sábado, 21 de fevereiro de 2026

RETROSPECTIVA 2025: Lançamentos (Incluindo os MELHORES DISCOS DO ANO)

Embora com enorme atraso, eis que chegamos a "tradicional" lista de melhores do ano do País do Baurets.

Reconheço que citar mais de 100 discos de um único ano é exagero, ainda mais atualmente, onde tudo parece ser tão descartável (não enquanto obra, mas enquanto hábito de ouvinte). Todavia, não deixaria de postar algo bacana só para me enquadrar num número pré-estabelecido.

Apesar da grande quantidade de álbuns, fiz descrições pessoais e curtinhas (não são críticas, muito menos resenhas, são DESCRIÇÕES), justamente por entender que, embora as pessoas tenham sede de conhecimento, nem todos têm tempo/interesse/prazer de ouvir tantos lançamentos, muito menos de ler a minha irrelevante opinião sobre tais obras.

Mas tá aí, o trabalho sujo está feito. Com direito a uma faixa destaque pra cada disco (exceto nos "MELHORES DISCOS DO ANO", ao menos esses escutem inteiro).

Mais que uma crítica, esse post é um apoio para quem quer caçar uma novidade (e um HD externo para eu mesmo catalogar minhas audições/preferências).

Obviamente, muitos prováveis grandes discos ficaram de fora simplesmente por eu não ter tido acesso e/ou tempo de ouvir. No passado isso me causava angústia, hoje deixo rolar, conformado com a impossibilidade de ouvir tudo. De qualquer modo, se tiverem alguma grande indicação para fazer, é só colocar nos comentários.

Separei tudo em ordem alfabética. Nacionais e internacionais, tudo misturado. Acho que assim fica mais fácil procurar algum lançamento específico. Todavia, como tem quem se interesse em saber as predileções nacionais, deixo aqui a menção honrosa aos discos do Antônio Neves, Antropoceno (o EP Terra do Fogo), BK, Budang, Bufo Borealis, Eliana Pittman, FBC, Gaby Amarantos, Renegades Of Punk, Stefanie, Thiago Amud e terraplana. Destrincho cada um deles mais abaixo. Vale ainda dizer que algumas descrições dos álbuns nacionais estão mais longas e detalhadas, visto que eram roteiros para vídeos que nunca saíram do papel.

Sem mais delongas, vamos para a lista:

- Agriculture: The Spiritual Sound
Daqueles discos que bastou eu dar o play pra de imediato pensar “gostei disso!”. É um black metal na sua expansão mais atmosférica (no sentido da influência do shoegaze/post-rock) e estranhamente acessível, já que conta com riffs tão matadores (numa onda sludge) que é difícil não embarcar. E falando em riffs, vale dizer que os solos de guitarra também são um destaque (não somente no disco, mas no ano). As vocalizações são versáteis, embora nada tão facilmente convidativo. Adorei a produção, soando nem tão caótica como comumente acontece no gênero, mas também sem soar artificial. É abrasivo. Talvez o grande disco de blackgaze desde o Sunbather.

- Bad Bunny: DeBÍ TiRAR MáS FOToS
No cenário do reggaeton atual, o Bad Bunny sempre me soou acima da média. Curiosamente, comercialmente também é o maior artista do gênero, chegando agora no Brasil com enorme força. Dito isso, com esse trabalho - que saiu na primeira semana do ano e foi por mim o primeiro lançamento escutado de 2025 -, ele me deixou ainda mais entusiasmado. Tudo que faz do reggaeton um gênero pop (os ganchos, as batidas eletrônicas/dançantes, a latinidade, o calor, a alegria) se somam a tradição da música porto-riquenha, trazendo o ritmo da salsa via sonoridades orgânicas, ricas e maravilhosas. O álbum tem uma evolução criativa, intercalando o passado, o futuro e o presente numa dinâmica imprevisível (e ainda muito acessível). Não posso dizer que adoro sua voz, mas ela funciona dentro da proposta. Fora que sua interpretação carrega um caráter emotivo em alguns momentos, tratando principalmente o sentimento de perda. Já em outros, há uma sensualidade comum ao gênero. Vale ainda dizer que a mixagem é pesada e cristalina. Um álbum do pop latino tão em voga, mas com qualidades muito superiores ao que tem sido produzido. Não por acaso tem sido tratado como um clássico do gênero e retrato de uma época, ainda mais diante da política hostil do Donald Trump contra os imigrantes, principalmente os latinos. Até a capa já é emblemática. Levou o Grammy de álbum do ano.

- Deerhoof: Noble And Godlike In Ruin
O já veterano e produtivo grupo continua a trazer ambição e experimentalismo para o indie rock através de um disco tão complexo quanto maduro. É tudo muito intrincado, dos ritmos passando pelos arranjos e escolhas timbrísticas. Cobre essa amálgama com a voz confortável da Satomi Matsuzaki. Vale dizer que algumas faixas me remeteram ao King Crimson oitentista (ou ao que faria o Beat se decidisse trabalhar num material inédito). Ouça “Ha, Ha Ha Ha, Haaa” e me diga se estou delirando. Excelente trabalho de guitarras (de todo instrumental na realidade). É progressivo, alternativo e funky. Fora que há comentários sociais pertinentes, só que embalados por uma sonoridade que consegue ser inventiva sem ser pedante. É muito êxito estético. Talvez por eles lançaram muitos discos, sua qualidade passou quase despercebida (por mais latente que seja). Adorei.

- Dijon: Baby
Meu contato com a obra do Dijon era distante. Mas quando o Justin Bieber lançou o SWAG, o nome do Dijon veio à tona e ele sabiamente colocou esse álbum pra jogo, decodificando assim uma redundantemente nova linguagem de neo-r&b/soul que há anos vem reverberando no cenário alternativo. Auxiliado pelo Mk.gee e o Pino Palladino (lendário baixista de impressionante interação com artistas contemporâneos), esse álbum traz um r&b expansivo, ora lo-fi, ora externamente pop. Adoro sua voz, assim como o colorido dos arranjos e da produção, que por vezes toma caminhos complexos de texturas e timbres. Ouso ao dizer que o Prince poderia assinar esse disco.

- Eliana Pittman: Nem Lágrima, Nem Dor
Embora com pouca repercussão, esse trabalho tinha tudo pra hypar. Uma das maiores vozes da música brasileira, cantando um repertório do Jorge Aragão e auxiliada por arautos da música brasileira contemporânea, como o produtor Rodrigo Campos. E o resultado é impecável, combinando a tradição do samba com elementos que positivamente deturpam o gênero nos arranjos. Logo na abertura com “Lucidez” isso já fica claro, onde o ritmo eletrônico e a presença do Thiago França cria uma atmosfera cinzenta acalentada pela melodia e voz da Eliana. O sucesso tão maltratado de “Eu e Você Sempre” soou com um fresco que há décadas não tinha. Até foi possível lembrar como ela é bonita. Programação eletrônica, guitarra (em certo momento até ruidosa), além de um cavaquinho (ora dissonante, ora contrapontístico) formam a maravilhosa “Novo Endereço”. Impossível ainda não citar “Locuras de uma Paixão”, mais tradicional, além de brilhantemente tocada e interpretada, não fosse um subversivo baixo levemente saturado, provavelmente um hoffner tocado com palheta. E o que é aquele synth arpejado em “Tendência”? Há algo de lo-fi no instrumental de “Minta Meu Sonho” que traz uma dor desgastada pelo tempo. Vale dizer que toda essa concepção/estética moderna/eletrônica serve às composições e ao canto da Eliana. Não é um filtro falso e presunçoso, mas um direcionamento ousado e de resultado incrível. A derradeira e exuberante “Papel de Pão” exemplifica isso com brilhantismo. Aos 79 anos, Eliana Pittman lançou um dos melhores álbuns de 2025.

- Freddie Gibbs & The Alchemist: Alfredo 2
O “segundo ato gastronômico” do duo vem pra se igualar ao primeiro por suas canções irresistíveis. O flow do Freddie é um dos mais intoxicantes desta geração. Ele tem malícia, malemolência, maldade e graça. Por sua vez, as produções do Alchemist trazem aquele charme rústico dos samples de vinil, embutindo sobriedade ao clima gangsta. É uma perfeita dualidade em prol de grandes canções. Anderson .Paak e JID colaboram. Agora, com essa capa bem que o álbum poderia se chamar Lámen, né?.

- Joey Valence & Brae: HYPERYOUTH
Sequência ao excelente NO HANDS (2024), esse álbum mantém a energia em alta, trazendo beats arrasam quarteirão com aquela abordagem que fica entre o miami bass, Beastie Boys e o rap da virada do milênio. A vitalidade do duo é fantástica. Suas rimas afiadas são aliadas de composições ganchudas, donas de refrãos poderosos. É uma faixa entusiasmante depois da outra. Participam do disco Rebecca Black e JPEGMAFIA.

- Honningbarna: Soft Spot
Não conhecia essa banda norueguesa - que canta num dialeto local -, mas fui tomado de imediato pela energia post-hardcore deles. Aqui estão alguns dos timbres mais insanos do ano. Em alguns momentos parece um cruzamento do 100 gecs com o Refused. Adorei as linhas (e timbres) de baixo e a performance rasgante do vocalista. Uma pancada que traz vitalidade e originalidade pra um subgênero já preso a fórmulas. É pra socar, é pra dançar.

- Ichiko Aoba: Luminescent Creatures
Eu já havia adorado seu aclamado álbum anterior, mas achei esse ainda melhor. É o aconchego em forma de música, mas sem ser complacente. Acho impressionante como através de detalhes é gerado texturas sonoras. O ruído da captação, o ar que se desloca no silêncio… tudo é musical. Seu canto terno em japonês - língua incompreensível para mim -, mais uma vez me remete ao Jonsi (Sigur Rós). A algo de new age e ambient, mas também de jazz e post-rock. Lindas harmonias e melodias (“tower” parece até ter influência da música brasileira). Perfeito para noites chuvosas e solitárias.

- Imperial Triumphant: Goldstar
A banda vem se estabelecendo como uma das mais presentes entre os prediletos do ano (acho que é o terceiro álbum deles que coloco nessa posição). Inicialmente mais “direito”, o disco vai se revelando aventureiro e complexo na criação de temas brutais de metal extremo com nuances vindas sabe-se lá de onde (um pouco do erudito, um pouco do jazz, ora só estranhices vanguardistas mesmo). Não sei como eles conseguem soar tão pesados mantendo organicidade da produção. A performance da cozinha é sempre um destaque, embora seja importante reforçar as texturas e dissonâncias que as guitarras proporcionam. Vale dizer que em “Pleasuredome” temos a presença de dois dos meus bateristas prediletos: Dave Lombardo e Tomas Haake. Dá “samba”! Fora que há citação a Hendel e Beatles dentro do contexto do metal extremo. Uma loucura. Eu adorei.

- Lambrini Girls: Who Let The Dogs Out
Parece que estamos vivendo uma nova onda do riot grrrl, sendo a estreia desse duo uma amostra da urgência contagiante que esses grupos podem alcançar. É um punk rock criativo, que em muitos momentos me remeteu ao Idles (o que não é pouca coisa). A cantora berra com convicção letras de revolta. Não é exatamente panfletário, tá mais pra “emputecido”. Instrumentalmente o grupo corresponde com baixos gordurosos, guitarras guilhotinantes e levadas de bateria “dançantes” (dentro da estética punk). Contestador e divertido. Precisa de mais alguma coisa?

- Little Simz: Lotus
Disco feito em meio a turbulência. Ao que consta, a rapper rompeu com seu antigo parceiro musical, o Inflo, após ele pegar dinheiro emprestado com ela e não pagar. Sendo ela um dos principais nomes do rap da atualidade, a música serviu como desabafo. Aqui ela passeia por altos e baixos, sempre acompanhada de gente muito talentosa (Moses Sumney, Michael Kiwanuka, Yussef Dayes, Sampha, dentre outros), trazendo aquela riqueza jazzística/funk/orquestral já conhecida em seu trabalho. Muito bem produzido, sendo amplo em texturas e sentimentos sonoros. Tem groove, tem reflexão. Sua capacidade e pluralidade interpretativa é caso raro. Ela segurou a rédea e se manteve em salto.

- Maruja: Pain To Power
Essa banda inglesa vem construindo nos últimos 10 anos expectativa e reputação com sua meia dúzia de EPs lançados. Agora, finalmente com seu primeiro álbum, tudo se materializa de forma sólida. A energia angustiante dos temas se traduz sonoramente numa amálgama de King Crimson, Pere Ubu, Jesus Lizard e RATM. É pesado e furioso, mas também progressivo. Riffs levado pelo saxofone (no maior estilo “21st Century Schizoid Man”), a cozinha bruta, o repertório maduro, um vocalista que interage naturalmente com o rap, uma gravação que respeita a dinâmica… são muitas as qualidades que fazem desse trabalho algo impactante. Fudido. 

- McKinley Dixon: Magic, Alive!
Em pouco mais de 35 minutos, há uma sequência impressionante de faixas de jazz rap, aqui se apropriando da instrumentação/performance orgânica de talentosos músicos. As baterias são um estrondo (em timbre e groove), os metais são acachapantes (e quase fúnebres) e há ótimos caminhos harmônicos. Há um elemento funky e enorme/variado colorido timbristico, que se comunica com o complexo flow do rapper, que aborda em suas rimas temas envoltos a mortalidade. Não há marasmo, mas também não há excessos. Tudo funciona com técnica, graça, força e balanço.
  

- Model/Actriz: Departures
Segundo álbum do grupo e segundo a entrar entre meus prediletos do ano. E olha que eles não repetem a fórmula, visto que aqui eles dão mais enfoque às melodias e a batidas dançantes. Isso sem abandonar o peso e a soturnidade que trafega entre o Depeche Mode e NIN. Há um tom confessional, carnal e de reviver memórias (e cicatrizes) na temática das composições. As ótimas performances e produções (variadas e encorpadas) alimentam o conceito. Álbum abrasivo feito para noites intensas.

- SPELLLING: Portrait Of My Heart
Eu fico verdadeiramente admirado quando alguém consegue lançar um bom trabalho de pop rock em pleno 2025. Verdade seja dita, aqui não com “alcance pop”, mas com muitos trejeitos estéticos do gênero, assim como do rock alternativo noventista. Nas canções mais rockeiras/encorpadas há doses de sujeira nada covardes. Já nas baladas aparece a qualidade melódica que ela sempre demonstrou, ora ou outra com ecos interpretativos de r&b, Björk e, curiosamente, Michael Jackson. Uma tremenda voz que justifica e abastece os ganchos e refrãos. No final ainda sobra espaço pra uma versão de “Sometimes” (MBV). Adorei. 

- Squid: Cowards
O Squid já vinha ameaçando entrar nos melhores do ano, mas esse aqui bateu em cheio em mim. Oriundos sonoramente daquela mesma cena de BC,NR e black midi (só para citar os mais representativos), sua fusão espontânea de pós-punk com rock progressivo é tão natural que não dá pra saber quando uma referência começa e a outra termina. É uma perfeita simbiose estilística via canções bem estruturadas, tanto em termos de composição, quanto de arranjo e performance. Em alguns momentos a cozinha parece inserida num fluxo repetitivo à la krautrock, enquanto cordas e metais colorem as canções majestosamente. Forte.

- Thiago Amud: Enseada perdida
Dentro da sua geração, o Thiago Amud é uma sumidade, um talento um raro, comprovado neste seu sexto álbum. E já vou lançar a informação que o Caetano Veloso e o Chico Buarque participam deste disco. Uma espécie de carteirada, de selo de aprovação, tão importante para que, quem sabe, uma nova geração dê atenção a esse artista contemporâneo. O disco é um passeio maravilhoso por experimentações típicas de quem faz parte de uma tradição do que há de mais vanguardista na canção brasileira. As letras, melodias, harmonias, arranjos, a consciência musical, gravação, performances… tudo é de outro nível. O álbum começa num samba-enredo joãobosquiniano, deságua numa canção melódica e com traços de música erudita contemporânea, segue com uma faixa intensa/ruidosa/rockeira à la Walter Franco e Arrigo Barnabé, depois um frevo veloz ao lado do Chico. E isso são só as quatro primeiras faixas. Ouça tudo com atenção.

- Viagra Boys: viagr aboys
A banda já vinha lançando discos poderosos há tempos, mas aqui chegaram no seu álbum mais coeso. Alinhando uma energia oriunda do punk rock/art punk (meio Devo, meio Popol Vuh) com um acabamento tipicamente sueco, o carismático vocalista Sebastian Murphy se equilibra em canções bem estruturadas, donas de ganchos fixantes, sax carismáticos e alguns ruídos guitarristicos. A produção é abrasiva e polida na medida. O mesmo vale para a abordagem lírica, que politiza e expõe as desgraças do mundo (e de nossa saúde mental) sem perder a graça. Um álbum que nos faz correr em direção ao som.

- Weatherday: Hornest Disaster
Não vou omitir que esse disco tem algumas escorregadas composicionais (não de serem ruins, mas de não serem tão boas quanto outras). Algo típico de uma geração auto-produzida que lança tudo sem grande critério. E com isso temos 19 músicas em mais de 1h10. Dito isso, esse trabalho me pegou de jeito. Principalmente sua primeira metade, onde o artista se joga num indie/emo/lo-fi/noise/pop punk altamente ganchudo, com direito a performances abrasivas e emotivas, tanto por seu canto desesperado, quanto por sua guitarra imunda (e em alguns momentos complexa). Tem algo de Dinosaur Jr., mas com a cara de uma nova geração. Produção não somente crua, mas brilhantemente saturada, trazendo texturas que muito bem combinam com a angústia das composições. Nem todo mundo vai embarcar, mas preciso deixar registrado que eu adorei.

ABAIXO ESTÁ O BOJO DA LISTA. SÃO OS ÁLBUNS QUE OUVI PARA CHEGAR AOS MEUS PREDILETOS. CLIQUE NO MAIS INFORMAÇÕES CASO SE INTERESSAR.

TAMBÈM SEPAREI UMA BREVE SEÇÃO PARA FILMES DE MÚSICA.

SEPAREI ENTRE "BONS" (6-8), "MEDIANOS" (4-6) E "RUINS" (0-4)
DESTAQUES EM NEGRITO.

"BONS" (6-8)

- Aesop Rock: Black Hole Superette (Aqui não tem invenção. O veterano rapper em mais uma pedrada. É disco pra quem curte rap em sua excelência lírica, de flow e performance. As batidas trazem discretamente sempre algum elemento que contagia o ouvinte. Mais de 1h com poucas baixas). Movie Night

- Alberto Continentino: Cabeça e Mil e o Corpo Lento (Músico carioca rodado, compositor, contrabaixista, com parceiras com Deus e o mundo - bote na lista Adriana Calcanhoto, Beto Guedes, Cássia Eller, Ed Motta, Marcos Valle, Caetano Veloso, dentre outros, incluindo alguns contemporâneos como Ana Frango Elétrico, Baco Exu do Blues e Dora Morelenbaum - lança agora, se não estou enganado, seu terceiro álbum solo. Com conhecimento técnico, experiência, talento e certa inquietude, esse álbum propõe exatamente esse encontro entre uma “mpb tradicional” com o cenário alternativo. Pra isso contou com colaboração de nomes como a Ana Frango Elétrico, Negro Léo, Domenico Lancelotti, Kassin, Jonas Sá, Rodrigo Cabelo, Jonas Sá, Nina Becker, Mário Caldato, dentre outros. “Ovo do Sol” abre o álbum de forma aérea, seja por nuances psicodélicas, letra cósmica ou por caminhos harmônicos e melódicos flutuantes, muito bem desenvolvidos. Adorei o groove de bateria, assim o solo de sintetizador. Esse clima etéreo, quase de devaneio, se mantém em “Coral”, faixa com canto de Dora Morelembaum, um acento rítmico afro-brasileiro e algo como um clarone floreando a canção. É uma construção bem particular. Com muito groove e um certo colorido pop, “Milky Way” não me causaria espanto se tivesse o nome do Kevin Parker como colaborador. “Cerne” é daquelas canções de riqueza natural, vide sua bateria intrincada, linha de baixo inquietante - e aqui vale lembrar o puta baixista que Continentino é - uma solaridade carioca (embutida inclusive no arranjo dos metais). Em certo momento entre um fuzz saturadissimo que de imediato me remeteu ao tropicalismo. Ana Frango Elétrico dá as caras em “Manjar de Luz”, mas uma vez com baixos borbulhante, um cenário imensidão sideral e ótimo solo de sax. “Go Get Your Fix” tem aquela levada típica de quando o “Radiohead se apropria do jazz”. A harmonia e melodia são sinuosas, honestamente até de difícil assimilação de imediato. É meio um AOR do futuro. Se esse mundo fosse justo, “Uma verdade bem contada” poderia estar nas rádios, quem sabe numa novela. É um pop delirante, agradável e acessível, inclusive por conta da voz leve da Nina Miranda. Mais um baixão, bons teclados, arranjo de metal… elegância pop. Embora “False Idol” não seja carregada estereótipos, pra mim soa com bossa nova pra gringo ver. Não faz minha cabeça, embora entendo sua existência na dinâmica do disco. “A Palavra Rio” é uma sobreposição de elementos que vão se somando, resultando numa composição inteligentemente arranjada. Adoro o som de piano Rhodes, a metaleira e, mais uma vez, o baixo conduzindo à canção. Acho que também é a faixa com mais espaço para solos, sendo seu final um esplendor jazzístico. “Negrume”, com seu beat irregular, Rhodes e letra delirante, me soou um pouco arrastada. Cantada em francês pela Nina Becker e trazendo uma cozinha tão envolvente (e abafada, parece aqueles tambores com toalhas em cima e baixo hofner), é inevitável não associar “vieux souvenirs” ao ye-ye francês sessentista. Sendo o Alberto Continentino um excelente baixista e um artista que tão bem trabalha a harmonia, achei simbólico o desfecho do álbum “Madrugada Silente”, onde ele explora acordes com seu instrumento. É faixa apaziguadora, com aquele ar trip hop-lounge que foi tão explorado que saiu de moda, mas que aqui soa com frescor, fechando o disco de forma agradável. Traduzindo sua relevância dos bastidores e também o senso de comunidade desse cenário, Alberto Continentino conseguiu fotografar muito bem não somente sua arte, mas também as dos que o cercam).

- Alex G: Headlights (Costumo achar os discos do Alex G irregulares, o que não necessariamente se encaixa neste caso, visto que embora ele não traga canções arrebatadoras, ele funciona em sua fórmula mais madura de indie rock, com canções de boas melodias e sonoridade aconchegante (embora com detalhes de arranjos “desconfortáveis”). Como sempre, a capa é horrível, aqui mesmo até remetendo a bandas de heavy metal oitentistas). Spinning

- Alice Cooper: The Revenge Of Alice Cooper (Primeiro disco desde 1973 a trazer a formação clássica da Alice Cooper Band. Pra isso, recuperaram até um solo do Glen Buxton. Obviamente o Bob Ezrin tá presente na produção. Com isso, o disco soa como realmente é: um encontro descompromissado e divertido de tiozinhos aparentemente enferrujados. Gosto do astral e, até mesmo, como os timbres/produção soa magrinha, não querendo apresentar uma rebeldia sônica falsa. É somente um álbum de rock n’ roll entre amigos). I Ain’t Done Wrong

- Anamanaguchi: Anyway (Lembrava dessa banda por explorar sonoridades eletrônicas na onda bitpop/chiptune, subgêneros que se manifestam aqui de forma bastante discreta. Aqui eles surgem mais rockeiros. Há muito de pop punk, puxado pro Weezer e as vezes até pro Blink 182. Dá ra fazer esperar ótimas e volumosas guitarras. Tem momentos bastante pegajosos em termos de refrãos. Bem legal). Sparkler

- Anna von Hausswolff: Iconoclasts (Os trabalhos dela nunca são de fácil assimilação para mim e não posso dizer que tenha sido diferente com esse disco. Mas com dedicação embarquei nas camadas etéreas grandiosas aqui encontradas. Há performances vocais fortes, que trazem uma energia rockeira para canções amplas em elementos sônicos e textuais). Struggle With The Beats

- Antônio Neves: DE LAS NIEVAS (Um trabalho fora da curva. Focado praticamente na música instrumental, esse disco traz composições e arranjos belíssimos, que fazem um paralelo do regionalismo nordestino dentro de um contexto latino-americano. Isso através de performances elegantes e produção organicamente cristalina. O violão, assim como revela a capa, está no centro de tudo, embora a paleta de cores sonora seja ampla. Dora Morelembaum, Domenico Lancelotti e Davi Moraes são alguns que colaboram com o disco. Cinematográfico de tão belo).

