sexta-feira, 27 de março de 2026

Heróis da Telecaster

Anos atrás - 2014, mais de uma década, eita blog velho! - fiz um post enaltecendo alguns heróis da guitarra que usavam Stratocaster (veja aqui). Hoje li sobre os 75 anos da Fender Telecaster, talvez meu modelo de guitarra predileto, de modo que me deu vontade de lembrar alguns músicos que usaram o instrumento. 

Sem papo furado, vamos a eles.

Steve Cropper
Talvez o primeiro grande herói da guitarra a usar telecaster, sendo que o som estalado característico do instrumento combina muito bem com os grooves certeiros que ele discretamente embutia nas canções da gravadoras Stax.

James Burton
Lenda viva do instrumento, James Burton é um dos pilares da guitarra rock, principalmente pelo seu trabalho ao lado do Ricky Nelson e Elvis Presley. Seu estilo trazia muita da country music. Se o Keith Richards usa tele, provavelmente é por influência dele.

Albert Collins
Tão associado a "branquitude" country, sempre me chamou atenção o fato do bluesman Albert Collins adorar a telecaster. Certo ele!

Keith Richards
O mestre dos riffs tem talvez na tele sua fiel escudeira. Aquela guitarra sem a corda E, em afinação aberta, é uma arma nas mão do Keith.

Roy Buchanan
Um dos meus timbre de guitarra prediletos é do Roy. A guitarra é extensão do seu corpo. Ele é capaz de faze-la gritar, chorar e sorrir. Que som, que guitarrista! 

Danny Gatton
Um dos guitarristas mais versáteis de todos os tempos. Tocava country, rock e jazz com a mesma categoria. Para isso, fez uso também de um instrumento versátil.

Joe Strummer
Tô numa fase de amor total pelo Clash, então não posso deixar o Joe Strummer de fora. Que guitarrista, que compositor, que cantor! Seu estilo cortante que transita entre o reggae e o punk definiu muito da guitarra rock.

Andy Summers
Mais um alicerce no desenvolvimento da guitarra rock. Muito de fala do uso de chorus, mas poucos lembram da telecaster que ele empunhava. Aqueles acordes com nona soavam grandiosos e agudos na sua guitarra, encontrando um espaço no som do Police. 

John 5
Quando ouvi o John 5 pela primeira vez fiquei espantado com o som musculoso e ardido que ele tirava de suas teles. O que o Zakk fez com as Les Paul, ele fez com a Telecaster. Repaginou o instrumento, sendo que, ao ouvir seu estilo, é fácil entender o porquê dele adorar o instrumento: sua influência gritante da country music o levou a ele.

Brad Paisley
Estrela da música country-pop contemporânea e um dos maiores telecasteiros da história. Ele domina o instrumento como poucos da sua geração.


Menções honrosas: Hellecasters (trio formado por Will Ray, John Jorgenson, Jerry Donahue), Albert Lee, George Harrison, Clarence White, Wilko Johnson, Prince, Francis Rossi, Vince Gill, Chrissie Hynde, Bruce Springsteen, Mike Stern, Steve Morse, Brent Mason, Jim Root.

ACHADOS DA SEMANA: "VA Urgh! A Music War", Bad Brains, Iron Maiden, Esther Phillips e Pepê Castro Neves

"VA Urgh! A Music War" (1980)
Não conhecia esse filme-show, mas o Barcinski fez um ótimo vídeo sobre ele e fui procurar pra assistir. Nem vale eu ficar falando da sua importância, melhor ver o vídeo do Barça. Ou então procura logo o show. Tem inteiro e com boa qualidade no YouTube. Já vou adiantar as performances que mais gostei: Police (como tocavam!), Oingo Boingo (aqui numa fase mais bem-vindamente “crua”), XTC, Klaus Nomi (registro clássico dele, que já tinha visto sem saber que pertencia a esse filme), Dead Kennedys, Steel Pulse, Cramps, Pere Ubu (que eu acho que nunca tinha visto em vídeo), Devo, John Otway, Skafish e Wall Of Voodoo, sendo que esses três últimos sequer conhecia. Tudo muito bem captado. Imperdível.

