domingo, 27 de setembro de 2026

TEM QUE OUVIR: Stevie Wonder - Songs in the Key of Life (1976)

Existem discos tão clássicos que eu até evito comentar no blog. Mas como ignorar Songs In The Key Of Life (1976)? Reouví-lo foi constatar novamente que ele é uma das grandes pérolas da história da música popular.

Estando no completo controle das decisões artísticas após o lançamentos de outras pérolas discográficas, Stevie Wonder conseguiu o direito de produzir um álbum duplo - talvez o melhor da história, sendo difícil encontrar gordurinha em meio as 17 faixas (ou melhor, 21) -. A oportunidade foi respondida com dedicação obsessiva. 

Vale lembrar que Stevie não é "somente" o cantor e multi-instrumentista que se reveza entre gaita, sintetizadores analógicos e bateria ao longo do disco. É ele também que assina as composições e produção.

A lindíssima e longa "Love's In Need Of Love Today" abre o disco com tamanha elegância que até chego a acreditar nas palavras esperançosas do artista. Um pop meloso guiado por melodia estupenda, harmonia incrementada, arranjo sofisticamente delicado e interpretação exuberante do Stevie. Eu ouço e me sinto abraçado.

"Have A Talk With God" traz um balanço envolvente em meio a uma progressão típica de blues. Agora, o que chama atenção mesmo é a instrumentação, com alguns timbres sintéticos e metálicos borbulhando em meio ao arranjo. Estranhamente convidativa e futurística.

É óbvio o refinamento erudito dado a "Village Ghetto Land". Sua construção barroca em cima de uma melodia vocal poderosa me faz lembrar "Eleanor Rigby" (The Beatles). Ambas estão num patamar tão alto que afastam qualquer outra canção deste posto. Aqui vale ainda o adendo para suas tecladas, que brilhantemente emulam quarteto de cordas e cravo. Atenção ainda para sua letra de abordagem social.

A sequência com "Contusion" nos leva a outro patamar de excelência. É um funk-jazz-rock instrumental que mistura Herbie Hancock com Frank Zappa. As melodias e convenções são bem intrincadas, embora sem perder o groove. Performance excelente de todos os envolvidos.

Agora, talvez o ápice da potência e groove seja mesmo "Sir Duke", tremenda composição em homenagem ao Duke Ellington, chegando a emular com virtuosismo o approach de uma big-band. Destaque para linha de baixo do Nathan Watts. O resultado é um funk alto astral de desenvolvimento melódico e harmônico improvável. Vale ainda dizer que seu refrão é não menos que memorável e irresistível.

Todo o balanço de Stevie salta pelos falantes em "I Wish", faixa de metais brilhantes, som clássico de clavinet, bateria sacolejante, além de um baixão costurando todo seu ritmo. Ah, tem também o refrão ultra cativante, claro!

Eu acho curioso ouvir a apaixonada "Knocks Me Off My Feet" e perceber nela muitos elementos do pop radiofônico dos anos 80. A começar pelo reverb intenso na voz e no aro da caixa. Isso traz uma "cafonagem" que, acompanhado do bom gosto harmônico, melódico e interpretativo do Stevie, dá luz à uma canção maravilhosa. 

É impressionante como o arranjo de cordas de "Pastime Paradise" é suficientemente espetacular ao ponto de ter gerado não somente esse hit, mas também o de "Gantsta's Paradise" do Coolio. Voltando a original, é brilhante sua amplitude sônica que aborda gospel (coro no final), música latina (as percussões), r&b (a intensão) e clássica (as cordas) numa coisa só. 

O lirismo de "Summer Soft" dá vazão para que Stevie inicialmente esbanje um suave timbre vocal. A canção evolui numa riqueza de composição e produção que faz o Steely Dan soar um amador. Impressionante.

O synth bass engenhoso de "Ordinary Pain" e o faro melódico aparado pelo groove "proto-g-funk" mais uma vez coloca Stevie como um criador à parte.

Todas essas canções já dariam um álbum simples perfeito, mas ainda havia mais!