- Antropoceno: Terra do Fogo (Trabalho encabeçado pela Lua Viana. Se comunica muito bem com que vem sendo feito na vanguarda do metal extremo mundial, ainda que traga sonoridades sem qualquer comparativo. Isso porque aqui, assim como ocorre nessa cena, ele incorpora elementos regionais/tradicionais dentro do contexto do black metal. Violões e ritmos de samba são soterrados por distorções e berros angustiantes. Tematicamente isso funciona, já que as letras retratam as queimadas e devastação de terras indígenas cometidas pelo agro. Deste modo, o black metal aqui funciona como labaredas destrutivas incinerando a cultura nacional (ainda que não seja isso que ela faça com o samba). É um conceito muito bem pensado e, o mais importante, executado, já que o álbum soa poderoso, inclusive com uma versão chocante no final de “Preciso Me Encontrar” do Cartola). Reforma Agrária

- Armand Hammer / The Alchemist: Mercy (Se não me engano, é o segundo álbum em parceria do duo com o produtor - tem aquele ótimo com as cabeças de porcos, né -, sendo que aqui nada soou surpreendente, o que não é um problema, claro. Na verdade é um álbum espontaneamente bom, com produções muito bem construídas (todas belíssimamente obscuras) e rimas sólidas. É a continuação da construção de uma obra, aqui menos abstrata e mais direto ao ponto. Quelle Chris e Eart Sweatshirt novamente dão as caras). Peshawar

- Ariel Posen & Ash Soan: Ariel Posen And Ash Soan (O Ariel Posen é um desses guitarristas fabulosos que só conhecia do Instagram. Adoro seu fraseado e os timbres que ele tira, soando rústico de maneira inventiva. Fui procurar seu trabalho no Spotify e cheguei nesse disco de estrutura descompromissada. São peças curtas instrumentais de guitarra e bateria. Não há esmero na composição, é mais um fluxo de ideias brilhantemente captado. Entendendo a proposta e interessado na linguagem, vale conferir. Sem destaque).

- aya: hexed! (Encarei o disco horrorizado com a capa. Por sorte, musicalmente, o som destruidor me foi muito mais convidativo. É a “escola Arca/SOPHIE” de produção eletrônica, com sons sintéticos muito bem construídos. Há verdadeiro design sônico tecnicamente complexo. Isso enquanto devaneios são expostos em meio a sons contorcidos e distorcidos. Ritmicamente há um pulso capaz de causar euforia e transferência de luz por meio do som. Na metade final pende mais para um ambient abstrato, mas ainda provocante. É uma pira, mas muito exitosa). heat death

- Babidi: Depois Que a Água Baixou (Esse talentoso beatmaker carioca constrói um fio narrativo ao lado de outros rappers num álbum rico e versátil. Diferentes vozes como do Bonsai, Matheus Coringa, yung vegan, Servo, dentre outros (inclusive Seu Gerê, o pai do produtor), narram os problemas do chamado “racismo ambiental”, que é quando os problemas ambientais recaem sob etnias/populações mais vulneráveis. São textos sagazes, flow pra tudo quanto é gosto e batidas tão instigantes quanto delicadas. Da bonita capa - com uma pintura que parece retratar um par de botinas em meio a uma enchente - passando por cada canção, o álbum tem uma evolução fincada na temática sem cair no marasmo lírico. Trabalho reflexivo e perspicaz). Ponta da Lágrima

- BADSISTA: CUTEBOYZ (Um dos grandes EPs nacionais de 2025. A produtora/DJ transcende gêneros como funk, techno e house com personalidade, soando intensa, brasileira e dançante na construção dos ritmos. Timbres e evolução composicional meticulosa. A capa também é bem legal, sendo que me estimulou a ouvir na academia. Deu um gás). DOS HERMANOS

- BaianaSystem: O Mundo Dá Voltas (Após 5 discos, 15 anos de grupo, não posso dizer que há grande novidade nesse disco. Ele na real soa como a consagração de uma estética, que une reggae, dub, rock, rap, música baiana… tudo completamente inserido no pop brasileiro. Não por acaso no disco tem colaboração desde Antônio Carlos & Jocafi até Anitta, passando por Gilberto Gil, Emicida, Seu Jorge, Manoel Cordeiro, Pitty, dentre outros. Uma lista variada, mas que não destoam ao serem embalados pelo Baiana. Mais que pelas composições em si, o grande destaque está no colorido dos arranjos (com cordas elegantes, metais pulsantes, riqueza percussiva, synths radiantes, além da tão característica guitarra baiana). Isso sem mencionar a produção, que comparado aos álbuns anteriores, parede de verba sensivelmente maior, o que tecnicamente ressalta as riquezas do trabalho. Ótimo álbum de pop, brasileiro, carnavalesco, tudo que a gente já espera, nada pra frustrar quem curte o grupo). Praia do Futuro

- Backxwash: Only Dust Remais (Se superficialmente esse disco já surpreende por seu tom tão emotivo quanto intenso, no se debruçar sob as letras é revelado vivências e espiritualidade latejante. Você pode ser cético, pode não gostar de rap, mas aqui uma construção sonora e interpretativa arrebatadora). Wake Up

- Beat: Live (Nem costumo me deparar com novos lançamentos de discos ao vivo, de modo que esse aumenta sua importância também por ser provavelmente o único registro deste projeto, que deu nova vida ao repertório oitentista do King Crimson. Pude conferir o ótimo show que eles fizeram no Brasil e fico feliz de poder recorrer a esse álbum. Steve Vai brilhou demais. Sem destaque).

- Bella e o Olmo da Bruxa: Afeto e Outros Esportes de Contato (Não conhecia essa banda gaúcha. Na verdade, até tinha escutado falar por eles terem servido de banda de apoio para o Vitor Brauer em suas andanças solo. O nome deste disco me chamou atenção e fui ouvir às cegas. Logo na primeira música, “Bem no seu aniversário”, eu senti um cruzamento do Terno Rei com a Fresno. É um pop rock acessível, mas também vigoroso, principalmente em seu refrão de dramaticidade juvenil rockeira bem legal. Não sei se quando eu escutei o disco eu já sabia que eles eram do Rio Grande do Sul, mas certamente saberia escutando “Nova Paixão”, que tanto pelo sotaque quanto pela melodia vibrante é total rock gaúcho, à la Bidê ou Balde. Com variação de dinâmica clássica do rock alternativo, “e as frases?” deixa aflorar a melancolia e o sentimento de perda via bom caminho melódico. É uma música que tocaria muito na MTV em 2006. Mesmo sendo dona de refrão berrado em momento ritmicamente intrincado, “Eu Sei, É Foda” não é dos momentos mais memoráveis. Mais pelos acordes dedilhados que propriamente pelo timbre acústico, “Deus, Gay” tem muito do midwest emo. Os timbres meio estragados, assim como o ritmo quase dançante de “vou me matar” - algo total “Hard To Explain” do Strokes - atenuam a temática forte e confessional de “vou me matar”. Com participação da Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, “Mesmo Assim” é um típico emozão. Já “hematomas no corpo do nada” - tremendo nome - de algum modo me remeteu ao grunge, muito pela sujeira das guitarras. É uma faixa bem trabalhada, com passagens de maior dificuldade na execução e de desenvolvimento inesperado, quase como um post-rock. A performance vocal é das mais intensas. E digo isso não só pelo berro final, mas pela carga emotiva ao longo da música. “Pra ti, guria”, com sua tristeza gauchesca, me lembrou a Fresno. Consigo visualizar o Lucas colocando a voz na música. Agora, esse arranjo de “cordas” ficou demasiadamente cafona. Pra finalizar o álbum, e pra minha surpresa, eis que surge “Teu Pra Vida Toda / Uma Rosa Sem Espinhos”, um pagode choroso que eu honestamente não entendi o propósito enquanto desfecho. Uma sobra, uma zuera, uma interação da melancolia do emo com a do pagode…. sei lá. Apesar dessa brincadeira final, a verdade é que esse álbum tem uma estética muito demarcada, sendo natural sentir que algumas canções tenham menos força, e até mesmo que o disco soe repetitivo. Isso acontece também devido a curta duração das canções, o que não dá chance pra se desenvolverem com maiores nuances. Mas para os fãs de emo, do rock triste, certamente encontraram aqui um refúgio).

- Big Thief: Double Infinity (É curioso como o álbum do Big Thief que teve a recepção mais fria foi um dos que mais gostei. Tudo bem, o anterior ainda é o auge. Mas aqui, menos folk e mais elétrico, mais conciso na duração e com desenvolvimento calmo e psicodélico, num clima quase de jam, ele conseguiram apontar pra outra faceta do grupo, para mim muito exitosa também. Há alguns momentos imersivos. Os sons orgânicos, ora até com certa saturação ruidosa, são confortáveis aos meus ouvidos. Todos já sabem como a Adrianne Lenker é ótimo, então quero destacar as performances do subestimado baterista James Krivchenia. Ouça de ouvidos abertos). All Night All Day

- Bike: Noise Meditations (Eu fui num show do Bike no começo do ano e, embora não conheça a banda tão bem, fiquei surpreso com a apresentação. Eles não soaram como eu imaginava. Não foram meramente psicodélicos, foram abrasivos, volumosos, densos, ruidosos… chegou a incomodar mesmo. Havia algo de Swans ali, de drone. No fim da apresentação eles falaram que haviam tocado faixas do novo disco que ainda iria sair. Aí que entendi que estava diante de uma guinada sonora, que agora pude conferir em disco. “Todos Os Olhos” já começa nessa construção progressiva. É quase que um mantra ritualístico. É como se indígenas inserissem guitarras distorcidas em sua cultura. Tem algo de primitivo e visceral nessa linguagem. O mesmo vale pra “V.D.C” onde tambores dialogam com feedbacks e uma letra concisa e repetitiva. “NEU!A” já revela em seu nome a referência krautrock. O ritmo em motorik colabora pra essa associação imediata. Confesso que não gostei do efeito vocal aqui aplicado, que parece emular um canto debaixo d’água. Por sua vez, o final da música é um esporro instrumental claustrofóbico. “Sucuri” cria com seu groove um ambiente pantanoso e brasileiro, natural e adverso. O mesmo vale pra “Coral”, faixa de construção abstrata, com delays e reverbs sobrepostos. É o delírio febril do veneno da cobra em forma de música. “Bico de Ouro” tem um oceano de guitarras ruidosas. Todavia, a bateria não soa com a força braçal esperada. A dinâmica não parece crescer em uníssono. O contrário ocorre em “Noise Meditations”, de performance explosiva e resultado… embaçado. Por baixo do ótimo riff de “Velada” há feedbacks que parecem sinos badalando. Isso se mantém na derradeira e hipnótica “Essência Real”. Há na ressonância da nota espaço para harmônicos que, se você embarcar na frequência, na onda, vira exatamente o que o nome do álbum propõe. Isso posto, não é um trabalho que todo mundo vai curtir. Mas se você gosta de rock e psicodelia não ortodoxa, vale ouvir com disposição e atenção).

- Billy Woods: GOLLIWOG (O incansável rapper num disco cheio de colaborações, vide os produtores The Alchemist, El-P, Kenny Segal, dentre outros. O resultado é um disco versátil na arte de criar beats cheios de tensão, que muito bem servem de ambientação para a estética horrorcore que permeia as composições. Seu flow sóbrio e soturno casa perfeitamente. Há ainda certa criatividade abstrata no desenvolver das faixas. Embaçado). Misery

- BK: Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer (Embora o rap nacional tenha ao longo de décadas adquirido uma força estética/comercial/social inegável, ele ainda parece dissociado do que seja a forma da canção brasileira. Neste disco do BK (rapper já consagrado, com bons álbuns na bagagem), o rap e a música brasileira parece ter sua ponte encurtada, seja ao trazer o samples primorosos do Karma, Djavan, Trio Mocotó, Milton Nascimento, Evinha, Fat Family - e com isso gerando refrões marcantes, quase de apelo radiofônico -, mas também ao entoar refrões originais, vide a parceria com a Luedji Luna (“Embaixo das Nuvens”) ou mesmo toques de samba do Pretinho da Serrinha em meio a excelente orquestração sampleada e um beat poderoso. Com isso, honestamente acho que os textos e flow do BK nem ficam em primeiro plano, embora ele seja consistente na performance. Ou quase, já tem faixas no miolo do álbum que não tem um desenvolvimento tão inspirado. Mas seu começo e final é muito forte. Em termos de sample, ele é o nosso 3 Feet High And Rising (exagero, mas vale olhar sob essa ótica). BK e todos os produtores envolvidos merecem os holofotes). Não Adianta Chorar

- Black Country, New Road: Forever Howlong (Primeiro álbum de estúdio desde a saída do Isaac Wood, desfalque que inicialmente pareceu temeroso, mas que o grupo tirou de letra, levando o trabalho para um caminho neo-folk prog consistente e belo. A voz da Georgia Ellery é linda, ora remetendo a Joni Mitchell, verdade seja dita, muito pelo direcionamento composicional. Há ótimos e singelos arranjos, além da boa produção do James Ford. Feliz de ver que o grupo continua forte). Socks

- Blacksea Não Maya: Despertar (Ao que consta, esse é o trabalho derradeiro desse trio de produtos de Lisboa. É aquele ritmo eletronicamente dançante, ora meio “caseiro” - no sentido de não apresentar o polimento do cenário eletrônico atual - mas muito exitoso e divertido. Kuduro é coisa séria). Qartel

- Blood Orange: Essex Honey (Hoje disputado na indústria musical, Dev Hynes volta a encontrar espaço pra trabalhar em sua própria obra, o que levou ele até mesmo a lembrar memórias da infância. O resultado disso é mais um disco tão ambicioso e rico em elementos quanto melodioso e convidativo. O balanço do r&b interligado a interferência da música eletrônica, rock alternativo e da música erudita contemporânea faz com que as canções sejam preenchidas por camadas que constroem produções imersivas e espaçadas. Não nego que há momentos mais dispersos, mas no geral é um grande trabalho). Vivid Light

- Budang: Magia (Diretamente de Florianópolis, temos a estreia em disco dessa banda sensação do hardcore brasileiro. O EP Astrologia, Destino & Salmos (2022) já tinha feito burburinho, mas aqui num full álbum eles solidificam a sonoridade do grupo. Vale dizer que ele saiu pela Deck, com produção do Rafael Ramos, ou seja, já estão bem aparentados. Antes de sair o disco, um clipe com a dobradinha “Magia / Budangól” já serviu como excelente cartão de visitas. Tanto pela estética jovem, colorida, turnstilizada no vídeo, mas também pelo som, com um baixo cuspido, riff poderoso de guitarras, timbres robustos e o canto carismático, que da vontade de berrar junto, embora seja incompreensível o que eles estejam falando. Buscando a letra nós chegamos num dialeto próprio, não sei se local ou geracional (provavelmente ambos), mas muito estranho e divertido ao mesmo tempo. Ficar com “CUTUVELO” ou “Baita catarrão de sangue” na cabeça foi inevitável. FODA. Das melhores músicas do ano. Mas é “Mágica” que abre o disco. Não há economia de guitarras. Muito peso e groove. Aqui desisti de desvendar as letras e só embarquei no flow do vocalista, que inclusive é bem legal. Análises textuais deixo pra depois. “Gosto Bom”, talvez pelo riff, ou mesmo pela construção não linear, me remeteu aos momentos intensos do Faith No More. Com canções curtas, encorpadas, mas mais convidativas que agressivas, quase humoradas mesmo, de algum modo lembrei também do velho Raimundos, ali do Lapadas Do Povo. Até pela questão das gírias e verborragia. “Deixa Quieto” tem muito disso. Antes que essa comparação com o Raimundos possa te trazer uma referência ruim, vale escutar “Bolsonanny”, canção que posiciona a banda politicamente sem ser panfletária ou cheia de chavões. É divertida. Em meio a pauladas como “Aditivos”, é legal perceber alguns refrões mais assimiláveis, como acontece em “Fala Tu” e nas melodias e trejeitos vocais dentro de “Ponto de Não Retorno”. A partir daqui acho que o álbum dá uma caída em termos de repertório, mantendo a energia das performances, mas com ganchos menos entusiasmantes. Pra mim foi até sintomático que a faixa final é uma releitura pra “1406” do Mamonas Assassinas, que também não soa mal, mas eu não entendi o propósito. Mesmo derrapando no final, seu ⅔ inicial é tão vigoroso e divertido que a impressão geral é extremamente positiva).

- Bufo Borealis: Natureza (Terceiro álbum de estúdio deste supertime do cenário alternativo. A banda é formada por integrantes que compõem o Ratos de Porão, os trios do Lúcio Maia e Scandurra, Pequeno Cidadão, Charanga do França, Sophia Chablau, Pitty, dentre outros. Aqui eles apostam num trabalho instrumental, jazzistico, cheio de referências que passam pelo afrobeat, spiritual jazz, jazz funk e o que mais pintar. A faixa “Ponkan”, por exemplo, chega a ter algo de Jeff Beck, já a derradeira “Esquina” é uma viagem cheia de groove, lisergia e texturas. Ainda assim, no geral, o desenvolvimento das composições não é dos mais complexos e nem pretende ser. Aqui está um jazz que se dá mais na interação, na criação de climas e na atenção dada aos improvisos. Muito bons por sinal, assim como os temas. Gravação orgânica, quente e cristalina, que ressalta a qualidade dos integrantes e do grupo enquanto unidade, o que neste álbum, certamente foi aperfeiçoado. É o disco que mais gostei deles e, de certo modo, ele representa mesmo a consolidação do grupo). Papa Lou

- Bumba Boi da Maioba: Assim é a Maioba, Ela Não Para (Honestamente, aqui acho que vem vale minha “avaliação”. Um grupo folclórico centenário não precisa de crivo, só de continuar a existir já tá ótimo. Ainda assim, vale dizer que adorei os cantos (inclusive interpretado majestosamente), as melodias, letras, ritmos e gravação. Tudo fazendo jus a memória, mas também a continuidade da cultura. Muito bonito. Sem destaque).

- CA7RIEL & Paco Amoroso: PAPOTA (A consagração do grupo, que botou seu Tiny Desk pra jogo em formato disco e somou a ele canções que mostram a lapidação de sua forma irresistível de música pop latina. Canções variadas, que abrangem diversas tendências. Há groove e enorme qualidade técnica). IMPOSTOR

- caroline: caroline 2 (Fui ouvir sem saber do que se trata (só por ver muitos reviews saindo) e, confesso, não estava preparado pra tamanha beleza. É um álbum de post-rock sinfônico, com nuances de música folk, indie lo-fi, dream pop, emo, dentre outras belezas. Em alguns momentos me remeteu ao GY!BE, só que menos abrasivo. Há também uma ponte com essa nova cena a qual o BC,NR pertence, mas aqui não há aquele virtuosismo progressivo, mas sim a beleza e delicadeza de performances apaziguadoras. A captação orgânica é aconchegante. Adorei). Total Euphoria

- Car Seat Headrest: The Scholars (Will Toledo sempre foi um cara ambicioso, mesmo quando lhe faltava recursos de produção. Agora, melhor equiparado, não me estranha ter se dedicado a uma ópera rock, por mais comercialmente na contramão isso seja. O resultado é irregular, mas com boas canções. Seu canto eufórico e faro pra boas melodias se mantém. Confesso ter passado reto pelo seu conceito. Ignorando toda a pretensão, fica um bom álbum de indie rock). Reality

- catïça: pedagogia da vingança (Vi um vídeo desse grupo no Instagram por acaso e gostei. Fui pro Spotify e esse era o registro mais recente, um EP curtinho e eficiente, de gravação tão orgânicas que chuto sequer ter overdub (ser tudo ao vivo). Tem calor nas performances e certa criatividade composição dentro da brevidade das faixas. Divertido). carrapatos humanos

- CATTO: CAMINHOS SELVAGENS (Embora com uma carreira de mais de uma década, confesso que só fui me atentar ao seu trabalho no álbum anterior, onde com personalidade e talento ela visita um repertório conhecido na voz da Gal Costa. Mas aqui ela se joga num repertório autoral. São 8 faixas, que de forma sucinta, expõe a Catto enquanto artista e indivíduo. Dá pra conhecê-la por aqui, nos pontos altos e nos baixos. “Todo mundo quer amar” abre o disco. Que arranjo/produção é essa? Tom meio épico, com tímpanos e orquestrações eletrônicas criando um clima meio novela bíblica da Record. Era pra ser um início triunfante, mas me trouxe dúvida. “Eu te amo” é até bonita, tem guitarras fortes dentro de um contexto de nova mpb, mas tenho que dizer que só o Roberto Carlos pode repetir “eu te amo” 3x num refrão. “Solidão é uma festa” é a primeira grande faixa, de tom confessional, dramático e instrumental arrastado que dialoga com o rock alternativo contemporâneo internacional. É ruidosa, etérea e sublime. Impossível não afirmar que “para Yuri todos meus beijos” não é autobiográfica, sendo que seu arranjo que abdica de um instrumento rítmico deixa o resultado ainda mais pessoal. As vozes duplicadas soam como a voz interna e a externa. Interpretação livre minha. Adorei a melodia de “Caminhos Selvagens”, de tradição na canção popular e aura quase sacra não fosse a sujeira da captação, emulando clipagem. Linda, fúnebre e, essa sim, verdadeiramente épica, ao contrário de “Madrigal”, canção apaixonada/carnal, mas esteticamente menos inspirada, com um motivo étnico no refrão frágil. “1001 noites is over” é a canção mais pop/radiofônica do álbum e, ainda assim, nem tão ortodoxa. Eu gostei, tem algo de Cazuza na composição. Poderia tocar tanto em rádio de música popular brasileira quanto de rock, se tais rádios fossem minimamente corajosas. Esse baixo no final é muito Peter Hook. A derradeira “leite derramado” segue a toada do disco, com letra forte, boa melodia e performance vocal, além de produção positivamente suja, trazendo rispidez sônica aos dilemas aqui presentes, mesmo quando imersa na beleza).

- Celacanto: Não tem nada pra ver aqui (Novo grupo do cenário alternativo brasileiro. Nem tão fácil descrever o estilo composicional e sonoro da banda. Provavelmente pelo fato do Radiohead ser a maior referência, o que dá liberdade criativa ao grupo. O álbum transcende a sonoridade de um quarteto de rock, trabalhando texturas timbristicas mais lo-fi, estragadas, eletrônicas, além de construção intrincada de ritmos e arranjos em geral. “Dançando Sozinho” exemplifica tudo isso. Se o vocalista não tem das vozes mais encantadoras, ao menos ele transparece convicção e personalidade, principalmente no início do disco, nas faixas mais eletrizantes, como nas esquisitas e ótimas “não tem nada pra ver aqui” e “É de Pano”, com direito a ótimas guitarras saltando na cara. Progressivamente o álbum vai tomando um rumo mais… triste, e com isso vai abrasileirando também. Como ponto de virada aponto “Desamarrado”, que remete ao trabalho do Tim Bernardes. “Vendo Demais” chega até mesmo a apontar o que aconteceria se O Terno fosse menos sessentista e mais noventista. Na totalidade do álbum, vale ainda se atentar as letras por vezes enigmáticas. Nova banda pra ficar de olho, que embora já apresente uma mistura incomum de referências, acho que tende a evoluir e soar com ainda mais personalidade).

- Che: REST IN BASS (Aqui é molecagem. Um trap distorcido, saturado e sintético, com performances resmungantes. Chamam isso de rage. Seja como for, me atraia pela energia e produção, não necessariamente pelas composições. Em alguns momentos soa como se o Atari Teenage Riot tivesse o Playboi Carti na formação. Ouça por sua conta em risco). LIP FILLER

- Chediak: Música Elétrica (Não vou omitir que acho que esse álbum tem alguns problemas composicionais e interpretativos, com direito a escorregas melódicas e vocalizações nem tão instigantes. Ainda assim, gosto de como o álbum evolui, abusando da house music de maneira criativa, ora se aproximando do emo, trazendo dramaticidade e sentimentos conflitantes com a música eletrônica de pista. Tem graça e um senso estético interessante. Fora que é bem produzido, tanto na construção dos ritmos quanto na escolha dos timbres). mesmo sem você

- Cheekface: Middle Spon (Das bandas de rock mais divertidas da atualidade. Aqui em mais um acerto, talvez soando mais pop, mas ainda com boas guitarras (inclusive em solos). Tem algo de “new wave do século XXI”, mas também pitadas de Cake, Beck e Weezer. Perfeito pra festinha com amigos indies). Content Baby

- Cícero: Concerto 1 (Ouvi esse disco pensando nele como um Acústico MTV do Cícero. Isso porque ele revisita seu trabalho de mais de uma década e 5 discos lançados em versões acústicas inteligentes, com direito a lindas orquestrações, que tem como principal qualidade soarem grandiosas e exuberantes sem parecer pomposas ou polidas. É um trabalho acima de tudo de excelentes arranjos, visto que as canções já eram ótimas nas versões originais e, ao menos pro meu gosto, a voz e performance do Cícero nunca foi a força motriz de sua obra (embora soe bem). Álbum bonito e aconchegante. Ouça e imagine ele num teatro pequeno, um violão, orquestra ao fundo, sem banda, luz baixa… seria um puta Acústico MTV). Miradouro Nova Esperança

- clipping.: Dead Channel Sky (O inventivo grupo de hip hip num disco menos ríspido em texturas, mas estrondosamente pulsantes, com direito a algumas produções que remetem ao bigbeat. O flow veloz dos rappers, embora estranhamente disciplinado e mecânico, muito me agrada. É uma direção inesperada e interessante). Dodger

- Clipse: Let God Sort Em Out (Confesso que de imediato não botei tanta fé na volta do Clipse. Pô, passaram tantos anos, Pusha T e o Pharrell tão estabelecidos, Malice honestamente fora do meu radar, achei que faltaria propósito e vitalidade. Engano meu! É uma sequência poderosa de faixas. São ganchudas e pulsantes. Alguns beats parecem boom baps feitos pelo Kanye West no auge. A interação dos rappers continua afiada, revelando uma química faiscante nos versos. Muito bem escrito, produzido e performado. Talvez só tenha sentido falta de uma maior “acidez” na fluidez do álbum, mas é apenas o marasmo da excelência. Vale pontuar que Kendrick Lamar e Tyler The Creator participam do trabalho). F.I.C.O.