Bad Brains
Tudo bem, a estreia deles mora em nossos corações e é verdadeiramente um dos discos mais urgentes já gravados, mas o I Agains I (1986) também é um clássico. Mais irregular, com produção nem tão quente, mas ainda com pontos muito altos. As performances de todos são excelentes. Muita banda bebeu dessa fonte.

Iron Maiden
A Dunlop lançou um wah-wah homenageando o álbum Killers (1981) e foi motivo suficiente para eu reouvir o disco após anos. Os cinco primeiros da banda sempre revezam entre meus prediletos, mas dessa vez arrisco dizer que o Killers tá no topo. Tem a espontaneidade do debut, só que mais lapidado, tanto nas composições, performances e produção. Muito legal. E ah, tem boas passagens de wah-wah que, honestamente, nunca tinha associado ao Iron.

Esther Phillips
Meu pai adora a Beth Hart e não serei eu que irei censurá-lo. Mas botei o From A Whisper To A Scream (1971) da Esther Phillips na sua presença como forma de dar um toque de “não é isso que você tá procurando, não?”. Que voz naturalmente esplêndida! A performance da banda (que conta com Bernard Purdie, Cornell Dupree, Eric Gale, Gordon Edwards, dentre outros) também é majestosa. Fora a produção e arranjos (inclusive orquestrados) típicos do período. Uma maravilha! Não deixem de escutar.

Pepê Castro Neves
Coração Vulgar (1979). Não conhecia nem artista nem disco, mas tava salvo aqui então fui ouvir. Ao encontrá-lo no canal do YouTube do Tônico Manoel já esperei pelo fino da canção brasileira. No repertório há canções de Paulo César Pinheiro, Sá & Guarabyra, Nelson Cavaquinho, Toninho Horta, Cacaso, Sueli Costa, Guinga, Aldir Blanc, Egberto Gismonti, dentre outros. Impressionante, não? E o piano e a voz daquele que assina o álbum não decepciona. Muito pelo contrário, seu canto é sólido e o piano com certo grau de virtuosismo. Por terem “sambas discretos” ao piano, cheguei a lembrar do Benito di Paula, embora aqui exista um refinamento maior (sem demérito ao Benito), inclusive ao trazer arranjos espaçados, sem grande fuzuê. Excelente álbum.

terça-feira, 17 de março de 2026

TEM QUE OUVIR: Verdi / Callas / Giulini / Orquestra Alla Scala: La Traviata (1955)

Sem medo de ficar datado, apresento uma conjunção de fatores que levaram a escolha de La Traviata do Verdi como primeiro "Tem Que Ouvir" do ano. A começar pelo fato que tenho procurado iniciar todo ano com música erudita nesta seção. É uma forma que encontrei de me expor a novas experiências (visto que sou um leigo nesse campo), acumular conhecimento e prazeres, treinar a percepção, ir contra essa besteira de descentralização europeia através do apagamento artístico, além de valorização de fonogramas tão negligenciados quando falamos em “discoteca básica”. Todavia, há ainda mais que isso.

Comecemos com o fato da Maria Callas - intérprete aqui escolhida -, ser um nome razoavelmente conhecido, embora pouco escutado pelo “público comum”. Vale lembrar que a Angelina Jolie interpretou ela no cinema há pouco tempo. Uma introdução auditiva a sua obra parece oportuno.

Já a cantora pop Rosália gerou furor lançando um belo e aclamado disco (LUX, de 2025) em que coloca o canto lírico como inspiração para suas interpretações. Por sua vez, o ator Timothée Chalamet causou burburinho ao menosprezar a produção de óperas, alegando que ninguém se interessa por elas.

Com tudo isso, a ópera La Traviata (1853) do Giuseppe Verdi com interpretação de Maria Callas, orquestra e coro do Teatro Alla Scala e regência do Carlo Maria Giulini, pareceu uma tremenda pedida.

Verdi (1813 - 1901) é um mestre das óperas italianas. Seu estilo, comparado a outros compositores do romantismo, pode ser considerado mais melodramático e popular. Nada que aparente diminuir o valor estético de suas obras. 

