terça-feira, 18 de agosto de 2026

TEM QUE OUVIR: Discharge - Hear Nothing See Nothing Say Nothing (1982)

Ser disruptivo nunca foi sinônimo de alcançar prestigio. Mesmo tendo colaborado decisivamente para o desenvolvimento de gêneros como o hardcore, thrash metal, grindcore e crust - só para citar alguns -, muitos ainda ignoram a força do Hear Nothing See Nothing Say Nothing (1982), álbum de estreia do Discharge. 


Se nos EUA o punk rock já havia desaguado no hardcore através de grupos do Germs, Dead Kennedys e Black Flag, da pra dizer que os ingleses do Discharge foram embriões do hardcore europeu, que como só podia ser, trouxe características próprias, a começar por uma produção ainda mais abrasiva e densa, oriunda do approach do heavy metal já estabelecido no velho continente. 

Basta dar o play do disco pra ser jogado pra trás pelo avalanche sônico de "Hear Nothing See Nothing Say Nothing". A fórmula: Garry Moloney com sua bateria sequinha mandando seu influente d-beat, o canto impositivo do Cal Morris, o baixo gorduroso do Rainy, além do riff grave e solo tipicamente heavy metal do Bones. Simplesmente um clássico do punk hardcore!

Há um clima caos, euforia, distopia e podridão vindo de canções como "The Final Blood Bath". Seria enlouquecedora não fosse tão cativante.

A linha de baixo em "Protest And Survive" é maluquice pura. Parece que o instrumento borbulha em óleo diesel. Que riffão! Isso enquanto a letra faz um chamado para a sobrevivência através da luta.

Como já entrega a "cabeça de repolho" em meio a órgãos sensoriais na capa do disco, há um teor combativo/politico explicito no álbum. A veloz "I Won't Subscribe" aponta pra esse conteúdo. 

Não há como traduzir o pânico da guerra nuclear do período com outra música que não seja "A Hell On Earth". Repare no seu conteúdo, mas também na amplitude intimidadora das guitarras. Seu desaguar nos choros de "Cries Of Help" é o fio narrativo perfeito.

Com acordes dissonantes e velocidade descomunal, "Drunk With Power" é o que há de mais brutal produzido no período. Isso se prolonga pela robusta "Meanwhile" e na virulenta "The Possibility Of Life's Destruction".

O som que sai dos falantes de "The Blood Runs Red" é capaz de esmagar fisicamente os ouvintes.

Há um certo experimentalismo na forma hipnótica de "Free Speech For The Dumb", uma espécie de krautrock do hardcore.

"The End", como só podia ser, encerra o álbum com baixo e guitarra mais parecendo motosserras. 

Do Metallica ao Ratos de Porão, muitos foram os que beberam dessa fonte. Ainda que ninguém tivesse feito, valeria ouvir esse disco só para constar sua energia própria. Poucos minutos de pura selvageria e confronto. 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

ACHADOS DA SEMANA: Television Personalities, Ahab, Selena e Bill Haley

Television Personalities
…And Don’t The Kids Just Love It (1981). Eu adoro essa abordagem “punk com guitarra limpa”. Além de abrir espaço para baixos poderosos, funciona também como uma amostra dos potenciais do gênero muito além das estereotipias formais. Aqui a sonoridade fica entre o mod e o power pop. Adoro a interação e performances. E as composições, claro!

Ahab
The Call Of The Wretched Sea (2006). Não sei o porquê de ter salvo esse disco, mas fui dar uma busca e li sobre ser um álbum de “funeral doom metal”. E eu achando que o doom já era fúnebre por natureza. O trabalho apresenta exatamente o que se propõe: peso, ritmo arrastado e climas sombrios. Dentro desses parâmetros, beira o épico (no bom sentido, sem cafonice). O gutural do vocalista é do quinto dos infernos e há timbres impressionantemente grandiosos e graves. Tem cada riffão! É muito bom, mas tem que tá aberto pro inferno astral. 