- cumbuca: cumbuca (Uma nova cara no indie rock brasileiro. Esse EP de quatro faixas serve de cartão de visita, revelando um quarteto que investe em sonoridades rockeiras pouco polidas, mas bem acabadas na forma das canções, que contém um certo apelo pop. Guitarrinhas, certa “brasilidade paulistana”, mas também algo de shoegaze e um faro pro indie da virada do milênio, mas com a jovialidade de quem tem aquilo como inspiração e não que pertence àquela geração. Não é tanto minha praia, mas se sua onda for esse rock alternativo despretensioso e palatável, vale checar). resolução

- CRAS: A Gentil Indiferença do Mundo (EP pesadíssimo, num cruzamento afiado de sludge, crust e black metal. Inicialmente não achei as performances tão inspiradas (e talvez nem sejam mesmo), mas conforme as faixas evoluem vai se criando um clima, uma energia perturbadora que me fez adentrar a obra. No meio dessa energia se escondem algumas boas melodias e riffs de guitarra. Monstruoso). Ode To Pain

- Danny Brown: Stardust (O rapper continua fora da curva ao experimentar com gêneros incomuns dentro do hip hop (vide o hyperpop) e mesmo assim não perdendo a legitimidade. Não só isso, mas proporcionando canções verdadeiramente instigantes, tanto pelas produções rebuscadas, seu flow sempre peculiar e ótimos ganchos. Tem alguns deslizes, mas tem também algumas das minhas faixas prediletas do ano). Starburst

- dadá Joãozinho: 1997 (Começa mal, mas melhora. As primeiras faixas não me convencem ao tentar emular um pop rock/indie. Mas em “Subindo em Árvore”, com sua letra estranha, violão lo-fi, cria-se uma proposta de canção que acho bizarramente atrativa. “Lenda”, dentro da mesma estética, também é bacana).

- DARKSIDE: Nothing (O projeto no Nicolas Jaar com o Dave Harrington num disco irrotulável, mas que vou tentar mesmo assim. Parece um rock progressivo eletrônico com referências de dub, krautrock e o pop alternativo atual. O resultado é de altos e baixos, mas encantador na proposta é de grande eficiência técnica. Vale se deixar levar pelas faixas mesmo sem necessariamente saber onde vai dar. Estranho e experimental, embora querendo ser acessível). Graucha Max

- Dave: The Boy Who Played Harp (Não bastasse o Dave estar rimando com uma capacidade técnica incrível, adorei as produções, que transitam por ambientes singelos, dando uma beleza ao hip hop contemporâneo que nem sempre nos deparamos. James Blake dá as caras em duas faixas. Uma coleção de densas e belas canções). Chapter 16

- Deafheaven: Lonely People With Power (Todo mundo que gosta da banda adorou esse disco. Eu não irei me colocar contra, mas diante de toda aclamação, devo dizer que sua urgência, de algum modo, me pareceu uma rendição (e reedição) da banda a todos que clamavam pela volta ao blackgaze. Por sorte fizeram isso com canções fortes e inspiradas. Em termos de produção, talvez seja o disco mais bem acabado/polido, o que não necessariamente faz dessa produção a minha predileta. Performances vocais sangrantes, ótimos riffs e a evolução do baterista contribuem para esse êxito. É muito bom, só não choca mais, como quando os conheci com o brilhante Sunbather (2013). Ah, achei um pouco longo também, me cansou em certo momento. Tô botando pelo em ovo). Revelator

- Deaf Kids + Test: Sem Esperança (A parceria entre dois dos grupos mais cabulosos da atualidade no mundo (e são brasileiros) faz com que fiquemos atônicos diante do som cáustico, corrosivo e tribal. Não é um trabalho fácil. Aqui a ruído atinge o campo da criação de cenários. Ao deixar se levar pelas distorções e ritmos hipnóticos (com uma raiz brasileira explícita) é possível chegar em lugares poucos explorados na nossa experiência auditiva do dia a dia. Só por isso já basta, embora acredite que a experiência deva ser ainda mais intensa e bem sucedida ao vivo). Buraco

- Deekapz: Deekapz FM (Duo formado pelos produtores/DJs Matheus Henrique e Paulo Vitor, bastante atuantes na noite de São Paulo. Aqui eles criam um álbum temático que recria as rádios de música eletrônica brasileira da virada do milênio. Isso não somente em canções com nuances de “eletrohits” (mas bem melhor produzidas, sem ser mero pastiche tosco), como também as sonoplastias e locuções radiofônicas. O resultado é divertido e exitoso, ainda mais diante da colaboração de nomes como DJ Marky, Criolo, Fat Family, dentre outros). Onde Anda o Meu Amor

- Deftones: private music (Em seu espantoso momento de maior popularidade, o Deftones consolida sua sonoridade com o disco mais inspirado em 15 anos. Tem o peso, os climas/performances “sensualidade” e as melodias elegantes já conhecidas, mas também voltem a trazer maiores texturas e atmosferas para sua música. A produção do Nick Raskulinecz parece ter sido fundamental para isso. Ótimo disco). locked club

- De La Soul: Cabin In The Sky (O veterano e emblemático grupo de hip hop continua mostrando relevância artística, mesmo após a morte do Dove. Esse é primeiro lançamento sem ele, sendo sua ausência de alguma forma atenuada em participações primorosas do Nas, Black Thought, DJ Premier, Killer Mike, Slick Rick, dentre outros. Aqui há a tradição do rap sem soar empoeirada. As canções tem balanço, cores e rimas envolventes. É mais que o suficiente. Que a nova geração nunca de as costas para o grupo). Run It Back!!

- Dente Canino: DEMO 2025 (Vi que essa banda tem circulado bastante em casas alternativas que acompanho e decidi dar uma conferida. Cheguei nessa demo que não deve ficar muito aquém das produções que o grupo pretende chegar, custo que é um hardcore crust imundíssimos da escola europeia. Desgraceira pura, de produção caótica e um dos timbres de guitarra mais horrendos (no melhor sentido) do ano). Teia de Aranha (são só 4 faixas, nem deveria deixar destaque, mas adorei essa gravação)

- Desalmado: Monopoly Of Violence (Novo álbum dessa banda sinistra do cenário underground do metal nacional. O primeiro com a nova formação, agora um quarteto, só uma guitarra e um novo batera, que eu não lembro o nome, mas eu vi eles ao vivo recentemente e o rapaz é um bruto. Tudo é alimentado por uma produção parruda, moderna em termos de agressividade sonora, mas sem soar de plástico, como frequentemente acontece no metal contemporâneo. Em sua primeira metade o disco é mais metalzão, ora puxado pro death, alguns elementos de thrash e muito de metalcore, com direito a breakdowns e palhetadas em sincronia com a bateria que jogam o ouvinte pra trás. Tudo muito bem trabalhado e desenvolvido. Na segunda metade o lado mais direito e hardcore prevalece. Aqui nem é o caso de ficar descrevendo faixa a faixa, até porque é um disco relativamente curto, de 27 minutos, que se você curte sons pesados vai ouvir e reouvir numa tacada só. A voz do Caio Augustus tá poderosa, assim como as letras. Por grupos apontam com tanta clareza a falência do capitalismo e as crises do imperialismo como o Desalmado, o que é um mérito gigantesco).

- Die Spitz: Something To Consume (As garotas tão com a corda toda, muito por conta do vigor que elas apresentam nas performances. Aqui no disco tem tremendas guitarras (ora pesadas, ora densas). O baixo soa como um touro. A bateria é poderosa. O vocal grosseiramente charmoso. Todavia, confesso que adoraria uma mixagem menos “moderna” (feito dos EP’s lançados anteriormente). Por outro lado, há um “amadurecimento” nas composições, trazendo aquela fúria alinhada ao pop tipicamente grunge. Nada mal, né!). American Porn

- DJ Caio Prince: Botano Remixes (Não dá pra pensar nesse trabalho como um álbum convencional. É um disco de remixes, e de uma única faixa - “Botano (Útero Baixo)”, lançada ano passado em parceria com a MC Luanna, Mu540 e DJ Thiago Martins - mas aqui sob supervisão do Caio Prince e interpretação KARAN!, JLZ, Dj RaMeMes, Katy da Voz e as Abusadas, Irmãs de Pau, dentre outros, eles vão mapeando e expondo diferentes formas de se produzir funk, ora mais dançante/calorosa, flertando com o brega funk; ora mais industrial, ou no estilo mandela. No geral é ritmicamente e timbristicamente abrasivo. É verdade também que, por serem remixes, meio hora de “piroca machucando o útero baixo”, nosso cérebro vai derretendo, bom e mal sentido. Mas vale escutar como pesquisa e, quem sabe, se identificar com a proposta de algum produtor específico. A onda é mais essa que ouvir tudo numa paulada enquanto obra fechada. Sem destaque, vá por sua conta em risco).

- DJ DENGUE: ESTILO (MAIS) DURO (Mais uma amostra dos diferentes caminhos do funk brasileiro. Esse álbum é um estrondo sônico, principalmente no início, que chega chutando a porta com ritmos velozes e frenéticos, graves monolíticos e saturações na medida de fazer nossos cérebros derreterem igual suspiro mal assado. Essa extremidade sonora direciona o álbum, chegando até mesmo a nomear faixas, vide a “Acho que clippou”. Tem produções que soam próximas do hardcore techno, já outras se aproximam de um hyperpop do inferno. Tem sample do Zé do Caixão, colaboração com o Dj RaMeMes e, até mesmo, um remix acústico que dá dinâmica ao álbum, mas o centro das produções são batidas dançantes e explosivas, evidenciando o funk como o centro da música eletrônica brasileira contemporânea. Eu gosto). ESTILO (MAIS) DURO

- DJ Guaraná Jesus: Ouroboros (Cheguei nesse projeto do produtor carioca Júlio Santa Cecília sem nada saber como soava. Mas bastou poucos segundos pra eu me convencer da proposta. É uma música eletrônica arrojada, pesada e dançante. Há ecos de Aphex Twin, drum and bass e hyperpop. Basicamente um IDM brazuca. As produções são instigantes, com ritmos que batem no peito e alguns momentos de corrosividade bem inseridos. Muito legal). campari devochka

- DJ K: RADIO LIBERTADORA! (DJ K, um mestre dos ruídos dentro do cenário do funk contemporâneo, mostrou aqui uma lapidação que revela a evolução técnica das suas produções. Isso sem perder a abrasividade e força física das músicas. Há um conteúdo político inserido no meio das safadezas líricas comum ao gênero. Isso posto, devo dizer que as canções que trazem aquela inclinação pro rave funk acho bem menos cativantes). SEQUÊNCIA DE BEAT ENTORTA NOIA

- Djonga: Quanto Mais Eu Como, Mais Fome Eu Sinto! (O Djonga, rapper mineiro que dispensa apresentações, ficou de 2017 há 2023 numa sequência frenética de lançamentos anuais. E por mais que eu goste do seu trabalho, os discos sempre me pareceram irregulares. Mas ele deu um respiro na produção em 2024 e agora veio com esse álbum regularmente mais exitoso. Se sua interpretação tão furiosa quanto carismática continua irretocável, suas letras tiveram uma lapidação, trazendo maior maturidade e versos bem sagazes. Mesmo o flow tá mais técnico. Se por um lado as produção não são das mais criativas, ao menos eles trazem um pulso e peso envolvente. Méritos do Coyote e do Rapaz do Dread. Agora, os refrões melódicos, que sempre me soaram como um “problema” na sua obra, aqui alcançou resultados memoráveis. Ele acertou a mão (destaco nesse sentido “REAL DEMAIS”). Agora, tristemente, devo dizer que o refrão cantado pelo Milton Nascimento em “DEMORO A DORMIR” é o mais fraco. O do Samuel Rosa em “TE ESPERO LÁ” também é fraquinho. Neste sentido, a participação com maior brilho foi da Dora Morelenbaum na grooveada “AINDA”. Que da próxima vez ele traga como representantes de Minas o Toninho Horta e o Max Cavalera. Disco bonzão). QQ CÊ QUER AQUI?

- Dj RaMeMes: Terapia do Sexo (EP com três musiquinhas, sem grande variação, tanto no que diz respeitos aos beats divertidos, quanto as letras sexualmente explícitas. É mais do mesmo dentro do gênero, mas funciona). Resistência na Piroca

- Dj Renan Valle (BAILE DO VALLE): Set Afrofunk - Agora Nossa Arma é Outra (Talvez orientado pelo “afrofunk” no nome, talvez pela simples razão de ser, fato é que foi perceptível a tradição rítmica dos tambores africanos na música brasileira, aqui se eletrificado num álbum curto de funk, onde a putaria do gênero se alinha as batidas. Não é uma maravilha, se repete em ideias, mas é interessante). É Melhor Comer As Duas

- Doja Cat: Vie (Embora eu já tivesse visto talento nela, ainda assim esse álbum foi uma agradável surpresa. É um pop contemporâneo bem resolvido, onde ele intercala suas rimas com referências oitentista oportunas. Tem groove, tem sax, tem cor. Mérito também do Jack Antonoff. Cadê as fãs da Taylor Swift falando mal dele agora? Ele tá se vingando). Cards

- Don L: CARO Vapor II - qual a forma de pagamento ? (Don L, um dos mais talentosos rappers da atualidade, lança agora a sequência conceitual pra sua longínqua estreia. Os anos que separam os discos oferecem maturidade e lapidação, tanto na produção - que conta com colaboração do Nave e do Iuri Rio Branco - quanto no lirismo. O flow continua particular e excelente. “CARO” abre o álbum situando o rap dentro da canção brasileira. Algo que o BK fez no último disco e que aqui parece permear o direcionamento sonoro. A música tem um arranjo exuberante com cordas, flauta, piano, bateria robusta de samba-jazz. De certo modo lembrei até de “Soul Bossa Nova” do Quincy Jones. Sua metade final, aproxima batidas de origem africana do funk, algo nada distante, mas que muitos ainda ignoram. Parece um padrão atual ter que de algum modo saudar o Milton Nascimento. Don L faz isso reimaginando “Para Lennon & McCartney”, que transportado virou “Para Kendrick e Kanye”, faixa de versos rico em flow e colorido timbristico na produção. “Aff Maria” é ritmicamente inquietante, soando tão complexa quanto envolvente e cheia de ginga. Já em “tristeza Não” a batida solar, o violão e a voz da Anelis Assumpção trazem pro rap características especificamente brasileiras. O mesmo vale para “saudade do Mar”, onde Alice Caymmi lindamente menciona seu avô Dorival enquanto Don L cria um clima esfumaçado a beira do mar. Se a melodia do refrão de “BOSSa” não faz jus a elegância brasileira que permeia sua estrutura, o jogo de palavras, as rimas, o flow… servem a forma da canção brasileira transcendendo suas tradições. A organicidade no beat de “Iminência Parda” (com direito a sonzão de bateria, cordas majestosas, guitarra de fuzz ardido tipicamente tropicalista) gerou uma das melhores faixas do disco. Don L ta incisivo e sábio nos versos. O sample, acho que do Ednardo, é um espetáculo à parte. Mesmo aquela latinidade-reggae tão manjada aqui funciona bem, vide “BANdido”, verdade seja dito, muito por ser estrutura em cima do som do Itamar Assumpção. Essa latinidade também funciona na “pop” “Venci na Vida”. A progressão harmônica e as cordas de “iMigrante” tem, dada as devidas proporções, uma arrojo à la Edu Lobo. Sua discreta levada de baião serve ao rap com naturalidade impressionante. “Dias de Verão”, ao contrário do nome e do refrão “marcosvalliano”, tem uma dramaticidade complexa vinda de um piano denso e um synth bass contínuo e saturado no verso. O groove orgânico de “mar da ARgélia” traz algo de afrobeat, assim como guitarras típicas do Tuareg. De certo modo é um rap que interage com o rock psicodélico. Isso ao menos no seu instrumental, já que seu refrão puxa mais pro soul brasileiro. Pra não dizer que tudo são flores: não embarquei no balanço sensual de “pimpei seu Estilo” e no funk nada inspirado “melhor Vida”. Vale apontar que o Don L não é comedido em suas rimas. Ele se expõe e politiza - vide a derradeira “tudo é simulação/Conflito” -, mas mais que combativo e confessional, ele soa musical, algo que nem sempre impera no rap nacional).

- Dory de Oliveira: A Volta da Malandra (Confesso que, por mais que esse álbum celebrativo marque uma “volta”, eu não conhecia a rapper. Fui de encontro ao disco até esperando algo mais próximo do samba por conta da capa. E o samba tá aqui mesmo, mas misturando ao rap e trap, dando uma injeção brasileira genuína aos estilos. O funk também faz parte deste caldeirão. Não é um álbum tacanho ou oportunista, mas sim naturalmente sofisticado em trabalhar os gêneros. Há muito balanço e rimas contundentes. Vale dizer que os nomes de Kiko de Souza e MxM estão presentes por todo o disco. Bem legal). Mesa de Bar

- Dream Theater: Parasomnia (Não gosta da banda? Não é agora que você irá gostar. Até porque a volta do Mike Portnoy naturalmente propõe um tipo de resgate ao passado do grupo. Deste modo, os excessos estão lá, assim como a voz/interpretação questionável LaBrie. Por sua vez, o repertório é bom. Isso ao menos quando não se perde em solos desnecessários. Ainda assim, até a longuíssima última faixa eu achei bacana. Ao menos o Petrucci tá inspirado - nada como tocar com o velho amigo novamente, né -, seja na criação dos solos, bases ou riffs. A cozinha também funciona muito bem (em interação, ideias e timbragens). A produção, tão problemática nos trabalhos recentes do grupo, aqui consegue equilibrar peso, “modernidade” e uma certa organicidade. Resumindo: com alguns problemas de sempre, mas surpreendentemente bom). A Broke Man

- d.silvestre: O Que As Mulheres Querem (O outrora “espanta gringo” D.Silvestre parece ter caído nas graças dá Pitchfork com esse lançamento. Nada mais que uma pauleira funk eletrônica. Confesso que problematizar ou ficar divagando sobre o teor das letras ou mesmo do nome do disco é um papo chatão e sem propósito. Considero melhor se concentrar nas produções e construções das faixas. “Vem Por Cima” logo de cara joga o ouvinte pra trás com um grave corrosivo, seguido de twin típico de quem bafora lança. A dançante “Sem Moralismo” tem uma construção não linear bem legal. A voz libidinosa da moça contrasta com os timbres do beat, altamente saturados, soando como buzina, motor e falante automotivo estourado pelo grave. É uma estética que reconhece onde seu som vai ser projetado e já insere no contexto da produção. Em “Ela Trava” um baixo sintetizado e distorcido é suficiente pra servir de base pro Mc Du Red. E te falar, é um riffão. Pesadíssimo. O mesmo vale pra espetacular “A Sacanagem Começou”, com uma melodia grave nervosa. De escorrer sangue pelos ouvidos. Eu não consigo dissociar faixas como “CORREDINOIS” com sons pesados que ouvi a vida inteira. É um funk próximo do metal, com direito a gritos de terror no refrão. A construção rítmica de “Dona Brisa”, aqui completamente inserida dentro do contexto de funk twin, é muito bem pensada. Vale dizer que embora completamente saturado, distorcido e corrosivo, esse álbum apresenta um aperfeiçoamento técnico em como chegar a esses sons aparando as rebarbas).

- Earl Sweatshirt: Live Laugh Love (Explorando os mesmos direcionamentos que estruturam seu trabalho desde sempre, o rapper ao menos não deixa a peteca caindo, amadurecendo as abstrações de suas produção para caminhos convidativos, variados e sólidos. Até na capa ele parece mais maduro. Já seu flow, por vezes anestésico, aqui está mais reluzente. Álbum curtinho, feito na medida. Dos seus melhores. Obs: cheguei a conclusão que ele é o Captain Beefheart do rap kkkkk). FORGE

- eliminadorzinho: eternamente, (Segundo álbum em meio a tantos outros EPs lançados por essa banda que, anos atrás, pensava que iria popularizar o rock no Brasil novamente. Não necessariamente por eles em si, mas por haver uma cena de “rock triste” lo-fi pungente. Deixando minhas péssimas previsões de lado, eis que eles voltam com um disco ainda intenso, ainda ruidoso, fugindo de qualquer polidez sônica. E isso dentro do contexto do rock alternativo é mais que bem-vindo. A instrumental “Tema do Centro da Terra” abre o álbum revelando lindas e barulhentas guitarras sobrepostas de maneira caótica. É pra deixar o ouvinte esperto do que vem por aí. Com ecos de Titãs e Marcenarias na construção de “A cidade é uma selva”, a música traz uma sujeira que as bandas oitentista brasileiras nunca conseguiram explorar em toda sua magnitude. O Andy Gill do Gang Of Four ficaria orgulhoso das guitarras presentes aqui. Com acordes abertos graciosos, “Viação Andorinha” é das melhores canções do rock alternativo brasileiro em tempos. Inclusive bastante acessível (dentro dos limites). Embora chame “Blondie (menina do cabelo amarelo”), a música me remeteu mais ao Pixies com suas guitarrinhas e baixo pulsante, que a banda da Debbie Harry. Por sua vez o seu refrão bobinho - no bom sentido - parece feito pra ser cantado de forma catártica pelo público nos shows do trio. A vigorosa “Golpe Baixo” é tão boa que poderia tá num disco do Lupe de Lupe. É isso é um grande elogio. Curiosamente, o mesmo vale pra balada shoegaze “Não me deixe no almoxarifado” Com guitarras enormes e abrasivas, “Vaivém” tem a atmosfera do rock alternativo noventista. Dentro desse contexto, achei curioso o solo de hammond (?) em seu final. O groove duro e dinâmica alternada de “querubim”, sustentado por um baixão poderoso, remete diretamente ao Weezer, principalmente no refrão. Em “Cinza e Carmesim” o canto sereno nos estrofes se equilibrando em guitarras numa crescente traz uma atmosfera do emo noventista. Por sua vez, de ritmo mais arrastado, “Sopa e Café” é um shoegaze dos bons. Adorei como as guitarras se espalham pelo espaço e espectro sonoro. Aqui vale dizer que embora com timbres nervosos e por vezes crus, há um equilíbrio nos arranjos e mixagem. É uma evolução na produção do rock alternativo brasileiro. Por outro lado, em termos de composição, senti falta de letras mais consistentes. Pegue “Você vai me escutar por exemplo”, faixa com certa energia, boas guitarras, mas letra nada inspirada. “Alguma hora você vai ter que tirar a roupa do varal”, por mais que eu me identifique com o nome” (*filmar varal na sacada), é bem fraquinha também. Ela remete a músicas que passariam na MTV por algumas semanas pra depois nunca mais ser tocada. Lo-fi, levada por voz e guitarra, “tá legal/se lembra?” era melhor ter ficado na gaveta de demo, já que não agregou nada ao álbum. “Chap chap chuap pop”, a mais longa do disco, também emperra sua evolução. O final era pra ser catártico, mas só foi arrastado. Tem ainda uma bônus acústica no final que não é exatamente um bônus, então vou ignorar. Embora o final do disco deixe um sabor ruim, ele é comparável aquela cerveja que a gente mesmo empapuçado não quer parar de beber quando estamos num evento legal, com os amigos).

