Dramático, seguro e feliz, Morrissey estampa a capa do disco com aquele filtro envelhecido que acompanhou a estética da sua antiga banda. Mas agora os companheiros eram outros, vide o produtor Stephen Street (que mandou muito bem na construção das linhas de baixo) e o arranjador/guitarrista Vini Reilly (líder do Durutti Column). Ambos ditam os rumos sonoros do álbum, à começar por "Alsatian Cousin", onde uma bateria dura é coberta por guitarras ruidosas gritantes e um baixo cheio de groove. Um começo de certa forma chocante para aqueles que estavam acostumadas com as resoluções sonoras belas do Smiths. Nesse sentido, a sequência com a acústica "Little Man, What Now?" relembra melhor a dramaticidade interpretativa pela qual Morrissey ganhou devoção.
A amarga solidão do cantor em "Everyday Is Like Sunday" recebe o fino trato do grande melodista que ele é. Que refrão! Isso sem falar do seu baixo poderoso, cama de teclado tipicamente oitentista e bonito arranjo de cordas contrabalanceando a temporariedade. Clássico!
Ao que consta, "Bengali In Platforms" existe desde os tempos de Smiths. Talvez por isso, o seu violão (solo e base) parace se distanciar do que faria Marr. Outra amostra de novas cores se dá nas cordas que sustentam a linda "Angel Angel Down We Go Together".
O beat estranho em "Late Night, Maudlin Street" não é capaz de atenuar a beleza da canção. Tremenda melodia vocal e performance do Morrissey, lembrando a todos que ele é um cantor muito acima da média.
Se faltava um hit ao disco, "Suedehead" - Ryan Adams estava certo, ela está aqui! - surge luminosa, jogando os holofotes na carreira solo do Morrissey. Levada maravilhosa, acompanhada de um refrão inesquecível, sendo responsável em grande parte por levar o álbum ao topo das paradas britânicas.
Algumas canções parecem romper com os Smiths ao mesmo tempo que ecoam sua sonoridade, é o caso de "Break Up The Family" (ótimas guitarras) e "The Ordinary Boys" (de melodia e progressão harmônica rebuscada).
Adoro a euforia de "I Don't Mind If You Forget Me". Sua guitarra estranhíssima é de charme peculiar. Já o baixão envolvente e a performance adorável do Morrissey é protocolar.
A lindíssima "Dial-a-Cliché" é inglesa na essência. Ainda que acústica e enxuta em elementos, há uma elegância melódica e interpretativa que faz ela soar mais rica do que propriamente é.
A provocação ácida, aguçada, poética e política de Morrissey se manifesta em "Margaret On The Guillotine", onde ele, com justiça, sonha com a morte da Margareth Tatcher. Maravilhoso. Com uma canção dessas, quem vai ser capaz de não perdoar o Morrissey?



