terça-feira, 4 de agosto de 2026
TEM QUE OUVIR: Beth Carvalho - De Pé No Chão (1978)
quarta-feira, 17 de junho de 2026
TEM QUE OUVIR: My Chemical Romance - The Black Parade (2006)
sábado, 30 de maio de 2026
TEM QUE OUVIR: Sonny Rollins - Saxophone Colossus (1957)
sexta-feira, 22 de maio de 2026
TEM QUE OUVIR: Donny Hathaway - Live (1972)
Se o assunto for grandes vozes, não leve a sério a conversa se o Donny Hathaway for omitido. Ele é um ótimo parâmetro de seriedade entre os que gostam de música, visto que, embora não seja desconhecido, nunca encabeça as listas de "melhores" cantores, artistas da soul music, personalidades da música negra e, não menos importante, grandes discos. E por mais que seus álbuns de estúdio sejam majestosos, Live (1972) merece atenção por ser um registro intimista, espontâneo e orgânico desse astro oculto em cima dos palcos.
E não são quaisquer palco, visto que o Lado A é registrado no Troubadour e o Lado B no pequeno The Bitter End, ambas casas lendárias, a primeira em Hollywood, a segunda no The Village em Manhatthan.
Eu sei, todos amam "What's Going' On" com o Marvin Gaye, sendo uma versão definitiva, mas acredite, não suficiente, visto que Donny não se intimida diante da canção e à interpreta com graça, técnica e sabedoria. É lindo!
Vale de imediato se atentar ao som natural presente na captação. Da pra ouvir a reação da plateia e a magia no palco. Inclusive, um palco com músicos da primeira grandeza. A dupla de guitarras formada por Phil Upchurch e Cornell Dupree é a perfeição no que diz respeito a condução rítmica, e harmônica, onde ambos não atravessam o espaço de ninguém. É uma consciência de arranjo ao vivo que até mesmo grandes instrumentistas tem dificuldade de compreender. No baixo está o gigante Willie Weeks, que é melódico e dono de groove discretamente sacolejante. O som do seu instrumento é profundo. Fred White, aquele mesmo do Earth, Wind & Fire, fecha a cozinha. Ou não, visto que o percussionista Earl DeRouen traz ainda mais balanço, cor e latinidade. Instrumentalmente, não da pra omitir ainda a regência e as teclas (piano, piano elétrico, órgão) do próprio Donny Hathaway. Todos, em equipe, brilham na longa "The Ghetto". Nem a plateia é deixada de fora, visto que depois de uma sequência de improvisos, é levada a cantar o nome da faixa. É a força da música preta norte-americana em ebulição.
Escutando "Hey Girl" fica explícito que não estamos diante de "apenas" um disco de soul, mas de um time capaz de trazer tempero jazzistico para as canções. Tanto a harmonia quanto a melodia da composição são sinuosas. Nada que Donny e banda não sejam capazes de executar com facilidade espantosa. De tirar um sorriso do rosto!
"You've Got A Friend" da Carole King é aqui cantada em coro pela plateia, ganhando uma aura gospel. Eu, mesmo sendo ateu, canto dirigido aos céus. Se seu coração não balançar, pode se internar. É de chorar!
A voz do Donny não é de excessos, é de paixão. Ouvir "Little Ghetto Boy" com atenção permite passear por floreios, timbre, projeção e nuances melódicas de um cantor de soberbo. Isso enquanto a banda oferece a cama perfeita (que Willie Weeks chega a deitar, tamanha a elegância de sua linha de baixo).
Soul e blues se entrelaçam na vagarosa "We're Stills Friends", uma balada apaixonada que passa longe da cafonice. Amo as guitarras dessa música.
Sou capaz de afirmar sem pestanejar que "Jealous Guy" (John Lennon) nunca soou tão bem quanto aqui. O balanço, a voz, o sentimento... é cruel!
Passando dos 13 minutos, "Voices Inside (Everything Is Everythig)" é um desfecho com espaço para Donny brilhar também enquanto instrumentista. Já o solo do Willie Weeks é um dos grandes da história do baixo.
Depressivo e esquecido, Donny foi internado em clinicas psiquiátricas e diagnosticado com esquizofrenia. Seu suicídio em 1979, aos 33 anos, é um dos capítulos mais tristes da história da música.
quinta-feira, 14 de maio de 2026
TEM QUE OUVIR: Jeff Mills - Live at the Liquid Room, Tokyo (1996)
A música eletrônica teve um caminho gradual de evolução estética e comercial, vindo desde experimentações de vanguarda no início do século XX, chegando em seu apogeu na década de 1990, quando virou uma cultura consolidada.
Dentre tantas expressões que trabalham diferente formas, BPM's, dinâmicas e climas, o techno explodiu como uma força de contracultura justamente num período onde a apropriação do emblema "música eletrônica" se difundia na música pop como uma saída para o futuro (feito isso de forma exitosa ou não).
Oriundo de Detroit, berço do techno, Jeff Mills, um negro franzino de olhar singelo, se consagrou como um majestoso produtor e DJ, que fazia das suas performances a amalgama de uma geração.
