sexta-feira, 10 de julho de 2026

Bandas/Artistas de Cabo Verde

Como ocorre em toda Copa, há sempre algum time sensação, se não necessariamente por sua técnica, certamente pela garra, aprimoramento do seu futebol e superação diante de adversários com maior peso histórico. 

Em 2026 a seleção de Cabo Verde foi, com razão, a queridinha. Embora tenha sido eliminada, o jogo contra a Argentina foi um exemplo de bravura, persistência e qualidade da equipe.


Pensando nisso, decidi dar uma escutada em alguns sons do país. Vamos a alguns achados. 


Obs: encerro por aqui meu especial Copa 2026. Confesso que não empolguei fazer uma lista da Noruega (quem sabe em outro momento). 


Cesária Évora 

Obviamente foi a primeira que lembrei. Na verdade era a única que conhecia. Cantora emblemática, conhecida como a rainha da morna, gênero cabo-verdiano. Sua voz é esplêndida, soando tão grandiosa quanto contida. Tem que conhecer!


Tito Paris

Mais um representante da morna. A capa do Dança Ma Mi Criola (1994) já me conquistou de imediato. Sua voz e guitarra/violão são de grande profundidade interpretativa. Tem muito balanço, além de performances instrumentais acima da média. De grande encanto. 


Bulimundo 

Outro estilo muito difundido em Cabo Verde é o funaná, gênero que tem o grupo Bulimundo e seu líder, o Ildo Lobo, como grande representante. Vozes entusiasmadas, acordeon, guitarra e percussão metálica interagem num ritmo dançante, hipnótico e convidativo. Não fosse a língua, eu diria que é música brasileira do norte ou nordeste. 


Gil Semedo

Um ícone pop do país. Representa uma modernização dos ritmos do arquipélago. Todavia, ao contrário de outros nomes que investem nessa sonoridade de forma nem tão exitosa - ao menos aos meus ouvidos -, aqui ainda há um calor particular e divertido. Vale escutar suas produções nos anos 90.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Bandas/Artistas do Japão

Tá aí um país empolgante de se conhecer e falar, mas impossível de abordar tudo. Tanto que nem vou me atrever a tratar da música folclórica/tradicional, já que é um país com enorme registro de sua cultura milenar. Melhor ficar no campo da música pop (e ainda assim vou omitir muito trabalho legal).

Yellow Magic Orchestra
Costumo afirmar - sem muito embasamento - que o YMO é tão fundamental pra guinada eletrônica da música pop oitentista quanto o Kraftwerk. Fato é que muito do frescor da sonoridade da new wave e synthpop já era explorado aqui. Solid State Survivor (1979) é um clássico peculiar e divertidíssimo.

Ryuichi Sakamoto
Além de ser fantástico por si só, o YMO ainda deu ao mundo o Sakamoto, um dos grandes músicos e pensadores da música do século XX. Durante sua carreira ele transitou pela música pop, erudita, eletrônica, ambient, trilha sonora, tradicional, dentre tantos outros subgêneros. Somente ele já é um mundo a se explorar.

Toshiko Akiyoshi
O jazz japonês, assim como o jazz brasileiro, é um segmento próprio. Impossível falar de todos os grandes nomes (e confesso que nem sou grande conhecedor). Lembro do Ed Motta mencionar a Toshiko Akiyoshi. O interessante é que ela é não somente uma grande pianista, mas também petrificada bandleader e compositora/arranjadora pra orquestra.

Loudness
Quem gosta de heavy metal tradicional/oitentista certamente adora o Loudness, banda do ótimo guitarrista Akira Takasaki.

Merzbow
O grande nome do harsh noise. Não dá pra ouvir muito tempo, mas como proposta e experiência de vanguarda é impressionante. Adoraria assisti-lo ao vivo.

Shonen Knife
Há uma tradição japonesa tanto na música pop quanto no punk. Melhor que ambos os gêneros, é a fusão deles via as Shonen Knife, grupo que influenciou até mesmo o rock alternativo americano. Até o Kurt Cobain era um dos entusiastas. Banda divertidíssima.

Boris
Outro grupo que é a fusão de diversos segmentos. Tem noise rock, punk, stoner, sludge, drone… tudo em volume bárbaro. Tive a oportunidade de vê-los ao vivo e foi espantoso. Pink (2006) é um álbum clássico do rock alternativo.