- Emicida: Emicida Racional VL 2 - Mesmas Cores & Mesmos Valores (Não sou tão fã do Emicida (mas gosto e admiro, claro) e inicialmente não me empolguei com o debruçar na obra dos Racionais. Tanto que nem fui ouvir o projeto lançado pelo DJ Nyack antes, que cria novas faixas ao fundir canções do Racionais e Emicida. Isso posto, adorei esse disco. Um dos que mais gostei do Emicida. Ao menos nos momentos em que há canções, visto que as longas faixas de abertura e desfecho do álbum não me pegam. Entendo que há emoção (para alguém, não despertada em mim) e função narrativa, mas ele a de compreender que muitos vão ignorá-las em reaudições. Agora, o miolo do álbum é ótimo, tanto na produção e construção dos beats (pesados, rebuscados) quanto no flow complexo do rapper. Ele canetou pra valer, buscando rimas internas com inteligência e suor. Inclusive, na faixa que tem o Rashid e o Projota fica explícita a disparidade textual). Finado Neguim memo?

- Emma Goldman: all you are is we (A primeira impressão que tive ao ouvir o disco é que ele soa como se o Converge fosse uma banda de screamo. Uma energia eletrizante e jovial, sustentada por performances eufóricas, seja do instrumental explosivo ou do canto desesperado. Tem berro, tem organicidade e tem criatividade. Bem legal). this is your brain on minimum wage

- Eric Gales: A Tribute To LJK (Aquele disco anterior que contou com empurrãozinho do Bonamassa até foi legal (Crown, de 2022), mas nesse aqui o Eric Gales parece tá muito mais a vontade. Tá soltando braço na guitarra em blues potentes. Adorei os timbres (dele e banda), sua voz, o desenvolvimento dos solos, os grooves, as participações (“Kingfish”, Bonamassa, Buddy Guy)… Simplesmente sonzeira). Guitar Man

- Ethel Cain: Perverts (Não morro de amores pelo trabalho da artista. Todavia, reconheço a profundidade desse álbum, que ao transitar entre ambient, drone e slowcore, chegou num resultado altamente dramático, etéreo e, de certo modo, aterrorizante. São faixas longas, de texturas cinematográficas e que evoluem lentamente. É um disco (EP longo) difícil, não dá pra ouvir a qualquer momento, mas se apreciado com disposição ele tende a despertar sentimentos obscuros. Recomendo ouvir no escuro, antes de dormir). Thatorchia

- Ethel Cain: Willoughby Tucker, I’ll Always Love You (Após o denso Perverts, ela ressurge com um álbum mais coerente com o trabalho que vinha realizando, embora devo afirmar que ela evolui muito tanto como compositora, quanto nas escolhas estéticas. Aqui ela se apropria do slowcore e dream pop para criar um cenário dramático, reerguido por canções bonitas melodicamente, numa linha composicional bem americana. É atmosférico, emotivo e tristemente apaziguador. É curioso pensar como esse trabalho se comunica com um público jovem. Deste modo, beira o impressionante). Willoughby’s Theme

- Facada: Truculence / Facada & Rot: Em Sincronia Com o Fim do Mundo (Diretamente de Fortaleza, mais um grande trabalho de um dos grupos mais consistentes do grind/death/crust… metal extremo nacional. São 15 minutos que soam como um rolo compressor. Logo na primeira faixa o vocal berrado, as palhetadas na guitarra e a bateria ultra veloz parecem se amontoar como catarro escarrados na nossa face. E é daí pra pior. Desnecessário descrever faixa a faixa, mas vale destacar a energia de “Saudade Não Acaba”, a convulsivante “Regressão Primitiva” - essa dono de um final com teclados dramáticos - a podridão de “Não Dormir, Nunca Acordar” e a muscular “Bem Que Eu Disse”. Faixa após faixa, parece que você tá sendo socado contra a parede e sentindo o gosto do ferro do sangue que escorre pelo nariz e dos dentes quebrados. É um trabalho direto, orgânico, de peso bruto. E tão curtinho que me levou a emendar com o Split Em Sincronia Com o Fim do Mundo lançado em parceria com o Rot).

- Facada / ROT: Em Sincronia Com o Fim do Mundo (É dar o play e sentir um baixo saturado tentando rachar nossos ossos. Daí pra cair em blast beat são alguns segundos. O ROT, banda histórica do grindcore brasileiro, apresentou aqui uma variedade de composição dentro do seu segmento. A energia das performances atravessam todas as músicas, sendo possível destacar as brutais “Past, Present, No Future” e “Plural”. O baterista Ricardo é um cavalo. Sua caixa tem hora que parece que vai virar farelo. Somado ao som de motosserra do baixo temos uma cozinha perfeita. Do lado do Facada se mantém o atropelo. Acho desnecessário descrever faixa a faixa. Basta dizer que tem canções como “Eu Cheiro a Putrefação” que faz jus ao nome. Quem gosta de metal extremo tem que ouvir e se orgulhar do que vem sem produzido do underground nacional).

- FBC: ASSALTOS E BATIDAS (Eu assisti um show do FBC há um ano atrás e na época me chamou atenção como a apresentação parecia expor suas diferentes “eras”. Tava ali o artista de rap, de funk, de disco-pop. Em tudo ele se sai bem, sendo que aqui ele volta a focar no rap. Ao lado do Coyote Beatz são geradas canções de batidas contundentes, meio noventista, como fica claro na dobradinha inicial “Cabana Terminal” e “Quem Sabe Onde Está Jimmy Hoffa?”, sendo que a primeira tem um baixo à la Ron Carter com A Tribe. FBC, Pepito e Nathan Morais chegam com carisma no boombapzão “Qual o Som da Sua Arma?”, que embora pesada em seu enredo, é sonoramente sacolejante. Se por um lado o rap nunca perdeu sua contestação, é bom ver um rapper do primeiro escalão não se desfocando do chamado para a revolução, como acontece na envolvente “A Voz da Revolução”. Essa temática claramente à esquerda se mantém na ótima “Você Pra Mim É Lucro”. O groove jazz-rap de “Roubo a Banco” é um respiro cinematográfico, noir, em meio a força lírica das outras faixas. “Assaltos e Batidos” impressiona pela força do texto, da performance, da produção, mas também do legado dos Racionais em um sample bem utilizado. Adorei as variações rítmicas no beat de “Estamos Te Vendo”, canção com as mãos do Coyote Beatz e Pepito. “Me Diga Quem Ganha” tem um som tão poderoso e pesado quanto funkeado. O mesmo vale pra letra, que tem sua graça mesmo diante de uma guerra. Diante de um disco tão direito, confesso que os discursos retirados do filme Rede de Intrigas na longa faixa final atenuou o impacto do beat e o chamado do refrão. Sem se curvar para o sucesso viral, FBC tenciona sua obra e, principalmente, seu público com um disco que não esconde seus principais valores musicais e sociais).

- Fernando Motta: Movimento Algum (Fui de encontro a esse álbum às escuras, sem saber o que esperar, só sabendo que havia sido bem avaliado. Me impressionei com a interpretação que ele faz do shoegaze, soando tão fiel ao gênero quanto não ortodoxo. Aqui as nuvens saturadas e reverberosas encontram melodias com referências tanto da mpb quanto do pop. Nesse sentido, ele é até que acessível. Há ótimas texturas criando climas verdadeiramente imersivos. Vale dizer que a Terraplana participa numa canção, sendo uma amostra da ebulição do shoegaze brasileiro contemporâneo. Impressionantemente bonito). Ladrilhar

- FKA twigs: EUSEXUA (Um dos primeiros lançamentos do ano, que já chegou chutando a porta ao tensionar a música pop dentro de contextos sônicos da música eletrônica. E não a música eletrônica como mero recurso de fácil manipulação, mas como fonte de experimentação (algo já feito dentro do pop pela Madonna, Bjork e Charli XCX). Destaco também sua destreza melódica através do canto. É pungente e sexy). Drums Of Death

- Francis Hime: Não Navego Pra Chegar (Aos 85 anos, Francis Hime continua lançando ótimos trabalhos que passam indiferentes aos olhos e ouvidos do grande público. Se fosse do Chico Buarque teria recebido aclamações. Mas voltando ao álbum, ao menos os artistas parecem valorizar o fino da canção brasileira, visto que Ivan Lins, Zé Renato, Lenine, Mônica Salmaso, Dori Caymmi, Simone, dentre outros participam do disco. Não nego que precisa estar no dia propício para valorizar o álbum, visto que ele não salta em sonoridade artificiais, mas em harmonias e melodias sinuosas. Há momentos muito bonitos. Escutem com atenção). Um Rio

- Gabriel Jacoby: gutta child (8 faixas, 20 minutos. Uma cartão de visitas de um artista que investe num r&b redondissimo, bem arranjado e grooveado. Ganchudo o suficiente pra também ser pop. Tem muito do D’Angelo, o que explicitou para mim como muito do que outrora foi tido como “contemporâneo”, hoje soa como “revival”. Sinais dos tempos). same sign

- Gabriel Ventura: Para me lembrar de insistir (Segundo álbum solo desse músico fantástico, que inicialmente chamou atenção como membro do Ventre. Seu estilo é tão integrado ao rock alternativo quanto a canção brasileira. Ambos tratados de maneira inventiva. “Lamber os dentes” abre o disco. Dá pra enquadrá-la como um neo-prog brasileiro, com guitarras dissonantes e timbristicamente peculiares dialogando com o violão do Vovô Bebê. Nada é comum em “O enfeite do não e o sim”. Melodia e ritmos intrincados dentro de uma produção quase abstrata. Tem algo de Los Hermanos, assim como de Radiohead. Uma fusão de ambos em forma de oração. Vale ainda citar “Acalento”, que em seu instrumental me lembrou o Tortoise; a vinheta “Lanny”, que pelos acordes entrega ser uma homenagem ao Lanny Gordin; e o poderoso baixo acústico (ora tocado com arco) na jazzística e lindíssima “Fogos”. Nessa toada o disco se desenvolve por caminhos harmônicos imprevisíveis, timbres terrosos e letras que são quase devaneios. Com isso as canções parecem suspensas, sem chão. Elas começam e acabam se dilacerando emocionalmente, mas sem deixar rastros. O fato do seu canto ser delicado também não gera grandes tensões. Dito isso, o fato de nada ser tão memorável não depõe contra a complexidade estética proposta).


- Gaby Amarantos: Rock Doido (A Gaby Amarantos chegou em mim ali no começo dos anos 2010, como representante do technobrega, alçada pelo Miranda, pela MTV, por uma indústria cultural hegemônica. Quando fui ouvir seu disco Treme me frustrei completamente. Até mesmo pra um rockeiro do Sudeste, aquilo já me pareceu uma diluição da cultura paranaense. Uma maneira de catapultar uma cena efervescente. Legítimo, inteligente, a mim desinteressante. E com o tempo, a Gabi foi pra mim parecendo cada vez menos uma artista e mais “a paraense da Rede Globo”, do GNT. Jogo que ela pareceu fazer sem se importar. Foi com essas percepções - equivocadas ou não - que me deparei com Rock Doido, seu quarto disco. Os mais desavisados não devem se apegar ao “rock” no nome do disco, embora vale dizer que há sonoramente uma interferências do gênero rock. Ao menos na energia, na saturação, numa certa atitude inserida dentro de um contexto do pagodão, technobrega e funk contemporâneo. O rock doido está ligado as festas, as aparelhagem, vide as do Crocodrilo. Isso posto, é fácil sentir a pressão “rockeira” saindo dos falantes diante de “Arrume-se Comigo”, faixa de ritmo frenético. Melhor é ainda “Short Beira Cu”, carismática já no nome, mas melhor ainda diante do ritmo, dos motivos e ganchos melódicos, da letra divertida e refrão memorável. Fora que ela tem um elemento étnico, acho que árabe, que lembra o que a Ivete gostaria de ter feito em “Cadê Dalila”, mas errou feio. “Mamãe Mandou” tem a forma do funk; “Te amo fudido” do brega, com direito ao carisma, bom refrão e boas performances vocais - incluindo da Viviane Batidão -, acompanhada de um teclado divertidíssimo. Já com Lauana Prado, a sofrência de “Não Vou Chorar” diminui a energia, trazendo dinâmica ao disco, mas isoladamente não me encantando. “Dá-Lhe Sal” se comunica com a música eletrônica periférica do mundo. Sua melodia e ritmo é caloroso e dançante. O mesmo vale pra entusiasmante “Tumbalatum”, atenuada pela participação da Gang do Eletro. Depois de tantas canções fortes, aqui chegamos naquele miolo problemático do disco, menos inspirado, com faixas curtinhas de menor valor. São quase como memes sonoros: “Eu tô Solteira”, por exemplo, parece que tem como única motivação de existência o compartilhamento com as amigas. Já “Abraço”, embora bem produzida, enquanto composição é esquecível. E o hit “Foguinho” se apropria de “Somebody That I Used To Know” e não gerou em mim nada tão entusiasmante. E aqui vale dizer que a melodia que ela pegou emprestada é do Gotye mesmo, que por sua vez utilizou uma cadência do Luiz Bonfá não exatamente presente na faixa Gaby Amarantos. Vi essa confusão por aí. Entendo o conceito de reapropriação de música, mas não sei se rolou exatamente isso. “Crina Negra” já melhora novamente o astral. É technobrega na essência. Divertida, estrondosa, pulsante, ganchuda. Inicialmente levada nas palmas, algo indígenas e do carimbó, infinitos “BBBBBBBB” logo deságua no seu ritmo eletrônico maravilhoso. Canção inteligentemente arranjada, soando rica, pop e com respeito a tradição nas células rítmicas. Adorei o astral, a melodia (no pré refrão roubada do Black Eyed Peas?) e os synths de “Cerveja Voadora”. Ao vivo, no mormaço, ela pede chuva de cerveja. Com uma guitarrinha esperta (total guitarrada), “Bonito Feio” é engraçada, apaixonada e viralizante de modo genuíno. Se a Renata não postar uma foto minha com essa música de fundo ficarei triste. Queria entender melhor a manipulação de voz e o timbre cafajeste de teclado em “Carregador de Aparelhagem”. Ao menos a homenagem no nome da canção é explícita e mais que justa. Assim como o disco num todo, “Rock doido é o meu lugar” é um ode à cultura da aparelhagem, sendo um desfecho narrativo pra um álbum conceitual, que percorre pelo começo, meio e fim de uma noite festiva, vivenciando o set de DJ. Isso pode ser percebido até mesmo na derradeira balada pop “Deixa”, que representa o amanhecer posterior ao evento. Vale dizer que esse álbum acompanha um curta-metragem gravado na periferia de Belém que talvez explique melhor esse enredo. Minha interpretação é exclusiva do álbum. E é isso. Confesso que, para minha surpresa, temos um álbum da Gabi Amarantos muito bom em produções, programações, performances, composição, criação artística e astral).

- Galf AC / DJ EB: Tertúlia (Menos de 15 segundos e o álbum já traz sample de Milton Nascimento e menção ao MF Doom. Se você, assim como eu, caiu desavisado nesse disco e precisa de um incentivo inicial para ouvi-lo, tá ai. Aqui temos um rap sem grande invencionismo, mas que lapida a arte de rimar e criar beats. “Efeito Borboleto” aponta com convicção na direção do boom bap. Além dos versos vorazes e combativos, chama atenção a capacidade de criar bons refrões, vide “Adão Negro” e “Aruanda”. “Faraó” tem ótimo beat, com direito a um fender rhodes (?) dando um clima mais jazz rap. Samples escolhidos a dedo e scratches nervosos ditam o ritmo de “Ugangue”, faixa com clima Griselda. O mesmo vale pra sinistra “Ritmo Louco”, que ressalta a força das mulheres no rap com a participação da Killa Bi e Bianca Hoffmann. Falando em participações, vale dar atenção para a presença do Russo Passsapusso em “Pacto de Sangue” e do Rodrigo Ogi - que só aparece em bons álbuns -, em “Partículas do Som”. Muito além de modismos, aqui o rap nacional de mostra renovado e consistente).


- Geese: Getting Killed (Independente das minhas impressões sobre a obra, acho que é bastante claro pra (quase) todos que esse álbum já nasce com o status de “clássico do período”. E é fácil identificar os motivos, já que, antes de tudo, as canções são boas, trazendo letras humanamente provocativas na voz de um sujeito “carismático” (carisma de maluco, mas carisma) e dono de interpretações “peculiares” (um dos grandes vocalistas “fanhos” da história). Como crítica, vale se atentar que toda geração arruma um garoto branco problemático pra externalizar seus próprios dilemas. Thom Yorke foi o meu, não vou julgar uma molecada que anda vangloriando o Cameron Winter. Ao menos não é mais o Alex Turner. Voltando ao disco, gosto como, apesar da popularidade disfarçar a realidade, ele soa bastante “experimental” dentro dos padrões da indústria, trazendo composições de progressão lenta, que não primam pelo gancho fácil (embora o “gancho difícil” esteja nas entrelinhas). Fora que a sonoridade orgânica é ótima, o baterista tem excelentes performance e os arranjos são bem construídos. Talvez só não tenha morrido de amores porque já fiz isso no 3D Country (2023) e Heavy Metal (solo do Cameron, de 2024) de modo que esse me surpreendeu menos. Mas algumas das melhores canções do ano sem dúvida estão aqui). Getting Killed

- Guerilla Toss: You’re Weird Now (Mais uma vez o grupo consegue fazer da new wave algo novo. Eles jogam elementos eletrônicos, trazem uma camada psicodélica e ainda contam com Stephen Malkmus e Trey Anastasio pra formar um trabalho rico em elementos e astral elevado com certa densidade energética). Psychosis Is Just A Number

- Hannah Frances: Nasted In Tangles (Não conhecia a cantora, mas fui ouvir o disco devido a colaboração com o Daniel Rossen, que trouxe sua densidade, texturas e temperos quase progressivos para o folk acústico da moça. As canções são guiadas por bonitos caminhos harmônicos, saltos melódicos impressionantes, uma voz de força delicada e organicidade rural (ok, ora orquestral). Sofisticado no “simples”). Life’s Work

- Hayden Pedigo: I’ll Be Waving As You Drive Away (Com uma visão estética-visual bastante rica, esse talentoso violonista transcende o instrumento resgatando sonoridades e memórias da música norte-americana. Fugindo da técnica pela técnica, ele cria paisagens e sensações com seu dedilhado afiado e timbre cristalino. Álbum muito bonito, com lampejos de música ambient). Smoked

- Hayley Williams: Ego Death At A Bachelorette Party (Lançado inicialmente como um punhado de singles, quando posto em sequência tendo a achar demasiado. Mas se por um lado o Paramore se encontrou numa “neo-new wave” divertida e rebuscada, em carreira solo a cantora amadureceu e soube abordar seus dilemas em canções que passeiam pelo pop, pop punk, indie rock, pop à la Fleetwood Mac, trip hop, “reggae”… é uma artista experimentando dentro do seu próprio mundo. Irregular, mas com grandes momentos). Ego Death At A Bachelorette Party

- Ho99o9: Tomorrow We Escape (Com produção modernosa, trazendo timbres sintéticos distorcidos, esse álbum me soou como o metal industrial perfeito para a geração atual. Tem o lado frenético, uma certa espacialidade reverberosa ecoando em alguns elementos, interferência do rap e uma doidera/ansiedade típica do nosso tempo. Fora os riffões em interação com a abordagem eletrônica caótica. Nem todo mundo vai embarcar, mas provavelmente tende a agradar uma molecada ligada em sons pesados. Capa muito legal). Tapeworm

- Hosegirl: Phonetics On And On (A abertura deste álbum é espetacular! Duas faixas que recriam com personalidade e qualidade aquela estética de bandas de indie rock da virada da década de 1980 que bebiam do rock psicodélico/garage sessentista. Isso não via fuzz descontrolados, mas com guitarras de jangle pop. Eu adoro! Depois o repertório dá uma caída, intercalando entre indie rock, pós-punk e dream pop, mas ainda bacana. Gosto como os arranjos soam com buracos, transparecendo calma e organicidade na performance. As moças são talentosas. Não deixe de conferir se essa for sua praia). Where’d You Go?

- Idle Heirs: Life Is Violence (Esse grupo parece amadurecer sonoridades tão em voga no metal moderno. Tem o sentimentalismo, as melodias e o peso, mas não se deixando levar por estruturas convencionais. Muito pelo contrário. O desenvolvimento das canções é lento e gradual, trazendo elementos do post-hardcore, metalcore, metal progressivo e sludge. Excelente gravação. Há alguns momentos climáticos e outros violentos). Lemonade Stands

- Infinity Knives & Brian Ennals: A City Drowned In God’s Black Tears (Um álbum de hip hop externamente plural em sonoridade. Tem momento folk, dream pop, doom metal, funky, latinidade com ecos involuntários de BaianaSystem… e não é modo de dizer. Isso de forma bem resolvido (e experimental), dando uma fluidez entusiasmante ao trabalho. Incisivo e divertido). Everyone I Love Is Depressed

- Irmãs de Pau: Gambiarra Chic, Pt. 2 (Você é moralmente sensível? Acha que tem temas ou vocabulário delicados para ser tratado em música? Acha funk musicalmente abominável? Então nem dê o play nesse disco, visto que as Irmãs de Pau, duas travestis afrontosas, condensam tudo que os mais conservadores abominam. Dito isso, por mais legal que seja essa postura politicamente/socialmente, artisticamente confesso que não embarquei nesse álbum como um todo. Acho besta essas paródias com temática sexual com temas infantis como acontece logo em “BOY BOY”. Não digo por questão moral, mas musical mesmo. Ao menos o beat corrosivo e de montagem quase amadora tem energia, salvando a faixa, ainda que Dj Dayeh seja chamada de “palhaça do caralho”. “QUEIMANDO ICE”, com boa participação da Duquesa, tem som de rua. Funciona. O desejo de calvice às inimigas na debochada “ETERNA FIEL”, assim como alegações de bafo e cu fedidos é maneiro. Gosto desta linguagem electro/rave do kick. Faixa engraçada. Agora, posso tá sendo rabugento demais, mas faixas como “FUEGO” forçam a ideia de ter que ser divertido a todo custo, neste caso o custo de ser mal escrita. O mesmo vale pra “TRÊS ESPIÃS DEMAIS”, um pouco melhor sucedida, meio noventista, meio electro, mais uma vez parodiando música infantil e relembrando Gretchen. “BAILE NO RXOTA” é um mergulho selvagem na carioquice. É bem legal, criativo no beat e de refrão fixante. Seu verso inicial era pra lembrar “Ragatanga”? “QUEENS OF CUNTY” tem flow, energia e beat entusiasmante pra chamar atenção internacionalmente. Um desfecho forte pro disco. Embora exista variedade de DJs/produtores no álbum, nem por isso ele parece retratar o que há de mais interessante nos subgêneros do funk. Exemplo disso é “MEDLEY DO NOVO MUNDO”, que força ganchos e frase de efeitos, além de variações de estilo, mas ainda assim soou entediante. O contexto social delas serem travestis não deve ser ignorado, visto que é um grupo brutalmente escanteado na sociedade. Todavia, essa tensão não é alimentado no disco - com exceção de “PASSAPORTE Y COPÃO”. O que o disco passa é a liberdade, a emancipação pessoal delas, vide a boa “POSTURADAS”, não dando assim brecha pra grandes reflexões. Não que precise, mas é curioso, já que essa cartada social é muito usada pra legitimar certos trabalhos, ainda que não tomando como base a própria obra).

- Jadsa: big buraco (Cantora/guitarrista baiana e um dos grandes nomes da nova mpb. Seu trabalho foge de afetações e se concentra em escolhas estéticas muito bem sucedidas. Sua voz sóbria/contida abre os trabalhos em “big bang”, canção aconchegante e luminosa, levada por uma instrumentação arrojada e orgânica que já dita os rumos que o disco embarca. Há um experimentalismo no jogo de palavras e no desenvolver de “tremedêra”. Acordes rebuscados, um teclado meio jazzistico e scratches se entrelaçam a sua voz elegantemente. “sol da pele” se por um lado é composicionalmente mais comum, ao menos ela traz um balanço pop radiofônico, quase de Nova Brasil FM, deixando o enfoque no groove contido e na interpretação afiada da Jadsa. Sua voz está sublime na vinheta “mel na boca”, desaguando numa espécie de reggae disfarçado chamado “big luv”. Em “your sunshine” essa incursão por sons jamaicanos é mais explícita. Por sua vez, “no pain” traz uma progressão blues em cima de clima arrastado quase trip hop. Por mais que sua escrita em “1000 sensations” e “big mama” não seja das mais comuns - da até pra imaginar respectivamente o João Bosco e Itamar Assumpção cantando essa música - mais uma vez ela embala a composição num formato tão rico quanto palatável. E contemporâneo. Com violão esperto/rítmico é bom trabalho de sopros, “um choro” tem uma sonoridade bem particular dentro do álbum. Com metaleira quase gafieira, “big buraco” é um tremendo desfecho, remetendo de algum modo ao Luiz Melodia. O grande mérito desse trabalho é de polir a linguagem inventiva da Jadsa, deixando mais acessível para novos ouvintes sem necessariamente diluir sua identidade. Se ela vai obter esse êxito comercial eu não sei - provavelmente não - mas o disco ficará na memória de quem ouvir.