Sendo a Maria Callas uma das principais cantoras líricas de todos os tempo, é de se admirar sua encarnação de Violleta, uma mulher mundana, frívola, dramática e apaixonada. Vale dizer que "traviata" significa transviada. Callas, aos 30 anos, expõe toda a intensidade da personagem com virtuosismo.

Essa gravação de 1955 tem brilho próprio. Não é tão cristalina, mas a orquestra soa organicamente enorme, ao mesmo tempo que serve de fundo para as acrobacias vocais da composição. Mérito não só dos cantores, mas também do Carlo Maria Giulini, um dos mais celebrados regentes do seu tempo. Não por acaso essa temporada foi um sucesso na época.

O Primeiro Ato da obra tem um inicio celebrativo/festivo. Vale aqui dizer que não vou discorrer atentamente sobre o enredo, por mais fundamental que ele seja. Meu enfoque é na música.

A valsa " Libiamo Ne' Lieti Calici" parece que sempre esteve presente no meu imaginário, tamanha sua força. Aqui se revela não somente a excelência de Callas, mas também do Giuseppe Di Stefano, um tenor brilhante que da vida a Alfredo, jovem abastado e par amoroso de Violetta.

Vale se atentar ao som da plateia, dos risos e dos passos da atuação, tudo isso presente em "Che è Ciò", trazendo charme e vida para a captação. Tanto que ao final "Un Dì Felice, Etera" o entrosamento da dupla de cantores é tão explendido que arranca palmas da plateia. Pode ser comum, mas desmistifica para mim muito da rigidez formal das gravações clássicas. Talvez em óperas o comportamento seja diferente mesmo.

Se por um lado "Ebben? Che Diavol Fate" tem em seu final dobras vocais que me remeteram a música caipira (entendam isso como quiserem), a presença estonteante do coro e da orquestra do Teatro Alla Scala em "Si Ridesta In Ciel L'Aurora" é de arrebatamento heavy metal.

"È Strano, È Strano!" e "Follie! Follie!" são registros quase à capella da Maria Callas. É impressionante as notas altíssimas que ela atinge, passeando com desenvoltura, afinação, paixão, fôlego e volume pelos caminhos melódicos que Verdi propõe. Frutos da combinação de uma soprano e um compositor expendidos. "Sempre Libera" é um desfecho de malabarismo vocal para o Primeiro Ato.

Com um enredo marcado por negociações de Violetta com o Giorgio (pai de Alfredo, interpretado por Ettore Bastianini), envolto a separação, amores, conflitos familiares e tuberculose, temos um momento mais dramático (com direito a reviravoltas, insultos e rendições) e instrumentalmente sóbrio no Segundo Ato, sendo a performance vocal em meio a narrativa o combustivo de fixação no ouvinte.

"Annina, Donde Vieni?" traz essa melancolia e clima de incerteza através de um diálogo cantando com profundida quase sombria. O mesmo vale para "Non Sapete Quale Affeito", mas aqui com um virtuosismo ainda maior.

Inicialmente um balanço dançante, "Morrò! La Mia Memoria" desagua na pura dramaticidade italiana. Lindo. O grau de emoção atingido em "Che fai? - Nula" é tamanho que arranca gritos de eufóricos.

Com sua voz barítono densa (tipicamente autoritária e paternalista), Bastianini revela na ária "Di Provenza Il Mar, Il Suol" o porquê de ser considerado um dos grandes interpretes de Verdi. Impactante!

Não posso deixar de mencionar que violinos velozes na introdução de "Inviato a Qui Seguirmi" me remeteu imediatamente a "Love Theme" do Barry White (!!!), música usada na abertura da novela Celebridades. Por essa vocês não esperavam, né? Isso posto, uma faixa de intensidade impressionante, que desagua na igualmente poderosa "Ogni Suo Aver Tal Femmina", dona de uma performance que arranca aplausos antes mesmo de chegar ao fim.

No Terceiro e último Ato, Violetta esta desamparada, prestes a sucumbir diante da tuberculose. Adianto que na história, apesar do reencontro com Alfredo e juras de amores e arrependimentos (incluindo de Germont), resta apenas tempo da sua partida aos braços do amado. Não há final feliz. Com isso, não é de se estranhar a melancolia  (e beleza) do "Prelúdio".

