limites a energia no rock. É o Boris, trio prolifero que tem no prestigiado Pink (2005) um marco em sua enorme discografia.

Na época, já com nove discos na bagagem, o grupo formado por Takeshi (voz e baixo-guitarra de dois braços), Wata (guitarra e parede de amplificadores Orange no limite do volume) e Atsuo (baterista naturalmente anfetaminado) reuniu nesse disco toda sua eloquência em gêneros como sludge metal, stoner, drone, rock psicodélico e noise rock. Isso com uma maturidade que gerou boas composições, riffs memoráveis e passagens carismáticas que crescem muito além do esporro sônico.

A longa "Farewell" já é um início especial. Na introdução, notas parecem gotejar, preparando o ambiente para um shoegaze/dream pop/post-rock cavernoso. A progressão harmônica lenta, movida por acordes espaçados e bateria enorme, cria uma beleza atmosférica em perfeito equilíbrio com a linda melodia vocal. Impressionante.

O que fazer depois de um inicio desses? Explodir a cabeça do ouvinte com um riff hipnótico cheio de fuzz e wah-wah. Assim é "Pink", canção veloz e cheia de guitarras enlouquecidas e amontoadas. 

Se ao ouvir "Woman On The Screen" você não quiser sair correndo descontroladamente, então você estar morto por dentro. Uma performance não menos que catártica e abrasiva. Vale aqui reparar como, embora pesado e enorme, a produção é orgânica, expondo a força braçal da execução.

A escola do hardcore/punk rock japonês inunda a imunda "Nothing Special". O baixo parece uma motosserra, há constantemente uma microfonia ao fundo e uma corrosividade timbristica doentia. Foda!

Em "Blackout" o clima se agrava. É um sludge-drone infernal, denso, terroso, primitivo. Parece uma queda ao centro da Terra. Isso com uma captação exemplar, que forma uma massa sonora impenetrável.

A breve "Electric" chega a soar divertida e grooveada. É uma canção instrumental guiada por um riff stoner não menos que contagiante.

Embora seja um atropelo, com direito a um amontoado de sons saturados, da pra decodificar algo de psicodélico/garage em "Pseudo Bread", faixa com um dos refrães mais legais do disco. Já em "Afterburner" dá pra visualizar o que seria o Jimi Hendrix tocando no Black Sabbath.

A virulência punk volta a dominar "Six, Three Times". Inclusive num timbre de guitarra que é puro chiado. Eu adoro! Chega a ser engraçado colocar na sequência a relaxante e ambient "My Machine". Mas não se engane, é o fervor nirvanistico em longa duração de "Just Abandoned Myself" que fecha o álbum. 

Com esse disco o Boris ganhou o mundo dos sons alternativos. O indie abraçou, o metal adorou. Viraram símbolos de vigor, peso e grandeza sonora. Basta ouvir o Pink uma única vez para ver que é mais que justificável.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

TEM QUE OUVIR: Lô Borges - Lô Borges (1972)

Imagine ter apenas 20 anos e demonstrar talento suficiente para um já cheio de moral Milton Nascimento (com 30 anos) apostar num trabalho em conjunto, convencendo até mesmo a gravadora Odeon a lançar um disco duplo, o clássico Clube da Esquina. Foi exatamente isso que aconteceu com o Lô Borges no ano de 1972. Com o inegável êxito artístico alcançado, a gravadora bancou os próximos passos do Lô, que mesmo sem repertório e sem saber exatamente o que fazer, já no mesmo ano topou produzir aquele que ficou conhecido como o Disco do Tênis.


Ao que consta, a timidez do artista fez com que ele não quisesse estampar seu rosto na capa do disco, mesmo sendo sua estreia solo. A sugestão foi "não quer mostrar a cara, então mostra os pés!". Há também a versão de que o tênis significava um "cair na estrada". Seja o que for, a foto de autoria do Cafi contendo um surrado calçado tornou-se icônica suficiente para apelidar o álbum.

Embora seja um álbum solo, parceiros do Clube da Esquina colaboram em sua confecção. Beto Guedes, Toninho Horta, Flávio Venturini, Nelson Angelo, Novelli, Robertinho Silva, além dos irmãos Danilo e Dori Caymmi, são alguns que colaboram com o disco. Há ainda a parceria com o seu irmão, o letrista Márcio Borges. 

A abertura com "Você Fica Melhor Assim" é altamente rockeira e espontânea. O clima de gravação é de jam, orgânico. Há um entrosamento fantástico no groove da cozinha. O solo de guitarra cheio de acidez aponta pra psicodelia. 

Em "Canção Postal" salta aos ouvidos a capacidade de criar harmonias e melodias sinuosas, complexas e ainda assim acolhedoras. É uma canção tão barroca quanto brejeira. 

Os acordes e frases pontuais de guitarra em "O Caçador" são a cara do Toninho Horta. Mas a composição em sim, com seu traço bucólico em simbiose ao apelo pop, é Lô Borges na essência.

Os compassos em 3/4 de "Homem da Rua" criam caminhos ainda mais rebuscados para a composição.

Embora com um tempero regional nordestino presente no ritmo e na instrumentação, a sucinta "Não Foi Nada" é tematicamente bem abstrata, desencadeando até mesmo numa certa densidade climática.

As canções do disco são em geral bem curtas, sendo a onírica "Pensa Você", o micro prog "Pra Onde Vai Você?" e a plenamente progressiva "Calibre" os maiores exemplos dessa concisão. 