"Isn't She Lovely" abre o segundo disco com Stevie na rédea de praticamente todos os instrumentos - tem um teclado do Greg Phillinganes, o resto é Stevie, incluindo a bateria estonteante, o synth bass cheio de balanço e o maravilhoso solo de gaita. Vale perceber que os sintetizadores foram usados não enquanto um elemento futurista (algo que acontecia muito no período), mas como instrumentos de construção sonora comuns, que trouxeram liberdade e controle ao Stevie. O resultado é uma canção emocionante sobre sua filha que acabara de nascer. Que melodia, que refrão, que performance! Um clássico pop adorável.

Mais contido, embora não menos reluzente, está o canto de Stevie em "Joy Inside My Tears". Suas cordas e synth bass formam a cama perfeita para uma melodia sonhadora. O terço final da música é uma maravilha.

O épico synth funk borbulhante de "Black Man" convoca os povos para uma união. Uma canção atual, embora pareça cada vez mais ingênua.

Há uma peculiaridade na forma com que o Stevie Wonder interpreta a música latina em "Ngiculela - Es Una Historia - I Am Singing". A instrumentação (é um clavinet?) e o ritmo não servem de caricatura, mas inspiram o artista. Por sua vez, à sua maneira, Stevie parece invocar Chet Baker na sonhadora "If It's Magic". Adoro como o artista passeia com naturalidade pelos acordes (numa celesta?).

Seja na harmonia refinada e, mais perceptivelmente, na célula rítmica, "As" traz para o disco influência do samba. Vale dizer que Herbie Hancock participa da música. Já na derradeira "Another Star" é George Benson que soma forças. O resultado é uma canção arrojada que, ao mesmo tempo que traz percussões e piano de salsa, aponta para uma frenesi da disco music. Seu final é feito para cantar junto.

Como prova da criatividade do artista, o disco original ainda vinha acompanhado de um vinil de sete polegadas contendo mais 4 faixas que, posteriormente, quando lançado em CD, foi compilado dentro do álbum. São elas "Saturn" (uma balada aventureira); "Ebony Eyes" (daquelas bobeirinhas que Paul McCartney e Elton John adorariam ter feito, com direito à muitas cores timbristicas); "All Day Sucker" (um funk pungente que poderia ter sido produzido hoje); e "Easy Goin' Evening (My Mama's Call)" (um devaneio e derradeiro momento instrumental). 

Toda essa riqueza musical não ficou restrita a um nicho de ouvintes. Songs in the Key of Life teve enorme alcance comercial e levou o Grammy de melhor álbum daquele ano. Fora que influenciou do Prince ao Anderson Paak. Reounvido agora, o álbum me faz rever o ateísmo. Não por acaso Stevie Wonder tornou-se símbolo da década de 1970, da Motown, da música norte-americana, da música preta, da soul music, da música pop. Talvez maior não há.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

ACHADOS DA SEMANA: Cymande, Heaven Shall Burn, Wynton Kelly Trio & Wes Montgomery e Jóhann Jóhannsson

Cymande
Esse grupo britânico tem como grande qualidade trazer elementos latinos e africanos para seu funk psicodélico. O álbum Cymande (1972) é agradável, divertido e viajante. Não por acaso foi redescoberto por inúmeros DJs/produtores em busca de matéria prima para samplear. Groove transcendental.

Heaven Shall Burn
Sempre ouvi falar sobre essa banda, mas nunca tinha escutado. Ao que consta eles são bem grandes na Europa (dentro do segmento do metal). Ouvindo o Iconoclast (2008) cheguei a conclusão que talvez eu tivesse gostado se escutado na época que saiu. É som pra moleque pretenso revoltado, não se comunicando mais comigo. Mas se sua praia for um metalcore melódico vai fundo (na real aí você já deve adorar).

Wynton Kelly Trio & Wes Montgomery
Smokin’ At The Half Note (1965). Cheguei ao disco por conta do Wes e de quebra veio Paul Chambers (baixo) e Jimmy Cobb (bateria). Mas foi o guitarrista que roubou atenção mesmo. Seu fraseado suave e fluido é de uma expertise que transcende o mero virtuosismo. Que bom gosto!