Selena
Amor Prohibido (1994). Já tinha visto circular esse álbum em algumas postagens sobre a música pop latina. Mesmo desconfiado, decidi ouvir. Não é que achei muito legal! Tem elementos da cumbia, do pop norte-americano, guitarra shred, algo que prevê o forró eletrônico atual, bons arranjos, produção colorida, performance vocal agradável, versão pra clássico dos Pretenders… Impressionante! Muito mais interessante que qualquer coisa que a Shakira fez. Ouçam sem preconceito.

Bill Haley
Bill Haley Presents Lee Jackson (1976). Como assim o Bill Haley tem um disco de rock gravado com músicos brasileiros (o tecladista é o Marcos Maynard) e influência da música brasileira?! E é legal pra caramba! Raul Seixas deve ter ouvido e pensando “fiz tudo certinho”. Não é samba rock, é rock samba! Vale dizer que é um álbum de regravações, com direito a clássica “Rock Around The Clock” com solo de “Brasileirinho”! É bizarro, mas é divertido também.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

ACHADOS DA SEMANA: Rollins Band, Chucho Valdés, Aniceto & Campolino, Brincando de Deus e "Fábrica Ritmos"

Rollins Band
The End Of Silence (1992). Não sei qual foi a impressão que esse disco causou na época, visto que ele tem uma carinha de “surfada na onda do momento”, algo que, verdade seja dita, o Henry Rollins pode fazer, já que foi um dos que começou/inspirou muito do estava em voga no período. Isso posto, passado mais de três décadas, essa mistureba de Helmet com Faith No More soa bem legal. Vale dizer que a produção é do Andy Wallace. Que som de baixão!

Chucho Valdés
Live At The Village Vanguard (2000). É pura magia o que o virtuoso pianista cubano Chucho Valdés faz. Toda a complexidade do jazz latino soa convidativo aos ouvidos. Ele não economiza notas. É uma rajada, uma quebradeira solar. Quem toca bateria deveria dar uma atenção extra. Jazz pra estudar, contemplar e, até mesmo, pra deixar rolando em segundo plano em encontro com amigos.

Aniceto & Campolino
O Partido Alto de Aniceto & Campolino (1977). Esse disco - que salvei sabe-se lá por qual motivo -, surpreendeu ao apresentar para mim uma nova ideia de partido alto. Não é o samba do morro, é o samba rural. Tem até viola caipira em alguns momentos. O garfo e prato também surge enquanto instrumento. Embora seja um registro documental, vale ouvir pela beleza e alegria das canções em si, que transcendem qualquer peculiaridade mistificada.

Brincando de Deus
Recentemente rolou uma “discussão de twitter” sobre “novas bandas de nomes estranhos” do cenário indie/alternativo. Uma bobeira, já que vários desses grupos são ótimos. Mas, ao menos serviu para eu lembrar do Brincando de Deus, que não faria feio atualmente nem pelo nome e muito menos pelo som, que envelheceu muito bem. É um dream pop/shoegaze que pode ser colocado ao lado dos contemporâneos internacionais. Fica a recordação para o ótimo disco Better When You Love (Me) (1994).

Fábrica Ritmos (1992)
Compilação muito legal do início do funk (carioca) brasileiro. O groove do miami bass ainda era a base do gênero, embora ele já apresente uma malemolência própria. Tem sample bem legais (Afrika Bambaataa, Prince?, Beastie Boys? o narrador Silvio Luiz?). É divertido, inventivo, engajado, preconceituoso… é uma bagunça. Acho maneiro!

terça-feira, 4 de agosto de 2026

TEM QUE OUVIR: Beth Carvalho - De Pé No Chão (1978)

A história de Beth Carvalho faz jus ao prestigio de rainha do samba que ela adquiriu. Filha de um advogado, estudou na infância piano clássico, balé e apaixonou-se pela bossa nova. Através da convivência com amigos em escolas e rodas de samba, aproximou-se do gênero mais brasileiro por essência, desenvolvendo uma carreira musical brilhante.

