terça-feira, 4 de agosto de 2026

TEM QUE OUVIR: Beth Carvalho - De Pé No Chão (1978)

A história de Beth Carvalho faz jus ao prestigio de rainha do samba que ela adquiriu. Filha de um advogado, estudou na infância piano clássico, balé e apaixonou-se pela bossa nova. Através da convivência com amigos em escolas e rodas de samba, aproximou-se do gênero mais brasileiro por essência, desenvolvendo uma carreira musical brilhante.

Com um faro apurado pra seleção de repertório e voz tão poderosa quanto graciosa, atingiu o sucesso comercial. Buscou parceria com bastiões do gênero, como Cartola e Nelson Cavaquinho, jogando luz em canções hoje tidas como clássicas. Com isso, tornou-se não somente uma das maiores intérpretes do samba, mas da música popular brasileira.

Atenta as rodas de samba do subúrbio carioca - os pagodes -, passou a frequentar o bloco do Cacique de Ramos, onde conheceu os integrantes do Fundo de Quintal (Bira Presidente, Ubirany, Sereno, Almir Guineto, Jorge Aragão, Sombrinha, Arlindo Cruz, dentre outros). Dessa parceria vieram ótimos discos, sendo seu 11º trabalho, De Pé No Chão (1978), um clássico maravilhoso desde a capa.


Foi determinante para o êxito, frescor e potência do disco as inovações na instrumentação aqui presentes. Surgem instrumentos mais volumosos, criados pela necessidade festiva do gênero: o tantã, repique de mão e o banjo de 4 cordas.

Mas é o cavaquinho, instrumento de Beth, que abre o disco. "Vou Festejar" dispensa apresentações. Uma faixa emblemática que traz a atmosfera de descontração presente tanto na letra quanto na capa do álbum. O coro de voz, o falatório, o ritmo frenético de matriz africana... tudo é brilhantemente arranjando por um grupo que tinha na química da prática o principal aliado. Um dos refrãos mais memoráveis e cantados Brasil afora. 

A crítica a como o samba e carnaval foram tratados enquanto meros produtos econômicos - engana-se quem imagina que a problemática é recente - é abordado na elegante "Visual". Seu arranjo crescente é um espetáculo.

O som percussivo dos terreiros orienta a empolgante "O Isaura". Por sua vez, vale se atentar até mesmo ao uso de um acordeom, trazendo uma mistura cultura propriamente brasileira.

O lirismo do canto de Beth em "Marcando Bobeira", somado ao ritmo carnavalesco, revela Beto Sem Braço como brilhante compositor que é. Aqui o velho "malandro carioca" é mais uma vez retratado. Curiosamente, aqui ele se encontra num lapso momento de responsabilidade, não visto com bons olhos pela comunidade.

O violão de 7 cordas (por Dino 7 Cordas), a flauta e o estilo composicional do Nelson Cavaquinho na lindíssima "Meu Caminho" mostra que Beth estava atenta as novas sonoridades, mas sem abandonar a tradição do samba. Vale notar um breve momento em que o violão de 7 é substituído por um baixo elétrico, para logo depois voltar o instrumento acústico.

A clássica "Goiabada Cascão" celebra o passado e a excelência do samba através de uma frase que virou bordão. Composição divertida e inteligente de autoria de Wilson Moreira e Nei Lopes. Por sua vez, a sacana "Você, Eu e a Orgia" é assinada por Martinho da Vila e Candeia. Ela tem a alegria, malemolência e refinamento que tão bem marca a obra da Beth.

A dobradinha "Lenço" traz aquela espirito portelense na dinâmica do disco. Canção linda, genuinamente rica em melodia e ritmo. O mesmo vale para "Passarinho", dona de uma melancolia terna que tanto adoro no samba. 

A exuberante "Linda Borboleta", com direito a arranjo de cordas e presença da Velha Guarda da Portela, faz jus a composição do Monarco. Já a poética e elegância melódica do Cartola em "Que Sejam Bem-Vindos" recebe um tratamento caprichado, com arranjo e interpretação charmosa.

Chega a ser curioso um disco que trouxe tanto frescor ao samba - verdade seja dita, com propriedade e sem invencionismo e oportunismo descabido - ser encerrado com a desolada "Agoniza Mas Não Morre" (Nelson Sargento). É até irônico. É também um manifesto, uma declamação de amor.  

Impossível pensar no fenômeno cultural e comercial que tornou-se o samba e o pagode omitindo Beth e De Pé No Chão dessa história. Disco esplendoroso. 

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Retrato superficial da cena alternativa contemporânea

 E NÃO SE FALA MAIS NISSO:



ACHADOS DA SEMANA: Kid Koala, João Bosco, Strapping Young Lad, Jeff Dahl & Poison Idea e Pilot

Kid Koala 
Já ouvi muita coisa nessa vida, mas não foram muitas as performances de DJ registradas em disco que batem de frente com o álbum Carpal Tunnel Syndrome (2000) do Kid Koala. É daqueles registros pra jogar na cara de quem diz que “DJ não é músico”. Criativo, divertido, instigante, estranho e virtuoso. 