Jóhann Jóhannsson
Englabörn (2002). Antes de dormir botei essa obra do aclamado compositor islandês. Se não me engano faz parte de uma trilha pra teatro. Gosto de como as composições evoluem lentamente, progredindo através de elementos tanto da música antiga quanto contemporânea. Nisso instrumentos clássicos e eletrônicos interagem sem parecer uma grande questão. É uma experiência fluída e bela.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

ACHADOS DA SEMANA: Focus, Thin Lizzy, Judas Priest, Lou Reed, Siouxsie And The Banshees e toe


Focus
Por conta de um vídeo do Nuno Mindelis fui ouvir Focus e cheguei a um disco que não conhecia, o Hamburger Concerto (1974). O nome é uma bobeira sagaz, mas o som revela a excelente banda que era. Destaque para o Jan Akkerman, guitarrista que conseguia ser melódico, lírico e pesado na mesma intensidade. Fica ainda uma questão: onde foi parar a influência da música medieval/antiga nas bandas europeias? Beatles, Kinks, Deep Purple, Jethro Tull, Yes… vários grupos incorporam essa característica varrida do mapa após o surgimento do punk. Uma forma de romper com o passado? Um sinal da degradação do ensino musical nas escolas? Seja o que for, é uma realidade.

Thin Lizzy
Chinatown (1980). Que disco maravilhoso. Uma aula de guitarra rock ministrada pelo Scott Gorham e o subestimado Snowy White. Fora que cada vez gosto mais do estilo interpretativo do Phil Lynott. Se esse é um “álbum menor” da banda, então estamos falando de um dos maiores grupos da história do rock. Na real estamos mesmo.

Lou Reed
A Night With Lou Reed | Live At The Bottom Line (1983). Não lembro se já falei sobre esse show aqui no blog, mas ele tá completo no YouTube e eu reassisti. É daqueles shows pra se estar quando surge a famigerada e hipotética pergunta. De preferência ao lado do Andy Warholl. Lou Reed consegue dominar a atenção sem fazer nenhum grande movimento. Sua voz estranha, boas (e subestimadas) melodias, letras espetaculares e estilo vivo de tocar guitarra (naquele esquema “tentativa e erro”) é suficiente para reconhecermos seu brilhantismo. Fora que a banda é um absurdo, com direito ao grande Robert Quine, a segurança rítmica do Fred Maher e o baixo fretless do Fernando Saunders. Tudo isso num lugar pequeno. Que show!

Judas Priest
Daquelas obviedades que vale reconfirmar de tempo em tempo: Screaming For Vengeance (1982) é dos grandes discos não só do Judas Priest, mas do heavy metal. Que banda! E que guitarras!

Siouxsie And The Banshees
Hyaena (1984). Vi o Fábio Golfetti falando sobre esse disco e fui ouvir. Ele não costuma ser mencionado entre os principais álbuns da banda, mas é. Talvez seja ignorado justamente pela maior “estranheza”. Muito criativo. Atenção para as guitarras do Robert Smith (ele mesmo!).

Toe
Esse grupo japonês está em passagem pelo Brasil. Conheço muita gente (umas 3 pessoas kkkk) que adora, então fui dar uma maior atenção. Peguei o The book about my idle plot on a vague anxiety (2005) e fiquei maravilhado com o som de bateria. As ideias do baterista também, MAS O SOM, que timbre encorpado, com dinâmica, com sala… maravilhoso. Bom álbum, que vai perdendo a força conforme evolui, mas que demarca bem os caminhos do math rock. Por sua vez o For Long Tomorrow (2009) já apresenta uma evolução composicional ao explorar diferentes dinâmicas, uso de teclado e violão, elementos de post-rock e música minimalista, além de faixas com vocais. Isso sem abandonar as encrencas rítmicas. Muito bacana.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Breves pitacos sobre o Rock In Rio

Mais um ano de Rock In Rio, mais um ano que acompanho tudo de casa. Na verdade, nem de casa acompanhei muito. Não é nenhum absurdo dizer que foi a edição mais desinteressante do evento. Entretanto, o festival abre sempre a oportunidade pra gente rever alguns tópicos. Vamos a algumas impressões que tive:

- Detonautas + Biquíni é uma junção do inferno hein! Que tipo de pessoa achou que esse encontro seria bacana? Nem assisti, só a descrição já me causou calafrios. Obs: curiosamente, são dois grupos que fizeram amputação em seus respectivos nomes.