A Tóquio de 1995 vivia o esplendor de uma economia acelerada e noites movimentadas. Neste cenário, o Liquid Room se consagrou como um centro do que havia de mais efervescente no período. E foi lá que Jeff Mills fez essa performance histórica, que passado mais de três décadas, continua circulando de mão em mão como exemplo de mixagem ao vivo, com imperfeições técnicas (de execução e gravação), mas transparecendo na captação (com microfone, pegando também a plateia) o clima quente de suor, cigarro, entusiasmo, paixão e liberdade.
A gravação tem pouco mais de 60 minutos (dizem, de uma performance de 3 horas) e 38 faixas, traçando um apanhado do trabalho do Jeff Mills enquanto produtor, mas também de seus contemporâneos que se consagrariam nesse circuito, vide Joey Beltram, Surgeon, The Advent, DJ Skull, Morgan, dentre outros, muitos do coletivo Underground Resistance, organização fundada por Mills em Detroit com o intuito de aglutinar um setor desfavorecido pelas políticas do Reagan, dando a essa classe uma consciência social e identidade cultural.
Como instrumento artístico, Jeff Mills utilizou não "somente" o mixer com dois toca-discos, mas também dois toca-fitas de rolo. Com isso em mãos, Mills proporcionou uma mixagem intensa e ambiciosa, onde não bastava a mera seleção e transição fluida das faixas, mas também trocas e pausas bruscas, scratches (ou mesmo "rebobinagens"), alteração do pitch, manipulação nas frequências... tudo pra causar furor na plateia ali presente; tudo com transpiração e técnica.
Jeff Mills se apresenta com uma faixa de nome sugestivo: "The Extremist". Mas é com "Magneze" (Surgeon) e a porrada "The Start It Up" (Joey Beltram) que o caldo começa a entortar. Em "Step To Enchantment" (Millsart) a plateia (e os ouvintes do disco) já está completamente rendida e absorvida pelo som paranoico que sai dos falantes. Quando começa a melodia de "Untitled A" parece que estamos diante de um hit das pistas.
Com a consciência rítmica de um atleta, velocidade de raciocínio de um improvisador de jazz, sujeira e rebeldia punk, além de uma personalidade urbana oriunda do hip hop, Jeff Mills vai construindo uma apresentação inesquecível.
É curioso ouvir "Play With The Voice In USA" (Joe T. Vannelli) hoje e perceber uma certa aura/alegria presente naquilo que entendemos como o elemento eletrônico do funk brasileiro.
Nas sobreposições de "i9" e "Changes Of Life" se revela o frescor não lapidado das produções executadas naquela noite.
Sou completamente enlouquecido pelo pelos timbres de "Eternal Sun" (IO), faixa que parece borbulhar em ondas elétricas. Sua junção com "Gameform" (Joey Beltram) é pra levar o ouvinte ao frenesi.
O pulso grave "AX-009" parece martelar no cérebro em BPM elevado. Dá até um certo calafrio. Ainda mais seguida da soturna "Move" (Surgeon).
A segunda seção do disco começa eletrizante com uma mixagem viva entre "Bad Boy" (The Advent) e "The 187 Skillz" (DJ Skull). Entre tentativas e "erros", se cria uma violência sônica pulsante e irresistível. Tudo isso para desaguar no clássico de Detroit, "Strings Of Life" (Rhythim Is Rhythim), uma faixa quase libidinosa, como o brilho da disco music.
O som bruto de "Avion" (Damon Wild) tem tanto um caráter repetitivo da música industrial quanto minimalista. Adoro sua construção. Sua resolução nas herméticas/ambient "X-102" e "Growth" é de grande valor estético.
Em "Casa", início da terceira seção, há o registro do Jeff Mills lidando com o improviso, com o erro. Em tempos onde a música eletrônica abusa de recursos digitais e quantizações, ouvir um DJ mixando na unha, de verdade, é um alívio para os ouvidos. Sua conclusão com a saturadíssima "Life Cycle" é digna de afastar os móveis e abrir uma pista no meio da sala.
Ao mesmo tempo que é papo de tiozinho apontar a pasteurização presente na música eletrônica comercial, é nítida também a discrepante força presente em registros como esse. É um documento de uma contracultura, um símbolo de resiliência. Pensada tecnicamente, é quase obsoleta, mas arte não é sobre isso. Se até mesmo o Jeff Mills as vezes é engolido pela demanda instantânea de um DJ histórico nos mais diversos festivais/casas ao redor do mundo, aqui se mantém registrado a essência de uma cultura que a cada dia soa mais imponente.
quarta-feira, 13 de maio de 2026
TEM QUE OUVIR: Willie Colón & Rubén Blades - Siembra (1978)
Se é verdade que há uma demanda por "música latina", então um disco não pode passar batido diante dessa tendência. Me refiro ao histórico Siembra (1978), lançado pelo porto-riquenho Willie Cólon em parceria com o panamenho Rubén Blades. Ambos trazem o calor da salsa ao centro da música popular, principalmente na América Latina, mas também entre os imigrantes latinos nos Estados Unidos.
Cólon já era um trombonista e arranjador experiente quando saiu esse disco, tendo inclusive trabalhado com a grandiosa Célia Cruz. Mas foi com o Blades que sua música ganhou novo caráter, se revelando política em meio a alegria instrumental.