- Jambu: MANAUERO (Segundo álbum desse grupo de, adivinhem, Manaus. Lembro de não gostar da estreia deles, de modo que ouvi esse disco com surpresa. Não que seja fantástico, mas é um pop rock bem desenvolvido, muito mais inspirado. “Vagabundo” é boa, radiofônica, de pré-refrão e refrão memorável. O mesmo vale pra “Lentamente”. Já “Passatempo” aponta pro reggae-pop com carinha de 00’s à la Natiruts, não fosse o solo psicodélico. A intercalação das vozes e o ritmo irresistível sustentam “vc se foi e é tarde”. “Eu te espero” é radiofônica sem deixar de ser inquietante nas diferentes formas/elementos dos versos e no final rockeiro. “O último suspiro” é meio shoegaze, meio Weezer. “BOATO”, com seu riff de guitarrada e refrão engraçadinho, parece perfeito pra viralizar no TikTok. Inclusive, esse refrão tem um curioso flerte do hardcore melódico com o forró universitário 00’s. Já o solo de guitarra parece feito pelo Rivers Cuomo. Destaque ainda pro balanço retro-moderno (meio Rádio Táxi, meio Khruangbin) de “cerveja gelada”. Mas nem tudo funciona. A batida dance de “pense bem” e o flow “ragga” de “latinoamericano” (com direito a um solo shred de guitarra sem propósito) é um desfecho que não faz jus ao álbum. Curiosamente a introdutória “INCENDEIA”, também com guitarras estranhas (mergulhos de floyd-rose) também é das mais fracas. A produção nem tão cristalina, com certa sujeira, me agrada muito dentro do contexto de pop rock. Fora isso tem camadas sobrepostas que dão um aspecto psicodélico, ou até de dub, em meio a canções de brasilidade pop natural. É bacana).

- Jamés Ventura: Em Nome das Ruas (Veterano do rap nacional - a ser ainda descoberto pelo grande público - o Jamés, sem cair em clichês, é dos que melhor representa a linguagem do rap nacional da virada do milênio. Mas entenda, nem por isso ele soa conservador. Faixas como “Noite de Sp” incorpora algo de trap, “Lençol” não é sisuda. trazendo um refrão melodioso/pop. Mas sua música é baseada mesmo no flow e textos, que por sua vez são baseadas no cotidiano, sem dar muita brecha para devaneios conceituais. É um modo bem cru de pensar o gênero, já que os beats e produções também não trazem grandes aventuras. Todavia, dado o talento dele com a caneta, é suficientemente instigante. Ah, vale dizer que o Cappadona participa do disco. Algum outro Wu-Tang já gravou com um brasileiro? Bom álbum). Força

- Jane Remover: Revengeseekerz (Vou ser bem sincero: eu gostei, mas não de tudo e não pelas composições. Eu gostei pela produção ultra volumosa, vibrante, corrosiva e rica em texturas. Tem momentos verdadeiramente explosivos, o que eleva o todo. Já as melodias e performances vocais nem sempre me agradam. Mas quer se aventurar num pop esquisito que tem tudo para ditar caminhos do gênero do futuro? Eis aqui um disco). Dreamflasher

- Japanese Breakfast: For Melancholy Brunettes (& sad women) (Muito mais que pela voz e composições, esse álbum me ganha pelos arranjos e produções, refinados dentro do contexto de chamber pop/indie. A mão do produtor Blake Mills fala alto. Vale se atentar para colaborações variadas, que vão do lendário baterista Jim Keltner ao ator Jeff Bridges. Bonito álbum para entardecer). Mega Circuit

- JID: God Does Like Ugly (Através de ótimo repertório, JID faz a ponte da tradição com o futuro do rap, soando ora pesado, ora indo de encontro ao trap e, até mesmo, ao r&b contemporâneo. Tem refrão ganchudo, mas também rimas faiscantes. Posso afirmar que ele tem um dos grandes flow da atualidade. Clipse, Westside Gunn e Vince Staples colaboram pra eficiência galopante do álbum. Ótima produção, tanto por conta dos timbres, quanto pela lapidação dos beats). Community

- Josyara: AVIA (Eu já reclamei algumas vezes de uma certa passividade social que algumas cantoras apresentam nos textos que cantam, simbolizando força através do marasmo do “sol, areia, corpo”. Isso posto, ao mesmo tempo que esse álbum traz esse aspecto em alguns pontos, também equilibra isso com uma qualidade poética mais refinada, inclusive ao repaginar canções que eu conhecia nas vozes de Anelis Assumpção e Cátia de França. Ajuda na superação de conhecidos problemas da mpb atual a acidez dos arranjos, que inclui um desempenho matador da Josyara enquanto violonista, os baixos do Alberto Continentino e alguns elementos eletrônicos. A voz da Josyara, assim como a participação da Pitty e Chico Chico também são pontos altos. Mesmo o samba ela não trata com tanta ortodoxia caricata que sua geração parece forjar. Ótimo até mesmo para mim, um resistente a essa estética). Oasis (a duna e o vento)

- Jovens Ateus: Vol. 1 (Primeiro álbum desse grupo de Maringá (no Paraná). E, apesar do nome, a banda tem tudo pra agradar velhos rockeiros conservadores. Não me entendam mal, não tô querendo jogar a banda em colos errados, mas é que eles recriam aquela sonoridade pós-punk que ficou tão em voga no cenário alternativo paulistano na década de 1980. E fazem isso muito bem, equilibrando momentos soturnos e dançantes com fluidez natural. Há baterias contagiantes com hi-hat frenéticos, vozes que reverberam distante, baixo à la Peter Hook, além de guitarras e teclados discretamente bem construídos. Tudo numa produção crua, mas eficaz e com certa rispidez abrasiva. Já no que diz respeito às melodias vocais e letras, dá pra colocar num campo melancólico e existencialista, mas também intenso e acolhedor. Vale ainda dizer que no meio do álbum tem uma faixa de thrash metal à la Voivod (sei lá) chamada “Sabateur Got My Bloody” que, embora destoe do repertório, eu assumo que foi das minhas prediletas. Mas não vai com isso em mente, vai pensando escutar um bom álbum de pós-punk cantado em português). Cedo Demais

- Julia Mestre: MARAVILHOSAMENTE BEM (Terceiro álbum dessa artista que chegou até mim via o Bala Desejo. Assim como seus parceiros, vem demarcando seu próprio caminho. Sem enrolar já aviso que esse disco traz a estética daquele pop oitentista. Se sua voz não tem grande projeção, por sua vez, recheada de reverb e meio sussurrada ela cria um clima libidinoso. Acompanhada de um groove esperto e exuberantes arranjo de cordas, a faixa “Maravilhosamente Bem” logo na abertura já traduz a estética do álbum como um todo. “Sou Fera” é total Marina Lima. Fiquei até desconfiado se o baixo não era do Liminha (pelo que vi é do João Moreira). As guitarras com chorus, o solo à la Steve Lukather, uns synths arpejados… tudo leva a um Rio de Janeiro da década de 1980. De construção espaçada, cantada em casa espanhol, “Vampira” chega a criar um cenário onde a fumaça do cigarro se sobrepõe a luzes de neon. O ritmo “Pra Lua”, com um som que parece de ovinho, além de uma progressão harmônica de bossa nova dentro de contexto pop, é total Rita Lee & Roberto de Carvalho. É uma canção que, por mais sensual que seja, tem a cara de consultório de dentista que deixa da Nova Brasil FM. O elemento retrô soa mais contemporâneo somente em “Veneno da Serpente”. onde a batida eletrônica dançante e o baixo disco music à coloca com Dua Lipa brasileira. Infelizmente só não é tão ganchuda, soando na realidade até repetitiva. “Canto da Sereia” é uma espécie de vinheta acústica, muito bonita, que prepara o disco para um novo clima. Numa toada mais contida, solitária, “Sentimento Blues” tem um cenário de piano bar. Tem belo arranjo de cordas, solo jazzy brazuca, uma onda meio Celso Fonseca e embora não seja um bolero, tem aquela vibe “Caso Sério” da Rita Lee. Seu canto sussurrado em alguns momentos me lembrou a Céu. Através das cordas de “Interlúdio dos Amantes”, a faixa se entenda a “Seu Romance”, uma balada com aqueles aro de caixa cheio de reverb, frases oitavas na guitarra e romance radiofônica. Com participação da Marina Lima, “Marinou, Limou” é uma homenagem explícita que, na realidade, é aflorada por todo o disco. Confesso que acho que a canção soaria mais calorosa se seu beat não fosse tão quantizado. Achei meio dura, tipo aquela fase “dance” do Ed Motta. Ao menos o baixão come solto. Inclusive, dá pra dizer que é um disco de baixo! “Cariñito” é um final caído pra um disco que em sua totalidade soa muito mais colorido, mesmo quando utiliza pigmentos desbotados dos anos 80).

- Justin Bieber: SWAG (Não sou dos que embarcam nos discos do Justin Bieber, de modo que quero começar até dizendo que sua voz (em interpretação e timbre) continua não fazendo minha. O repertório também é irregular, com direito a vinhetas constrangedoras (“SOULFUL” é vergonha alheia total) e a pessoas faixa título. Dito isso, há também outras tantas boas canções (“DAISIES”, “WAY IT IS”, “DEVOTION”, “GLORY VOICE MEMO”, dentre outras) que sinalizam até mesmo uma corajosa (e também oportunista) guinada pra um r&b contemporâneo lo-fi. Chego a achar curioso pensar no seu enorme público escutando canções tão “crispies” em produção. Vale ainda pontuar que adorei as guitarras do Mk.gee, que trazem sujeira/groove/organicidade/criatividade para as canções. Ainda que com problemas, é disparado o álbum que mais gostei do Justin. Vale conferir por curiosidade).

- Kali Uchis: Sincerely, (Devo ter comido bola, porque perdi essa transição da Kali Uchis de um som mais latino pra um dream pop/chamber pop/soul maravilhoso, com direito a reverbs etéreos, arranjo quase cinematográficos e sua voz (ainda libidinosa) em melodias adoráveis e interpretações fantásticas. Grata surpresa. Pra ouvir no calor do corpo da(o) amada(o). Lindo). Territorial

- Katy da Voz e As Abusadas: UM VERÃO TRISTE, PORÉM ABUSADO (Nem sou dos que engole fácil o som do grupo meramente por seu valor social, mas esse EP me pegou de jeito. As produções tão mais abrasivas e frenéticas, soando como um hyperpop do inferno (aka hyperpop do Brasil). Pesado, dançante e colorido. As letras escrachadas tão num nível divertido (pra gente que é normal) e perturbador (para os mais sensíveis). Na pista funciona demais. É um EP curtinho, de uma chance). RELAXADA

- Key Glock: Glockaveli: The Don (Ok, alguém pode até afirmar que a longa duração do álbum (pouco mais de 50 minutos) atenua sua força, mas acho que esse rapper tem um talento especial para criar faixas pulsantes, que nos envolve com uma força quase involuntária. A maneira com que os ritmos são construídos, somados ao fato deles trazerem timbres mais robustos do que comumente percebidos no trap, traz um corpo massivo as canções. Seu flow limpo é de perfeito equilíbrio a sonoridade. Redundantemente envolvente, ao ponto de nem ver necessidade de apontar destaque).

- King Gizzard & The Lizard Wizard: Phantom Island (O King Gizzard lança tanto disco que as pessoas banalizaram a excelência deles. Esse é mais um caso, onde o grupo traz ecos setentistas (Sly, Stones, Grateful Dead) coberto por orquestras/metais muito bem arranjados. Mas as guitarras ainda estão lá, assim como as boas composições. Simplesmente um dos melhores discos de rock do ano, o que é comum pra eles). Deadstick

- La Dispute: No One Was Driving The Car (Após um longo período sem discos, o grupo continua a levantar a bandeira do post-hardcore e emocore, estilos já estagnados, mas aqui com dose de frescor por conta da energia que eles impõe na performance. Gosto da produção e de como as canções evoluem. Tem crianças de climas e momentos mais discursivos. Se os estilos fazem sua cabeça, vale dar atenção). Steve

- Larkin Poe: Bloom (Alguém pode acusá-las de fazerem pastiche do classic rock americano, mas não de não serem exitosas no que se propõe. Aqui as canções soam como se o Black Crowes ou a Tedeschi Trucks Band não tivessem vergonha de tocar nas rádios americanas. Canções melódicas e convencionais, mas com doses cavalares de guitarras bem tocadas, além de uma produção que transita entre o orgânico e a polidez da modernidade. Ouça sem preconceitos). Pearls

- Laufey: A Matter Of Time (Entendo que é muito easy listening e, até mesmo, descaradamente pastiche, mas é um “produto” pra adolescente. Nesse sentido, acho adorável o som que ela propõe. Um olhar pro cancioneiro americano, pro jazz e até mesmo pra bossa nova. Tudo muito bem tocado, arranjado e gravado, incluindo sua interpretação doce. É agradável demais pra odiar). Carousel

- Lucy Dacus: Forever Is A Feeling (Embora de tom morno e, até mesmo, irregular, o disco em sua progressão é constantemente agraciado por canções acústicas que revelam beleza composicional, sonora e vocal. Vale aqui até apontar como exemplo “Limerence” e “Come Out”, das mais bonitas do ano. Só por elas já vale a audição. Um aconchego).

- Luedji Luna: Antes Que A Terra Acabe (Um álbum que prioriza o trabalho colaborativo. E não é com qualquer um não! Logo na abertura temos “Apocalipse”, que conta com um tremendo arranjo orquestrado pelo Arthur Verocai. A bela voz da Luedji recebe o auxílio bem-vindo do Seu Jorge. A sonoridade etérea em “Pavão” forma um clima r&b aconchegante. A canção tem boas participações da Mc Luanna e Rapsody. O groove vagaroso de “Imã” e a doçura sofisticada de “Mara” (com menção a “Beijo Partido”) são de elegância exitosa não encontrada no álbum anterior (Um Mar Pra Cada Um). Vale aqui mencionar a excelente performance dos instrumentistas envolvidos, além da captação organicamente aconchegante. Mesmo aquela brasilidade com o pé no reggae de “Iôiô” parece funcionar aqui. Caberia em novelas e rádios de música brasileira. As metaleiras, acordes abertos e qualidade rítmica de “Às Cegas” é mais um grande destaque. “Bonita” tava me soando excessivamente revisionista da bossa nova, mas aí entrou a Alaíde Costa cantando e eu me rendi. Chegou no coração. Ao final, ainda temos o grande Robert Glasper oferecendo sua musicalidade em “Outono”. Neste álbum a Luedji acertou a mão).

- Lupe de Lupe: Amor (Lupe de Lupe, uma das minhas bandas prediletas do rock brasileiro dos últimos 30 anos. Sendo a sequência do explosivo Um Tijolo Com Seu Nome, um álbum punk de canções curtíssimas, aqui eles apontam pra outra direção. São apenas 4 faixas, todas longas, expondo a visão do amor pelos olhos de cada integrante do grupo. Praticamente uma versão noise rock para O Banquete do Platão. Zuera. Não posso dizer que é a melhor porta de entrada pro som do grupo, embora ele represente muito bem as ambições e o quão despretensiosamente comercial eles são, não somente pelas estrutura das faixas, mas também pela performance barulhenta, canto mais eufórico que afinado, dissonância, crueza dos timbres. É um disco que prima por passar a verdade dos integrantes, não pela tecnicidade. Ainda assim, talvez seja o disco melhor produzido deles. É uma barulheira volumosa que atinge momentos de ebulição. Quase como um Swans de baixa renda. “Vermelho”, faixa que abre o disco, é a que menos gostei. Apesar de ter uma intensidade de tirar o fôlego em alguns momentos, não embarquei na sua estranha construção. Em contrapartida, de cada eu adorei as guitarras no início de “Se Nosso Amor Fosse Um Verbo”, assim como o canto recitado à la Jair Naves. A faixa é comandada pelo Vitor Brauer, que depois que ele morrer cravarei chamá-lo de gênio. Até lá apenas digo “ouça ele com atenção”. Canção linda (e carnal), que deságua num drone ritmicamente convulsivo. Solão de guitarra ao final. Foda. A primeira metade de “Uma Bruta Realidade” é arrastada, mas tem um final triunfante, de beleza e força quase do emocore, embora de timbragens saturadas que se por sua vez ressaltaram seu sentimento, também a torna de difícil assimilação para alguns. Por sua vez, a derradeira “Redenção” é mais pop - a cara do Renan - de enredo mais identificável, ritmo quase dançante. Falar em “eu, você, três gatos e um cachorro” é pedir pra cair na boca da plateia. Obviamente seu final interminável e cheio de camadas vem pra dificultar qualquer ambição comercial. Com isso, Lupe de Lupe lança mais um trabalho consistente, forte, lindo e estrondoso. Quem gosta da banda vai embarcar com convicção. Quem não curte ou não conhece tem mais uma oportunidade de se apaixonar).

- Mac Miller: Balloonerism (O Mac Miller é um raro caso em que seus dois discos póstumos são melhores que os trabalhos lançados em vida. Sua voz singela e, até mesmo, melancólica funciona bem ao lado de produções que transitam naturalmente entre o pop, rap e r&b, se equilibrando nos gêneros através de bons ganchos, harmonias, melodias e ao baixo do Thundercat. Produção cristalina e vagarosa, que soa tão anestesiante quanto esperançosa). 5 Dollar Pony Rides

- Majur: Gira Mundo (Preciso ser franco ao dizer que não alcanço toda dimensão desse trabalho, que remete a ancestralidade da artista com cantigas africanas e estabelecendo uma conexão com orixás. Isso se dá inclusive na língua/dialeto das canções. O resultado poderia ser meramente panfletário e identitário, mas há nas canções uma beleza “transcendental” (com perdão do adjetivo batido). É solar e belo. Engrenei no fluxo das canções, levados por ritmos e cantos hipnóticos. Vale reforçar que a capa é linda. Um disco não para todo momento, mas com êxito gigantesco. Sem destaque).

- Manger Cadavre?: Como Nascem Os Monstros (Confesso que o disco não me pegou de primeira. Talvez eu estivesse esperando por algo mais desgraçado, quando na verdade, dentro deste caldeirão de death/thrash/crust, as músicas soam até que “convidativas”. Há algo de básico, num sentido quase punk, na construção dos riffs (vide “A Terceira Onda”). A produção é grave e parruda - um pouco até “abafada” -, mas não chega a ser uma massaroca, muito pelo contrário, soa bem separadinha em seus elementos. Há também momentos mais lentos/arrastados, quase que fazendo uma ponte com o doom (vide “Murmúrio”), o que eu achei bem bacana, principalmente por sempre desaguar em um mar de fúria vocal e letras imponentes que demarcam posições relevantes da banda (e não por acaso o álbum se encerra da forma que se encerra - sem spoiler). Recomendado exclusivamente para fãs de metal). Como Nascem Os Monstros

- Maré Tardia: Sem Diversão Pra Mim (Cheguei na banda através de publicações do Mozine. É um jovem grupo de rock de Vila Velha que soa exatamente como o que é: virulento e mal acabado. No sentido positivo. É que eles ainda não parecem ter lapidado os arranjos, produção e performance. Eles soam como um grupo confinado no estúdio tocando descompromissadamente seu som, ora indo pra um indie eufórico com a cara da virada do milênio, ora apontando para sons mais contemporâneos, quase que o Viagra Boys ainda mais cru. Bote também nesse bolo algo de pós-punk e uma atitude aparentemente influenciada pelo Lupe de Lupe. O repertório é irregular, mas guarda alguns momentos vide a abertura frenética com “Leviatã”, a insurgência de “Sem Diversão Pra Mim”, a eufórica “Nadavai”, a convidativa “Ian Curtis” e a explosiva “Junkie Food” (com direito a guitarras deadkennydianas). Disco curto, divertido e estrondoso, que certamente os que dizem que que o rock acabou jamais conhecerão).

- Maruja: Tír na nÓg (Ainda antes do lançamento do excelente disco de estreia, o grupo soltou mais esse EP instrumental, que constrói paisagens densas e quase jazzísticas. Quem embarcar será agraciado. Sem destaque, o lance é o todo).

- Matheus Coringa / Chiarelli!: Huh (EP curtinho que mantém o Matheus Coringa como um dos rappers brasileiros mais ativos da atualidade. Sem qualquer tipo de adequação ou polidez, ele se joga nos beats duros e, de certa forma, abstratos do Chiarelli!. Contundente e direto ao ponto. Ouça inteiro).

- Matmos: Metallic Life Review (Gosto de pensar neles como heróis da música concreta contemporânea. De modo que, embora nem sempre seja atraído pelo resultado das obras, valorizo as propostas. Se no passado ele usaram samples manipulados de objetos de plástico (!!!) para confecção de sons, aqui foi o metal o elemento a ser explorado. E, curiosamente, o resultado não é agressivo/duro/estridente, mas até que bastante contemplativo. Nem todas as faixas se desenvolvem da maneira mais legal, mas se escutado no dia certo, pode gerar um desafio instigante). Changing States

- MC Lan: V3NOM Vol.1 - Eclipse (Tem que ouvir esse disco tendo um breve contexto: MC Lan, que já havia tencionado o funk brasileiro tanto sonoramente quanto comercialmente - inclusive em parceria com Anitta - surpreende ao mirar no new metal, vertente que só cresce, parte em saudosismo de uma geração (justamente a do MC Lan), mas também em novas formas de pensar o gênero. No Brasil mesmo isso já vem acontecendo numa fusão com o funk pela MC Taya, mas aqui o resultado foi muito mais exitoso, embora com escolhas estéticas questionáveis. Se de início (em disco e publicidade) a participação do John Dolmayan (SOAD) surpreende, no decorrer do álbum a sonoridade é mais virtual, com baterias programadas que funcionam (sonoramente e conceitualmente) enquanto interseção da produção do funk com o new metal. Por sua vez, as guitarras nos solos soam mais orgânicas, técnicas, shreds. Os bons riffs são mais manipuláveis virtualmente. Não dá pra ouvir esse álbum e pensá-lo como oportunista e caricato, já que há escolhas muito peculiares, trazendo ecos da psicodelia do trap (vide “RUNAS”) e outros elementos estranhos ao metal, o que não deixa de ser ótimo. E quanto mais o álbum progride mais esquisito ele fica. Vale dizer que Ra Diaz, Bladee, Pink Siifu são alguns nomes que colaboram com o trabalho. Mais uma vez reforço: nem tudo funciona, mas é uma audição curiosa e instigante de um artista em ruptura). REDLASER

- Mc Morena: E disseram que não sei amar (Fui ouvir sem conhecer a moça e de cara senti ecos de FBC. Só depois me atentei à colaboração na produção do Pepito e VHOOR, o que explica muito coisa, assim como o fato dela ser de BH. Mas a intersecção se dá esteticamente ao ela abraçar funk melody - à la inicio da carreira da Anitta, Ludmilla, Perla -, só que com uns beats mais noventistas. Algo que o FBC fez no Baile. Todavia, embora seja uma proposta muito legal e exitosa, ao longo do disco as batidas soam repetitivas e vão perdendo a força/carisma. Não há também ganchos ou refrões tão memoráveis, embora algumas melodias de sax no decorrer do álbum tenham seu charme cativante. Isso tudo não necessariamente revela queda de qualidade no repertório, talvez só sua longa duração atrapalhe na fluidez da experiência (é um disco de 42 minutos, o Baile, novamente comparando, tem 27 minutos de duração e talvez por isso funcione tão bem). Vale dizer que, conceitualmente, ele faz um paralelo entre a artista e o Homem de Lata do Mágico de Oz, no sentido de conduzir temas como sentimento, ausência de “coração”. Isso inclusive é retratado na capa do álbum. Mas é isso, quem gosta deste funk mais melódico e “tradicional”, vale escutar). Romance bagunçado

- Mello Jr.: Down To The Wire (Vou pedir licença aqui pra falar de um disco específico, comumente restrito a um nicho de ouvintes, mas que eu acho que pode interessar qualquer um que goste de música bem tocada. O Mello Jr. é um guitarrista que circula há algumas décadas, que conheci nas épocas de revista de guitarra. Seu trabalho instrumental traz influência de Mike Stern, Scott Henderson e Jeff Beck (isso segundo minha percepção). Embora técnico e virtuoso - não somente ele mas todos envolvidos -, as músicas/solos/temas apresentam bom gosto, fraseado tão arrojado quanto imaginativo, timbres de strato impecáveis. Não parece aquele disco de guitarrista feito em home studio, mas sim algo com esmero na produção. Vale pontuar que tocam no disco gente do gabarito do Simon Phillips, Felipe Andreoli, Cuca Teixeira, Stuart Hamm, Celso Pixinga, o falecido Arthur Maia, dentre outros. Quem quiser adentrar a uma música instrumental e tem familiaridade com o rock, encontrará aqui um desafio de fácil adesão). The Juggler

- Melody’s Echo Chamber: Unclouded (Sempre faço questão de ouvir os discos da artista. É aquele ponto de conforto, onde sei que vou me separar com doces melodias inspiradas no pop francês somado a elementos de trip hop, lounge e até mesmo do rock alternativo na linha Stereolab. As canções são boas, as timbragens excelentes e há ótimas performances do baterista. O canto singelo combina muito bem dentro dos arranjos. Ah, vale dizer que ela tá linda na capa empunhando uma guitarra). Eyes Closed

- menores atos: FIM DO MUNDO (Terceiro álbum que escuto dessa boa banda carioca. Pra quem não conhece, eles são um trio poderoso, que trafega pelo rock alternativo, post-hardcore, emo e um “hard rock moderno” à la Royal Blood. Aqui eles mantém a força em riffs e levadas consistentes, sustentadas por um baixo gorduroso/saturado, guitarras timbristicamente amplas (gerando boas texturas), bateria firme e uma produção robustas, que faz com que os arranjos pensados para trio soem ultra densos. Diante de tamanha força do instrumental, sinto que as performances do Cyro, o vocalista, ficam aquém, não trazendo explosão sônica e, nem mesmo, sentimental, visto que esse é um disco conceitual, que aborda angústia, vazio e um renascimento à partir desse desmoronamento, o que daria margem para interpretações mais abrasivas. Mas se por um lado sua voz é “pequena”, ao menos as melodias são atraentes. Interessante observar as pontuais diferenças sonoras em cada uma das três partes em que o disco é dividido. É um bom álbum, com boas canções, que talvez tenda a funcionar melhor ao vivo. Vale dizer que ele tem participação do Ale Sater (Terno Rei) e do Suricato). preso no nosso passado

- miffle: goodbye, world! (Daqueles discos abstratos, fincados na construção de climas, camadas e texturas, mas que levam a momentos de catarse emocional se compreendidos em sua estética. Há um trabalho de sound design primoroso, com sobreposição de sons acústicos, eletrônicos, tapes e glitch. Sem destaque, o lance é embarcar no todo).