É possível encontrar um apelo pop e beatlemaniaco na linda "Faça Seu Jogo", canção dona de arranjo de cordas belíssimo.

O elemento progressivo, somado até mesmo a capacidade jazzistica dos envolvidos, gera maravilhas singulares como "Não Se Apague Esta Noite".

Recentemente citada pelo Alex Turner (Arctic Monkeys), a estranha "Aos Barões" caiu no gosto do publico jovem indie. O solo carregado de fuzz e algo parecido com um cravo faz a faixa transitar entre o tropicalismo e o pop barroco inglês (ou legitimamente mineiro?). 

A triste "Como O Machado" revela Lô Borges como o compositor mais confessional entre os mineiros.

O violão ponteado em "Eu Sou Como Você É" traz uma aura psicodélica pra "música rural/brejeira" que não reconheço em nenhum outro lugar. 

A instrumental "Toda Essa Água" fecha o disco dando um desfecho progressivo. Com pouca divulgação e baixa vendagem, demorou para Lô Borges lançar o álbum seguinte. Restou a ele a estrada. Restou ao tempo o papel de fazer deste disco um clássico cult. Isso vindo de um artista que viria a alcançar sucesso comercial, fosse retroativamente com as faixas presentes no Clube da Esquina, fosse com trabalhos seguintes e até mesmo em parceria com nomes como Samuel Rosa e Nando Reis.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

TEM QUE OUVIR: Refused - The Shape Of Punk To Come (1998)

O punk rock e hardcore viveu momentos de ebulição na década de 1990. Fosse ascensão comercial do pop punk, do hardcore melódico ou da proliferação dos ideais levantados pelo Fugazi, tudo isso gerou um monstrengo chamado post-hardcore. Curiosamente, o subgênero ganhou força via os suecos do Refused, que lançou 1998 o explosivo The Shape Of Punk To Come - qualquer semelhança com The Shape Of Jazz To Come do Ornette Coleman não é mera coincidência -, disco que catapultou o gênero e implodiu a banda


Embora não tenha sido bem recebido pela imprensa em seu lançamento, não demorou pro álbum reverberar entre uma nova geração, o que desencadeou em inúmeros grupos influenciados, incluindo até mesmo a cena emocore que explodiria comercialmente na sequência.

Esse é o terceiro álbum do grupo e tem como grande mérito soar tão ambicioso quanto intenso. Diferente gênero são incorporado no caldeirão do hardcore. Jazz, música eletrônica, heavy metal, pós-punk... tá tudo aqui de alguma forma.

A longa dobradinha "Worms Of The Senses / Faculties Of The Skull" abre o disco já expondo a energia dos riffs e do vocalista Dennis Lyxzén, dono de uma voz berrada, arranhada e afrontosamente jovial. A evolução da canção leva a paradas bruscas, grooves contagiantes, guitarras arpejadas e interferências eletrônicas. Perfeita pra ouvir socando o ar e gritando junto.

Intercalando calmaria crua (com baixo dub, caixa sem esteira e guitarra magrinha) e peso absurdo, "Liberation Frequency" é de construção singular.

O recorte jazzistico inicial de "The Dead Rhythm" introduz perfeitamente a cacetada rítmica da canção. Adoro como eles intercalam guitarras cristalinas com outras de peso absurdo. Há no meio da composição um encontro com o jazz, com direito a walking bass do Magnus Björklund e levadas espertas do baterista David Sandström.

A cozinha do grupo volta a tomar conta em "Summerholidays Vs. Punkroutine", faixa que soa como uma transposição temporal do Fugazi.

Embora seja apenas uma vinheta, é interessante a dinâmica que "Bruitist Pome #5" traz ao disco. É uma peça que poderia facilmente estar num disco do Aphex Twin. Vale dizer que o álbum é acompanhado de inúmeras vinhetas que finalizam e iniciam as faixas, dando ao trabalho um ar conceitual.

Há um enorme hit do disco em meio a tantas boas canções. É "New Noise", faixa que tornou-se sinônimo de energia. Ela é construída de maneira gradativa, chegando ao ápice em seu emblemático "Can I scream?". É revigorante! Já virou um chavão utiliza-la em filmes/séries sempre que se quer trazer suspense e ação pra uma cena. 

A vitalidade da performance e da gravação presente em "The Refused Party Program" é acachapante. Vale notar aqui como, de algum modo, as linhas vocais do Dennis influenciou o screamo. Isso se dá tanto pelo seu estilo berrado quanto pela força emotiva que ele imprimi.

Há um aspecto intelectualizado que se manifesta ao longo do disco, sendo possível sentir isso claramente em "Protest Song '68". Isso se dá tanto na criação musical quanto na escrita.

A qualidade técnica da banda é explorada em "Refused Are Fucking Dead", canção de colorido timbristico, de dinâmica, de levadas. Tem baixo com wah-wah, guitarras variadas, inserções eletrônicas e mixagem como elemento de criação. 

"The Shape Of Punk To Come" é uma coleção de grandes riffs. Excelente timbre de baixo e performance do baterista.

"Tannhäuser/Derivè", a mais longa do álbum, é dona de grande complexidade. Sua introdução traz um violino choroso em meio a um ritmo consistente, desencadeando em versos que intercalam enorme euforia à momentos reflexivos. Chega a ser progressivo, com direito a citação da Sagração da Primavera do Stravinsky. A isso dou o nome de art-hardcore.

A acústica e bela "The Apollo Programme Was A Hoax" fecha o disco.