O inicio funk de "Plástico" - com direito a baixo estrondoso, doce piano elétrico e tremendo arranjo de metais - logo é tomado por um ritmo irresistível. Citando Simón Bolívar e convocando a união entre os povos da América do Sul e Central, Blades relembra o verdadeiro valor dos jovens enquanto indivíduos e enterra deslumbramentos superficiais. Um começo fortíssimo.
O ritmo de "Buscando Guayaba" é de balanço especifico. O piano de escola cubana e os acentos percussivos (em bongos, congas, maracas) criam uma atmosfera quase delirante.
De resultado comercial gigantesco, "Pedro Navaja" traz uma narrativa urbana fixante. É o mambo à serviço de um roteiro cinematográfico. Uma canção trágica e humorada.
Em meio ao crescente (e constante) ataque a Venezuela, "Maria Lionza" é um resgate a memória. Adoro seu refrão sendo entoado em coro, dando o caráter de unidade.
"Ojos" é um convite para puxar a(o) amada(o) para a dança. Uma canção apaixonada, de melodia lindíssima, interpretada majestosamente pelo Blades, um cantor muito acima da média.
Na balada "Dime" abre-se espaço para maior atenção aos trombones. Tremendo arranjo.
O desfecho com "Siembra" é altamente exuberante. Há uma dramaticidade no arranjo de cordas que proporciona um contraponto para o ritmo frenético. É como se as trilhas de blaxploitation englobassem os latinos. Soberbo.
Vale dizer que a gravação desse disco foi em Nova Iorque, despondo do que de melhor havia tecnicamente, incluindo músicos, vide o requisitado baixista Sal Cuevas, que debulha por todo o álbum.
Se hoje o reggaeton e mesmo a salsa são fenômenos da música pop, muito se deve a esse disco, que chegou a alcançar 3 milhões de cópias vendidas, uma marca insuperável para o gênero. Diante de uma ofensiva reacionária (vide a atuação do ICE e o sequestro do Nicolás Maduro), os jovens latinos podem encontrar aqui muitos elementos de diversão e conscientização.
terça-feira, 17 de março de 2026
TEM QUE OUVIR: Verdi / Callas / Giulini / Orquestra Alla Scala: La Traviata (1955)
Sem medo de ficar datado, apresento uma conjunção de fatores que levaram a escolha de La Traviata do Verdi como primeiro "Tem Que Ouvir" de 2026. A começar que tenho iniciado todo ano com música erudita nesta seção. É uma forma que encontrei de me expor a novas experiências (visto que sou um leigo nesse campo), acumular conhecimento e prazeres, treinar a percepção, ir contra essa besteira de descolonização europeia através do apagamento artístico, além de valorização de fonogramas tão negligenciados quando falamos em “discoteca básica”. Todavia, há ainda mais que isso.
Comecemos com o fato da Maria Callas - intérprete aqui escolhida -, ser um nome razoavelmente conhecido, embora pouco escutado pelo “público comum”. Vale lembrar que a Angelina Jolie interpretou ela no cinema há pouco tempo. Uma introdução auditiva a sua obra parece oportuno.
Já a cantora pop Rosália gerou furor lançando um belo e aclamado disco (LUX, de 2025) em que coloca o canto lírico como inspiração para suas interpretações.
Por sua vez, o ator Timothée Chalamet causou burburinho ao menosprezar a produção de óperas, alegando que ninguém se interessa por elas.
Com tudo isso, a ópera La Traviata (1853) do Giuseppe Verdi com interpretação de Maria Callas, orquestra e coro do Teatro Alla Scala e regência do Carlo Maria Giulini, pareceu uma tremenda pedida.
Verdi (1813 - 1901) é um mestre das óperas italianas. Seu estilo, comparado a outros compositores do romantismo, pode ser considerado mais melodramático e popular. Nada que aparente diminuir o valor estético de suas obras.
Sendo a Maria Callas uma das principais cantoras líricas de todos os tempo, é de se admirar sua encarnação de Violleta, uma mulher mundana, frívola, dramática e apaixonada. Vale dizer que "traviata" significa transviada. Callas, aos 30 anos, expõe toda a intensidade da personagem com virtuosismo.
Essa gravação de 1955 tem brilho próprio. Não é tão cristalina, mas a orquestra soa organicamente enorme, ao mesmo tempo que serve de fundo para as acrobacias vocais da composição. Mérito não só dos cantores, mas também do Carlo Maria Giulini, um dos mais celebrados regentes do seu tempo. Não por acaso essa temporada foi um sucesso na época.
O Primeiro Ato da obra tem um inicio celebrativo/festivo. Vale aqui dizer que não vou discorrer atentamente sobre o enredo, por mais fundamental que ele seja. Meu enfoque é na música.
A valsa " Libiamo Ne' Lieti Calici" parece que sempre esteve presente no meu imaginário, tamanha sua força. Aqui se revela não somente a excelência de Callas, mas também do Giuseppe Di Stefano, um tenor brilhante que da vida a Alfredo, jovem abastado e par amoroso de Violetta.