- Miley Cyrus: Something Beautiful (Esse álbum ia passando reto por mim, mas o Fantano fez uma resenha elogiosa e, somada a isso, chamou atenção um silêncio geral com relação ao disco. Sendo as coisas como são, isso parecia um bom sinal. Com nomes como Shawn Everett, Jonathan Rado (Foxygen), Cole Haden (Model/Actriz), Brittany Howard, Adam Granduciel (The War On Drugs), Danielle Haim, Flea, Pino Palladino, Nick Zinner, dentre outros, na ficha técnica, achei que valeria conferir. Esse disco é uma beleza pop moderna. Ganchudo, com elementos de soul, disco e rock, além de performances vocais menos espalhafatosas da Miley. É um trabalho menos afetado e estritamente musical (goste-se ou não do resultado). Eu achei bacana). Something Beautiful

- MIRADOR: MIRADOR (Jake Kiszka, o bom guitarrista do Greta Van Fleet, deve ter ficado de saco cheio da voz (inaudível, insuportável) do vocalista da sua banda e se mandou pra esse projeto que, verdade seja dita, ainda surfa demasiadamente no rock setentista, mas desta vez soando bem. Tem ótimas e vibrantes guitarras. O vocalista Chris Turpin manda bem. Nos melhores momentos chega a trazer ecos do lado ledzeppeliano do Soundgarden. Quem curte Rival Sons vai aprovar). Roving Blade

- Mobb Deep: Infinite (Pode ser impressão minha, mas o Mobb Deep parece estar num processo de culto atrasado, o que desencadeou até mesmo nesse álbum póstumo, arquitetado anos após a morte do Prodigy, que aqui aparece em bons registros. Seja como for, fato é que esse disco veio a calhar. Tem grandes faixas, contando com a colaboração fundamental do The Alchemist na confecção dos beats, mas também do Clipse, Big Noyd, Nas, Jorja Smith, Ghostface Killah, H.E.R., dentre outros. A força east coast noventista se mantém intacta). Down For You

- Mogwai: The Bad Fire (Preciso ser franco ao dizer que esse disco não me trouxe nenhum grande diferencial a já conhecida abordagem do Mogwai. Ao mesmo tempo, isso não significa muito, porque a excelência na construção de climas e a grandiosidade das guitarras se mantém intacta, o que é o suficiente. Amei a capa). Lion Rumpus

- Mon Laferte: FEMME FATALE (Tenho a impressão que a proposta de som neste disco dessa ótima cantora chilena-mexicana tende a agradar mais os norte-americanos. Isso porque ela traz um calor latino dentro de um contexto sônico do cancioneiro popular estadunidense, com elegância e canastrice na medida, mas ainda assim “pastiche”. Em alguns momentos lembrei do quando o Mike Patton canta em italiano. Funciona, já que as canções são boas, a produção/arranjos refinados e ela tem interpretações contundentes. Vale dizer que o Tiago Iorc faz uma boa participação). Otra Noche de Llorar

- MSPAINT: No Separation EP (Não conhecia, mas é indiscutivelmente um trabalho de punk rock, aqui com o “plus”’de trazer sons eletrônicos em detrimento as guitarras. Tudo bem, já que a sonoridade é muito bem construída. Fora que não há nada que possa soar mais abrasivo que sintetizadores). Wildfire

- Mukeka di Rato: Generais de Fralda (Novo álbum da lendária banda capixaba de hardcore. O segundo com o Fepas nos vocais, que mais uma vez trouxe uma qualidade melódica e na criação de ganchos para o grupo. A gravação tá num perfeito equilíbrio de imundice, peso e nitidez. Performances cheias de euforia para composições que, com carisma, expõe com a raiva a escrotidão deste país. Difícil ser mais direito do que começar e batizar o disco de “Generais de Fralda”. Tá tomando remédio pra insônia, ansiedade, depressão? Se identifique com “Se Droga, Brasil”. “Criança Morta”, “Engenho de Sangue” e “Filho da Rua” por sua vez não trazem brechas pra risos. Há algumas canções criativas, vide “Somente Moedas Acendem Velas” (com direito a sinos natalinos e backing vocal gravíssimo em coro ao fundo, além de letra bem bolada). Já “Globo da Morte”, além de trazer participação do FBC, chama atenção por inicialmente invocar o Sonic Youth com suas guitarras dissonantes. Adorei os timbres saturados de baixo, tem ótimos riffs ao longo do disco, performances vocais que fazem jus ao clima das canções… Agora, eu preciso dizer algo para desagrado dos fãs e integrantes da banda. Em certos momentos lembrei dos Raimundos ali no Lapadas Do Povo. Teria sido um caminho bacana pra banda não fosse Jesus, o direitismo, a babaquice e a morte. A história é outra, que se foda os Raimundos, o Mukeka é antítese disso).

- Natalia Lafourcade: Cancionera (Um álbum altamente charmoso. Fincado no cancioneiro tradicional mexicano, a cantora oferece belas performances vocais, arranjos tão contidos quanto exuberantes, além de uma aura de saloon/cabaré que remete ao Leonard Cohen. Escutado no momento apropriado, pode salvar o dia). Como Quisiera Quererte

- Nels Cline: Consentrik Quartet (Um dos meus guitarristas prediletos em mais uma amostra da sua produtividade. Aqui ele se joga num quarteto de jazz clássico, ainda que de formação nem tão comum: guitarra, baixo acústico, sax e bateria. O seu fraseado (e dos outros envolvidos) peguem caminhos tortos no decorrer do trabalho, dando um sabor aventureiro dentro de um contexto confortável, inclusive por conta da captação maravilhosamente orgânica. Adorei). The 23

- Ney Matogrosso & Hecto: Canções Para Um Novo Mundo (Eu acho o Ney Matogrosso foda. Intérprete brilhante, um monumento em cima dos palcos, carismático, elegante, disruptivo… MAS, confesso que eu não acompanho seus álbuns de estúdio. Mas li que esse disco era uma retomada sua a uma abordagem mais rockeira, o que poderia ser um desastre. E aqui vale dizer que, possivelmente, o Ney tenha sido (e é) o maior frontman da história do rock brasileiro, visto sua carreira solo, mas principalmente seu período no Secos & Molhados. Com isso, fui ouvir o disco e acho que ele atendeu a expectativa. O disco é uma parceria com o Hecto, um duo representado na capa pelo produtor e multi-instrumentista Guilherme Gê. Confesso que eu não conhecia, mas sua voz me remeteu em alguns momentos ao Samuel Rosa. O álbum tem clichês sonoros e de engajamento social típicos do BR Rock oitentista. Pensar neste repertório entoado pela Cássia Eller ou Cazuza foi uma obviedade, ainda mais diante da participação do Frejat em uma das faixas. Tais clichês podem soar vibrantes se sua disposição auditiva do dia pedir tal sonoridade. Não é nada que vai mudar o mundo, mas tem boas canções e performances. Fora que é muito bom ver o Ney aos 83 anos com uma voz maravilhosa e inquieto em sua produção). Monólogo

- Ninajirachi: I Love My Computer (Não conhecia a artista, mas esse é o tipo de capa que já me encanta de imediato: o enclausuramento do artista em seu habitat natural, rodeada de equipamentos. Aqui ela se joga em batidas frenéticas que rondam o dubstep, hyperpop, electropop, house, techno, dentre outros gêneros. Há uma atmosfera conceitual que envolve a interação de uma nova geração com a tecnologia. Algumas vocalizações infantilizadas me cansam um pouco, mas no geral o resultado é poderoso, animado e colorido. Excelente estreia). CSIRAC

- Nourished by Time: The Passionate Ones (Há no r&b contemporâneo uma simbiose com o pop. Aqui, em seu segundo álbum, essa ponte é tensionada de modo a trazer tanto batidas dançantes e apelo melódico, quanto um desenvolvimento não ortodoxo das composições, produção e arranjos. Há certa rispidez lo-fi nos timbres que muito me agrada. Isso enquanto a progressão das canções trazem complexidade estrutural. Ah, vale ainda destacar as interpretações dele enquanto cantor. Bem bom). Crazy People

- Nyron Higor: Nyron Higor (Não conhecia o trabalho deste jovem músico alagoano, mas ouvi com bons ouvidos esse trabalho acolhedor. Intercalando faixas instrumentais com algumas canções, ele faz um curto passeio por sonoridades “jazzisticas” brasileiras, ora remetendo a bossa nova, ora ao Marcos Valle. Isso sem soar retrô. Tem algo de ambient, lounge, de easy listening, mas isso se dá mais pelo bom gosto do que por uma polidez excessiva. Na verdade, muito pelo contrário, os timbres, a captação, as performances, soam bastante espontâneas e orgânicas. Mesmo as sonoridades eletrônicas tem algo de lo-fi que traz uma textura agradável. Gosto dos temas, gosto dos improvisos, das melodias vocais, performances, mas acima de tudo dos climas, da atmosfera. Vale dizer que esse disco teve a colaboração do Bruno Berle, Batata Boy, Nathalia Grilo, dentre outros). São Só Palavras

- Oklou: choke enough (Após a explosão do hyperpop, chegou a vez do “micropop”. É o que isso pareceu. Beats e texturas discretas, se apropriando da música ambient, mas sem perder o faro da música pop contemporâneo. Lembra em alguns momentos algo como uma “Charli XCX hospitalizada”. Vale dizer que o disco tem as mãos do A.G. Cook e Danny L Harle na produção. Gostei da proposta). thank you for recording

- Orcutt Shelley Miller: Orcutt Shelley Miller (Vi a apresentação deles no KEXP e fui direto procurar pelo disco, que na realidade nem é tão diferente da apresentação na rádio, visto que é um álbum ao vivo que preza pela interação do trio. Adoro os timbres e fraseados. Está aqui algumas das minhas guitarras prediletas do ano, sempre tocadas com a rispidez libertadora do Bill Orcutt. Confesso que é típico de som que eu gostaria de tá fazendo. Sem destaque, o que vale é o fluxo).

- Oruam: Liberdade (Vou ter que me estender muito além do disco pra comentar esse lançamento. Isso porque o álbum saiu em meio a tal “Lei Anti-Oruam”, um projeto de lei, que se espalhou por diversos municípios e chegou até mesmo no congresso, que busca proibir a contratação pelo poder público de artistas de fazem “apologia ao crime organizado, tráfico de drogas e sei lá mais o quê”. Uma campanha moralista, demagógica, performática e besta que partiu do MBL, mas que diante de uma pretensa esquerda que taxa como racismo a Claudia Leitte querer mudar a letra de uma canção de Iemanjá por Yeshua, fica desarmada pra levantar a bandeira da liberdade de expressão. O compositor da canção até pode reivindicar algo, assim como o público pode decidir ignorá-la… O Ministério Público se meter nisso é uma forçação de barra que só distancia as pessoas de pautas relevantes. Voltando ao Oruam e a direita que diz defender as liberdades enquanto age com censura, vale dizer que eles não se impõe a políticas públicas que dão isenções fiscais ao agronegócio, imunidade tributária as igrejas, a uma dívida pública que é um verdadeiro roubo dos cofres públicos feito pelos bancos. Nem trata como crime organizado uma polícia truculenta e assassina, nem os militares golpistas, nem a grande imprensa quando faz propaganda do sionismo. A demagogia deles é cativar uma classe média através de um moralismo tacanho, além de marginalizar manifestações culturais, independente da qualidade, que retratam as dores e anseios de parte relevante da população, inclusive de jovens, carentes de um estado que não proporciona moradia, saúde, emprego, educação, transporte… mas que eles esperam que, por estado de graça, produza algo além de suas possibilidades. Dito isso, o que tem nessa estreia em disco do Oruam. Beats repetitivos e raquíticos em construção, mas com camadas ao fundo que no detalhe deixam a coisa um pouco mais interessante. As bonitas vozes de “22 Meu Vulgo”; “Avançando Comum” me soa experimental pra algo tão popular, sinto espanto “quando ouço sua voz”; o synth arpejado na boa “Vazio”; a guitarrinha blues de “Desce do Salto”; o lindo violão espanhol da sentimental “Saudade dos Manin”, é um theremin em “AK do Bipé”. Já “Mente de Um Astro” não me soa tão distante daquelas baladas acústicas do CBJR (inclusive em letra). Por sua vez, apesar do refrão besta de “Ela Quer Dar”, ela tem um bom verso do Borges. Inclusive, vale dizer que participam também do disco o Poze do Rodo, Orochi, Cabelinho, dentre tantos outros nomes, formando uma fotografia deste trap brasileiro. Vale ainda se atentar, claro, pra faixa “Lei Anti O.R.U.A.M.” de razoável letra e refrão. Falando em produção, gosto como é aplicado não somente auto-tune, mas de reverbs, delays, trabalhando frequência dos efeitos, saturando a voz (vide “Jogador Caro”). Como um todo, não é algo que faça a minha cabeça, mas tem alguns pontos que chamaram minha atenção durante a audição. Com apelo jovem, quem pra mim era apenas um meme, um trapper bagaceiro, filho de sei lá quem do Comando Vermelho, com tatuagem do…, agora foi posto no pedestal de perseguido por uma direita reacionária, entreguista e lambe bota de milico. Eu sou mais o Oruam e sua música).

- Panda Bear: Sinister Grift (Aquele típico disco que aponta uma direção tão óbvia e maravilhosa que me surpreende não terem feito antes. E que direção é essa? Uma fusão do som pop-psicodélico dos Beach Boys com produções de dub. Se não conscientemente, o resultado certamente remete a isso. E para isso foi fundamental esmero nos caminhos melódicos, nos arranjos (principalmente vocais), nas produções (tanto em timbres, quanto em efeitos de pós-produção que, certamente, direcionaram os arranjos). E digo mais, tudo isso sem perder o humor e a leveza). Praise

- Paris Texas: They Left Me With The Sword / They Left Me With A Gun (Dois EPs amarrados num mesmo conceito. O som do duo me remeteu a um cruzamento do Brockhampton com o Jpegmafia. Ou seja, tem energia e até certa atitude “neo-rockeira”, mas dentro de um contexto jovial e ganchudo de rap. As batidas são bem sintéticas, oxigenando o estilo com irreverência e peso. Tem seus deslizes, mas no geral as faixas são bem bacanas). Tantrum / mudbone

- Pelados: Contato (Formado por estrelas do indie rock contemporâneo brasileiro, o Pelados, embora de relativa curta carreira, é um grupo influente na cena, tendo sido uma espécie de matriz para o que tem feito outros grupos/artistas. Isso porque eles englobam em sua estética tendências internacionais do indie rock, incluindo um humor ora bobinho, ora nonsense, ora sagaz. De início me chamou atenção a sonoridade parruda de “os Pelados sabem demais”, com direito a um bumbo encorpado jogando o ouvinte pra trás. Na minha cabeça eles soavam mais rústicos/lo-fi, mas aqui há camadas de elementos que trazem uma sofisticação à la os momentos ousados do Patu Fu. Tanto pela voz doce quanto pela guitarra carismática e cozinha de balanço duro, “não sei fazer refrão” traz muito essa característica, assim como a eletronicamente instigante “estranho efeito”. A primeira frase do disco ser “vamos acabar com a mpb” de início me soou entusiasmante diante da pelegagem em cima dos baluartes da mpb, mas logo vi que era só uma ironia bobinha e desanimei. Ao menos “planeta oxxo” tem um inimigo mais odiável mesmo, sendo que sua letra funciona em cima do ótimo groove e guitarras barulhentas. “Enel” então, inclusive ela tem uma fofura crítica que me lembra Stereolab. As sonoridades sintéticas tão presentes no indie contemporâneo estão presentes em “WhatsApp 2”, faixa feita para hipster dançar. É divertidinha, mas a melodia é muito pobre, não sendo suficientemente fixante. Seu final cita as guitarras do Fripp em “Heroes” do Bowie. A autoironia de “mommy empresta o carro” me lembrou em temática a faixa de nome parecido que a Rita Lee lançou em 1979. Musicalmente é monótona. O mesmo vale para a radioheniana destesturizada “modric” e a bonita/climática “boy meets girl”, com direito a bom groove de bateria e camadas de guitarras e final “mutantico”. E assim, da metade pro final o álbum vai progredindo vagarosamente intercalando bobeirinhas, canto plano é construções instrumentais intrincadas, mas não o suficiente para contrariar. Isso pode ser exemplificado em “boy, so confusing” (prefiro as condições da Charli), a sydberretiana (ou Daniel Johnston, ou Arnaldo Baptista) “e aí, beleza”. “Music is supposed to be fun” é como se o LCD Soundsystem furtasse a melodia de “Just A Man” do Faith No More. Falando em semelhanças, aquele som de “alarme” que abre o disco Song For The Dead do QOTSA parece servir de introdução pra algumas canções e de base pra vinheta ruidosa “star trek”, que abre passagem pra derradeira “instruções pra descongelar Gilberto Gil no espaço”, mais legal em nome que enquanto resultado sonoro, parecendo um Radiohead fase Kid A tupiniquim. A sensação final é estarmos diante de um disco que preza pela inventividade, ainda que isso custe nossa paciência em alguns momentos).

- Perfume Genius: Glory (Desta vez o artista trafega por um alt-country que, a mim, de certo modo, me remeteu ao Wilco: composições melódicas cobertas por arranjos ricos em detalhes sonoros (ruídos, timbres eletrônicos, violões/guitarra especiais). A produção também traz uma positiva sujeira que parece reverberar pelo estúdio. Sua voz está ótima, com aquela fragilidade que tão bem combina com seu lirismo. É poderoso, embora todas as vezes que escutei ficou nítida uma queda no desenvolver do álbum). No Front Teeth

- Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs: Death Hilarious (Um dos melhores álbuns do grupo, elevado não somente por composições acachapantes, mas também por performances virulentas do grupo. É aquele rock socão no peito. Parece um cruzamento do Idles com o Melvins. Adorei as timbragens parrudas. Forte). The Wyrm

- PinkPantheress: Fancy That (Se estabelecendo como um dos grandes nomes do pop contemporâneo, a artista trafega por canções irresistíveis que equilibram produções pulsantes (ora com elementos de drum and bass, ora simplesmente a dance music da virada do milênio) com sua voz doce e sensivelmente libidinosa. 20 minutinhos de sucesso pop dançante. É o que Ariana Grande deveria estar fazendo). Stateside

- Pink Siifu: Black’!Antique (Ainda que eu nem sempre goste dos resultado que o rapper atinge em seus álbuns, eu valorizo muito como ele tá sempre tensionando o gênero com suas produções criativas (mesmo quando se apropria da linguagem mais comum do trap). Aqui isso mais uma vez acontece. Seria menos irregular não fosse tão grande, mas a graça tá também no risco. Um álbum que provavelmente não pegarei mais para ouvir inteiro, mas que também guarda algumas das melhores faixas de rap do ano. Na primeira metade ele soa corrosivo, estrondoso e intrincado; na segunda é climático, melódico e repleto de texturas. Em ambas tem grandes momentos). ALIVE & DIRECT’!

- Propagandhi: At Peace (Lembro de ouvi-lo na sequência do Victory Lap e pensar “nossa, eles seguraram a mão”. Mas se a intensidade foi atenuada, as boas melodias estão lá. É um álbum maduro de hardcore, com espaços para diferentes camadas). Guiding Lights

- Psychedelic Porn Crumpets: Carpe Diem, Moonman (Por muitas vezes acabo me dispersando em discos atuais de rock psicodélico e stoner, por melhores que eles sejam. Mas aqui, o grupo embala ambas as sonoridades numa coisa só e entrega algumas das melhores faixas de rock do ano. Adoro principalmente quando eles partem para momentos mais encorpados, com direitos a ótimos riffs alimentados por fuzz. Há ainda momentos intrincados (quase de math rock, vide “Qwik Maff”) que dão ainda mais colorido ao disco. Boas canções numa performance abrasiva. É o suficiente). March For Pax Ramona

- Psychedelic Porn Crumpets: Pogo Rodeo (De algum modo é “apenas” uma continuação do álbum anterior, o que me levou a pensar num novo KG&LW (nenhum problema nisso). Talvez esse seja mais abrasivo e garageiro. Ou apenas um tremendo disco de rock. Sem muita enrolação, apenas ouça se for sua praia). Texas Rangers (com direito a um dos melhores solos de guitarra do ano)

- Pulp: More (Após 24 anos, o grupo ressurge pra surfar no hype do britpop, ao mesmo tempo que nega os padrões fáceis do gênero. É um amadurecimento sonoro e composicional. Tem alguns arranjos que fã de Oasis jamais embarcariam, o que por si só já é ótimo). Farmers Market

- Quadeca: Vanisher, Horizon Scraper (Finalmente consegui colocar o trabalho do Quadeca dentro de uma caixinha (sua inquietude e versatilidade dificultaram isso): ele é o Beck deste tempo! Um tecnocrata, que trata o rock alternativo, rap, música eletrônica, chamber pop e o que mais tiver afim como uma coisa só. Na abertura do disco ele chega a buscar referência até mesmo no Chico Buarque. O resultado disso é um álbum sofisticado, ora intenso, ora apaziguador. Os arranjos orquestrais e a produção rica em texturas realçam a profundidade das harmonias e melodias. Vale dizer que Danny Brown e Maruja participam do disco. Um trabalho espontaneamente lapidado). RUIN MY LIFE (mas a cada audição crio um novo destaque)

- Renegades Of Punk: Gravidade (Banda de Aracaju, com alguns bons anos de carreira, mas que confesso que conhecia superficialmente. Vi que esse álbum deu uma erguida no grupo e fui conferir. A ótima capa só atiçou as expectativas. Adorei como o disco traz referências oitentistas, mas sem soar pastiche. Isso fica nítido logo em “Apenas Isso”, que tanto na intensidade quanto melodicamente me lembrou as bandas daquela safra paulistana dos anos 80, tipo o Smack e Marcenaria. Embora com uma energia muito mais abrasiva, vinda da performance, mas também na mix/master do Fernando Sanches. O som saturado do baixo, como acontece na intro de “Bruxismo”, é uma das tônicas sonoras do álbum. Outro elemento central nesta música e em todo o disco é o enfoque em refrões memoráveis, deixando sabiamente mais palatável a fúria punk do grupo. A veloz “Invisível” - com uns synths à la new wave do inferno - e a vitaminada “Sempre Angústia - com ótimas guitarras, pesada mais pela energia da execução que por uma timbragem artificialmente distorcida, escola Gang Of Four - formam uma dobradinha punk de primeira. “16” poderia facilmente no repertório do Dead Fish, o que exemplifica a capacidade melódica do grupo, além de certo teor social nas composições. Por motivos óbvios pensei em “Dinheiro” (Dead Fish), embora seu refrão tenha essa aura oitentista do Fellini no refrão. Há uma angústia lírica e interpretativa em meio a intensidade de “Tudo Bem”. Com direito a uma linha de baixo comendo solta. Adorei a energia de “Máquina”, “Cortaram Meus Olhos”, “Depressa” e da feminista “Ciseaux”. Obviamente, “Misoginia” discorre dentro do mesmo contexto, assim como a ritmicamente intrincada “Produzir”. De introdução inicial fofa, “Feitiço” é mais um destaque. Por mais referências do passado que a banda tem, vale apontar que ela tá em sintonia com cenário punk/alternativo internacional, sendo muito fácil os colocar ao lado do Idles, Viagra Boys, Amyl And The Sniffers, Lambrini Girls. Discão, talvez o mais legal do rock brasileiro deste ano).