Poucos meses após o lançamento deste álbum, a banda se desfez, o que de certo modo ajudou na construção da lenda, posteriormente desencadeando em retornos. Mas continua sendo o The Shape Of Punk To Come um símbolo de um dos momentos mais inquietantes do hardcore.

domingo, 19 de outubro de 2025

TEM QUE OUVIR: Howlin' Wolf - Moanin' In The Moonlight (1959)

O blues é conhecidamente um dos alicerces da música popular, tendo sido fundamental para o desenvolvimento do jazz e rock. Mas a verdade é que o próprio blues passou por mutações, sendo uma delas a transição de um gênero rural e acústico (delta blues) para um som elétrico e urbano (chicaco blues).

Nascido no Mississipi, Howlin' Wolf foi dos artistas mais consistentes na formação/transformação do blues. Moanin' In The Moon (1959), seu primeiro disco, lançado pela Chess Records, compila singles que ele produziu entre 1951 e 1959. É um recorte do momento. É o que de mais selvagem existia.


Como o uivar de um lobo para a lua, "Moanin' At Midnight" abre o disco com uma voz feroz, soturna e suja. Howlin' intercala canto e gaita com a mesma energia, enquanto Willie Johnson soa na guitarra com uma braveza até então nunca vista. Essa intensidade aflora ainda mais em "How Many More Years", onde os acordes soam distorcidos, munindo Ike Turner (piano) e Willie Steele (bateria) para também socarem seus instrumentos. Ainda é possível ouvir Willie Johnson fritando sua guitarra em "All Night Boogie", dialogando com uma ofegante gaita. Essas três faixas foram gravadas em Memphis num pré-Sun Studio pelo Sam Phillips.

"Smokestack Lightning" é indiscutivelmente uma das grandes faixas do período, do blues, do rock. O riff tão "simples" quanto antológico traz aquele bend cafajeste/maldoso do lendário Hubert Sumlin.

O canto e a gaita dramática do Howlin' casam perfeitamente com o groove esfumaçado, noturno e febril "Baby How Long". É daquelas gravações que fazem a parede do estúdio transpirar. Ótima performance do Earl Phillips (bateria), Otis Spann (piano) e Willie Dixon (baixo). 

Falando em Willie Dixon, não da pra deixar de se atentar a "Evil (Is Going On)", faixa de sua autoria, de ritmo contido, piano soberbo, baixo profundo (do Willie) e um "evil" interpretado com a elegância do próprio Demônio. Falando no Cramunhão, em "No Place To Go", Howlin' canta com o lamento do Diabo. É o template de como qualquer vocalista de rock e blues deveria soar, embora nem todos que tenham uma existência que assim permita cantar. É genuino.

Muito da escola de como se tocar guitarra solo pode ser percebido em "I'm Leavin You", faixa em que Hubert Sumlin manda uma sequência impressionante de frases copiadas ao longo da história do instrumento.

A interação de Howlin' e Hubert em "Moanin' For My Baby" é daqueles casamentos musicais perfeitos, que parece anteceder e aniquilar qualquer possível magia que queiramos enxergar nos Mick Jagger e Keith Richards da vida. 

Dá pra perceber uma captação mais robusta e saturada em "Forty Four". A voz chega a estourar, o que traz uma dramaticidade intensa à canção. É um shuffle embriagado e venenoso. 

Há quem possa ver esses registros como algo meramente documental. Um equivoco! Aqui está a excelência em termos de composição e performance. É o blues no esplendor da potencia e brilhantismo. Não por acaso foi tão influente.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

TEM QUE OUVIR: TV On The Radio - Desperate Youth, Blood Thirsty Babes (2004)

O cenário indie/alternativo da virada do milênio foi tomado por dezenas de bandas que, por mais legal que fossem, surfaram em tendências retrôs alçadas pelo Strokes. Deste modo, quando o TV On The Radio apareceu, logo percebeu-se um frescor estético dentro da cena. Desperate Youth, Blood Thirsty Babes (2004), estreia da banda lançado pela Touch And Go, assinala para novos tempos. 


Surgidos em Nova York logo após o 11/09, o grupo trazia em sua formação o Tunde Adebimpe e Kyp Malone (ambos intercalando vozes e programações) e Dave Sitek (teclados, guitarras e programações). Uma formação pouco usual tanto na instrumentação, quanto na presença de dois homens negros na linha de frente. 

Logo no inicio de "The Wrong Way" já somos sacudidos com saxofones berrantes (tocados pelo Martín Perna), um baixo saturadíssimo e batida rock n' roll dançante (ao menos se não tivesse imersa em timbres gordurosos). Um art-punk aventureiro com ecos de Pere Ubu. 

"Staring At The Sun" - já presente no EP que eles haviam lançado anteriormente -, é o cartão de visitas para o grupo. Um composição memorável por natureza, mas arranjada de forma nada ortodoxa, abrindo mão de uma batida consistente, focando na força do baixo, guitarras (tocadas pelo Nick Zinner) e sobreposição das vozes, cada uma em sua tessitura, sendo a do Malone docemente aguda. 

O equilíbrio que eles fazem de timbres abrasivos em arranjos espaçados/crescentes/dinâmicos é criativo e instigante, chegando ao ponto de perfeição na bela "Dreams". Aqui mais uma vez há um ótimo contraponto das vozes. 

Poucos timbres de baixo soam mais corrosivos que o de "King Eternal". Sua bateria organicamente programada e os acordes angustiantes numa guitarra distante formam a cama para ótima melodia e interpretações vocais. Parece algo que o Radiohead na época do Kid A faria caso não tivessem orçamento.