Vale se atentar ao som da plateia, dos risos e dos passos da atuação, tudo isso presente em "Che è Ciò", trazendo charme e vida para a captação. Tanto que ao final "Un Dì Felice, Etera" o entrosamento da dupla de cantores é tão explendido que arranca palmas da plateia. Pode ser comum, mas desmistifica para mim muito da rigidez formal das gravações clássicas. Talvez em óperas o comportamento seja diferente mesmo.
Se por um lado "Ebben? Che Diavol Fate" tem em seu final dobras vocais que me remeteram a música caipira (entenda isso como quiser), a presença estonteante do coro e da orquestra do Teatro Alla Scala em "Si Ridesta In Ciel L'Aurora" é de arrebatamento heavy metal.
"È Strano, È Strano!" e "Follie! Follie!" são registros quase à capella da Maria Callas. É impressionante as notas altíssimas que ela atinge, passeando com desenvoltura, afinação, paixão, fôlego e volume pelos caminhos melódicos que Verdi propõe. Frutos da combinação de uma soprano e um compositor expendidos. "Sempre Libera" é um desfecho de malabarismo vocal para o Primeiro Ato.
Com um enredo marcado por negociações de Violetta com o Giorgio (pai de Alfredo, interpretado por Ettore Bastianini), envolto a separação, amores, conflitos familiares e tuberculose, temos um momento mais dramático (com direito a reviravoltas, insultos e rendições) e instrumentalmente sóbrio no Segundo Ato, sendo a performance vocal em meio a narrativa o combustível de fixação no ouvinte.
"Annina, Donde Vieni?" traz essa melancolia e clima de incerteza através de um diálogo cantando com profundida quase sombria. O mesmo vale para "Non Sapete Quale Affeito", mas aqui com um virtuosismo ainda maior.
Inicialmente um balanço dançante, "Morrò! La Mia Memoria" desagua na pura dramaticidade italiana. Lindo. O grau de emoção atingido em "Che fai? - Nula" é tamanho que arranca gritos eufóricos dos espectadores.
Com sua voz barítono densa (tipicamente autoritária e paternalista), Bastianini revela na ária "Di Provenza Il Mar, Il Suol" o porquê de ser considerado um dos grandes intérpretes de Verdi. Impactante!
Não posso deixar de mencionar que violinos velozes na introdução de "Inviato a Qui Seguirmi" me remeteu imediatamente a "Love Theme" do Barry White (!!!), música usada na abertura da novela Celebridades. Por essa vocês não esperavam, né? Isso posto, uma faixa de intensidade impressionante, que desagua na igualmente poderosa "Ogni Suo Aver Tal Femmina", dona de uma performance que arranca aplausos antes mesmo de chegar ao fim.
No Terceiro e último Ato, Violetta está desamparada, prestes a sucumbir diante da tuberculose. Adianto que na história, apesar do reencontro com Alfredo e juras de amores e arrependimentos (incluindo de Germont), restou apenas tempo da sua partida aos braços do amado. Não há final feliz. Com isso, não é de se estranhar a melancolia (e beleza) do "Prelúdio".
É de chorar a performance da Callas em "Addio Del Passato". O calor na interação dos personagens com a orquestra em "Ah, Non Più, A Un Tempio" justifica a sobrevivência da obra.
O desfecho narrativo melancólico com "Prendi, Quest'è L'Immagine" e "Se Una Pudica Vergine" leva aos céus personagem e público.
Com pouco mais de duas horas de duração, La Traviata é um dos pontos altos do Verdi, da Maria Callas, das óperas e música erudita. Sua apreciação, por mais intimidadora que possa parecer incialmente, traz momentos de graça. Não feche essa porta para você.
segunda-feira, 24 de novembro de 2025
TEM QUE OUVIR: The Harder They Come (1972)
quarta-feira, 12 de novembro de 2025
TEM QUE OUVIR: Boris - Pink (2005)
Falar que a música do Japão é uma tendência na indústria musical ocidental seria forçar a barra. Por outro lado, de lá sempre vieram artistas referência em típicos específicos de som: Yellow Magic Orchestra, Ryuichi Sakamoto, Toshiko Akiyoshi, Loudness, Merzbow, Shonen Knife, Kyary Pamyu Pamyu, Otoboke Beaver, além de inúmeros nomes do hypadissimo city pop (Masayoshi Takanaka, por exemplo). Mas pessoalmente, uma banda sempre esteve em maior rotação aqui em casa, não necessariamente por ser japonesa, mas por levar aos limites a energia no rock. É o Boris, trio prolifero que tem no prestigiado Pink (2005) um marco em sua enorme discografia.
Na época, já com nove discos na bagagem, o grupo formado por Takeshi (voz e baixo-guitarra de dois braços), Wata (guitarra e parede de amplificadores Orange no limite do volume) e Atsuo (baterista naturalmente anfetaminado) reuniu nesse disco toda sua eloquência em gêneros como sludge metal, stoner, drone, rock psicodélico e noise rock. Isso com uma maturidade que gerou boas composições, riffs memoráveis e passagens carismáticas que crescem muito além do esporro sônico.
A longa "Farewell" já é um início especial. Na introdução, notas parecem gotejar, preparando o ambiente para um shoegaze/dream pop/post-rock cavernoso. A progressão harmônica lenta, movida por acordes espaçados e bateria enorme, cria uma beleza atmosférica em perfeito equilíbrio com a linda melodia vocal. Impressionante.