Com um faro apurado pra seleção de repertório e voz tão poderosa quanto graciosa, atingiu o sucesso comercial. Buscou parceria com bastiões do gênero, como Cartola e Nelson Cavaquinho, jogando luz em canções hoje tidas como clássicas. Com isso, tornou-se não somente uma das maiores intérpretes do samba, mas da música popular brasileira.

Atenta as rodas de samba do subúrbio carioca - os pagodes -, passou a frequentar o bloco do Cacique de Ramos, onde conheceu os integrantes do Fundo de Quintal (Bira Presidente, Ubirany, Sereno, Almir Guineto, Jorge Aragão, Sombrinha, Arlindo Cruz, dentre outros). Dessa parceria vieram ótimos discos, sendo seu 11º trabalho, De Pé No Chão (1978), um clássico maravilhoso desde a capa.


Foi determinante para o êxito, frescor e potência do disco as inovações na instrumentação aqui presentes. Surgem instrumentos mais volumosos, criados pela necessidade festiva do gênero: o tantã, repique de mão e o banjo de 4 cordas.

Mas é o cavaquinho, instrumento de Beth, que abre o disco. "Vou Festejar" dispensa apresentações. Uma faixa emblemática que traz a atmosfera de descontração presente tanto na letra quanto na capa do álbum. O coro de voz, o falatório, o ritmo frenético de matriz africana... tudo é brilhantemente arranjando por um grupo que tinha na química da prática o principal aliado. Um dos refrãos mais memoráveis e cantados Brasil afora. 

A crítica a como o samba e carnaval foram tratados enquanto meros produtos econômicos - engana-se quem imagina que a problemática é recente - é abordado na elegante "Visual". Seu arranjo crescente é um espetáculo.

O som percussivo dos terreiros orienta a empolgante "O Isaura". Por sua vez, vale se atentar até mesmo ao uso de um acordeom, trazendo uma mistura cultura propriamente brasileira.

O lirismo do canto de Beth em "Marcando Bobeira", somado ao ritmo carnavalesco, revela Beto Sem Braço como brilhante compositor que é. Aqui o velho "malandro carioca" é mais uma vez retratado. Curiosamente, aqui ele se encontra num lapso momento de responsabilidade, não visto com bons olhos pela comunidade.

O violão de 7 cordas (por Dino 7 Cordas), a flauta e o estilo composicional do Nelson Cavaquinho na lindíssima "Meu Caminho" mostra que Beth estava atenta as novas sonoridades, mas sem abandonar a tradição do samba. Vale notar um breve momento em que o violão de 7 é substituído por um baixo elétrico, para logo depois voltar o instrumento acústico.

A clássica "Goiabada Cascão" celebra o passado e a excelência do samba através de uma frase que virou bordão. Composição divertida e inteligente de autoria de Wilson Moreira e Nei Lopes. Por sua vez, a sacana "Você, Eu e a Orgia" é assinada por Martinho da Vila e Candeia. Ela tem a alegria, malemolência e refinamento que tão bem marca a obra da Beth.

A dobradinha "Lenço" traz aquela espirito portelense na dinâmica do disco. Canção linda, genuinamente rica em melodia e ritmo. O mesmo vale para "Passarinho", dona de uma melancolia terna que tanto adoro no samba. 

A exuberante "Linda Borboleta", com direito a arranjo de cordas e presença da Velha Guarda da Portela, faz jus a composição do Monarco. Já a poética e elegância melódica do Cartola em "Que Sejam Bem-Vindos" recebe um tratamento caprichado, com arranjo e interpretação charmosa.

Chega a ser curioso um disco que trouxe tanto frescor ao samba - verdade seja dita, com propriedade e sem invencionismo e oportunismo descabido - ser encerrado com a desolada "Agoniza Mas Não Morre" (Nelson Sargento). É até irônico. É também um manifesto, uma declamação de amor.  

Impossível pensar no fenômeno cultural e comercial que tornou-se o samba e o pagode omitindo Beth e De Pé No Chão dessa história. Disco esplendoroso. 

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Retrato superficial da cena alternativa contemporânea

Eis minha tier list das bandas contemporâneas de rock alternativo/indie brasileiras de nomes estranhos!