E quando parece que o disco já chegou no auge da abstração estética, "Ambulance" oferece um canto à capela sui generis. É rítmico, paranoico, harmonioso, estranho e melódico.

As guitarras vibrantes de "Poppy" até tentam esconder, mais a batida mecânica parece fazer uma ponte com o krautrock. Redundantemente ainda tenho que reforçar o arranjo vocal maravilhoso, principalmente no meio e final da canção. Espetacular!

Instrumentalmente soando um encontro do Suicide com o PiL e John Cale (o elemento "drone"), "Don't Love You" brilha em beleza e performance. Mesmo com as referências apontadas, ela revela enorme frescor.

O experimentalismo guitarristico em "Bomb Yourself" pessoalmente muito me agrada. Sujeira nas seis cordas em cima de uma batida hipnotizante é tudo que eu preciso.

"Wear You Out" fecha o disco em mais um casamento perfeito entre as vozes do Tunde Adebimpe e Kyp Malone. Há algo de dub na construção da canção. Incialmente enxuta em elementos, ela evolui para caminhos majestosos.

Aventureiro como poucos discos de rock do período, o TV On The Radio se consolidou no cenário alternativo, virando daqueles grupos queridinhos dos que estavam com ouvidos atentos. 

terça-feira, 9 de setembro de 2025

TEM QUE OUVIR: Angela Ro Ro - Angela Ro Ro (1979)

Na virada da década de 1970, poucas mulheres foram mais transgressoras no Brasil que Angela Ro Ro. Com herança na canção popular brasileira, no jazz e no hippismo, tomou na juventude passos próprios por casas noturnas, bares cariocas, pubs londrinos, amizade com Glauber Rocha, participação no Transa (1972) do Caetano Veloso, mas também sofrendo com a truculenta ditadura militar. Conseguiu em 1979 um contrato com a Polygram para lançar seu disco de estreia, batizado simplesmente com seu nome artístico.

Compositora e pianista de mão cheia, criou um repertório único equilibrado não somente por seu lirismo, mas também por um caminho sonoro que parece combinar a dramaticidade da Maysa com a carga emotiva blues de uma Janis Joplin. O cheiro é de vulnerabilidade diante de um whisky noturno.

Acompanhada de músicos como Antônio Rodolfo (pianos), Rick Ferreira (guitarra), Téo Lima (bateria), além de João Baptista e Jamil Joanes revezando nos baixos, o disco traz arranjos enxutos e timbragens orgânicas polidas na medida. 

"Cheirando a Amor” é deliciosamente vagarosa. Seu canto entrega um romantismo doroloroso, temerário e confessional, entoado sem afetação. A canção soa ainda mais forte diante de seu lesbianismo corajoso.

A balada pianistica "Gota de Sangue" é de beleza harmônica, melódica e interpretativa. 

"Tola Foi Você" tem uma sofrência solidificada pela brilhante performance. Fora que “Tola foi você ao me abandonar" é um tremendo inicio de canção. Hino da fossa.

Falar de "Amor Meu Grande Amor" é chover no molhado. Canção histórica, de versos e refrão poderosos. Fundamental inclusive para o desenvolvimento do rock brasileiro, que encontraria sua ascensão comercial poucos anos depois.

Ao piano, "Me Acalmo Danado" tem a aura dos antigos sambas-canção. Ela é esfumaçada, noturna, solitária, entristecida. Ela retrata muito bem a alma da Angela Ro Ro.

Veloz e divertida, "Agito e Uso" é subversiva. A rouquidão da sua voz traz uma atitude genuína. Um rock n' roll certeiro nos moldes do que fazia Luiz Melodia, Elis Regina, Raul Seixas e Guilherme Arantes.

Aquele clima boêmio com a cara da zona sul carioca é tomado na maravilhosa "Mares da Espanha".

Naquele 3/4 que nos coloca no braço, "Balada da Arrasada" é irresistível. Seu piano blues, saxofone apaixonante e cozinha azeitada é de nos fazer secar uma garrafa de conhaque. Os excessos da Ro Ro chegam ao ouvinte. O mesmo vale para "A Mim E A Mais Ninguém", um convite a "correr perigo".

O impacto da Angela Ro Ro - tanto musical quanto em atitude - abrangeu diferentes gerações. Do Cazuza à Letrux, passando por Cássia Eller, Ney Matogrosso e todos nós que, em momentos de maior vulnerabilidade, encontram um ombro amigo em Angela Ro Ro (1979), um clássico inegável da canção popular brasileira. 

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

TEM QUE OUVIR: Syd Barrett - The Madcap Laughs (1970)

A loucura sempre foi um chamariz no campo artístico. Se não gera clamor comercial de imediato, com o tempo traz atenção e prestigio para artistas tidos como malucos no seu tempo. Isso aconteceu com Van Gogh e, no meio musical, com tantos outros, vide Brian Wilson, Peter Green, Skip Spence, Daniel Johnston, Arnaldo Baptista e Lanny Gordin. Agora, se antes de um surto psíquico, o artista consegue mudar os rumos do rock com um trabalho aclamado, como o clássico debut do Pink Floyd - The Piper At The Gates Of Dawn, de 1967 -, ai o culto é quase imediato.

Estando no centro criativo da ebulição contracultural que foi o rock psicodélico, Syd Barrett foi um dos que mais abusou do uso de LSD, despertando comportamentos erráticos, até chegar o diagnóstico de esquizofrenia, que o afastou não só do Pink Floyd, mas da música. Não sem antes - com ajuda dos amigos David Gilmour e Rogers Waters -, gravar um álbum solo, o experimental The Madcap Laughs (1970).