É de chorar a performance da Callas em "Addio Del Passato". O calor na interação dos personagens com a orquestra em "Ah, Non Più, A Un Tempio" justifica a sobrevivência da obra. 

O desfecho narrativo melancólico com "Prendi, Quest'è L'Immagine" e "Se Una Pudica Vergine" leva aos céus personagem e público.

Com pouco mais de duas horas de duração, La Traviata é um dos pontos altos do Verdi, da Maria Callas, das óperas e música erudita. Sua apreciação, por mais intimidadora que possa parecer incialmente, traz momentos de graça. Não feche essa porta para você. 

sexta-feira, 13 de março de 2026

ACHADOS DA SEMANA: Polara, Santana, Paulinho Moska, Earth Wind & Fire e Fuck Buttons

Polara 
A banda vai tocar aqui na minha cidade e eu tirei a poeira do Tempestade Bipolar (2005) e Inacabado (2008), dois álbuns seminais do indie rock brasileiro. Adoro como a banda dentro de um contexto do cenário alternativo contemporâneo nunca se rebaixou composicionalmente e nem ficou blasé. Tem complexidade, jovialidade e energia. Inclusive é um grupo que soube se apropriar do melhor do emo numa época complicada pro gênero. Envelheceu bem, inclusive servindo de influência para novos grupos. 

Santana
Trafegando pelo YouTube no domingo a noite cai num show ao vivo do Santana de 1970. Live At Tanglewood, em HD, qualidade ótima. Melhor ainda a performance do guitarrista. A banda é ótima, mas ele rouba a cena. Seu controle do feedback, a maneira que parece estar sempre tentando domar a guitarra (isso enquanto transcende materialmente), o fraseado soberbo… coisa de gênio. Lembrei do Hendrix, do Jeff Beck e cheguei a conclusão que naquela época era difícil bater de frente com o Santana. 

Paulinho Moska 
Vontade (1993). Não lembro o porquê de ter salvo esse disco pra escutar, mas aqui estava e decidi ouvir. Eu nunca tinha escutado nada do Moska, mesmo achando ele um cara bacana (ao menos em entrevistas). Esse trabalho tem a cara do cenário alternativo brasileiro rockeiro “bem pensante” da época, que aparenta tratar o rock nacional e a mpb com a mesma paixão. Algo completamente pós-Cazuza. Um tanto datado, mas bacana. As canções são boas, há uma energia rockeira bem vinda e o Billy Brandão arrebentando nas guitarras. Talvez o problema seja ser correto demais, inclusive nos momentos “atrevidos”.

Earth, Wind & Fire
All ‘N All (1977). Assisti o documentário do Paulinho da Costa e corri pra reouvir esse disco. Earth, Wind & Fire no auge. É funk e pop, tudo com um acabamento perfeito da indústria musical norte-americana. Que discão!

Fuck Buttons 
Tarot Sport (2009). Relembrei essa pérola da música eletrônica. Um álbum imersivo em sua proposta de “acid techno noise”. Gosto de como as produções progridem através da repetição rítmica e dos timbres estragados. Lembrando que a produção é do Andrew Weatherall.

terça-feira, 10 de março de 2026

DESAFIO PAIS DO BAURETS - #15discospara2026

Assim como tenho feito nos últimos anos, vou propor um desafio musical para 2026. A ideia é inspirada no Desafio Livrada - o desafio literário do canal Livrada -, que propõe 15 leituras para serem feitas durante o ano.

Serão quatorze discos da escolha de vocês e um escolhido por mim. A única regra é respeitar as categorias.

Por mais que seja simples ouvir 15 discos durante um ano, a ideia é arriscar nas escolhas, tentar algo fora da curva, conhecer gêneros pouco familiarizados e explorar os álbuns de maneira mais profunda.

Seguem as categorias deste ano:

Um disco frio
Uma homenagem ao Lucas Pinheiro, primeiro medalhista brasileiro das Olimpíadas de Inverno. A escolha é subjetiva. Pode ir por um país gélido, por um sentimento, pela telemática das composições… deixe a imaginação e a pesquisa agir.

Um disco que te faça se sentir latino (sem ser Bad Bunny)
Pós Grammy, Superbowl e vinda do Bad Bunny ao Brasil, rolou aquele "orgulho" superficial de ser latino-americano. Bom, que isso ao menos renda audições de outros artistas do continente. Preferencialmente algo que tenha essa suposta “latinidade”.