Uma boberagem essa pauta "julgar nome de banda", mas ok, twitter (X) tem dessas. Quem sabe ao menos apresentou bandas bacanas pra quem até então não conhecia. 

Avaliei obviamente pelo som. 

As que omiti é porque nunca ouvi ou não lembro.

Assistam as bandas ao vivo!

E NÃO SE FALA MAIS NISSO:

ACHADOS DA SEMANA: Kid Koala, João Bosco, Strapping Young Lad, Jeff Dahl & Poison Idea e Pilot

Kid Koala 
Já ouvi muita coisa nessa vida, mas não foram muitas as performances de DJ registradas em disco que batem de frente com o álbum Carpal Tunnel Syndrome (2000) do Kid Koala. É daqueles registros pra jogar na cara de quem diz que “DJ não é músico”. Criativo, divertido, instigante, estranho e virtuoso. 

João Bosco
Tava escutando o clássico Galos de Briga (1976) - álbum que contém a canção “Gol Anulado” -, e me perguntando a quem interessa o cancelamento do João Bosco? Não que artista algum deva ser imune à crítica, mas sua fala e sua música é um ataque a o que exatamente? Vale perguntar isso ao lembrarmos a maneira melancólica que o Aldir Blanc morreu. Vale perguntar isso quando estamos falando de um dos maiores representantes da canção brasileira.

Strapping Young Lad 
The New Black (2006). Tava com esse disco salvo aqui e não fazia ideia do que se tratava. Fui ver quem era banda e me deparei com o Devin Townsend (guitarra e voz) e Gene Hoglan (bateria). Entendi tudo. Como tudo que tem o Devin, é pesado, técnico e estranho, mas não exatamente faz minha cabeça. Ele não é um bom compositor. Mas se sua praia for “metal moderno” na linha do Nevermore vale conferir. 

Jeff Dahl & Poison Idea 
Dead Boy (1992). Mais um disco que não sei o porquê de ter salvo, mas dado os nomes envolvidos e o período lançado, esperei por punk rock certeiro e já bem acabado. É isso mesmo. Na época nem deve ter recebido grande destaque, mas hoje soa como um álbum potente. Muito legal. 

Pilot 
From The Album Of The Same Name (1974). Esse é meu tipo de som escapista. É pop rock perfeito. Inclusive, algo a se lamentar é a ausência do power pop no centro da música pop contemporânea. Poxa, não faz mal pra ninguém.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

ACHADOS DA SEMANA: Cólera, The Cramps, Ray Barretto e Jackson Browne

Cólera 
Após muitos anos fui escutar o Verde, Não Devaste! (1989) e fiquei com o sentimento de que esse é o melhor disco do Cólera. A disputa é acirrada. Aqui a energia parece lapidada e melhor captada no estúdio. Bandaça subestimada fora do circuito punk. 

The Cramps
Curiosamente, o mesmo que senti ouvindo o Cólera, veio à tona na audição do Psychedelic Jungle (1981). Que álbum maravilhoso! Ignore qualquer tecnicidade e aprecie algumas das melhores guitarras já gravadas no rock n’ roll. É cáustico, é eletrizante! 

Ray Barretto 
Acid (1968). Daqueles discos pra botar e suspender os amigos. Mas tem que ser em dia ensolarado e com muita bebida gelada. Aqui o percussionista traz toda a malemolência da salsa. Não bastasse ser muito divertido, é também ótimo pra quem quer pesquisar os ritmos afro-cubanos. 

Jackson Browne 
Daqueles compositores-cantores norte-americanos que não costumo dar muita bola, mas que vire e mexe acabo pegando pra escutar por adorar a sonoridade do período. Em termos composicionais e interpretativos, Running on Empty (1977) é realmente “americano demais”, o que pra gravação é um tremendo elogio, mesmo que estejamos falando de um registro ao vivo. Na ficha técnica estão David Lindley, Danny Kortchmar, Leland Sklar, Russ Kunkel e Craig Doerge. Vale conferir.