É um equivoco ouvir esse disco esperando grande acabamento. Isso não se dá nem por escolhas estéticas, nem pela capacidade técnica do Syd. Ainda assim, as canções revelam brilhantismo melódico/lírico mesmo diante de gravações caseiras lo-fi (se assemelhando a demos). Isso é exposto logo na canção que abre o disco, "Terrapin", um blues folk tão simples quanto irresistível.

Acompanhado por parte do Soft Machine - incluindo o o Robert Wyatt, que arrebenta com suas levadas nada uniformes na bateria -, "No Good Trying" soa como um sonho vertiginoso que não dá para saber onde vai desaguar. Adoro o canto falado do Syd. O grupo o acompanha também na simpática "Love You". Vale perceber aqui a crueza da gravação, que mesmo diante de ótimos músicos, revela a organicidade de uma jam feita as pressas.

A guitarra abelhuda e brilhante do Syd domina "No Man's Land". Quantas bandas de indie rock não gostaria de tirar esse som? 

Poucas canções falam tanto sobre Syd quanto "Dark Globe". Sua letra é estranha, meio delirante, muito emotiva. Tanto que seu canto aqui surge de maneira mais voraz, acompanhada por um violão de acordes martelantes. 

"Feel" guarda as mesmas características. Seu desenvolvimento é imprevisível, sendo que os acordes no meio parecem improvisados, de tão tortuoso que são os caminhos harmônicos. A letra e a performance comprovam esse senso de improviso. 

Com desafinações e até um erro inicial, "If It's In You" é o canto do cisne de uma mente em ebulição. Um registro mágico.

É legal ouvir Syd e Gilmour unidos em "Octopus", quase apontando o que aconteceria se eles tivessem tido mais tempo de trabalharem juntos no Pink Floyd. O mesmo vale para "Long Gone", sendo que aqui é a mão do Roger Waters que aparece com maior força.

"Golden Hair" é uma pérola. Seu violão soa quase como um drone. A melodia é tão linda quanto dramática e assustadora. A música parece reverberar no nosso subconsciente. A letra é baseada num poema do James Joyce. Maravilhosa!

Já a derradeira "Late Night" é marcada por um slide ébrio tocado com um isqueiro. 

Confeccionado pela Hipgnosis, com uma foto do Mick Rock, a capa resume bem o estado do Syd: um jovem solitário pela dificuldades impostas por suas ações e condição. Posteriormente, ainda foi lançado outros discos, grande parte com sobras de estúdio. Syd Barret ficaria recluso, levando uma vida silenciosa até sua morte em 2006 aos 60 anos, carregado durante esse período o fardo de "diamante louco".

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

TEM QUE OUVIR: Meshuggah - Nothing (2002)

Quem acompanha o metal no século XXI não passou ileso pelo djent (também conhecido como math metal). Se para o público comum o termo/subgênero não significa nada, dentro do segmento dos sons pesados ele ditou diversas tendências. Grupos como Animals As Leaders, Periphery, Polyphia, TesseracT e, até mesmo, novas estrelas do cenário como Spiritbox e Sleep Token, para o bem ou para o mal, incorporam essa estética ao seus estilos.

E do que se trata o djent? Pra começar, o nome do gênero é uma onomatopeia do som das guitarras. Ou seja, aquele som abafado e percussivo de palm-mute, somado a timbres de afinação baixa distorcidos ressaltando frequências altas. A produção de processamento digital também é uma forte característica, gerando um peso cristalino, grave e comprimido, além de milimetricamente editado/quantizado. Confuso? Melhor então partir pra audição, sendo Nothing (2002) do Meshuggah uma tremenda introdução.

Os suecos do Meshuggah foram não somente responsáveis por desenvolver o gênero desde seu estado embrionário, como chegaram num nível de excelência impressionante, tornando-se referência do estilo. Mesmo o nome djent quem deu foi o guitarrista do grupo, o estranho Fredrik Thordendal, que equiparado de guitarras de 8 cordas (!!!), desenvolveu um estilo monolítico, onde mais que velocidade e quantidade de notas, prevalece a precisão, densidade, pegada e a interação rítmica complexa com o brilhante baterista Tomas Haake. 

Nothing é o quarto lançamento do grupo, mixado as pressas antes de entrarem num Ozzfest que lhe renderia maior popularidade. Insatisfeitos com a produção, em 2006 chegaram a fazer nova mixagem, masterização e, até mesmo, a regravar algumas guitarras e baterias. Honestamente, acho que a versão original de 2002 serve como um recorte mais preciso do tempo.

"Stengah" abre o disco já virando o ouvinte do avesso com um riff de duas notas (uma delas com bend lentamente doentio), além de ataques enlouquecedores nos pratos. A primeira impressão é de confusão por conta de ritmo aparentemente desconexo. Mas na base da insistência, a força da proposta vai perfurando nossa massa cefálica até nos levar a um aflorar epilético. Vale se atentar ao solo de guitarra, trazendo ecos fusion influenciados pelo Allan Holdsworth. 

"Rational Gaze" foi o single do álbum, o que não quer dizer grande coisa, já que ela não é nada palatável para o ouvinte de primeira viagem. Mas é um cartão de visita que cativa através de seus riffs ritmicamente complexos seguidos de pauladas num prato china e bumbos tão lineares quanto um ovo rolando ladeira abaixo. Por mais berrada que seja a voz do Jens Kidman - e com letras com mensagens indecifráveis -, seu refrão aqui é memorável. A faixa se desenvolve de maneira espantosamente violenta, outside (que raio de solo é esse!) e estranha. Performance sinistra!