O que fazer depois de um inicio desses? Explodir a cabeça do ouvinte com um riff hipnótico cheio de fuzz e wah-wah. Assim é "Pink", canção veloz e cheia de guitarras enlouquecidas e amontoadas.
Se ao ouvir "Woman On The Screen" você não quiser sair correndo descontroladamente, então você estar morto por dentro. Uma performance não menos que catártica e abrasiva. Vale aqui reparar como, embora pesado e enorme, a produção é orgânica, expondo a força braçal da execução.
A escola do hardcore/punk rock japonês inunda a imunda "Nothing Special". O baixo parece uma motosserra, há constantemente uma microfonia ao fundo e uma corrosividade timbristica doentia. Foda!
Em "Blackout" o clima se agrava. É um sludge-drone infernal, denso, terroso, primitivo. Parece uma queda ao centro da Terra. Isso com uma captação exemplar, que forma uma massa sonora impenetrável.
A breve "Electric" chega a soar divertida e grooveada. É uma canção instrumental guiada por um riff stoner não menos que contagiante.
Embora seja um atropelo, com direito a um amontoado de sons saturados, da pra decodificar algo de psicodélico/garage em "Pseudo Bread", faixa com um dos refrães mais legais do disco. Já em "Afterburner" dá pra visualizar o que seria o Jimi Hendrix tocando no Black Sabbath.
A virulência punk volta a dominar "Six, Three Times". Inclusive num timbre de guitarra que é puro chiado. Eu adoro! Chega a ser engraçado colocar na sequência a relaxante e ambient "My Machine". Mas não se engane, é o fervor nirvanistico em longa duração de "Just Abandoned Myself" que fecha o álbum.
Com esse disco o Boris ganhou o mundo dos sons alternativos. O indie abraçou, o metal adorou. Viraram símbolos de vigor, peso e grandeza sonora. Basta ouvir o Pink uma única vez para ver que é mais que justificável.
quinta-feira, 6 de novembro de 2025
TEM QUE OUVIR: Lô Borges - Lô Borges (1972)
sexta-feira, 31 de outubro de 2025
TEM QUE OUVIR: Refused - The Shape Of Punk To Come (1998)
domingo, 19 de outubro de 2025
TEM QUE OUVIR: Howlin' Wolf - Moanin' In The Moonlight (1959)
segunda-feira, 29 de setembro de 2025
TEM QUE OUVIR: TV On The Radio - Desperate Youth, Blood Thirsty Babes (2004)
terça-feira, 9 de setembro de 2025
TEM QUE OUVIR: Angela Ro Ro - Angela Ro Ro (1979)
Na virada da década de 1970, poucas mulheres foram mais transgressoras no Brasil que Angela Ro Ro. Com herança na canção popular brasileira, no jazz e no hippismo, tomou na juventude passos próprios por casas noturnas, bares cariocas, pubs londrinos, amizade com Glauber Rocha, participação no Transa (1972) do Caetano Veloso, mas também sofrendo com a truculenta ditadura militar. Conseguiu em 1979 um contrato com a Polygram para lançar seu disco de estreia, batizado simplesmente com seu nome artístico.
Compositora e pianista de mão cheia, criou um repertório único equilibrado não somente por seu lirismo, mas também por um caminho sonoro que parece combinar a dramaticidade da Maysa com a carga emotiva blues de uma Janis Joplin. O cheiro é de vulnerabilidade diante de um whisky noturno.
Acompanhada de músicos como Antônio Rodolfo (pianos), Rick Ferreira (guitarra), Téo Lima (bateria), além de João Baptista e Jamil Joanes revezando nos baixos, o disco traz arranjos enxutos e timbragens orgânicas polidas na medida.
"Cheirando a Amor” é deliciosamente vagarosa. Seu canto entrega um romantismo doroloroso, temerário e confessional, entoado sem afetação. A canção soa ainda mais forte diante de seu lesbianismo corajoso.
A balada pianistica "Gota de Sangue" é de beleza harmônica, melódica e interpretativa.
"Tola Foi Você" tem uma sofrência solidificada pela brilhante performance. Fora que “Tola foi você ao me abandonar" é um tremendo inicio de canção. Hino da fossa.
Falar de "Amor Meu Grande Amor" é chover no molhado. Canção histórica, de versos e refrão poderosos. Fundamental inclusive para o desenvolvimento do rock brasileiro, que encontraria sua ascensão comercial poucos anos depois.
Ao piano, "Me Acalmo Danado" tem a aura dos antigos sambas-canção. Ela é esfumaçada, noturna, solitária, entristecida. Ela retrata muito bem a alma da Angela Ro Ro.
Veloz e divertida, "Agito e Uso" é subversiva. A rouquidão da sua voz traz uma atitude genuína. Um rock n' roll certeiro nos moldes do que fazia Luiz Melodia, Elis Regina, Raul Seixas e Guilherme Arantes.
Aquele clima boêmio com a cara da zona sul carioca é tomado na maravilhosa "Mares da Espanha".
Naquele 3/4 que nos coloca no braço, "Balada da Arrasada" é irresistível. Seu piano blues, saxofone apaixonante e cozinha azeitada é de nos fazer secar uma garrafa de conhaque. Os excessos da Ro Ro chegam ao ouvinte. O mesmo vale para "A Mim E A Mais Ninguém", um convite a "correr perigo".