Kyary Pamyu Pamyu
Muito mais legal que o k-pop é o j-pop, onde melodias bubblegum e timbres sintéticos são entrelaçados em ritmos frenéticos. Kyary Pamyu Pamyu é dos grandes nomes do estilo, tendo inclusive crescido muito na internet. Ela é divertidíssima e tem um trabalho muito instigante quanto observada além da superficialidade.

Otoboke Beaver
Das bandas mais legais da atualidade. É aquele punk maluco tipicamente japonês tendo na formação quatro garotas xaropes. Os discos são ótimos e ao vivo é divertidíssimo.

Masayoshi Takanaka
Ah, não poderia deixar de mencionar o hypadissimo city pop, uma espécie de AOR japonês que cresceu muito nos últimos anos. Há inúmeros artistas e discos fantásticos do gênero, sendo o Masayoshi Takanaka um dos mais prestigiados. Acho ele fantástico, sendo inclusive um excelente guitarrista.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Bandas/Artistas da Escócia

Sequência a essa viagem sonora por países que a seleção brasileira tem enfrentado na Copa.

Confesso que tive preguiça de pesquisar a música tradicional/folclórica escocesa, mesmo sabendo que encontraria muita coisa interessante. Simplesmente não tava “na onda da gaita de fole”, então poderia ser uma audição enviesada pro desgosto, se é que me entendem. Quem sabe outra hora. 

Listar todas as grandes bandas da Escócia também me pareceu uma missão interminável. Fechei nos meus 12 artistas prediletos. Perdão pela falta de maior dedicação.

Boards Of Canada
O nome engana, mas a verdade é que o duo é da Escócia. Tenho escutado muito nas últimas semanas por conta do novo (e ótimo) disco que lançaram. Mas o debut continua sendo o predileto mesmo. Adoro como eles trazem memórias e sentimentos humanos pra um estilo comumente frio como a música eletrônica.

Cocteau Twins
Ícones do dream pop. A banda mais etérea do rock. Recentemente assisti a Elizabeth Fraser cantando com o Massive Attack e voltei a alucinar com sua voz. Que grupo especial!

The Exploited
Das bandas mais icônicas do punk rock. Somente visualmente, com seus coturnos e moicanos, já foi suficiente pra influenciar centenas de bandas. O som me lembra a adolescência (mais por amigos que gostavam do que por mim). 

The Incredible String Band
Banda sessentista fundamental, justamente por ficar na linha tênue da psicodelia com o folk britânico do período. Vale a pesquisa atenta. 

The Jesus And Mary Chain
A primeira que pensei. E talvez seja a minha predileta da Escócia mesmo. Reis do noise rock, dos timbres maravilhosamente podres de guitarra. E no meio de todo o ruído havia muita melodia. Gigantes do rock alternativo.

Mogwai
Confesso que nunca foi minha banda do coração quando o assunto é post-rock. Mas também é das mais regulares, deste modo tô sempre acompanhando. E são ótimos mesmo. Talvez eu só precise assistir ao vivo pra me converter de vez.

Nazareth
Bandaça subvalorizada do hard rock setentista (menos em Curitiba, onde são estranhamente endeusados). Esqueçam as baladas e vão direto nos petardos com bafo de uísque e cheiro de cigarro. Fã de dad rock também é gente. 

Primal Scream
Daquelas bandas que tive fases: Adorei quando conheci, depois achei pastiche, agora voltei a amar. Aquela fase com o Mani no baixo é muito legal. Banda fundamental no cruzamento do rock alternativo com a música eletrônica (acid house).

Teenage Fanclub
Banda do coração, que vire e mexe volto nela. Das que melhor compreendeu o power pop. Sensacional.

The Waterboys
Das mais escocesas. Tanto pelos violinos quanto pela interferência da música folk local. Na década de 1980 lançaram muita coisa boa, depois confesso que não acompanhei.

Donovan
Compositor e cantor ícone dos anos 60. Fez muito bem a ponte do folk pra psicodelia. Infelizmente é pouco lembrado no Brasil.

Mark Knopfler
Não lembrava que ele era escocês, mas assim que me atentei não tive como ignorar. Um dos grandes guitarristas da história do rock, de carreira solo ainda hoje sólida. Sobre o Dire Straits nem preciso falar né.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Bandas/Artistas do Haiti

Ok, o jogo contra o Haiti já foi há dias, mas nem por isso devemos omitir o país em nossas audições.