- Riachão: Onde Eu Cheguei, Está Chegado (Álbum póstumo deste sambista soteropolitano, falecido em 2020 aos 98 anos. Era pra ter sido lançado em seu centenário, foi até onde foi. São 10 músicas inéditas que contaram com a colaboração do Martinho da Vila, Teresa Cristina, Criolo, Josyara, Roberto Barreto, Roberto Mendes, dentre outros. É uma beleza. O samba em seu refinamento poético e interpretativo, recheado de melodias que abraçam e fixam na cabeça, além de arranjos e performances instrumentais de pura categoria, com direito a uso de metais e violão de 7. Lindo, alegre, representativo e que preserva a tradição do samba e a obra do compositor no presente. Simples assim, não há nada muito melhor que isso). Sua Vaidade Vai Ter Fim

- Richard Dawson: End Of The Middle (Richard Dawson segue empunhando o bastião do folk progressivo através de um disco espetacular, onde sua voz e violão (com direito a afinações alternativas) igualmente falhos e sublimes criam histórias musicalmente intrigantes, estranhas e divertidas. Adoro o vazio proporcionado por arranjos enxutos e captação orgânica. Ele parece cantar diante do ouvinte do disco. Especial). Gondola

- Rico Nasty: LETHAL (Embora com algumas derrapadas, a rapper se mantém no topo quando o assunto é o encontro do rap com o rock. Há timbres saturados, suas performances entusiasmantes e momentos pegajosos (de veia pop punk). Se escutado na academia periga interferir num melhor desempenho). SMOKE BREAK

- Rochelle Jordan: Through The Wall (Aquele disco pop-eletrônico perfeito pra pista. As batidas transitam entre o house e uk garage, enquanto sua voz suave nos convida para a liberdade. A produção e arranjos são cuidadosos, demonstrando esmero muito além de qualquer possível superficialidade pop. Há logo na primeira metade uma sequência irresistível de faixas. Não é pra qualquer um soar tão dançante quanto elegante). Doing It Too

- Sabrina Carpenter: Man’s Best Friend (O POP (com letras garrafais) safado em todos os sentidos. A começar pela capa, vista por alguns com um puritanismo que eu nem sabia que ainda existia. Sabrina não pareceu se importar. Liricamente a safadeza é até bobinha, fazendo com que as músicas funcionem mais pela leveza, balanço e bons ganchos melódicos. Gostei dos arranjos também, trazendo organicidade timbrística pontual muito legal. É quase como uma disco music caipira e contemporânea. Gosto também das performances da Sabrina. É um álbum acima de tudo divertido. Obs: se intercalar esse disco com o novo da Taylor Swift estaremos diante da vitória do Jack Antonoff). Manchild

- Seu Jorge: Baile à la Baiana (Com surpresa me dei conta que o Seu Jorge não lançava um disco de estúdio há 10 anos. Fui ouvir esse álbum e ele parece entregar tudo que se espera dele, um groove afiadíssimo, levado não só pela característica das composições em si, mas também por uma banda e gravação enorme e cristalina. Tudo muito bem arranjado, tocado e captado, com direito a linhas de baixos pulsantes, metaleira afiada e teclados maravilhosos. A voz do Seu Jorge continua agradavelmente grave e charmosa. Honestamente só me frustra com ela tá sempre em função de letras que não dizem grande coisa. Mas tudo bem, o astral dos bailes cariocas de samba-soul-funk está lá, assim como uma interação com a música baiana na metade final do álbum, principalmente por conta da colaboração do Peu Meurray e Magary Lord. Embora evasivo em temas mais consistentes e até mesmo de certa ousadia estética, é aquele típico tão festivo, solar, grooveado e bem confeccionado que não dá pra descer a lenha. Ele cumpre com maestria o que propõe). Gente Boa Se Atrai

- Sharon Van Etten / The Attachment Theory: Sharon Van Etten / The Attachment Theory (É uma constante dentro do rock alternativo saírem discos que emulam a linguagem do pós-punk e da new wave. Aqui isso mais uma vez acontece, com o ressalvo que as canções têm qualidades próprias e a produção remonta a sonoridade do passado sem soar datada. É uma proeza estética. Boas guitarras e excelentes linhas de baixo, além de ecos de Siouxsie na Sharon). Indio

- Sharp Pins: Radio DDR (Curiosamente, quando fui ouvir esse disco eu tava numa semana relembrando os discos dos Beatles, de modo que esse disco soou ambientado no mesmo espaço, embora com décadas de distância. Fato é que a organicidade da gravação e a interação com a psicodelia proporcionou canções tão simples quanto agradáveis em sua forma rockeira. Nada tão memorável, mas bacana). If I Was Ever Lonely

- Silvana Estrada: Vendrán Suaves Lluvias (Se tem algo que adorei neste álbum dessa talentosa cantora mexicana é como ele é singelo e pop ao abordar a música tradicional mexicana. Não tem voltas, é “apenas” o cancioneiro popular, com sua leveza e colorido diante de ótimos arranjos dentro de um contexto acústico. Álbum para manhãs apaziguadoras de domingo). Lila Alelí

- Skrillex: F*UCK U SKRILLEX YOU THINK UR ANDY WARHOL BUT UR NOT!! <3 (O pessoal gosta de avacalhar com o Skrillex - o nome do álbum deixa isso claro -, numa tentativa de destoar de um público mais jovem deste “neo”-dubstep, mas eu não embarco nessa. Acho ele talentoso e com personalidade, mas uma vez revelada nesta mixtape, recheada de produções tão maníacas quanto divertidas, com direito aos seus timbres extremos. Não vai converter os detratores, mas continuará a empolgar quem gosta do seu trabalho). MORJA KAIJU VIP

- Sleigh Bells: Bunky Becky Birthday Boy (Passado tantos anos, é incrível como esse duo conseguiu produzir um trabalho entusiasmante. Aqui o pop dançante se une a ótimas guitarras de heavy metal numa pura sintonia intoxicante. É pesado e cabe em pista indie. Divertido tanto pelo contraste dos timbres pesadamente sintéticos, quanto pela insistência em ganchos. Bem legal. Obs: será que era isso que o Far From Alaska queria fazer? O Lucas do Fresno acho que adoraria esse disco). Wanna Start A Band?

- Snõõper: Worldwide (Com um vigor incomum, que transita entre o punk e o garage rock, a banda fez mais um disco certeiro de rock. São performances e timbres abrasivos faixa a faixa. Sobrou até pra uma versão desconstruída de “Come Together”. Ritmicamente envolvente, guitarras faiscantes e uma tosqueiragem divertida. É o suficiente). On Line

- Sophia Chablau / Felipe Vaqueiro: Handycam (Parceria que causou certo frisson no indie nacional. Eu confesso não ter referência das características artísticas do Felipe Vaqueiro, mas a personalidade da Sophia salta aos ouvidos através de composições descontraídas, executadas com um espontaneidade que foge do pedantismo muitas vezes tão manifestado dentro deste cenário. Tem estranhices, sujeira e graça. Já basta). Cinema brasileiro

- Sparks: MAD! (Convenhamos que não é qualquer banda que após 50 anos se dá o luxo de se reinventar constantemente, não soando uma paródia de si mesmo. Mais difícil é fazer isso e quando escutado causar a sensação de “só podia ser eles”. Foi isso que pensei com esse disco do Sparks, ótimo desde a capa. É verdade que nem todas as canções decolam de imediato, mas há sempre aquelas letras, vozes e arranjos criativos. Aqui há em sua segunda metade canções guiadas por orquestrações. Álbum divertidamente satisfatório). I-405 Rules

- Stefanie: BUNMI (Embora já veterana no cenário do rap nacional e oriunda da mesma cidade que eu, Santo André, confesso que eu não tinha me atentado ao seu trabalho. Mas depois de passar por alguns grupos e coletivos, incluindo o Rimas & Melodias, agora ela chega com seu primeiro álbum solo, carimbado pela produção e direção musical do Daniel Ganjaman, além de participações especiais que citarei em breve. E embora seja um trabalho cheio de frescor, ela não se rende a modismos, estando mais perto da tradição do gênero através de ótimas batidas e um flow esperto. A linda e climática “FUGIR NÃO ADIANTA” (com refrão melódico entoado pela Mahmundi) e a confessional “POR UM FIO” (com verso do Rodrigo Ogi) expõe as dores e a força da mulher negra, hoje por vezes coberta na música brasileira por uma pretensa confiança e empoderamento que não se traduz na mulher brasileira comum. Cada um canta sobre o que quiser, mas tenho certeza que muitas ouvintes têm potencial de se identificar com essas letras. É pesado, por vezes triste, mas nunca passiva. “DESCONFORTO” retrata muito bem isso. “NÃO PIRAR” tem um beat que caberia no Nó Na Orelha do Criolo. Legal a ponte com a cantora franco-chilena Ana Tijoux. Jonathan Ferr é fundamental no clima reflexivo de “MUNDO DUAL”, canção de harmonia inteligente, guitarras e synths psicodélicos, além de um refrão forte e pop. Falando em pop, é interessante que a música mais acessível é “NADA PESSOAL”, e mesmo nela ela demonstra vulnerabilidade ao invés de uma força que a mulher preta parece ter que demonstrar a todo momento. Agora, se for pra falar de força, não só de vida, mas de estética/voz/flow ouçam a espetacular “OUTRA REALIDADE”, onde em cima de um boom bap pesado Cris SNJ, Iza Sabino, Nega Gizza arrebentam. Ouvi admirado e vendo que na sequência tinha uma faixa com Rashid, Kamau, Emicida, Rincon Sapiência, quase torcendo pra ser uma droga. Involuntariamente criei uma batalha de gêneros e torci pelas mulheres. Por sorte não foi nada disso. “MAAT” é um exemplo de como o rap brasileiro é rico em flow, lirismo, muito bem escrito e interpretado. E mais uma vez num beat pesadão e sinistro. O desfecho do álbum com “PURO LOVE” (com participação da Luedji Luna) e “PLENITUDE” são mais orgânicas, com arranjos e performances de guitarra, baixo, teclado e bateria redondíssimas, dignas de fazer o Ed Motta reavaliar o rap. Disco maravilhoso).

- Stereolab: Instant Holograms On Metal Film (A banda volta com um disco de inéditas após um hiato de 15 anos e parecem retomar exatamente de onde pararam, apresentando melodias agradáveis, singelamente interpretação, doses de contestação camufladas e canções que evoluem lentamente de forma irresistível. Ótimos arranjos, jams, “grooves” e timbragens. Fez o mais do mesmo (o que pra eles sempre envolve soluções não convencionais) e acertaram em cheio). Immortal Hands

- Steve Morse Band: Triangulation (Sou fã do Steve Morse há longo tempo. Fiquei decepcionado com a forma que ele foi retirado do Deep Purple, de modo que, mesmo não men interessando tanto por “discos de guitarristas”, me interessei por esse álbum. E ele é ótimo. Ele continua tocando muito, tendo inclusive driblado problemas físicos que limitam sua técnica. Adoro sua interação com o subestimado baixista Dave LaRue, que brilha por todo o disco. Curiosamente as faixas com participação do Eric Johnson é John Petrucci são as mais fracas. O restante é aquele primor performático e composicional que o Morse sempre demonstrou). Tumeni Partz (exagera e ótima)

- Steven Wilson: The Overview (Em momentos recentes da carreira solo, o Steven Wilson pareceu se deixar levar por aquele lado mais pop do rock progressivo, o que fez até que muito bem. Aqui, enquanto guardião do gênero, investe em momentos menos acessíveis. Não que as canções não sejam melódicas e convidativas, mas são épicas, enormes, viajantes e imprevisíveis. Há até experimentações eletrônicas típicas do gênero na década de 1970. Se escutado no dia certo - e eu adiei muito a audição -, eu tendo a gostar muito. Composições, arranjos, performances e produção no auge da capacidade técnica, o que me nego a achar uma coisa ruim. Sem destaque: É PROG!).

- Street Sects: Dry Drunk (Essa banda apareceu como uma promessa, frustrou num segundo trabalho e sumiu do meu radar. Agora aparece retomando a forma num disco que parece um cruzamento do Ministry com Refused. E tem mais, tem um tempero moderno, quase hyperpop, trazendo uma energia quente ao álbum. As composições em si não são das melhores, mas a construção é tão frenética que legitima). Spitting Images

- Sudan Archives: The BPM (Mais uma amostra da força que a música pop tem ao se apropriar da música eletrônica de pista. Aqui essa fusão é ainda mais expandida com arranjos de cordas somando força a beats poderosos. A cantora passeia por cima com atraentes motivos melódicos. Nem todas as faixas são ótimas, mas nós grandes momentos são debaixo). NOIRE

- Suede: Antidepressants (No dia seguinte a apresentação do Oasis em São Paulo, num ato conscientemente esnobe - e nem por isso justificado - pensei “1% dessa galera que foi no show não sabe nem o que é Suede, essa sim a grande banda do britpop”. Se a primeira parte do meu raciocínio é meramente besta, a segunda foi confirmada com a audição de mais um novo trabalho do grupo. Que banda! Grandes composições, arranjos e performances. Se por um lado não há grande novidade, é mais uma demonstração da excelência do grupo). Dancing With The Europeans

- Sumac & Moor Mother: The Film (Um álbum sem surpresa, visto que eu já sabia como soaria, sendo que eles entregaram a força descomunal imaginada com eficiência impressionante. A brutalidade da banda casa perfeitamente com o lirismo da Moor Mother. Há momentos que parece um caminhão desgovernado ladeira abaixo trazendo em seu capô uma profeta do apocalipse. Viagem minha? Ouça e tire suas conclusões). Scene 5: Breathing Fire

- Swans: Birthing (Pelo que entendi, esse é o trabalho derradeiro do Swans como o conhecemos. É o último disco calcado nas sonoridades enormes e arrebatadoras que eles tão bem fazem. Com isso, se despedem da melhor maneira, focando em “orquestrações” imersivas, onde guitarras e percussões evoluem numa crescente inebriante. É um álbum pra convertidos. Há momentos bem abstratos. Algumas faixas progridem melhores que outras, mas sem ter grande bola fora. A torcida agora é que de tempo da banda vir para o Brasil). Birthing

- swave: foi o que deu pra fazer (Para mim que cresceu assistindo MTV e ouvindo 89 A Rádio Rock, foi divertido ouvir esse disco. Ele é quase uma emulação do rock nacional (e mesmo internacional) do período, só que muito melhor gravado. O vocal feminino me remeteu tanto a Penélope quanto ao Hole. É um pop rock certeiro e pegajoso, com direito a ótimas guitarras do Rafael Brasil. Valorizo o fato de ser em português. Não vejo grande futuro comercial ao grupo, embora seja um produto bem-acabado se o momento propício fosse para esse tipo de som). mais uma vez

- Terno Rei: Nenhuma Estrela (Quinto álbum do quarteto paulistano, sequência dos ótimos Violeta e Gêmeos, que trouxeram certa popularidade ao grupo, indo além do circuito alternativo. Isso aconteceu inclusive ao se aproximarem do pop rock nacional, tão carente de boas bandas contemporâneas (não somente no sentido artístico, mas principalmente de conseguir se comunicar com um grande público). Tive receio deles acentuarem essa direção e diluírem as qualidades, mas não me pareceu isso. O pop rock se funde com ao pós-punk (fórmula inicial do Legião Urbana) e o indie rock contemporâneo. Há ótimas texturas guitarristicas e de teclados que colorem boas melodias vocais, que por sua vez, dão vida a sentimentos de nostalgia, melancolia e amorosidade. Gostei como sax cafonas e levadas de violão trazem um clima de pop oitentista, sendo que isso acontece logo em “Peito”, faixa que abre o disco. Destaco ainda “Próxima Parada”, com seu refrão que remete a “Starburster” do Fontaines D.C.; o agito envolvente de “Nada Igual”; ecos mineiros/bucólicos via as mãos do Lô Borges em “Relógio”; a radioheadiana “Pega”. Vale pontuar que é o trabalho com melhor produção (em termos de sonoridade) deles. O típico disco que me soou bem de imediato, mas que tende a crescer com novas audições, em família, em tardes preguiçosas). Programação Normal

- terraplana: natural (Após se colocar no centro dos holofotes do shoegaze nacional com o bom álbum anterior, o quarteto curitibano parece disposto a mergulhar ainda mais fundo em sua estética, trazendo canções soterradas por guitarras volumosas, distorcidas, etéreas… aquela coisa que já esperamos do gênero, mas que aqui surge com uma força poucas vezes vista no Brasil. Tem momentos em que parece dar pra sentir ventos quentes e gelados saindo dos amplificadores. Isso tudo está a serviço de canções bonitas, principalmente quando na voz delicada da Stephani, gerando um contraponto de fúria e calmaria maravilhoso. Um trabalho que não faz concessões: é o shoegaze nacional na melhor forma). desaparecendo

- The Black Keys: No Rain, No Flowers (Já distantes do hype e da bajulação, o grupo se encontrou num bom álbum, onde souberam equilibrar o lado blues rock tradicional com uma abordagem mais pop. O resultado são boas canções (melodicamente das melhores que já lançaram), com arranjos caprichados e as boas guitarras de quase sempre. Bem bacana). A Little Too High

- The Budos Band: VII (Com sua mistura de funk, afrobeat e psicodelia, esse álbum parece uma pérola perdida do começo dos anos 70. Mesmo que a produção não seja propriamente retrô, também não soa moderna. Há uma sujeira bem-vinda. As faixas são curtas, fazendo que o som instrumental também não soe massivo. Atenção para a metaleira riso ríspida, os grooves acachapantes e tempero étnico de algumas melodias. O calor da performance também joga a favor). Kudzu Vine

- The Callous Deaboys: I Don’t Want To See You In Heaven (Esse álbum me causou estranhamento. Tem “problemas” explícitos, a começar pelo vocalista, ora excessivamente meloso (quando berra ele vai bem). Há também uma abordagem que relembra o metalcore/new metal/emo do início do século, ficando entre o Incubus, Staind e outras bandas que caíram em esquecimento. Todavia, por ter vivido essa época, tenho certo apreço involuntário por essa sonoridade. Fora que eles não fazem isso de forma estritamente pastiche, mas trazendo elementos, camadas e formas não convencionais. Tem solo de sax “smooth jazz”, quebradeiras rítmicas… liberdade. Fora que as performances instrumentais são bem boas. É interessante). III. Country Song In Reverse

- The Last Dinner Party: From The Pyre (Tinha gostado do álbum anterior, adorei o show delas nos C6 Fest e agora confirmei minha admiração através de mais um ótimo disco, que se apropria do glam rock, Queen, Kate Bush e da Siouxsie sem medo de ser feliz. Ora é pastiche, ora burlesco, mas sempre acompanhado de boas canções, refrões memoráveis, guitarras espertas, vocalizações de dramaticidade irônicas divertidíssimas. Arranjos caprichados e boa produção acompanham. Na indecisão de escolher uma única faixa, o “Lado A” é o destaque, não que o “Lado B” com toda a sua pompa pianística/orquestral também não seja ótimo).

- The Lemonheads: Love Chant (Primeiro álbum de inéditas do grupo em décadas. É aquele que ficará (espero que não seja o único) conhecido como o “disco brasileiro do Lemonheads”, já que marca o período em que o Evan Dando está morando aqui. O Apollo Nove ter produzido foi a escolha certa. O álbum soa como um material noventista perdido do grupo. As guitarras chamaram atenção de cara, se justificando após eu saber na presença do J Mascis no disco. Convenhamos, não é nada tão memorável, mas faz jus a discografia da banda. Tem boas canções, o que é suficiente). Cell Phone Blues

- The Weeknd: Hurry Up Tomorrow (O mega astro pop num álbum que faz jus ao título que ele alcançou. O repertório passa longe de ser perfeito, mas traz um equilíbrio de canções que intercalam um tom épico, outros sexy, outros dançantes. Isso via uma produção de luminosidade noturna, pulso de pista e vozes reverberosas climáticas. A tendência “neo-synthpop” se mantém. Tem boas melodias vocais, que acompanham narrativas cheias nuances. Um desfecho cinematográfico pra uma trilogia pop que evoluiu numa crescente). Open Hearts

- Thiago França & Rodrigo Brandão: Telefone Sem Fio (Disco curtinho -10 curtas faixas, 15 minutinhos ao todo - assinado pelos dois manda-chuva do projeto, mas com colaboração fundamental de nomes como Juçara Marçal, Edgard, Rodrigo Carneiro, Juliana Perdigão, Marcelo Cabral, Sthé Araújo… todos, pelo que entendi, numa troca de arquivos, de ideias, de rimas, numa interação como se estivessem num: telefone sem fio. Dá considerar um trabalho de spoken word, ou mesmo um sarau em fonograma, que por assim ser, também trabalha texturas sônicas eletrônicas, percussões minimalistas ou mesmo instrumentos de sopros manipulados pelo Thiago França. Não é um disco pra qualquer momento e acho que, melhor que eu definir minhas impressões, é vocês como ouvintes entrarem nesse telefone sem fio e tirarem suas próprias conclusões). O Som, O Verbo e a Vida

- Touchdown Jesus: It’s All Feast Or Famine (EP espetacular que serve de carta de apresentação dessa banda que une rock progressivo (nessa escola atual do Black Midi), com metal, post-hardcore e art rock. Muito bem tocado e de produção quente. O resultado é tão criativo e peculiar quanto entusiasmante. São só 5 faixas e 22 minutos, então nem vou deixar destaque. Ouça tudo).

- Tropical Fuck Storm: Fairyland Codex (A banda expandiu seu som indo para caminhos nada ortodoxos. É um disco de art pós-punk psicodélico contemporâneo. Não exagero ao dizer que tem algumas das melhores guitarras do ano, tanto no que diz respeito aos criativos timbres, quanto a aplicações de ideias nada usuais. O intercalar das vozes masculinas e femininas traz dinâmica interpretativa, assim como o direcionamento composicional de cada canção. Adorei a organicidade colorida da produção). Fairyland Codex

- Trovão: Diamante (Preciso ser honesto ao afirmar que esse hard/heavy metal tradicional não faz minha cabeça. Ao mesmo tempo, vejo com admiração e graça o resultado alcançado por essa banda. Isso porque o pastiche headbanger oitentista ganha aqui personalidade via as letras em português. Não que a interpretação e o texto seja dos melhores, mas é bacana. Inclusive, intrigado percebi que muitas composições não fariam feio no repertório do Guilherme Arantes, o que revela um faro pop nas melodias, além de um elemento lúdico. Vale ainda apontar que o guitarrista faz jus ao que de melhor havia na cena shred de L.A., os teclados pomposos são radiantes e a produção funciona. Divertido pra quem se interessa minimamente por heavy metal tradicional). Até o Fim

- Turnstile: NEVER ENOUGH (Vindo de um já clássico, a banda parece não ter sentido a pressão, explorando ainda ainda mais a linguagem de um “hardcore-dream pop” altamente singular, só que aqui ainda mais “atmosférico”, com direito a passagens (e quase vinhetas) de sintetizadores. Mas não se engane, as guitarras encorpadas, a cozinha poderosa e os vocais vibrantes ainda estão lá. Boa sequência). BIRDS

- Tyler, The Creator: DON’T TAP THE GLASS (De maneira despojada, o Tyler se jogou num disco de pop rap dançante. Não é dos seus trabalhos mais inspirados ou instigantes, mas mostra sua capacidade criativa e desprendimento que muitas vezes faz falta no hip hop. É bacana). Stop Playing With Me

- Uganga: Ganeshu (Uganga, banda já rodada dentro do cenário alternativo dos sons pesados, aqui em mais um bom disco, sustentado por riffs cativantes e pesados e cozinha ultra consistente. Vale dizer que esse álbum marca uma mudança de formação. O estilo da banda é o velho crossover de thrash metal e hardcore, com letras em portuguêa e muita energia. Não vejo a necessidade de decorrer faixa a faixa, já que elas são o desenvolvimento constante dessa fórmula, podendo soar estritamente repetitivo, mas que não cansa aos ouvidos. Talvez por ter dubzinho ali no meio, um ótimo rap ao final, além de uma boa alternância entre velocidade, groove, breakdowns. Vale pontuar que algumas linhas vocais me lembraram as do Jimmy do Matanza. E vale dizer isso porque eu critiquei o novo disco do Matanza Ritual por problemas que aqui não senti. A performance e a produção aqui é muito mais orgânica, além dos temas não serem somente autocentrados, aqui abordando inclusive reflexões mais amplas, trazendo temas ambientais, além de elementos sociais e culturais brasileiros. Ótimo trabalho).