- Liguei a TV e tava o Rise Against tocando. Eles são muito eficientes em fazer punk rock esquecível. Encorpado, bem executado e sem inspiração alguma. Obs: eles enchem um Cine Joia? Bizarro eles no palco principal.

- Falar que achei bom o show da MC Taya seria um exagero, mas gosto de como ela é afrontosa. E acho legal existirem jovens metaleiros que se identificam com sua proposta, algo que não aconteceria na minha juventude. Nesse sentido, sou um defensor do “metal mandrake”. Engraçado o guitarrista emulando o John 5 (tava até com uma Telecaster).

- Não gosto de detonar bandas do cenário alternativo brasileiro, mas achei terrível as canções do Malvada. Todas parecem tocar muito bem, mas as músicas são péssimas. Pior ainda foi a presença da Day Limns, essa sim sem talento algum.

- O Sepultura é realmente um capítulo à parte, né? Historicamente desfalcados, em tour de encerramento, abrindo mão do repertório clássico e ainda assim sendo um dos fortes candidatos a grande show da edição. Uma força da natureza. Sensacional!

- Vi somente uns cortes do Avenged Sevenfold. A impressão é que os integrantes tem vergonha do próprio repertório. Deveriam ter também da performance atual, mas no fim o dinheiro sempre fala mais alto.

- Infelizmente não consegui ver Poppy, Bad Omens e Bring Me The Horizon. Tinha curiosidade (mais que apreço pelos artistas). 

- BaianaSystem é uma bandaça e faz grandes shows, mas não consegui embarcar nessa apresentação. Talvez não seja algo pra ver pela TV.

- O show do Jota Quest tocando Tim Maia até poderia ser uma boa sacada, mas a falta de vigor/sangue/coração na performance das canções só revelou a destreza técnica e fria da banda. Isso me refiro ao instrumental, claro, já que o quê o Flausino tem de simpático tem de péssimo cantor.

- Eu gostei do show do Barão Vermelho. O setlist é meio confuso dentro da proposta (formação original, mas tocando repertório dos anos 90), mas não chegou a me desagradar. Sem susto.

- Em algum outro lugar do mundo o Black Eyed Peas conservou tanto o público quanto aqui? Chega a ser impressionante como em 2026 alguém paga caro no ingresso e sai de casa num dia chuvoso pra assistir essa porcaria.

- Podem falar o que quiser, mas para mim o show do Roupa Nova beirou o perfeito. Até mesmo no sentido de representar a cafonice que é o Rock In Rio. Hit atrás de hit, performance excelente e, de quebra, participação do Guilherme Arantes pra trazer um peso extra. Eu adorei.

- O Péricles cantar o repertório da Motown é uma tremenda ideia, ainda que ele não tenha a voz que muitos imaginam que ele tem. Ao menos ele tem carisma e uma tremenda banda de apoio. Pena que ele leu 50% do tempo, sendo que em tempos de playback descarado, dá pra dar um desconto. Show ok. Se fosse o Ed Motta seria mais legal.

- Jon Batiste começou o show com presepada e eu já mudei de canal. Sem paciência pra músico talentoso que de tanto inflarem o ego agora acha que é Stevie Wonder. Não fode!

- Melhor que assistir o Jon Batiste é lavar a louça ao som do show do Belo.

- Gilberto Gil em show seguro e sem inspiração é melhor que 90% do que rolou nesse festival.

- Não deu pra ver a Laufey. Foi na segunda no horário da minha novela.