O impacto da Angela Ro Ro - tanto musical quanto em atitude - abrangeu diferentes gerações. Do Cazuza à Letrux, passando por Cássia Eller, Ney Matogrosso e todos nós que, em momentos de maior vulnerabilidade, encontram um ombro amigo em Angela Ro Ro (1979), um clássico inegável da canção popular brasileira.
segunda-feira, 18 de agosto de 2025
TEM QUE OUVIR: Syd Barrett - The Madcap Laughs (1970)
A loucura sempre foi um chamariz no campo artístico. Se não gera clamor comercial de imediato, com o tempo traz atenção e prestigio para artistas tidos como malucos no seu tempo. Isso aconteceu com Van Gogh e, no meio musical, com tantos outros, vide Brian Wilson, Peter Green, Skip Spence, Daniel Johnston, Arnaldo Baptista e Lanny Gordin. Agora, se antes de um surto psíquico, o artista consegue mudar os rumos do rock com um trabalho aclamado, como o clássico debut do Pink Floyd - The Piper At The Gates Of Dawn, de 1967 -, ai o culto é quase imediato.
Estando no centro criativo da ebulição contracultural que foi o rock psicodélico, Syd Barrett foi um dos que mais abusou do uso de LSD, despertando comportamentos erráticos, até chegar o diagnóstico de esquizofrenia, que o afastou não só do Pink Floyd, mas da música. Não sem antes - com ajuda dos amigos David Gilmour e Rogers Waters -, gravar um álbum solo, o experimental The Madcap Laughs (1970).
É um equivoco ouvir esse disco esperando grande acabamento. Isso não se dá nem por escolhas estéticas, nem pela capacidade técnica do Syd. Ainda assim, as canções revelam brilhantismo melódico/lírico mesmo diante de gravações caseiras lo-fi (se assemelhando a demos). Isso é exposto logo na canção que abre o disco, "Terrapin", um blues folk tão simples quanto irresistível.
Acompanhado por parte do Soft Machine - incluindo o o Robert Wyatt, que arrebenta com suas levadas nada uniformes na bateria -, "No Good Trying" soa como um sonho vertiginoso que não dá para saber onde vai desaguar. Adoro o canto falado do Syd. O grupo o acompanha também na simpática "Love You". Vale perceber aqui a crueza da gravação, que mesmo diante de ótimos músicos, revela a organicidade de uma jam feita as pressas.
A guitarra abelhuda e brilhante do Syd domina "No Man's Land". Quantas bandas de indie rock não gostaria de tirar esse som?
Poucas canções falam tanto sobre Syd quanto "Dark Globe". Sua letra é estranha, meio delirante, muito emotiva. Tanto que seu canto aqui surge de maneira mais voraz, acompanhada por um violão de acordes martelantes.
"Feel" guarda as mesmas características. Seu desenvolvimento é imprevisível, sendo que os acordes no meio parecem improvisados, de tão tortuoso que são os caminhos harmônicos. A letra e a performance comprovam esse senso de improviso.
Com desafinações e até um erro inicial, "If It's In You" é o canto do cisne de uma mente em ebulição. Um registro mágico.
É legal ouvir Syd e Gilmour unidos em "Octopus", quase apontando o que aconteceria se eles tivessem tido mais tempo de trabalharem juntos no Pink Floyd. O mesmo vale para "Long Gone", sendo que aqui é a mão do Roger Waters que aparece com maior força.
"Golden Hair" é uma pérola. Seu violão soa quase como um drone. A melodia é tão linda quanto dramática e assustadora. A música parece reverberar no nosso subconsciente. A letra é baseada num poema do James Joyce. Maravilhosa!
Já a derradeira "Late Night" é marcada por um slide ébrio tocado com um isqueiro.
Confeccionado pela Hipgnosis, com uma foto do Mick Rock, a capa resume bem o estado do Syd: um jovem solitário pela dificuldades impostas por suas ações e condição. Posteriormente, ainda foi lançado outros discos, grande parte com sobras de estúdio. Syd Barret ficaria recluso, levando uma vida silenciosa até sua morte em 2006 aos 60 anos, carregado durante esse período o fardo de "diamante louco".
sexta-feira, 8 de agosto de 2025
TEM QUE OUVIR: Meshuggah - Nothing (2002)
Quem acompanha o metal no século XXI não passou ileso pelo djent (também conhecido como math metal). Se para o público comum o termo/subgênero não significa nada, dentro do segmento dos sons pesados ele ditou diversas tendências. Grupos como Animals As Leaders, Periphery, Polyphia, TesseracT e, até mesmo, novas estrelas do cenário como Spiritbox e Sleep Token, para o bem ou para o mal, incorporam essa estética ao seus estilos.
E do que se trata o djent? Pra começar, o nome do gênero é uma onomatopeia do som das guitarras. Ou seja, aquele som abafado e percussivo de palm-mute, somado a timbres de afinação baixa distorcidos ressaltando frequências altas. A produção de processamento digital também é uma forte característica, gerando um peso cristalino, grave e comprimido, além de milimetricamente editado/quantizado. Confuso? Melhor então partir pra audição, sendo Nothing (2002) do Meshuggah uma tremenda introdução.