Vale pontuar novamente que minha visão aqui é muito superficial. Até porquê, de Haiti só lembrava da música do Caetano Veloso e Gilberto Gil. Ignorância minha, claro.

Nemours Jean-Baptiste
Saxofonista, compositor e líder de banda. Ao que consta ele é o inventor do Konpa (ou kompa, compas), um estilo rico, com aquela solaridade tipicamente caribenha, tendo inclusive influenciado o zouk, ou seja, é bem dançante, música de salão mesmo. Há influência do jazz norte-americano, principalmente das big bands.

Webert Sicot
Aqui o jazz se mostra ainda mais presente, até por ele ser um saxofonista de mão cheia. Seu estilo é extremamente melódico. Poderia até soar cafona, não fosse o tremendo bom gosto. Adorei o álbum D’hier a Aujourd’hui (1980). Uma maravilha!

Orchestre Tropicana d’Haiti
Essa orquestra tem décadas de serviços prestados, tendo inúmeros instrumentistas passados pela sua formação. Seu som é calcado no merengue, estilo envolvente, convidativo para a dança.

Boukman Eksperyans
Aqui temos uma sonoridade que une o pop à tradição. De algum modo, me remeteu até mesmo ao início do axé, muito por conta das células rítmicas, não somente dos instrumentos de percussão, mas também das linhas vocais. Talvez também por alguns timbres de guitarra. Ao que consta há elementos extraídos das cerimônias de vodu. O aclamado Vodoo Adjae (1991) é muito bom, com direito a arranjos inteligentes. Será que o Caetano Veloso ouviu? Achei a cara dele.

RAM
Aqui mais uma vez o pop haitiano traz proximidade com a música brasileira, principalmente da região norte. No fim é tudo África! É um som que localmente deve soar banal em termos de nuances, mas que pra gente (ou ao menos pra mim) soa muito rico e divertido. Adorei as percussões (mais uma vez com a raiz vodu). Escutei o bom álbum Aibobo (1995).

Moonlight Benjamin
De imediato li que ela era “a Patti Smith do Caribe”, o que já desperta atenção. E faz muito sentido. Ela é uma voz de personalidade, (ao que consta) é bastante politizada em suas composições e manifesta uma atitude punk. Embora cantando em crioulo e com alguns elementos sonoros locais - o que é ótimo! -, dá pra colocá-la no centro do rock alternativo contemporâneo. O álbum Siltane (2018) é muito bom. Atenção também para as guitarras (meio blues, meio pós-punk). 

Wyclef Jean
Não sei se vale, já que ele não teve uma trajetória artística no país. Mas fato é que o rapper e produtor do Fugees é haitiano. Fica ao menos como menção.

Death In Haiti (2018)
Lembro desse disco ter me impressionado muito quando saiu. Ele é uma compilação que registra a autêntico música dos velórios haitianos, misturando bandas marciais, jazz caribenho, choro (inclusive de choradeiras profissionais) e cantos de lamento. É curioso, mas pesado também. Oba: em certo encontro com amigos, cada um tava escolhendo uma música pra tocar. Coisa corriqueira. Fui ousado e botei esse disco. Praticamente acabei com o rolê.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

TEM QUE OUVIR: My Chemical Romance - The Black Parade (2006)

Eu lembro quando o emo 00's reinava. Não vou mentir: eu achava uma bosta! Nem tanto quanto outros, que usavam o gênero para externar toda sua homofobia e arrogância com fenômenos comportamentais de gerações mais novas. Eu era apenas um adolescente metaleiro, ouvindo Lamb Of God e Deftones no meu quarto, enquanto compartilhava os mesmos ambientes com os emos do grande ABC (região que moro e que ajudou na solidificação massiva do movimento). Eu achava musicalmente uma bobeira, mas até aí, desde minha infância o pop rock foi predestinado a derrotas estéticas, então lidava com normalidade. E vale dizer que, mesmo os expoentes do gênero no Brasil, não souberam defender a própria classe, sendo assim improvável que os tiozões à la Régis Tadeu o fizessem, e muito menos eu, um jovem incapaz de articular qualquer pensamento sólido.

