Eu cresci com aquela máxima de que o Revolver (1966) era o ponto de transição da carreira dos Beatles, levando-os a uma proposta mais ambiciosa em termos de composição e arranjo. E digo isso sem qualquer detrimento a fase anterior (verdade seja dita, alguns conservam essa opinião reducionista). Todavia, hoje parece um senso comum que o verdadeiro ponto de virada é o Rubber Soul (1965), sexto álbum do quarteto, lançado apenas 3 anos após a estreia.
Sua capa borrada/distorcida já aponta para um pré-psicodelia que assolaria o mundo posteriormente. Os quatro parecem adultos reivindicando a perda da inocência.
O rock n' roll irresistível de "Drive My Car" já abre o disco em ponto alto. É espetacular a forma que guitarra e baixo trabalham em uníssono num riff constante. As vozes em dobradinha do John Lennon e Paul McCartney funcionam muito bem (normal!). O piano no excelente refrão; o cowbell martelando o ouvido; o slide tocado não pelo George, mas pelo Paul; a divertida onomatopeia de buzina... detalhes que revelam a capacidade do grupo de fazer de uma simples composição virar algo enorme.
Seja pela letra, melodia ou uso de cítara, "Norwegian Wood (This Bird Has Flown)", é claramente um ponto de virada. Uma das grandes baladas da banda, que foge de qualquer esteriotipia deste formato de canção.
"You Won't See Me" é a lapidação no estilo de composição que eles vinham apresentando até então. A linha de baixo é um espetáculo e os backing vocals são divertidos (e hoje estereotipados). Melodia maravilhosa. Perfeito power pop.
Quantas bandas tentaram emular os vocais e guitarras rickenbacker de "Nowhere Man"? Uma pérola pop, simples assim.
"Think For Yourself" é uma das primeiras amostras do George Harrison botando as manguinhas de fora no quesito composição. A melodia é fantástica e as soluções rítmicas do Ringo Starr dão movimento ao arranjo. Entretanto, o que chama atenção mesmo são seus dois baixos, sendo um deles com um fuzz saturadíssimo, parecendo emular uma corneta. Muito legal!.
Ringo Starr sempre foi um amante da country music, sendo que ele expõe essa influência em "What Goes On". Impressiona a destreza do George Harrison ao emular os primeiros guitar heroes do rock, vide Scotty Moore.
Eu sempre adorei a ternura de "Girl". E não sou o único, não é mesmo Ronnie Von? Aqui vale notar como o olhar ao passado do John era muito mais “malicioso” que as "cafonagens" do Paul (que eu adoro!).
O que ainda não foi dito sobre "In My Life"? Uma das mais lindas baladas de todos os tempos. Melodia perfeita, entoada com a graciosidade rebelde do John Lennon. Atenção para seu solo de piano de recorte completamente barroco (mérito do George Martin).
Seja pela ótima melodia, guitarras de 12 cordas retro-influenciadas pelo Byrds, estupenda linha de baixo ou vocalizações perfeitas, a esquecida "If I Needed Someone" não é uma canção a se ignorar. Vale lembrar que a composição é do George Harrison.
Há ainda no disco o rock certeiro "The Word"; o olhar ao passado do Paul com a bonita "Michelle"; as guitarras estridentes em "I'm Looking Throught You"; a power pop "Wait"; e o rockinho bacanudo "Run For Your Life" (com direito a ótimas guitarras).
Um clássico tão batido que por vezes até esquecemos de admira-lo. Reserve um tempo e faça isso, por vezes é muito mais recompensador que ficar procurando a bola da vez.