- A transmissão do show do Elton John começou as 23h30, então assisti três músicas e fui dormir. Foi o suficiente pra perceber que ele tá otimo (após enfrentar problemas de saúde), que comanda o palco como poucos (e sem pirotecnias), que tem uma banda muito bacana e que faria o grande show dessa edição do Rock In Rio. Levando em conta que ele já tocou em outras edições sem causar a mesma comoção, fica exposta a fraca escalação dessa edição. Elton John não tem nada com isso e fez sua parte.

- A escalação da segunda semana tava tão fraca que não me dediquei a assistir show algum. Espiei os esquecíveis shows do enfadonho Maroon 5, da Joelma, do Criolo/Amaro/Dino e acho que só. Jamiroquai até veria, mas perdi. É isso.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

TEM QUE OUVIR: Violeta de Outono - Violeta de Outono (1987)

A década de 1980 foi o período de solidificação do rock alternativo por todo o mundo, não sendo diferente no Brasil. Ao mesmo tempo que grupos como Blitz, Legião Urbana e RPM chegavam ao estrelato, o estilo se sustentava em pequenas cenas, movidos por fanzines, selos independentes, casas undergrounds, além, é claro, de grupos de menor alcance comercial, mas prestígio por seus trabalhos de ruptura em meio a pasteurização da indústria. Não é bairrismo apontar São Paulo como o grande celeiro do rock alternativo brasileiro. Dentre tantos grupos que merecem um espaço no Tem Que Ouvir deste humilde blog, o Violeta de Outono tem um apelo pessoal especial.


Diferente de outros grupos, o Violeta não teve como berço a USP ou redação da BIZZ. Era uma banda de operários da música, que já haviam passado por outros projetos, e concentraram à criação num grupo que transcendia as estereotipias do período. O pós-punk típico do período estava lá, mas também ecos psicodélicos e progressivos sessentista que, naquele período, era visto com maus olhos por uma geração que, ao querer se desprender do passado, criou novas normas para ser refém. Por exemplo, é difícil pensar em outro grupo daquela cena fazendo uma versão para Beatles, ainda que a música escolhida fosse a vanguardista "Tomorrow Never Knows". Aqui ela revela a excelência do grupo.

Fabio Golfetti é o grande personagem à frente do trio, completado por Cláudio Souza (bateria) e Angelo Pastorello (baixo). Com referências que iam de Pink Floyd, Gong e Terje Rypdal, ele driblou suas limitações vocais com letras delirantes/surrealistas que criam paisagens mentais, além de uma proficiência guitarrística latente. Sua voz tímida e pequena ganham amplitude através de reverbs espaciais. Na linda "Declínio de Maio" isso fica nítido. Vale notar que nela a psicodelia encontra a rigidez rítmica e os violões do The Cure. Atenção para a técnica de glissando oriunda do Daevid Allen no início do solo de guitarra.

Mas é "Outono" que abre o álbum, de forma muito mais direta e próxima de seus contemporâneos. É um pós-punk maduro e, vale dizer, até mesmo de maior acabamento técnico quando comparado aos conterrâneos. Há algo de Smiths, Echo & The Bunnymen e The Psychedelic Furs em seu alicerce instrumental.

É interessante como a acústica "Faces" se aproxima mais dos experimentalismos do Pink Floyd que das canções ao violão da Legião Urbana. Não é música pra acampamento!

De ritmo ritualístico e notas de guitarras agindo como um drone, é fácil reconhecer em "Luz" a vanguarda para sonoridades presentes do rock alternativo brasileiro (mundial) contemporâneo, vide Boogarins e Bike. A canção cresce com vigor e textura. Maravilhosa.

O rudimento na caixa de bateria em "Dia Eterno" é a sinalização pra um clássico do rock nacional. A letra alucinante não chega a lugar algum, dando uma sensação flutuante, mesmo diante de um ritmo veloz típico do pós-punk. O solo de guitarra do Golfetti é dos mais emblemático do período. Melódico e e etéreo. 

O disco ainda guarda nas mangas a densidade contemplativa de "Noturno Deserto" (com tremenda performance de todos) e "Sombras Flutuantes", a mais longa do disco, que como bem o nome leva a crer, é um delírio sônico. Impressiona os timbres que o Golfetti tirava já naquele período. 