Mas voltando ao emo em si, por mais que hoje o estilo seja reavaliado e compreendido em toda sua complexidade comportamental, estética e de transformações da indústria musical - com direito a bandas como Fresno e Paramore ascendendo musicalmente em novas direções, levantando a bandeira do emo com verdade, mas também ironia -, não podemos omitir que boa parte do que pintou no emocore dos anos 2000 era uma porcaria. Ou no mínimo um produto de baixo valor agregado. Não vamos agora por revisionismo grosseiro enfiar goela abaixo Good Charlotte, Simple Plan e Panic! At The Disco, né?

O estilo incomodou até por ser uma "deturpação" não intencional do emotional hardcore (a.k.a. real emo). Na linha cronológica havia Rites Of Spring, Sunny Day Real Estate, Jawbraker, American Football, dentre tantas outros grupos que acumulavam prestígio do cenário alternativo. Mas foi naquele misto de euforia pop punk (já com Jimmy Eat World e The Used), rebelião de classe média (diante da falência do "sonho americano", do governo Bush), carência familiar e apelo publicitário juvenil, que a coisa desandou na virada do século, bombando na MTV bandas desprovidas de urgência, atitude, talento composicional e genuinidade. O emo não somente fez muito sucesso, mas virou um padrão comercial repetido massivamente em série.

No meio deste reboliço estava o My Chemical Romance. Superficialmente eles não destoavam. O visual dramático, com franjas escorridas, palidez estereotipada e olhos pintados até acentuavam os símbolos do movimento. Mas um olhar mais atento logo revelava diferenças.

A começar que a dramaticidade tinha uma raiz mais profunda. Musicalmente chegava até a trazer ecos de Smashing Pumpkins. Já a dupla de guitarras era muito acima da média. Por sua vezes, os clipes traziam roteiros e direções mais apurados, fugindo da estereotipia colégio/skate/festa. Tudo isso fez do My Chemical Romance a mais ambiciosa e emotiva das bandas emos. E, por incrível que pareça, isso era ótimo.

A banda já havia chegado ao sucesso com o hit "Helena", presente no (apenas) bom Three Cheers For Sweet Revenge (2004), mas quando saiu The Black Parade (2006) o patamar subiu. Não dava pra ignorar.


Produzido por Rob Cavallo, o disco trouxe um acabamento técnico, conceitual e performático gritante. Gêneros como hard rock, glam, rock alternativo, rock de arena, gótico, post-hardcore e pop punk se misturam ao emo. Resumidamente: foi o que Green Day tentou com o American Idiot (2004) - e de certo modo conseguiu! -, mas aqui com mais profundidade, inspiração e frescor. 

The Black Parade é um álbum conceitual. Da até pra chamar de ópera rock. O tema central é a morte, sendo as etapas da vida (principalmente memórias da infância) o embrião narrativo. Para isso foi criado um personagem em conformidade diante de um câncer em estágio terminal. Poderia soar batido, apelativo, pueril, enfadonho ou dramático demais, mas sendo o Gerald Way um artista talentoso (inclusive roteirista e escritor prestigiado), há exuberância tanto no enredo quanto na interpretação.

"The End" abre o disco expondo referência latentes. Tem Pink Floyd (fase The Wall), David Bowie e Queen. Isso tudo numa canção épica de menos de 2 minutos. Impressionante! Seu desaguar na excelente "Dead!" impressiona. A produção densa/massiva colocam as guitarras no centro da canção, destacadas inclusive por ótimos solos (meio Ace Frehley) do subestimado Ray Toro. Backing vocals enormes trazem ainda mais grandiosidade para o arranjo.

Se muitas vezes o emocore foi lembrando por falta de vigor, "This Is How Disappear" desmente a tese apresentando sensibilidade através da energia. O mesmo vale para "The Sharpest Lives", dona de melodias pegajosa, ritmo quase dançante e ótimas guitarras.

Eis que surge "Welcome To The Black Parade", que devido se devido o sucesso tornou-se quase um hino geracional, mas que tem como verdadeiro triunfo servir de catarse emocional, vislumbrando a morte através de memórias. A interpretação vocal teatral, a bateria marcial, a melodia de guitarra (à la Brian May) e, no seu cume, a energia pop punk. Não vou julgar um adolescente que chegou as lágrimas em seu final. É uma tremenda canção!

De beleza pop, "I Don't Love You" tem uma melodia certeira. E aqui fica nítido que mesmo diante do comercialismo, o grupo não era rasteiro. É uma música verdadeiramente bonita. 