Uma ópera interpretada pela Maria Callas
Anos atrás saiu um filme sobre Maria Callas; Rosália lançou um disco aclamado com referências do canto lírico; Timothée Chalamet menosprezou as óperas… um combo de acontecimentos que me levaram a essa categoria que, sinceramente, é das mais legais e desafiadoras desse ano.

Uma trilha sonora de filme brasileiro
Dois anos seguidos com destaque a filmes brasileiros em grandes premiações internacionais me levou a essa categoria autoexplicativa. É uma infinidade de trilhas maravilhosas.

Um disco do país campeão da Copa do Mundo
Autoexplicativo. Como não vai ser Brasil ou EUA os campeões, então cabe.

Disco de um trio de jazz (independente da formação)
Autoexplicativo. Já propus outros formatos de jazz e power trio, então bora então juntar ambas as categorias. Esse formato enxuto é o ideal para apreciação de improvisos e condução de temas. Fora que não tem como enganar, tem que ser um instrumentista formidável. 

Um disco de um artista iraniano 
Ano passado já propus a audição de artistas palestinos. Esse ano vale virar os olhos para o Irã.

Um disco de um artista venezuelano
Mais um país atacado pelo imperialismo. Um vizinho nosso, estupidamente tão pouco valorizado.

Um disco desgraçado
O mundo não é fácil. Pra um álbum disputar atenção no meio de tanta desgraça, talvez só sendo igualmente desgraçando. Interprete isso como quiser.

Uma trilogia 
3 discos que se complementam. Já fiz post sobre isso aqui no blog. Pesquisem.

Álbum solo de um contrabaixista de uma banda de sucesso (não vale Paul McCartney e Sting)
Os baixistas tendem a ser músicos agregadores, com visão geral de arranjo, que jogam pro time… vale colocar os holofotes sob um deles e vê-los brilhando em carreira solo. Sejam criativos na escolha.

Um disco político
Uma categoria importante. É verdade que há discos demagógicos, panfletários e bestas que se encaixam nessa categoria, mas há também trabalhos inteligentes, sagazes e combativos. Basta saber escolher.

Um disco nada político
Importante também. Discos divertidos, ingênuos, talvez até alienantes. Ou então tão forcados na arte da criação musical que passa longe da politica. Resumidamente: trabalhos que não podem ser defendidos por recortes sociais. 

Seu disco pop predileto de 5 anos atrás
Todo ano bomba (inclusive em elogios eufóricos) algum disco pop que parece ser esquecido na velocidade da luz. Pegue então seu disco pop predileto de 5 anos atrás (vou dar um boi: até 10 anos) e veja se ele era isso tudo mesmo. Vai naquele que você adorou na época e nunca mais escutou.

London Calling, The Clash
Eu sei, é carne de vaca, mas tô obcecado novamente no disco. Álbum divertido, versátil, inteligente, exuberante, intenso e representativo. Importante mantê-lo fresco nos ouvidos. 

sexta-feira, 6 de março de 2026

ACHADOS DA SEMANA: RHCP, 50 Cent, Os Diagonais e Roberto Carlos

Red Hot Chili Peppers
A Juvi fez uma Tier List da discografia do RHCP e mencionou que o By The Way (2002) é seu disco predileto da banda. Normal, envolve questão geracional e gosto pessoal, então tudo bem. Fui ouvi-lo, coisa que não fazia desde quando foi lançado. Era uma banda importante pra mim na época, de modo que recebi o álbum muito mal. Escutando agora até gostei. É um trabalho de pop rock, com boas melodias e performance redondinha de todos. Nada extravagante, apenas boas canções. Preferível ignorar os singles que fizeram enorme sucesso e se concentrar nas outras canções. Vale ouvir sem a birra que nós mais velhos temos.

50 Cent 
Get Rich Or Die Tryin (2003). Mais um disco que odiava na época. E como fez sucesso, hein! Hoje soa mais encorpada do que parecia no passado. Mais pela compressão que pela força dos beats. Inclusive ainda não engulo esse clap cafajeste no lugar da caixa. O flow do 50 Cent também não é grande coisa (na faixa com o Eminem fica discrepante). Ao menos tem uns ganchos memoráveis, provavelmente escolhidos a dedo pelo Dr. Dre. Não é o inferno que achava, mas também não empolga.

