terça-feira, 17 de março de 2026

TEM QUE OUVIR: Verdi / Callas / Giulini / Orquestra Alla Scala: La Traviata (1955)

Sem medo de ficar datado, apresento uma conjunção de fatores que levaram a escolha de La Traviata do Verdi como primeiro "Tem Que Ouvir" do ano. A começar pelo fato que tenho procurado iniciar todo ano com música erudita nesta seção. É uma forma que encontrei de me expor a novas experiências (visto que sou um leigo nesse campo), acumular conhecimento e prazeres, treinar a percepção, ir contra essa besteira de descentralização europeia através do apagamento artístico, além de valorização de fonogramas tão negligenciados quando falamos em “discoteca básica”. Todavia, há ainda mais que isso.

Comecemos com o fato da Maria Callas - intérprete aqui escolhida -, ser um nome razoavelmente conhecido, embora pouco escutado pelo “público comum”. Vale lembrar que a Angelina Jolie interpretou ela no cinema há pouco tempo. Uma introdução auditiva a sua obra parece oportuno.

Já a cantora pop Rosália gerou furor lançando um belo e aclamado disco (LUX, de 2025) em que coloca o canto lírico como inspiração para suas interpretações. Por sua vez, o ator Timothée Chalamet causou burburinho ao menosprezar a produção de óperas, alegando que ninguém se interessa por elas.

Com tudo isso, a ópera La Traviata (1853) do Giuseppe Verdi com interpretação de Maria Callas, orquestra e coro do Teatro Alla Scala e regência do Carlo Maria Giulini, pareceu uma tremenda pedida.

Verdi (1813 - 1901) é um mestre das óperas italianas. Seu estilo, comparado a outros compositores do romantismo, pode ser considerado mais melodramático e popular. Nada que aparente diminuir o valor estético de suas obras. 

Sendo a Maria Callas uma das principais cantoras líricas de todos os tempo, é de se admirar sua encarnação de Violleta, uma mulher mundana, frívola, dramática e apaixonada. Vale dizer que "traviata" significa transviada. Callas, aos 30 anos, expõe toda a intensidade da personagem com virtuosismo.

Essa gravação de 1955 tem brilho próprio. Não é tão cristalina, mas a orquestra soa organicamente enorme, ao mesmo tempo que serve de fundo para as acrobacias vocais da composição. Mérito não só dos cantores, mas também do Carlo Maria Giulini, um dos mais celebrados regentes do seu tempo. Não por acaso essa temporada foi um sucesso na época.

O Primeiro Ato da obra tem um inicio celebrativo/festivo. Vale aqui dizer que não vou discorrer atentamente sobre o enredo, por mais fundamental que ele seja. Meu enfoque é na música.

A valsa " Libiamo Ne' Lieti Calici" parece que sempre esteve presente no meu imaginário, tamanha sua força. Aqui se revela não somente a excelência de Callas, mas também do Giuseppe Di Stefano, um tenor brilhante que da vida a Alfredo, jovem abastado e par amoroso de Violetta.

Vale se atentar ao som da plateia, dos risos e dos passos da atuação, tudo isso presente em "Che è Ciò", trazendo charme e vida para a captação. Tanto que ao final "Un Dì Felice, Etera" o entrosamento da dupla de cantores é tão explendido que arranca palmas da plateia. Pode ser comum, mas desmistifica para mim muito da rigidez formal das gravações clássicas. Talvez em óperas o comportamento seja diferente mesmo.

Se por um lado "Ebben? Che Diavol Fate" tem em seu final dobras vocais que me remeteram a música caipira (entendam isso como quiserem), a presença estonteante do coro e da orquestra do Teatro Alla Scala em "Si Ridesta In Ciel L'Aurora" é de arrebatamento heavy metal.

"È Strano, È Strano!" e "Follie! Follie!" são registros quase à capella da Maria Callas. É impressionante as notas altíssimas que ela atinge, passeando com desenvoltura, afinação, paixão, fôlego e volume pelos caminhos melódicos que Verdi propõe. Frutos da combinação de uma soprano e um compositor expendidos. "Sempre Libera" é um desfecho de malabarismo vocal para o Primeiro Ato.

Com um enredo marcado por negociações de Violetta com o Giorgio (pai de Alfredo, interpretado por Ettore Bastianini), envolto a separação, amores, conflitos familiares e tuberculose, temos um momento mais dramático (com direito a reviravoltas, insultos e rendições) e instrumentalmente sóbrio no Segundo Ato, sendo a performance vocal em meio a narrativa o combustivo de fixação no ouvinte.

"Annina, Donde Vieni?" traz essa melancolia e clima de incerteza através de um diálogo cantando com profundida quase sombria. O mesmo vale para "Non Sapete Quale Affeito", mas aqui com um virtuosismo ainda maior.

Inicialmente um balanço dançante, "Morrò! La Mia Memoria" desagua na pura dramaticidade italiana. Lindo. O grau de emoção atingido em "Che fai? - Nula" é tamanho que arranca gritos de eufóricos.

Com sua voz barítono densa (tipicamente autoritária e paternalista), Bastianini revela na ária "Di Provenza Il Mar, Il Suol" o porquê de ser considerado um dos grandes interpretes de Verdi. Impactante!

Não posso deixar de mencionar que violinos velozes na introdução de "Inviato a Qui Seguirmi" me remeteu imediatamente a "Love Theme" do Barry White (!!!), música usada na abertura da novela Celebridades. Por essa vocês não esperavam, né? Isso posto, uma faixa de intensidade impressionante, que desagua na igualmente poderosa "Ogni Suo Aver Tal Femmina", dona de uma performance que arranca aplausos antes mesmo de chegar ao fim.

No Terceiro e último Ato, Violetta esta desamparada, prestes a sucumbir diante da tuberculose. Adianto que na história, apesar do reencontro com Alfredo e juras de amores e arrependimentos (incluindo de Germont), resta apenas tempo da sua partida aos braços do amado. Não há final feliz. Com isso, não é de se estranhar a melancolia  (e beleza) do "Prelúdio".

É de chorar a performance da Callas em "Addio Del Passato". O calor na interação dos personagens com a orquestra em "Ah, Non Più, A Un Tempio" justifica a sobrevivência da obra. 

O desfecho narrativo melancólico com "Prendi, Quest'è L'Immagine" e "Se Una Pudica Vergine" leva aos céus personagem e público.

Com pouco mais de duas horas de duração, La Traviata é um dos pontos altos do Verdi, da Maria Callas, das óperas e música erudita. Sua apreciação, por mais intimidadora que possa parecer incialmente, traz momentos de graça. Não feche essa porta para você. 

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