João Bosco
Tava escutando o clássico Galos de Briga (1976) - álbum que contém a canção “Gol Anulado” -, e me perguntando a quem interessa o cancelamento do João Bosco? Não quer chamar de cancelamento, ok, então mesmo a crítica? Não que artista algum deva ser imune à crítica, mas sua fala e sua música é um ataque a o que exatamente? Vale perguntar isso ao lembrarmos a maneira melancólica que o Aldir Blanc morreu. Vale perguntar isso quando estamos falando de um dos maiores representantes da canção brasileira. 

Strapping Young Lad 
The New Black (2006). Tava com esse disco salvo aqui e não fazia ideia do que se tratava. Fui ver quem era banda e me deparei com o Devin Townsend (guitarra e voz) e Gene Hoglan (bateria). Entendi tudo. Como tudo que tem o Devin, é pesado, técnico e estranho, mas não exatamente faz minha cabeça. Ele não é um bom compositor. Mas se sua praia for “metal moderno” na linha do Nevermore vale conferir. 

Jeff Dahl & Poison Idea 
Dead Boy (1992). Mais um disco que não sei o porquê de ter salvo, mas dado os nomes envolvidos e o período lançado, esperei por punk rock certeiro e já bem acabado. É isso mesmo. Na época nem deve ter recebido grande destaque, mas hoje soa como um álbum potente. Muito legal. 

Pilot 
From The Album Of The Same Name (1974). Esse é meu tipo de som escapista. É pop rock perfeito. Inclusive, algo a se lamentar é a ausência do power pop no centro da música pop contemporânea. Poxa, não faz mal pra ninguém.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

ACHADOS DA SEMANA: Cólera, The Cramps, Ray Barretto e Jackson Browne

Cólera 
Após muitos anos fui escutar o Verde, Não Devaste! (1989) e fiquei com o sentimento de que esse é o melhor disco do Cólera. A disputa é acirrada. Aqui a energia parece lapidada e melhor captada no estúdio. Bandaça subestimada fora do circuito punk. 

The Cramps
Curiosamente, o mesmo que senti ouvindo o Cólera, veio à tona na audição do Psychedelic Jungle (1981). Que álbum maravilhoso! Ignore qualquer tecnicidade e aprecie algumas das melhores guitarras já gravadas no rock n’ roll. É cáustico, é eletrizante! 

Ray Barretto 
Acid (1968). Daqueles discos pra botar e suspender os amigos. Mas tem que ser em dia ensolarado e com muita bebida gelada. Aqui o percussionista traz toda a malemolência da salsa. Não bastasse ser muito divertido, é também ótimo pra quem quer pesquisar os ritmos afro-cubanos. 

Jackson Browne 
Daqueles compositores-cantores norte-americanos que não costumo dar muita bola, mas que vire e mexe acabo pegando pra escutar por adorar a sonoridade do período. Em termos composicionais e interpretativos, Running on Empty (1977) é realmente “americano demais”, o que pra gravação é um tremendo elogio, mesmo que estejamos falando de um registro ao vivo. Na ficha técnica estão David Lindley, Danny Kortchmar, Leland Sklar, Russ Kunkel e Craig Doerge. Vale conferir.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Bandas/Artistas da Espanha

Eu sei, eu já tinha finalizado o tema Copa do Mundo aqui no blog, mas a campeã Espanha me levou a ouvir alguns artistas que adoro e pouco comento, logo, por que não?

Sem pesquisa, apenas os “prediletos da casa”. Caso tenham recomendações de artistas espanhóis, deixem nos comentários.

ROSALÍA
A Espanha tem uma tradição de exportação de cantores pop, todos com aquela paixão calorosa que tão bem combina com o estilo. Mas convenhamos que Júlio Iglesias e Alejandro Sanz não são uma boa pedida de audição. Melhor é ouvir a estrela pop Rosalía, das mais talentosas do pop atual, não somente por seu canto afiado, mas também por trazer elementos da música erudita, folk e flamenco dentro de linguagens contemporâneas, vide o reggaeton. Seus discos são ótimos e ele é indiscutivelmente carismática.

Andrés Segovia
Outra tradição espanhola é o violão erudito. Fernando Sor, Francisco Tárrega e Andrés Segovia são alguns dos maiores nomes não somente da Espanha, mas da história do violão. Impossível estudar o instrumento e passar batido por eles. Foram incontáveis as vezes que, nada dúvida do que ouvir antes dormir, escutei algum disco aleatório do Segovia. Seu violão vale por uma orquestra. Que técnica, que timbre, que performances!

Paco de Lucía
Falando em violão, eis o rei do flamenco, gênero propriamente espanhol. Inclusive poderia discorrer sobre inúmeros representantes do estilo, vide por exemplo o icônico Camarón de la Isla, mas é seu parceiro Paco de Lucía que mais fala ao meu coração. Apesar (e por conta) da monstruosidade técnica, sua música salta alto pelo lirismo, melodias, fraseado e paixão. Monstro!