Os Diagonais 
Cada Um Na Sua (1971). Daqueles grupos e álbuns que ouço falar há tanto tempo que até tinha impressão que já conhecia. Talvez até já tivesse escutado mesmo, mas não lembrava de nada. Ele é cultuado por conter um Cassiano em sua formação, mas o álbum revela ainda guitarras do Hyldon e Luis Wagner, a bateria do Paulinho Braga, baixos espetaculares do Luizão (ou seja, a grande cozinha da Elis Regina), teclados do Osmar Milito e uns tremendos arranjos (de vozes e metais). Tem aquele groove esperto que os DJs gringos tanto amam. Justificado, já que é um dos grandes álbuns do soul brasileiro.

Roberto Carlos 
Tudo bem, Roberto Carlos é até 1977, mas o de 1981 não é de se jogar fora. É das suas melhores capas, sua voz ainda tá ótima, tem arranjos exuberantes mesmo nas canções chatas, linhas de baixo lindas (deve ser o PCB), abre com a boa “Ele Está Para Chegar”, tem sua última grande canção (“As Baleias”), a clássica “Emoções”. Tudo isso pra dizer que encontrei por 5 reais e tive que trazer pra minha coleção. Sensacional.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

ACHADOS DA SEMANA: Grand Funk Railroad, Gov’t Mule, Minutemen, ZZ Top e Cidadão Quem

Grand Funk Railroad
Closer To Home (1970). Aquele típico disco que um velho rockeiro (como eu) adora ouvir pra sair da ressaca do carnaval. Entenda isso como quiser. Nessa audição achei esse até melhor que o Red Album, que sempre foi meu predileto da banda. Aqui os timbres tão mais redondinhos, há lapidação na performance e canções melhores desenvolvidas. Um salto sem perder o vigor. 

Gov’t Mule
The Deep End Vol.1 (2001). Não tinha me ligado nesse disco. Ele foi lançado após a morte do Allen Woody. Com isso, demonstrando até seu prestígio na cena, baixista icônicos se juntaram pra gravar esse álbum. Nomes como Jack Bruce, Bootsy Collins, John Entwistle, Larry Graham, Flea, Mike Watt, Roger Glover, dentre outros. Lista impressionante! O resultado é matador e divertido. Fora que, pra variar, o Warren Haynes tá tocando muito. Que timbre ele tira, né! Bonzão. 

Minutemen
Fui assistir um documentário sobre a o Minutemen (We Jam Econo, de 2005), o que me levou a dar melhor atenção ao The Punch Line (1981), estreia deles. Impressionante como eles já soavam entrosados. Todos tão tocando muito, mas tenho uma predileção pelo Mike Watt. Ele é embaçado! Canções curtinhas, mas que nem por isso pecam em criatividade. E é nítido que o RHCP bebeu muito dessa fonte. 

ZZ Top
Motivado por um vídeo do Nuno Mindelis, fui escutar alguns trabalhos “recentes” do ZZ Top que não tinha dado bola até então. Simplesmente adorei o XXX (1999). A banda tá soando poderosa, com todos tocando muito bem (normal) e extraindo timbres robustos que se comunicam tanto com a tradição blues rock quanto com o rock alternativo do período (dos que também bebiam da fonte do blues, como Beck e Jon Spencer). São “saturações analogicamente modernas”. Muito legal.

Cidadão Quem
Banda muito querida no Rio Grande do Sul, mas que nunca chegou aqui pelo sudeste. O Tavares tava falando o quão adora o Outras Caras (1993) e eu fui dar uma escutada. É bem bacana. Verdade seja dito, conceitualmente nem tão diferente do que propunha o Engenheiros do Hawaii, mas aqui acho melhor resolvido. Bem tocado, com uma “polidez” de produção pra adentrar na indústria, cheio de ótimos solos de guitarra, com uma comunicação com os países vizinhos da América Latina, um certo elemento radiofônico do hard rock… é bacana.