Os suecos do Meshuggah foram não somente responsáveis por desenvolver o gênero desde seu estado embrionário, como chegaram num nível de excelência impressionante, tornando-se referência do estilo. Mesmo o nome djent quem deu foi o guitarrista do grupo, o estranho Fredrik Thordendal, que equiparado de guitarras de 8 cordas (!!!), desenvolveu um estilo monolítico, onde mais que velocidade e quantidade de notas, prevalece a precisão, densidade, pegada e a interação rítmica complexa com o brilhante baterista Tomas Haake.
Nothing é o quarto lançamento do grupo, mixado as pressas antes de entrarem num Ozzfest que lhe renderia maior popularidade. Insatisfeitos com a produção, em 2006 chegaram a fazer nova mixagem, masterização e, até mesmo, a regravar algumas guitarras e baterias. Honestamente, acho que a versão original de 2002 serve como um recorte mais preciso do tempo.
"Stengah" abre o disco já virando o ouvinte do avesso com um riff de duas notas (uma delas com bend lentamente doentio), além de ataques enlouquecedores nos pratos. A primeira impressão é de confusão por conta de ritmo aparentemente desconexo. Mas na base da insistência, a força da proposta vai perfurando nossa massa cefálica até nos levar a um aflorar epilético. Vale se atentar ao solo de guitarra, trazendo ecos fusion influenciados pelo Allan Holdsworth.
"Rational Gaze" foi o single do álbum, o que não quer dizer grande coisa, já que ela não é nada palatável para o ouvinte de primeira viagem. Mas é um cartão de visita que cativa através de seus riffs ritmicamente complexos seguidos de pauladas num prato china e bumbos tão lineares quanto um ovo rolando ladeira abaixo. Por mais berrada que seja a voz do Jens Kidman - e com letras com mensagens indecifráveis -, seu refrão aqui é memorável. A faixa se desenvolve de maneira espantosamente violenta, outside (que raio de solo é esse!) e estranha. Performance sinistra!
As polirritmias e compassos ímpares típicos do grupo (e do djent) joga o ouvinte pra trás logo no inicio de "Perpetual Black Second". O ritmo pra eles é um elemento tão fundamental que até mesmo a linha vocal prioriza o ataque rítmico em detrimento a melodia. O resultado é de enorme impacto.
Há um groove torto e irresistível no meio de toda essa loucura, vide o que acontece em "Closed Eye Visuals", faixa de caminhos progressivos, com direitos a arpejos climáticos num timbre limpo de guitarra lá pelo meio da faixa.
Tomas Haake cria motivos jazzisticos com seus tambores no inicio de "Glints Collide". Sua performance por toda a canção é amedrontadora. O mesmo vale para "Organic Shadows", sendo que aqui as guitarras se entrelaçam ao groove de maneira ultra robusta.
"Straws Pulled At Random" parece feita para despirocar. Por mais complexo que seja, o resultado sonoro é muito vibrante. Atenção para seu bonito/melódico/climático solo de guitarra ao final, servindo de contraponto para o peso da base.
"Spasm" não poderia ter outro nome, já que ela leva a isso mesmo. Isso somado a disritmia. Mais uma vez o elemento jazzistico se faz valer na performance do Tomas Haake. Já a voz falada parece ter raiz no metal industrial.
As derradeiras "Nebulous" e "Obsidian" basicamente preservam o peso e inventividade que acompanha todo o disco. São exemplos do frescor inventivo que o Meshuggah trouxe para o comumente ortodoxo mundo do heavy metal.
Esse álbum definitivamente não vai agradar a todos, mas vale conferir por conta de sua intensidade alinhada ao vanguardismo. Muito do que tornou tendência, já era feito aqui. É possível que quem curte música experimental embarque mais que os tipicos headbangers, até porque é difícil balançar a cabeça ao som do Meshuggah.
domingo, 8 de junho de 2025
TEM QUE OUVIR: Françoise Hardy - Tous les garçons et les filles (1962)
Ao pensarmos no desenvolvimento da música pop/jovem, a primeira metade da década de 1960 merece um foco especial. Na Inglaterra tínhamos Beatles, Stones, Who, Kinks e mais uma dúzia de grandes grupos; nos EUA a Motown e a Stax, assim como as girl groups, pavimentaram a linguagem do r&b e da soul music; mesmo no Brasil, a Jovem Guarda criou o primeiro fenômeno do rock/pop brasileiro. Não menos importante está a França, que com seu charme envolto as musas do cinema e da moda, deu origem ao yé-yé, um estilo musical com elegância cinematográfica, influências jazzisticas e pompa do "pop barroco", renovando a canção francesa (chanson).
Inúmeros mulheres contribuíram para o gênero. Uma mais linda que a outra: Brigitte Bardot, France Gall, Jane Birkin, Sylvie Vartan... Françoise Hardy teve uma carreira musical mais certeira, a começar pelo seu debut autointitulado, posteriormente conhecido como Tous les garçons et les filles (1962, atente-se, antes dos Beatles estrearem).
