A música eletrônica teve um caminho gradual de evolução estética e comercial, vindo desde experimentações de vanguarda no início do século XX, chegando em seu apogeu na década de 1990, quando virou uma cultura consolidada.
Dentre tantas expressões neste segmento que trabalham diferente formas, BPM's, dinâmicas e climas, o techno explodiu como uma força de contracultura justamente num período onde a apropriação do emblema "música eletrônica" se difundia na música pop como uma saída para o futuro (feito isso de forma exitosa ou não).
Oriundo de Detroit, berço do techno, Jeff Mills, um negro franzino de olhar singelo, se consagrou como um majestoso produtor e DJ, que fazia das suas performances uma amalgama de uma geração.
A Tóquio de 1995 vivia o esplendor de uma economia acelerada e noites movimentadas. Neste cenário, o Liquid Room foi se consagrando como um centro do que havia de mais efervescente no período. E foi lá que Jeff Mills fez essa performance histórica, que passado mais de três décadas, continua circulando de mão em mão como exemplo de mixagem ao vivo, com imperfeições técnicas (de execução e gravação), mas transparecendo na captação (com microfone, pegando também a plateia) o clima quente de suor, cigarro, entusiasmo, paixão e liberdade.
A gravação tem pouco mais de 60 minutos (dizem, de uma performance de 3 horas) e 38 faixas, traçando um apanhado do trabalho do Jeff Mills enquanto produtor, mas também de seus contemporâneos que se consagrariam nesse circuito, vide Joey Beltram, Surgeon, The Advent, DJ Skull, Morgan, dentre outros, muitos do coletivo Underground Resistance, organização fundada por Mills em Detroit com o intuito de aglutinar um setor desfavorecido pelas politica do Reagan, dando a essa classe uma consciência social e identidade cultural.
Como instrumento artístico, Jeff Mills utilizou não "somente" o mixer com dois toca-discos, mas também dois toca-fitas de rolo. Com isso em mãos, Mills proporcionou uma mixagem intensa e ambiciosa, onde não bastava a mera seleção e transição fluida das faixas, mas também trocas e pausas bruscas, scratches (ou mesmo "rebobinagens"), alteração do pitch, manipulação nas frequências... tudo pra causar furor na plateia ali presente; tudo com transpiração e técnica.
Jeff Mills se apresenta com uma faixa de nome sugestivo: "The Extremist". Mas é com "Magneze" (Surgeon) e a porrada "The Start It Up" (Joey Beltram) que o caldo começa a entortar. Em "Step To Enchantment" (Millsart) a plateia (e os ouvintes do disco) já está completamente rendida e absorvida pelo som paranoico que sai dos falantes. Quando começa a melodia de "Untitled A" parece que estamos diante de um hit das pistas.
Com a consciência rítmica de um atleta, velocidade de raciocínio de um improvisador de jazz, sujeira e rebeldia punk, além de uma personalidade urbana oriunda do hip hop, Jeff Mills vai construindo uma apresentação inesquecível.
É curioso ouvir "Play With The Voice In USA" (Joe T. Vannelli) hoje e perceber uma certa aura/alegria presente naquilo que entendemos como o elemento eletrônico do funk brasileiro.
Nas sobreposições de "i9" e "Changes Of Life" se revela o frescor não lapidado das produções executadas naquela noite.
Sou completamente enlouquecido pelo pelos timbres de "Eternal Sun" (IO), faixa que parece borbulhar em ondas elétricas. Sua junção com "Gameform" (Joey Beltram) é pra levar o ouvinte ao frenesi.
O pulso grave "AX-009" parece martelar no cérebro em BPM elevado. Dá até um certo calafrio. Ainda mais seguida da soturna "Move" (Surgeon).
A segunda seção do disco começa eletrizante com uma mixagem viva entre "Bad Boy" (The Advent) e "The 187 Skillz" (DJ Skull). Entre tentativas e "erros", se cria uma violência sônica pulsante e irresistível. Tudo isso para desaguar no clássico de Detroit, "Strings Of Life" (Rhythim Is Rhythim), uma faixa quase libidinosa, como o brilho da disco music.
O som bruto de "Avion" (Damon Wild) tem tanto um caráter repetitivo da música industrial quanto minimalista. Adoro sua construção. Sua resolução nas herméticas/ambient "X-102" e "Growth" é de grande valor estético.
Em "Casa", início da terceira seção, há o registro do Jeff Mills lidando com o improviso, com o erro. Em tempos onde a música eletrônica abusa de recursos digitais e quantizações, ouvir um DJ mixando na unha, de verdade, é um alívio para os ouvidos. Sua conclusão com a saturadíssima "Life Cycle" é digna de despertar a vontade de afastar os móveis de casa e abrir uma pista no meio da sala.
Ao mesmo tempo que é papo de tiozinho apontar a saturação comercial presente na música eletrônica de massa, é nítida também a discrepante força estrondosa presente em registros como esse. É um documento de uma contracultura, um símbolo de resiliência. Pensada tecnicamente, é quase obsoleta, mas arte não é sobre isso. Se até mesmo o Jeff Mills as vezes é engolido pela demanda instantânea de um DJ histórico nos mais diversos festivais/casas ao redor do mundo, aqui se mantém registrado a essência de uma cultura que a cada soa mais imponente.

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