As polirritmias e compassos ímpares típicos do grupo (e do djent) joga o ouvinte pra trás logo no inicio de "Perpetual Black Second". O ritmo pra eles é um elemento tão fundamental que até mesmo a linha vocal prioriza o ataque rítmico em detrimento a melodia. O resultado é de enorme impacto.

Há um groove torto e irresistível no meio de toda essa loucura, vide o que acontece em "Closed Eye Visuals", faixa de caminhos progressivos, com direitos a arpejos climáticos num timbre limpo de guitarra lá pelo meio da faixa.

Tomas Haake cria motivos jazzisticos com seus tambores no inicio de "Glints Collide". Sua performance por toda a canção é amedrontadora. O mesmo vale para "Organic Shadows", sendo que aqui as guitarras se entrelaçam ao groove de maneira ultra robusta.

"Straws Pulled At Random" parece feita para despirocar. Por mais complexo que seja, o resultado sonoro é muito vibrante. Atenção para seu bonito/melódico/climático solo de guitarra ao final, servindo de contraponto para o peso da base.

"Spasm" não poderia ter outro nome, já que ela leva a isso mesmo. Isso somado a disritmia. Mais uma vez o elemento jazzistico se faz valer na performance do Tomas Haake. Já a voz falada parece ter raiz no metal industrial.

As derradeiras "Nebulous" e "Obsidian" basicamente preservam o peso e inventividade que acompanha todo o disco. São exemplos do frescor inventivo que o Meshuggah trouxe para o comumente ortodoxo mundo do heavy metal.

Esse álbum definitivamente não vai agradar a todos, mas vale conferir por conta de sua intensidade alinhada ao vanguardismo. Muito do que tornou tendência, já era feito aqui. É possível que quem curte música experimental embarque mais que os tipicos headbangers, até porque é difícil balançar a cabeça ao som do Meshuggah.

domingo, 8 de junho de 2025

TEM QUE OUVIR: Françoise Hardy - Tous les garçons et les filles (1962)

Ao pensarmos no desenvolvimento da música pop/jovem, a primeira metade da década de 1960 merece um foco especial. Na Inglaterra tínhamos Beatles, Stones, Who, Kinks e mais uma dúzia de grandes grupos; nos EUA a Motown e a Stax, assim como as girl groups, pavimentaram a linguagem do r&b e da soul music; mesmo no Brasil, a Jovem Guarda criou o primeiro fenômeno do rock/pop brasileiro. Não menos importante está a França, que com seu charme envolto as musas do cinema e da moda, deu origem ao yé-yé, um estilo musical com elegância cinematográfica, influências jazzisticas e pompa do "pop barroco", renovando a canção francesa (chanson). 

Inúmeros mulheres contribuíram para o gênero. Uma mais linda que a outra: Brigitte Bardot, France Gall, Jane Birkin, Sylvie Vartan... Françoise Hardy teve uma carreira musical mais certeira, a começar pelo seu debut autointitulado, posteriormente conhecido como Tous les garçons et les filles (1962, atente-se, antes dos Beatles estrearem).

Se as maiores estrelas do gênero eram mulheres, por sua vez, assim como acontecia em qualquer indústria daquele período (e, infelizmente, até hoje), eram os homens que controlavam as produções. Mas no caso de Françoise, logo de cara ela assinou as canções, tirando do conteúdo a submissão e "inocência sexualizada" tão explorada no gênero, substituindo pela visão de uma jovem garota sobre o amor (também com inocência e sensualidade, mas com um tom muito mais pessoal).

"Tous les garçons et les filles" abre o disco já expondo o principal sucesso do disco, da cantora, do período. O canto discreto/tímido para uma melodia lindíssima cria todo um cenário de um mundo mais belo.

"Ça a raté" é o puro rock do período. Um rockabilly nada "billy", mas muito francês.

Há um tom misterioso em "La fille avec toi". O canto singelo, sem esforço, somado a imagem da capa, é o suficiente para nos fazer se apaixonar pela Hardy. Atenção para seu "yé-yé" cantado ao final.

A instrumentação simples que domina boa parte do disco (um violão rítmico que mais parece uma vassourinha (?), uma guitarra de crueza calorosa e um baixo saltitante) soa quase cômica em "Oh oh chéri" (Bobby Lee Trammell). Canção muito carismática, mesmo com tão pouco. Esse arranjo enxuto se contrapõe as grandes produções do yé-yé, transparecendo exuberância na simplicidade. O mesmo vale para "II est tout pour moi", essa com uma "bateria" (aka caixa) de captação magrinha, não querendo se sobressair ao que verdadeiramente importa: a Françoise Hardy.

Embora com trejeitos do surf rock, "Le temps de l'amour" tem o romantismo de uma livraria-café na Champs-Élysées da década de 1960. Quase me vejo andando com a Jean Seberg por lá. Desperta meu romantismo.

Adoro esse som reverberoso ao mesmo tempo que parece cantado ao pé do ouvido em "J'ai jeté mon coeur". A voz é tão charmosa que até esquecemos de admirar a irresistível guitarra.

A divertidinha "II est parti un jour", o "blues francês" "J'suis d'accord", a balada lindamente interpretada "C'est à l'amour auquel ja pense" fecham o disco.