Tiozões rockeiros se descabelando por uma juventude ouvindo canções como "House Of Wolves" só revela o rancoroso choque geracional. A música obedece todos os critérios de uma ótima música de rock.

Com teor melancólico, melodia afiada, belo arranjo de cordas e inteligente progressão harmônica ao piano, "Cancer" é uma baladona que deixaria Paul McCartney e Freddie Mercury orgulhosos.

"Mama" é uma das música mais singulares do período, inclusive revelando o humor e a qualidade técnica do grupo. Isso se dá tanto pelo ritmo gypsy punk, quanto pela presença improvável da Liza Minnelli. Divertidíssimo.

A energia catártica de "Sleep" passa pelos grandiosos acordes de guitarra, pela consistência da cozinha e, obviamente, pela performance voraz do Gerald Way.

Por mais que "Teenagers" seja um pastiche descarado de rock n' roll, acho ela tão divertida e bem feita que não consigo ignora-la. Se o riff é bacana, o solo é mais ainda. Já o refrão é feito pra cantar junto. Não por acaso, com o beneficio da distância temporal - onde pouco importa se uma gravação tem 20 ou 50 anos -, uma nova geração abraçou a música como se ela fosse um clássico do rock. Talvez ela seja.

A tristeza volta a imperar em "Disenchanted", uma balada bem construída que muito remete ao período que foi lançada. Por sua vez, "Famous Last Words" é mais triunfante e traz um desfecho narrativo consistente (além de ótimas guitarras).

Após décadas de lançamento, The Black Parade se consolidou como um vestígio de excelência num cenário de muito mais erros que acertos. No fim, as canções e performances são mais fortes que tudo.

Ah, sabem quem é ama esse disco? Gary Holt (Exodus e Slayer). 

sábado, 13 de junho de 2026

Bandas/Artistas do Marrocos

Em toda Copa do Mundo, procuro trazer ao blog uma visão (sejamos francos, superficial) da música de diferentes países. Ir pelos adversários da seleção brasileira sempre pareceu um caminho interessante. Já fiz isso como forma de torcida contra a CBF, mas hoje não mais. Acho bobagem. Não vou embarcar em nenhum patriotismo besta, nem tão pouco num desejo arrogante de que o futebol brasileiro se desmantele. Sempre será melhor se o Brasil ganhar. Isso posto, hoje trago alguns artistas do Marrocos.

Deixo claro que pouco conhecia a música marroquina. O que está aqui é a pesquisa e audição apressada feita nos últimos 5 dias. É o que meu tempo e amadorismo permitiu fazer. Mas vale ressaltar que é um dos países com a música mais instigante que já trouxe para Fora do Eixo desse blog. Vale a pesquisa e audição mais atenta.

Obs: uma das maravilhas da internet é permitir esse tipo de busca. Tudo bem, é tentador e bacana conhecer a “nova banda/artista indie britânica na crista da onda”, mas vale todos nós (me incluo nessa) aperfeiçoar nosso olhar para países pouco desfrutados em nossas audições. É uma viagem agradável e rica disponível na ponta dos nossos dedos. Sabemos aproveitar melhor nosso tempo.

Abdelaziz Stati
Um dos mais populares artistas de Chaabi, estilo de tradição folclórica, mas de difusão urbana. Sua música é altamente hipnótica, trazendo motivos/ganchos que se repetem em cima de batidas envolventes e, no caso do Abdelaziz, violinos sinuosos. Eu achei bem legal.

Najat Aatabou
Um ícone feminino do Chaabi. É muito interessante perceber que por trás de toda complexidade rítmica da música africana (e “peculiaridade”, termo horrível, mas real dentro do contexto de difusão musical no mundo), há um elemento pop crescente, que traz para as canções uma força possível de imagina-la sendo admirada e cantanda por uma multidão. Até as capas dos discos tem uma estética mais pop. Mas não se engane, é bastante “marroquino”. Fantástico.

Saïd Senhaji
Ao que consta, um dos artistas mais populares atualmente de Chaabi. Incrível se deparar com 112,5 mil ouvintes mensais no seu Spotify e se dar conta que nunca ouviu falar. Por trás de toda riqueza e tradicionalismo do musical (aqui até mais dançante), há um charme/energia mais comum ao pop em seu canto. Chutaria que ele é um galã local.