Eskorbuto
Assim como tantos no Brasil, conheci essa banda por conta da regravação do Ratos de Porão pra “Mucha Policia”. O mais legal do grupo é ouvir a ferocidade punk conjunta do lirismo da língua espanhola. Bem legal!

Barón Rojo
Verdade seja dita, não conheço esse grupo tão bem, mas é dos primeiros que lembro quando o assunto é rock na Espanha. É um hard heavy bem do honesto .

sábado, 18 de julho de 2026

ACHADOS DA SEMANA: The Band, Madonna, Lobão, Allan Holdsworth e Possuídos Pelo Cão

The Band
The Last Waltz (1978). Após tantos anos de blog, ainda não havia deixado registrado o quão acho esse disco espetacular. Um documento verdadeiramente histórico, não somente pela situação e nomes envolvidos, mas também pelo resultado final. Ouvi sua versão completa quádrupla e fiquei maravilhado. Um show para se estar. É um clássico, todos sabem, mas vale relembrar. 

Madonna 
Madonna lançou um elogiado disco novo, mas antes de adentrá-lo, preferi me ambientar reouvindo seu passado. Primeiro peguei o True Blue (1986) que está comemorando 40 anos do lançamento e envelheceu muitíssimo bem. Adoro a sua sonoridade fruto de grandes produtores, arranjadores, músicos e estúdio. Fora que tem tremendas (e memoráveis) composições. Clássico do pop! Na sequência ouvi o Confessions On A Dance Floor (2005), que na época não me pegou, mas achei que o problema está em mim, já que eu era apenas um metaleiro. Todavia, reouvindo agora, entendo que ele aponta uma nova direção pra Madonna e pro pop em si - Lady Gaga viria na sequência caso não tivesse saído esse disco? -, soando mais eletrônico, mais pista. Entretanto, não é a Madonna que salta aos meus ouvidos. 

Lobão
Não estranhem se eu passar a limpo a discografia do Lobão. Isso posto, reouvi sua estreia, Cena de Cinema (1982). Acho um tremendo álbum de pop rock brasileiro. Tem o espírito carioca, que tão bem se adequou a new wave. Boas composições e uma sabedoria discreta nos arranjos e performances. Mesmo a produção magrinha tem seu charme, soando datada, mas sem o terrível deslumbre tecnológico. Muito pelo contrário, chega a ser orgânico de tão precário. Bem legal.

Allan Holdsworth
I.O.U. (1982). Isso aqui não existe! Compor e tocar nesse nível é aberração. As harmonias e melodias evoluem sob encadeamentos improváveis. O tanto de convenções faz da performance algo completamente racional. Allan tá com aquele fraseado estupendo que já conheço e adoro, sendo que quem me chamou atenção então foi o baterista Gary Husband, que esmerilha por todo o disco. Assombroso.

Possuídos Pelo Cão
Possessed In The Circle Pit (2008). Pérola do crossover “old school” brasileiro. Perfeito pra ouvir na academia. As vinhetas são divertidíssimas. É sujeira.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Bandas/Artistas de Cabo Verde

Como ocorre em toda Copa, há sempre algum time sensação, se não necessariamente por sua técnica, certamente pela garra, aprimoramento do seu futebol e superação diante de adversários com maior peso histórico. 

Em 2026 a seleção de Cabo Verde foi, com razão, a queridinha. Embora tenha sido eliminada, o jogo contra a Argentina foi um exemplo de bravura, persistência e qualidade da equipe.


Pensando nisso, decidi dar uma escutada em alguns sons do país. Vamos a alguns achados. 


Obs: encerro por aqui meu especial Copa 2026. Confesso que não empolguei fazer uma lista da Noruega (quem sabe em outro momento). 


Cesária Évora 

Obviamente foi a primeira que lembrei. Na verdade era a única que conhecia. Cantora emblemática, conhecida como a rainha da morna, gênero cabo-verdiano. Sua voz é esplêndida, soando tão grandiosa quanto contida. Tem que conhecer!


Tito Paris

Mais um representante da morna. A capa do Dança Ma Mi Criola (1994) já me conquistou de imediato. Sua voz e guitarra/violão são de grande profundidade interpretativa. Tem muito balanço, além de performances instrumentais acima da média. De grande encanto. 


Bulimundo 

Outro estilo muito difundido em Cabo Verde é o funaná, gênero que tem o grupo Bulimundo e seu líder, o Ildo Lobo, como grande representante. Vozes entusiasmadas, acordeon, guitarra e percussão metálica interagem num ritmo dançante, hipnótico e convidativo. Não fosse a língua, eu diria que é música brasileira do norte ou nordeste. 


Gil Semedo

Um ícone pop do país. Representa uma modernização dos ritmos do arquipélago. Todavia, ao contrário de outros nomes que investem nessa sonoridade de forma nem tão exitosa - ao menos aos meus ouvidos -, aqui ainda há um calor particular e divertido. Vale escutar suas produções nos anos 90.