O sucesso de Françoise Hardy transcendeu a França, o modismo, o yé-yé e as décadas. Da Rita Lee ao Beach House, passando por Eurythmics, Air, Avalanches e Beck, todos beberam dessa fonte. Ela lançaria outros álbuns tão bons quanto posteriormente (ou até melhores), mas é sempre bom começar do começo.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

TEM QUE OUVIR: Sufjan Stevens - Illinois (2005)

Em tempos onde a qualidade composicional foi posta em dúvida, Sufjan Stevens se destacou amparado justamente por esse talento. Em 2005 ele deu inicio a um projeto ambicioso - que posteriormente abandonaria - de traçar a cada disco um panorama dos 50 estados norte-americanos. Apesar da ideia fracassada, Illinois (Sufjan Stevens invites you to: Come On Feel The Illinoise) - trocadilho em homenagem ao Slade -, abordando seu estado natal, Michigan, é indiscutivelmente uma pérola deste século.


Seu inicio introspectivo é convidativo ao revelar a voz graciosa do Sufjan em "Concerning The UFO Sighting...". Assim como o suposto OVNI avistado por policiais de Illinois, seu primeiro contato impressiona.

Uma das grandes marcas do álbum são seus arranjos quase sinfônicos (não o são por recurso). Com tímpanos iniciais, coro de vozes, flautas, oboé, dentre outros instrumentos tocados exclusivamente pelo Sufjan, "The Black Hawk War" é encantadoramente majestosa.

Num 5/4 progressivo, "Come On! Feel The Illinoise!" relembra Chicago como centro do novo mundo. Musicalmente ela aproxima o folk do indie pop e, até mesmo, de estruturais composicionais do Steve Reich, vide o uso do vibrafone em frases repetitivas sobrepostas. Há ainda uma citação a The Cure numa linha de sax. Isso tudo, mais uma vez, sem perder a graça.

O lindo violão dedilhado, as notas do piano e o canto delicado em "John Wayne Gacy, Jr.", com terna tristeza, trata da infância de um assassino em série local. Impossível passar indiferente

Com contraponto de banjo, baixo, guitarra, violão e violinos, além de metais belissimamente arranjados, "Jacksonville" é folk-prog envolvente.

A música country é a base de "Decatur, or, Round Of Applause For Yout Stepmother", aqui inserindo além do banjo e da guitarra, um típico acordeom. Sua vozes ao final por sua vez tem algo de chamber pop à la Beach Boys. As pausadas ao fundo traz a sensação de performance ao vivo e espontânea.

Embora de sonoridade cristalina, um contraponto deste álbum ao que se era produzido no período está em seus timbres completamente orgânicos, sem recurso humano ou equipamento caríssimos. Nada disso faz com que ele não chegue a momentos grandiosos, vide a riqueza de "Chicago", de arranjo orquestrado triunfante. Brian Wilson adoraria.

Ambientado num dia de feriado em homenagem a um herói local, a acústica "Casimir Pulaski Day" soa como um hino tipicamente americano, mas mais bela (e triste) ao abordar a uma doença terminal de uma garota. 

Outro herói local homenageado é o Superman, agora em "The Man Of Metropolis...", única canção em que a guitarra fala alto no disco.

É de se destacar o apelo/bom gosto melódico somado ao arrojo quase erudito embutido em canções como "Prairie Fire That Wanders About". Isso se revela também em "The Predatory Wasp Of The Palisades Is Out To Get Us!", canção pop, mas com elementos da música minimalista em sua composição. Atenção ainda para, obviamente, os nomes surreais que batizam as faixas.

Trafegando em torno de cidades fantasmas, "They Are Night Zombies!!" é um folk-progressivo intrincado. Sua construção é riquíssima. 

Interessante perceber o elemento cultural do cristianismo no tema de "The Seer's Tower", algo que reverbera em diversos ponto do disco, mas que aqui, através do arranjo pra piano e coro, toma um rumo sacro.

A longa "The Tallest Man, the Broadest Shoulders Part 1" tem como base para seu complexo desenvolver a sonoridade de bandas marciais de colégio. Seu rebuscado arranjo mais uma vez traz a influência da música erudita e do rock progressivo para um contexto indie 00's.

Há ainda no disco algumas vinhetas que complementam o todo e que, mesmo isoladamente, impressionam por sua categoria. Destaque para "To The Workers...", de piano arpejado, guitarra com reverb e tremulo de mola, bateria imagética e trompete melancólico.

Completamente calcada na música minimalista do século XX, "Out Of Egypt..." é um desfecho complexo/abstrato/delirante para um álbum que não subjuga o ouvinte.

Não são muitos os artistas deste século que nos fazem convencer que 22 duas faixas e 74 minutos num disco conceitual são realmente algo a não se perder. Sufjan Stevens nos apresentou o seu mundo e, posteriormente, nos manteve nele através de outros ótimos álbuns. Álbum tão ambicioso quanto convidativo.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

TEM QUE OUVIR: Helmet - Meantime (1992)

Todos estão cansados de saber o quão efervescente foi o cenário do rock alternativo na década de 1990. Mas muito além dos grupos de Seattle, a ebulição se deu também via outras formas de rock, agregando caminhos menos ortodoxos ao hardcore e metal. O Helmet foi, em todos os sentidos, uma das bandas melhores sucedidas neste período.

Trazendo na liderança o Page Hamilton - guitarrista/vocalista/compositor com berço na cena jazz nova-iorquina e, posteriormente, músico queridinho de nomes como David Bowie (pois é!) -, o Helmet chegou ao sucesso comercial com o álbum Meantime (1992), lançado pela Interscope.