Embora tenha fica sempre restrito a um nicho de admiradores, o Violeta de Outono sempre passou ileso pelos altos e baixos do rock nacional oitentista. Não são muitos que conhecem esse disco, mas é cada vez maior aqueles que cultuam.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

ACHADOS DA SEMANA: Elis Regina, Detrito Federal, Língua de Trapo e The Hidden Cameras

Elis Regina
A entrevista com o Roberto Menescal no Roda Viva desta semana me fez relembrar o clássico álbum da Elis Regina lançado em 1972. Com produção do Menescal, o disco foi um dos que mais vendeu da Elis. Não por acaso estão nele inúmeros clássicos, vide “20 Anos Blue”, “Bala com Bala”, “Mucuripe”, “Águas de Março”, “Cais” e “Casa No Campo”. Maravilhoso.

Detrito Federal
Tanto se fala no punk de Brasília que fui ouvir essa banda de excelente nome. Lembro na adolescência de um amigo ter o disco (o da clássica capa amarela), mas acho que não cheguei a escutar na época, então fui ouvir agora. Achei que seria uma demonstração de atitude e peso em detrimento ao “punk” do Capital Capital. É mais “urgente” mesmo, mas ainda é uma bobeira mais tosca que exitosa. Longe de mim querer ser bairrista, mas fiquem com punk de São Paulo mesmo. 


Língua de Trapo
Daquelas bandas que ouço falar desde sempre, mas que não me animava em ouvir com maior atenção. Mas caí no Língua de Trapo (1982) e dei uma chance. É o que eu imaginava: uma piada que perdeu a graça. Nada contra, é bacaninha, mas nesse sentido de equilibrar humor e uma reflexão/elaboração sobre a canção popular, o Premê faz muito mais minha cabeça (pra não falar do Grupo Rumo, que aí é outra categoria). Na época devia ter um frescor mesmo, mas ele não se conservou.


The Hidden Cameras
Estou involuntariamente em audição de grupos que desviaram daquela ideia heteronormativa do indie rock 00’s. Dessa vez cheguei por acaso no The Smell Of Our Own (2003), álbum de sonoridade grandiosa. Acho que eles mesmos chegaram a afirmar ser um “som de missa gay”. Faz total sentido. Uma pérola do indie pop.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

ACHADOS DA SEMANA: Mike Stern, Rainbow, Derek Bailey & Dave Holland e Alberta Hunter

Mike Stern
Odds Or Evens (1991). Vi a Juvi falando sobre esse disco ser um de seus prediletos de guitarra fusion. Gosto muito do Mike Stern, mas não lembrava ter escutado, então assim fiz. Ele já tem uma produção bem mais polida/cristalina, o que pro gênero não é um problema.

Rainbow
Desde aquele encontro do Blackmore com o Deep Purple, voltei a ficar obcecado pelo guitarrista, o que fez com que eu chegasse a discos que nunca dei grande bola. E sendo franco, Down To Earth (1979) passa longe da atrocidade que muitos falam. Bem mais comercial e inferior aos anteriores (normal, 97% do rock é inferior ao Rising), mas com ótimos momentos.

Derek Bailey & Dave Holland
Improvisations For Cello and Guitar (1971). Registo ao vivo lançado pela ECM. Seu nome é descritivo. Agora, o resultado sou eu que aviso: não é nada convencional. É um trabalho de experimentação. Esqueça forma, harmonia e melodia. Tem momentos que até confunde o quê é o quê, com as cordas tensionando próximo do limite. Eu me interesso pela ideia do improviso, mas assumo que não é prato pra toda hora. Vá por sua conta em risco.

Alberta Hunter
Amtrak Blues (1980). Fui procurar algo de blues que fugisse da guitarra - uma recorrência auditiva minha - e caí nesse excelente disco. Que cantora! Grande voz e carisma. Fora que esse blues que flerta com o jazz tradicional é de charme único. Uma beleza! Prepare uma bebida e divirta-se.