Hajib
Por sua vez, com todo respeito, Hajib não deve ser um galã. Mas sua voz é espetacular, combinando perfeitamente com os ritmos intrincados e alaúdes virtuosos. Hipnótico.

Mahmoud Guinia
Gnawa é um gênero que ouço muito falar, principalmente quando pesquiso sobre a psicodelia africana. Muitos guitarristas da África incorporam a sonoridade do guembri, instrumento de três cordas muito utilizado no gênero. Sendo assim, foi legal conhecer o Mahmoud Guinia, um dos principais nomes do estilo. Aqui há maior crueza, parecendo ser uma música mais “rural”. Curioso perceber rastros tanto do samba quanto do blues. Inclusive, de timbre opaco (provavelmente devido o uso de material orgânico na construção do instrumento.) chega a lembrar um berimbau.

Hamid El Kasri
Mais um grande nome do Gnawa. Como tem cantores especiais no Marrocos, não? Aqui mais uma vez se ouve ecos de música afro-brasileira. Tá tudo interligado.

Bab L’Bluz
Aqui chegamos numa proposta mais elétrica e contemporânea desses estilos tradicionais (Chaabi e Gnawa). Tem blues, psicodelia e distorções inseridas no guembri. Isso tudo sem parecer diluído, visto que é bastante fincado nas sonoridades marroquinas. Muito legal.

The Masters Musicians Of Joujouka
Pelo que percebi, esse coletivo de músicos tradicionais do Marrocos faz uma ponte com a cultura e artistas de outros países, criando fusões com rock, jazz e música eletrônica. Um produto de exportação com grande valor agregado.

Hassan Wargui
Aqui não temos o guembri, mas um banjo berbere. O álbum Algmad (2020) expõe a qualidade técnica do jovem artista.

Guedra Guedra
Pra finalizar, trago o som urbano, contemporâneo, dançante e complexo desse DJ. Ele parece incorporar todos os elementos centrais da música do país em produções de personalidade. Forte.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

ACHADOS DA SEMANA: Chico Buarque, La Máquina de Hacer Pájaros, Marshall Crenshaw e Wilson Simonal

Chico Buarque
Li uma declaração do Vitor Brauer dizendo que o álbum Vida (1979) foi fundamental para ele se permitir cantar. É o espírito DIY através de uma voz longe de ser unanimidade (eu adoro!). Foi aí que me toquei como o Chico Buarque, por trás de toda sua sofisticação composicional, nunca me soou intimidador. Ainda que superficialmente, fui gostar dele antes de Caetano e Gil. Isso provavelmente por ele ter o pé fincado na tradição, vide alguns sambas aqui presentes (“Deixe A Menina”) que não me surpreenderia se fosse de autoria do Noel Rosa. Curiosamente a sequência com “Já Passou” é praticamente uma bossa vanguardista. Lembrando que os pianos e arranjos são do Francis Hime. Álbum maravilhoso e por muitos negligenciado. 

La Máquina de Hacer Pájaros
Minha filhinha ganhou de um amigo meu o disco de estreia dessa ótima banda liderada pelo Charly Garcia. Acho que não escutava desde que conheci, há uns 15 anos. É bom pra caramba! Totalmente progressivo. De certo modo, me remeteu ao que seria o Tudo Foi Feito Pelo Sol (dós Mutantes) para os argentinos. 

Marshall Crenshaw 
Marshall Crenshaw (1982). Um disco de pop rock com a cara do período. Sua principal qualidade é o esmero nos arranjos, performance e timbragens (datada, mas sem soar mal, já que não é excessivamente polida). Tem algo de Police, mas também de AOR. Bem bacana. 

Wilson Simonal
A Copa do Mundo despertou em mim uma torcida que me levou a relembrar o trabalho do Wilson Simonal, artista que confesso conhecer mais por faixas isoladas que pelos discos. Peguei o sugestivo A Nova Dimensão do Samba (1964), gravado em seu esplendor vocal, com uma seleção de repertório preciosa, banda afiada (quem gravou as baterias?) e arranjos impecáveis (Eumir Deodato chega a assinar alguns). Tudo tão impecável que até deu vontade de avaliar seu momento de baixa. Li sobre o Ninguém Proibe o Amor (1975) ser muito apreciado (Ed Motta é um dos fãs confessos) e fui atrás. Há muita qualidade, mas também certa melancolia.