Se as maiores estrelas do gênero eram mulheres, por sua vez, assim como acontecia em qualquer indústria daquele período (e, infelizmente, até hoje), eram os homens que controlavam as produções. Mas no caso de Françoise, logo de cara ela assinou as canções, tirando do conteúdo a submissão e "inocência sexualizada" tão explorada no gênero, substituindo pela visão de uma jovem garota sobre o amor (também com inocência e sensualidade, mas com um tom muito mais pessoal).
"Tous les garçons et les filles" abre o disco já expondo o principal sucesso do disco, da cantora, do período. O canto discreto/tímido para uma melodia lindíssima cria todo um cenário de um mundo mais belo.
"Ça a raté" é o puro rock do período. Um rockabilly nada "billy", mas muito francês.
Há um tom misterioso em "La fille avec toi". O canto singelo, sem esforço, somado a imagem da capa, é o suficiente para nos fazer se apaixonar pela Hardy. Atenção para seu "yé-yé" cantado ao final.
A instrumentação simples que domina boa parte do disco (um violão rítmico que mais parece uma vassourinha (?), uma guitarra de crueza calorosa e um baixo saltitante) soa quase cômica em "Oh oh chéri" (Bobby Lee Trammell). Canção muito carismática, mesmo com tão pouco. Esse arranjo enxuto se contrapõe as grandes produções do yé-yé, transparecendo exuberância na simplicidade. O mesmo vale para "II est tout pour moi", essa com uma "bateria" (aka caixa) de captação magrinha, não querendo se sobressair ao que verdadeiramente importa: a Françoise Hardy.
Embora com trejeitos do surf rock, "Le temps de l'amour" tem o romantismo de uma livraria-café na Champs-Élysées da década de 1960. Quase me vejo andando com a Jean Seberg por lá. Desperta meu romantismo.
Adoro esse som reverberoso ao mesmo tempo que parece cantado ao pé do ouvido em "J'ai jeté mon coeur". A voz é tão charmosa que até esquecemos de admirar a irresistível guitarra.
A divertidinha "II est parti un jour", o "blues francês" "J'suis d'accord", a balada lindamente interpretada "C'est à l'amour auquel ja pense" fecham o disco.
O sucesso de Françoise Hardy transcendeu a França, o modismo, o yé-yé e as décadas. Da Rita Lee ao Beach House, passando por Eurythmics, Air, Avalanches e Beck, todos beberam dessa fonte. Ela lançaria outros álbuns tão bons quanto posteriormente (ou até melhores), mas é sempre bom começar do começo.
quinta-feira, 29 de maio de 2025
TEM QUE OUVIR: Sufjan Stevens - Illinois (2005)
quinta-feira, 1 de maio de 2025
TEM QUE OUVIR: Helmet - Meantime (1992)
Todos estão cansados de saber o quão efervescente foi o cenário do rock alternativo na década de 1990. Mas muito além dos grupos de Seattle, a ebulição se deu também via outras formas de rock, agregando caminhos menos ortodoxos ao hardcore e metal. O Helmet foi, em todos os sentidos, uma das bandas melhores sucedidas neste período.
Trazendo na liderança o Page Hamilton - guitarrista/vocalista/compositor com berço na cena jazz nova-iorquina e, posteriormente, músico queridinho de nomes como David Bowie (pois é!) -, o Helmet chegou ao sucesso comercial com o álbum Meantime (1992), lançado pela Interscope.
O som do grupo se consolidou e diferenciou dos contemporâneos ao se deslocar de qualquer "tosquidão". Há lapidação em meio ao peso e energia do grupo. Isso fica nítido logo na abertura do disco com a cavalar "In The Meantime".
"Iron Head" mostra que o Page Hamilton é um guitarrista tão bom que o refrão da música é um riff. Já seu solo fica entre a ruides e o virtuosismo outside.
A forma com que as pausar são utilizadas em meio ao peso das guitarras e baixos em "Give It" gera um riff poderosíssimo. Adoro também como a voz do Hamilton aqui é muito mais melódica, remetendo involuntariamente a cena grunge. O mesmo vale para "You Borrowed"
É impressionante como apenas com poucas notas e uma acentuação rítmica envolvente o Page Hamilton consegue criar riffs incríveis, vide "FBLA II". Destaque mais uma vez para seu solo estranhíssimo.
Falando em ritmo, não dá pra restringir as qualidades do grupo apenas ao seu líder. O baixista Henry Bogdan tira um timbre ultra robusto fundamental para a sonoridade do disco. Já o baterista John Stanier (posteriormente Battles e Tomahawk) é um dos melhores da sua geração. Entre os destaques que mostram o poder de fogo da dupla está a densa "Turned Out".
No meio de tantas boas canções há um clássico do período, a irresistível "Unsung", faixa de groove tão martelante quando sacolejante.
Vale ainda deixar registrado que o disco teve engenharia do Steve Albini, mixagem do Andy Wallace e masterização do Howie Weinberg, uma ficha técnica de respeito e que, para mim, ajudaram a fazer deste período um dos mais exitosos em termos de produção na história do rock.
Esse álbum ajudou no desenvolvimento de diversos gêneros como o metal alternativo e post-hardcore, além de ter influenciado inúmeras bandas de new metal. Todavia, acima de tudo, ele é um apanhado de canções poderosas.



