O som do grupo se consolidou e diferenciou dos contemporâneos ao se deslocar de qualquer "tosquidão". Há lapidação em meio ao peso e energia do grupo. Isso fica nítido logo na abertura do disco com a cavalar "In The Meantime".

"Iron Head" mostra que o Page Hamilton é um guitarrista tão bom que o refrão da música é um riff. Já seu solo fica entre a ruides e o virtuosismo outside. 

A forma com que as pausar são utilizadas em meio ao peso das guitarras e baixos em "Give It" gera um riff poderosíssimo. Adoro também como a voz do Hamilton aqui é muito mais melódica, remetendo involuntariamente a cena grunge. O mesmo vale para "You Borrowed"

É impressionante como apenas com poucas notas e uma acentuação rítmica envolvente o Page Hamilton consegue criar riffs incríveis, vide "FBLA II". Destaque mais uma vez para seu solo estranhíssimo.

Falando em ritmo, não dá pra restringir as qualidades do grupo apenas ao seu líder. O baixista Henry Bogdan tira um timbre ultra robusto fundamental para a sonoridade do disco. Já o baterista John Stanier (posteriormente Battles e Tomahawk) é um dos melhores da sua geração. Entre os destaques que mostram o poder de fogo da dupla está a densa "Turned Out".

No meio de tantas boas canções há um clássico do período, a irresistível "Unsung", faixa de groove tão martelante quando sacolejante.

Vale ainda deixar registrado que o disco teve engenharia do Steve Albini, mixagem do Andy Wallace e masterização do Howie Weinberg, uma ficha técnica de respeito e que, para mim, ajudaram a fazer deste período um dos mais exitosos em termos de produção na história do rock.

Esse álbum ajudou no desenvolvimento de diversos gêneros como o metal alternativo e post-hardcore, além de ter influenciado inúmeras bandas de new metal. Todavia, acima de tudo, ele é um apanhado de canções poderosas.

segunda-feira, 17 de março de 2025

TEM QUE OUVIR: Beethoven / Berliner Philharmoniker / Herbert von Karajan: Symphony No.5 (1963)

Eis um leigo falando de música erudita. Mas sou leigo em tudo, então devo estender meu atrevimento à outros campos. E como já mencionei quando escrevi sobre as Variações Goldberg do Bach feitas pelo Glenn Gould, sempre me incomodou os álbuns de música erudita não estarem nas "discoteca básica" da vida. Não há razão! É música, é fonograma, é relevante, é maravilhoso e é cultura pop. Duvida? Ouça os primeiros segundos presentes na quinta 5ª Sinfonia do Beethoven e tente me desmentir. Enquanto álbum/registro, a clássica - em mais de um sentido - gravação da Filarmônica de Berlin, sob regência do Herbert Von Karajan e com lançamento pela Deutsche Grammophon é uma recomendação recorrente.


Sendo a 5ª sinfonia em meia as 9 emblemáticas obras escritas por Beethoven, ela se tornou um emblema de música erudita. Ou se preferir, música clássica, visto que ela se enquadra ao período do classicismo, embora também seja possível aponta-la como uma das obras de transição para o romantismo. A obra foi escrita entre os anos de 1804 e 1808.

Se a Filarmônica de Berlin parece ser naturalmente pleiteada de carregar o bastião do compositor alemão, por sua vez o maestro Karajan foi para muitos o grande maestro do século XX. Ambos são donos de destreza, magnitude, exuberância e rigidez técnica para tal empreitada.

Embora todos reconheçam a primeiras notas do primeiro movimento da sinfonia - e desculpem minha limitação, mas não consigo dissociar de um tremendo riff de heavy metal, tamanha sua força sônica -, a experiência de ouvir com a devida atenção é sempre impactante. E vale dizer que, embora seja uma gravação da década de 1960, seu registro é esplendoroso. Mérito da regência, da execução, da captação, da acústica e da obra em si, pensada de modo que funciona organicamente na arte de combinar sons. Um começo denso, dramático e de alternância emotiva e de dinâmica.

A beleza do segundo movimento apazigua o ouvinte, quase como uma chegada triunfante ao paraíso após enfrentar a morte. As trompas em alguns momentos remetem a uma marcha fúnebre (embora de ar esperançoso). É um hino. Vale aqui dizer que essa foi a primeira sinfonia do Beethoven em tonalidade menor.

O terceiro movimento é o mais curto e também menos impactante, parecendo revistar o tema inicial. Ainda assim, não sou maluco de não me impressionar com as cordas, sejam elas contrabaixos, violoncelos, violas ou violinos, cada um ocupando seu espaço na orquestração com maestria. As madeiras (flauta, oboé, clarinete, fagote) também estão em perfeita interação. Fora os enormes tímpanos. Retiro o que disse, ela é extremamente impactante e majestosa.

O desfecho triunfante com o quarto movimento deveria ser capaz de levantar a plateia de um teatro (isso se esse ambiente não fosse tão passivo). Uma enormidade em forma de criação e performance. A palavra é um clichê, mas dado seu caráter quase sacro - se não religioso, sem dúvida artístico -, devo reforçar que ele é capaz de causar arrebatamento. Impressionante.

Agora, mais importante que qualquer consideração minha, é todos ouvirem esse álbum com disposição, além de mente e coração abertos. Sua enormidade abraça o ouvinte e é convidativa, por mais que muitas vezes seja cercada de prepotência de quem não as deve deter.