- Urias: Carranca (Eu preciso admitir que a Urias era um daqueles nomes que conhecia, mas nunca tinha parado pra escutar com atenção, de modo que não posso fazer comentários sobre a evolução do seu trabalho. O que posso dizer é que achei esse álbum bem bom. A produção do Rodrigo Gorky e Maffalda é colorida em timbres, versátil em ideias e parruda em sonoridade. O resultado é um álbum pop rico e atentando às sonoridades e pautas contemporâneas. Isso sem deixar se pasteurizar, vide o longo solo de sax em “Quando a Fonte Secar”. Há aquele balanço/groove sexy em diversas canções. Suas rimas são boas, assim como sua voz nasalada. Adoro também como samples, batidas eletrônicas e sons orgânicos se misturam, revelando esmero nos arranjos e produção. Vale dizer que há no caldeirão estilístico do álbum elementos de afrobeat, soul, pop, psicodelia, rap, reggae e a famigerada “brasilidade”. Isso além de boas participações do Criolo, Don L e Major RD (do Giovani Cidreira nem tanto). Alinhando tudo isso há boas composições, temos um grande disco).

- Velho: Vingando as Bruxas (Embora o black metal viva uma fase de experimentalismo e vanguardismo, esse grupo carioca preserva os elementos tradicionais do estilo. Sendo o Brasil uma pais precursor do gênero, há uma legitimidade representativa. É uma gravação crua e raivosa que cria um ambiente inóspito e inebriante. O timbre de guitarra parece o que eu amadoramente tirava no meu quarto nos anos 90 com algum amplificador bagaceiro. A bateria também tem aquele som de papelão dos anos 80. É uma estética, que não necessariamente eu ame, mas que eu vejo certa graça, ainda mais diante de uma polidez sônica que infestou o metal moderno. As composições não são das mais aventureiras, elas seguem essa atmosfera de maldição e tormento. Se for sua praia, acenda uma vela e de o play). Vingando as Bruxas

- venturing: Ghostholding (Projeto da Jane Remover voltado pro emo. Confesso que não gostei de imediato, mas na segunda audição (talvez com uma disposição maior para o gênero) o disco bateu. Tem boas composições e guitarras que me entusiasmam. Adoro essa produção suja/densa dentro de um contexto melódico (algo meio Dinosaur Jr, mas mais emo). Halloween

- Vera Fischer Era Clubber: VERAS I (Fui levado a ouvir diante do excelente nome (embora não saiba se é “era” do verbo “ser” no passado ou como demarcação de um período). Impossível não lembrar do Também Sou Hype do Hermes & Renato. Isso posto, apesar de seu lirismo classe média, eu gosto da estrutura das canções, que traz canto falado em cima de batidas eletrônicas duras, urbanas, escuras e, de certo modo, retrô. É divertidinho). Fantasmas

- Vitor Brauer: Tréinquinumpára 06: Porto Velho (O engraçado é que pouco antes de ouvir esse disco, eu tinha escutado o do Geese e visto uma crítica do Vitor falando sobre a eterna busca que as pessoas fazem por um “branco norte-americano de cabelo sujo”, enquanto ele é “muito mais foda e ninguém valoriza”. Ele tem um ponto. E nem cabe mensurar qualitativamente ambos, já que seria muito relativo. O que não é relativo são as condições que eles enfrentam para materializar seus projetos. Nisso o Vitor é rei. Esse álbum incorpora sonoridades/ritmos típicos da região norte de maneira espontânea. O resultado são canções carismáticas e divertidas. O não polimento típico do rock alternativo lo-fi casa perfeitamente com a estética urbana da música eletrônica popular de Rondônia). Auxílio a Lista

- vgtbl.pl: Vegetables Worldwide (É molecagem né. Um hyperpop/electropop jovial e divertido. Não costumo ter muita paciência pra esse tipo de som, mas aqui a afetação descontraida é nada medida, gerando ganchos convincentes. Fora aquele colorido timbrístico capaz de irradiar nosso cérebro. É bacana). Nice From Poland (com ecos do funk brasileiro).

- Wednesday: Bleeds (Com carinha de rock alternativo dos anos 90, a banda encanta tanto quando traz a poeira do alt-country, tanto quando investe em guitarras estranhamente sujas à la Pavement. A voz da moça cobre tudo isso com radiante delicadeza. Tem ótimas canções). Pick Up That Knife

- Westside Gunn: 12 (Gosta da Griselda? Pois então, esse disco tem toda a marca exitosa da gravadora, com suas letras afrontosas, cheias de drogas, ad-libs… tudo que a gente já conhece, novamente irresistível. Adorei os beats/produções que trazem samples sem polidez. Simplesmente bonzão). 055

- Wet Leg: moisturizer (O duo solidifica sua linguagem de neo-punk em um disco que, embora eu não morra de amores, tem momentos entusiasmantes. No final há uma queda latente. Alguns baixos e guitarras saturados alimentam a energia que a dupla deseja imprimir. Tem algo muito próximo da new wave (algo à la Pretenders), mas que trafega naturalmente por sonoridades do indie rock contemporâneo. Bacana). catch these fists

- Wolf Alice: The Clearing (Eu não tinha gostado nada do último lançamento do grupo, mas a capa “rocker” com a linda Ellie Rowsell me levou a querer dar uma chance a esse disco. Não é que gostei bastante! Acho que eles evoluíram muito no quesito composição, trazendo um elemento sessentista pro pop rock do grupo. Os arranjos são bons e há ganchos melódicos bem-vindos. A produção do Greg Kurstin lapidou a sonoridade da banda). Bread Butter Tea Sugar

- Xamã: FRAGMENTADO (O rapaz, outrora rapper em ascensão, hoje é uma estrela, projetada inclusive pela Rede Globo. Mas não cabe pré-avaliações, seja para o bem ou para o mal, mas de cara revelo que o disco guarda algumas pérolas em meio a repertório inconsistente. Inicialmente vale destacar a produção. Em termos sonoros mesmo. Adorei os timbres, a mixagem. Um álbum com corpo, camadas, texturas. Nenhuma grande tensão sônica, mas é redondinho. Há algo curioso em suas rimas que são as incontáveis menções a outros artistas ao longo do disco. E vai da dupla de zaga Juan e Lúcio ao John Coltrane. Em certo momento ele chega a pular de Jota Quest para Thelonious Monk. “INTRO” tem o clima de abertura de Nada Como Um Dia Após o Outro do Racionais, mas com um toque Fat Family. “DUALIDADE” parece uma telenovela em jazz rap, mas sem soar pretensioso. Bom flow. Sax e refrão memoráveis e uma guitarra esperta completam a canção. “RETALHOS”, mesmo com certa dureza, tem um clima de rap litorâneo e solar. Adorei o piano sinistro e o sax esfumaçado. Nas rimas tem uma aura de Black Alien. Agora, curioso foi o sampler de Adriana Calcanhoto num final inesperado. Essa fixação por Adriana Calcanhoto ressurge em “Esquadros 2”. Clima sexy no início de “COISA DE PELE”, alimentado pelo violão e beat, mas também pela participação da Duquesa. Uma canção estruturada em altos e baixos, sendo que honestamente só me atraiu por seu final conflituoso. Muito legal a interação da Duquesa com o Xamã. “Liniker” pop-rap tipicamente brasileiro, bem rimado, refrão com malemolência, um synth bass west coast. Boas guitarras no final e a participação da Liniker bem vinda, inclusive comercialmente, na interação de públicos diferentes. Embora com bom solo de sax, é o baixo sintetizado que domina “Belchior”. Mas assim, é um rap que poderia tá no repertório d’Os Garotin. A sensualidade de “Just Love” deveria ir direto para essas séries adultas da Globo. A melodia e a voz da Agnes Nunes é lindíssima. O beat sinistro de “GTA” tem a energia do Rio de Janeiro. Pesadona, assim como o boom bap “Mosaico” e a auto-afirmada rock “Motel Bates”. Essas três faixas formam o grande momento do álbum. “95’S” traz o encontro de Xamãs rimando com acidez em cima de um beat envolvente. Confesso que alimentei uma paixão platônica diante do canto da Sophie Charlotte em “Flor de Maio”, canção que com ambiente esfumaçado de música brasileira elegante pós-bossanovista, na medida pra não soar caricata, muito por conta do bom verso do Xamã. “Poeta fora da lei”, com participação do Criolo num verso estranhão (e uma voz manipulada do Milton ao fundo), é um bom desfecho, além de prova de que quando munido de beats mais pulsantes o disco funciona melhor. Ruins: a sem personalidade “Basquiat”; “Aeromoça” um reggaeton pobrezinho em produção (é até lo-fi), vide a voz da Flora Matos captada com uma batata; o trap nada inspirado e sonoramente achatado “take a vision”, a ruim em tudo “complexo”, já “Toca no morro e na pista” nem Mc Hariel e Black Alien conseguiram se inspirar em cima desse beat que parece recuperar alguma música dispensada pelo RHCP).

- XweaponX: Weapon X Outro (Uma nova geração do hardcore/metalcore straight edge tipicamente nova-iorquino demonstrando sua força através de faixas feitas exclusivamente pra socar o ar e dar bicas pro alto. Sonoridade mastodôntica. Breakdowns cavalares. É o bichão! Earth Crisis participam numa faixa). Everybody Breaks

- Yandrel: CONTRATEMPO (Eu não sei quem é Yandrel e outros artistas envolvidos, mas sei que esse disco é uma cacetada. Ele transita pelo funk de São Paulo, o dubstep pós-Skrillex, algo de hyperpop na linha da Sophie, ecos da Arca… sei lá. Não tem massagem, é uma bomba, pra ouvir em algum porão escuro. Ouça no fone por sua conta em risco. Se deixar levar peso som, mas também se atente a construção dos ritmos e as texturas timbristicas. Não é um disco tão curto, então ele é um pouco repetitivo em algumas propostas, mas também imersivo por ser exitoso/vicioso/intoxicante na produção). FENOMENAL

- YHWH Nailgum: 45 Pounds (Todos sabemos dos rumos nada ortodoxos que o rock alternativo tem tomado, se emaranhado entre o pós-punk, o progressivo e o experimental. Esse grupo foi tão fundo nessa proposta que abriu mão do palatável, atendendo somente aqueles que prezam pela estranheza. Com sons esqueléticos e espaçados, algo industrial/eletrônico na construção rítmica, além de produção abrasivas e certa atitude punk, esse álbum de 20 minutos evolui de forma instigante, mas não pra todos. Difícil). Tear Pusher

- Zé Ibarra: AFIM (O Zé Ibarra é um personagem curioso. Se por um lado ele é inegavelmente talentoso - bem relacionado, produtivo, foi da Dônica, já o vi acompanhar o Milton Nascimento - ele também me aparentava ser o elo mais fraco do núcleo Bala Desejo. Sua voz e escolhas estéticas apontadas no Marquês, 256, seu álbum anterior, não saltou aos meus ouvidos. Dito isso, ele lançou um elogiado novo trabalho e eu fui ouvir. De cara “Infinito em Nós” traz aquele eco pop reggae mpbzistico que por um tempo permeou o trabalho do Caetano Veloso. Logo, Zé Ibarra faz parte daquele clube de artistas autorais contemporâneos que retroalimentam uma forma de canção popular já consolidada. No nome da faixa, no canto, no violão duro, na poética, no arranjo de cordas do Jaques Morelembaum, na percussão… tudo em “Transe” invoca Caetano. Ruim não é, mas meio pastiche né. É quase uma encarnação de IA emulando um artista ainda em atividade. Por sua vez, a ponte com o contemporâneo se faz em “Segredo”, que perde toda força e carisma que tinha na voz da Sophia Chablau, mas ganha bom arranjo e um toque quase de trilha sonora de novela em seu refrão. Gostei do solo de guitarra com fuzz abelhudo. “Retrato de Maria Lúcia”, sustentada na voz e violão, é muito bonita. Uma canção simples, popular, de melodia memorável. “Da Menor Importância” - assim como “Da Maior Importância” de vocês sabem quem - tem uma estrutura complexa em forma, arranjo e texto. Vale dizer que ela é assinada pela Maria Beraldo, que gravou num formato mais eletrônico, rítmico e que, pessoalmente, acho mais instigante. “Morena”, com seu arranjo tão contido quanto solar, mais uma vez traz ecos do Caetano oitentista. Mais atraente é “Essa confusão”, uma balada que se comunica com o brega noveleiro. O arranjo é lindo, há um belo caminho harmônico, timbres orgânicos e aveludados, além de boa performance vocal do Zé. A derradeira “Hexagrama 28” é sustentada por um violão despretensioso e colorida por outros elementos. É uma canção pop, charmosa e divertida. Apesar das minhas contraindicações e ranço involuntário, esse álbum tem um acabamento tão refinado e é tão exitoso no que se propõe que me nego a ser do contra. É fácil entender quem morre de amores, embora não seja meu caso).

"MEDIANOS" (4-6)

- Amaarae: BLACK STAR (Acompanhar a música contemporânea sendo um tiozinho é estar disposto a não compreender certos hypes. Essa artista é um caso. Já não tinha curtido o álbum anterior e a frustração se mantém aqui, assim como os elogios da crítica. Até tem boas produções, incluindo “B2B”, “S.M.O.” e o funk brazuca “Stuck Up”. Todavia, tem muitas derrapadas em canções chatas, repetitivas, pobres em texturas, em ganchos e, pra piorar, com aquelas vocalizações infantis que não me desce. Não é o fim dos mundos, mas passa perto).
 
- Antropoceno: Natureza Morta (Eu recebi com entusiasmo e surpresa o Terra do Fogo, EP deste mesmo ano em que a artista cria uma simbiose do samba com o black metal de maneira chocantemente abrasiva. Mas aqui, a fusão da bossa nova com algo como o shoegaze não pareceu tão bem-sucedido. Sua voz, melodias e harmonias diluem o que há de mais espetacular na bossa nova, restando apenas um retalho do ritmo e o aspecto ambiental que muito agradaria o Tom Jobim. Já o elemento “etéreo” da produção e arranjo até cria uma textura bacana, mas nada muito mais que isso. Na prática não deu tão certo quanto se pretendia).
 
- Arnaldo Antunes: Novo Mundo (Arnaldo Antunes, artista que dispensa apresentações, lançou um trabalho solo que vem causando certo burburinho. O meu interesse, confesso, se deu mais pelo que está em torno do que por ele em si, já que esse álbum tem produção (e baterias) do Pupillo e guitarras (e programações) do Kiko Dinucci. Aqui vale dizer que é muito legal como o Arnaldo sempre seleciona grandes guitarristas (basta lembrar que já passaram Scandurra e Catatau pela sua banda). Mas voltando ao disco, a dupla Pupillo e Kiko gerou passagens sonoramente ácidas, robustas, além de ritmicamente e texturalmente interessantes, com destaque para “O Amor é a Droga Mais Forte” e “É Primeiro de Janeiro”. Muito se falou sobre o beat drill em “Novo Mundo”, faixa que abre o álbum e que, para mim, já revela assim como uma sintonia com novos sons, um também descolamento lírico e interpretativo do Arnaldo, visto que o verso do VANDAL é muito mais legal. Por mais que no decorrer do disco tenham boas sacadas temáticas e poéticas, as melodias engessadas do Arnaldo e sua voz anasalada/metálica (que eu até acho legal) limitam o resultado sonoro. É um trabalho de altos e baixos (e como baixo eu cito a parceria com a Marisa Monte em “Sou Só”, onde a beleza instrumental ganha tons “tribalisticos” cansados). Não acho que as presenças do David Byrne e da Ana Frango Elétrico geraram grande coisa também. No fim, é o Pupilo e Kiko Dinucci mesmo que roubam a cena. Ouçam e façam suas avaliações).

- Bon Iver: SABLE, fABLE (Tecnicamente é um disco formidável. As canções são lindas; sua voz - com algo de blue eyed soul dentro de um contexto folk - funciona precisamente; há sempre detalhes de texturas diante do minimalismo dos arranjos; a captação é riquíssima; referências de r&b e gospel muito bem aplicadas. Dito isso, seu trabalho não me pega a ponto de apreciar em cheio. Questão meramente pessoal. Mas se sua pra for indie folk, ele continua sendo dos melhores).

- Chat Pile / Hayden Pedigo: In The Earth Again (Como eu adorei os últimos trabalhos de ambos artistas, vi com expectativa essa inusitada parceria. Todavia, simplesmente não consegui embarcar no disco. E eu já até tentei novas audições. Aqui a tradição da música norte-americana se relaciona com slowcore e post-metal, parecendo nunca chegar num apogeu emotivo ou sonoro. Achei meio emperrada a evolução das faixas. Mas tem seus bons momentos, vide a agressiva “The Matador”. Frustrante).

- cumbuca: cumbuca (Uma nova cara no indie rock brasileiro. Esse EP de quatro faixas serve de cartão de visita, revelando um quarteto que investe em sonoridades rockeiras pouco polidas, mas bem acabadas na forma das canções, que contém um certo apelo pop. Guitarrinhas, certa “brasilidade paulistana”, mas também algo de shoegaze e um faro pro indie da virada do milênio, mas com a jovialidade de quem tem aquilo como inspiração e não que pertence àquela geração. Não é tanto minha praia, mas se sua onda for esse rock alternativo despretensioso e palatável, vale checar). resolução
- dadá Joãozinho: 1997 (Começa mal, mas melhora. As primeiras faixas não me convencem ao tentar emular um pop rock/indie. Mas em “Subindo em Árvore”, com sua letra estranha, violão lo-fi, cria-se uma proposta de canção que acho bizarramente atrativa. “Lenda”, dentro da mesma estética, também é bacana).
 
- Far From Alaska: 3 (Terceiro álbum da banda, agora um trio, que foi perdendo membros e, mesmo os que ficaram, partiram para outros projetos. Lançaram esse álbum, anunciaram a gravação de um acústico e uma pausa na carreira. Tudo sintomático. Se a banda nos álbuns anteriores soava como uma oxigenação ao rock brasileiro, aqui parece apagada ao flertar com um pop dançante. O primeiro disco era um stoner não sisudo bem legal, já no segundo souberam equilibrar os riffs pesados numa abordagem mais moderna/divertida/pop. Todavia, aqui, o potencial vocal da Emmily Barreto me lembrou quando a Demi Lovato quis soar rockeira (tem quem goste). O Rafael Brasil, tremendo guitarrista, que dentro de um formato de canção mais rockeira fazia sua guitarra soar como um synth saturado descontrolado, aqui diante de batidas eletrônicas quase de hyperpop, não ofereceu contraste timbristico. É sonoramente artificial e comprimido mesmo quando robusto e corrosivo. “txananam”, faixa de abertura, lembra aquelas produções mais modernas do Prodigy. Diante dessa estética, dessa paisagem, não consegui me deslumbrar com as composições, que foram soterradas num direcionamento sonoro equivocado. E do jeito que to falando, parece que é de todo mal, quando não é, visto que tem riffs bacanas, algumas linhas vocais funcionam… as batidas não, aí vou ser conservador e assumir que uma bateria orgânica teria levantado o potencial do trabalho. Mas assim, até teria sido uma estreia interessante, de uma banda pra ficar de olho. Como terceiro álbum antes de uma pausa, tá mais pra um desfecho nada memorável. Ninguém pode acusá-los de serem reféns do próprio som. Ninguém precisa aprovar o direcionamento tomado).

- Froid: O Veneno do Escorpião V.2 (Tenho impressão que rola certa injustiça com o Froid. Talvez por ele ser muito popular e não ser dos rappers mais substanciosos (longe disso), mas a galera caga na cabeça dele. Apesar que às vezes ele merece, já que desperdiça seu potencial com bobajadas. Isso ficou claro nesse álbum, sequência de um trabalho que ele lançou no final de 2024, que confesso que não ouvi. O disco revela sua força principalmente no início. “Inverno Cigano” tem um beat grave e profundo, bons versos e uma voz sampleada sei lá de onde; “Lamentável V” é um boom bap dark bem legal; mesmo o trap “Missão” tem algo de sombrio que funciona; e “Manual de Como Matar um Fantasma”, ao abordar paternidade, é confessional e bonita, com direto a um sentimental refrão e final relembrando o único episódio de Um Maluco no Pedaço que capaz de fazer alguém chorar. A partir daí o disco vai degringolando progressivamente com a indiferente “Mais Esperto Que o Diabo”, o funk nada inspirado “Maresias”, o romantismo meloso chatão de “A Forma da Água” (que até tem um bonito violão), a típica contemporaneidade pop/reggae de “Sorte” e o trap tão legal quanto genérico “Uow”. A coisa só volta a melhorar na robusta “A Teoria das Cordas” e o beat frenético jazzístico “Johnny Saxofone Jackson” (esse baixo é de onde mesmo? Lembrei do Ron Carter com a Tribe, mas não deve ser isso), ótima inclusive no texto e flow. “Controle” é um bom desfecho, que no final tenta disfarçar a irregularidade, dada não por incapacidade, mas por escolha, o que talvez seja até pior).

- Ghost: Skeletá (Como previsto, o grupo fez uma guinada total ao hard rock/melodic rock, frustrando muitos fãs. Nunca amei a banda, então para mim o problema são as composições, pouco inspiradas, algumas com retrogosto de plágio se Journey, Dokken e sei lá mais o quê. A gravação e as performances não transparecem energia. Mas tem boas passagens de guitarra. Mesmo com bons momentos, é fraquinho).

- HAIM: I quit (O grande problema desse álbum é sua duração, já que ele tem faixas bacanas, mas que vão cansando. Mesmo a qualidade das composições parece ir sucateando no decorrer do disco. Dito isso, se você se interessa por pop rock, as meninas ainda tem algo a dizer. Boas guitarras, bons timbres e uma fórmula que fica entre o Fleetwood Mac e a Taylor Swift).

- Hungrs: Simbiose (Pensei em sequer comentar esse disco, já que honestamente não fez minha cabeça e é besteira ficar batendo em projetos pequenos que ainda estão se desenvolvendo. Mas acho que vale deixar registrado porque pode despertar a curiosidade e o gosto de quem curte metal moderno. Esse grupo é na realidade um duo formado por pai e filho, o que por si só já é muito legal. Tem algo de new metal, de metalcore, ecos de Korn, Slipknot, Gojira, umas melodias vocais à la Nevermore, além de momentos berrados bem nervosos. Acho que é uma proposta de som que se comunica muito bem com uma nova cena do metal internacional, tipo a Poppy, Spiritbox, o que também é ótimo pro cenário nacional. As composições não trazem nada de muito criativo, mas soam poderosas, com alguns breakdowns, palhetadas firmes, timbres graves (talvez guitarra de 7 cordas), além de uma estrutura que se por uma lado é previsível, por outro é perfeito pra bangear. O fato dos refrões serem mais melódicos deixa tudo positivamente mais acessível. Esse tipo de produção, milimetricamente editada, ultra comprimida, embora funcione na proposta, me cansa um pouco e não gera texturas que façam os 55 minutos soarem entusiasmantes. Agora, o que acho que não funciona são essas “orquestrações” na derradeira faixa que nomeia o disco, de tom falsamente épico que, talvez, numa trilha de um videogame funcionaria. Isoladamente são 7 minutos que testam a paciência. Curiosamente essa proposta funcionou bem “Far From Home”, uma das faixas mais diferentes do álbum, com climas mais limpos e boa melodia. Embora com muitas ressalvas, o grupo estreia bem).

- Jim Legxacy: black british music (2025) (Um típico disco que consigo visualizar suas qualidades, mas que sinto ter perdido o bonde. É um pop muito bem construído, mas que tende a se comunicar melhor com gerações mais novas. Munido de elementos do r&b contemporâneo, drill, afrobeat, bedroom pop, emo e latinidades, ele constrói um disco versátil e bem produzido, mas que derrapa em algumas composições. Se por um lado adorei algumas faixas (vide “big time forward”), por outras passei desinteressado. Mas vale conferir, não somente por ele ter sido muito elogiado, mas por realmente retratar experiências sonoras do pop atual).

- João Gomes, Mestrinho, Jota.pê: Dominguinho (Quando soube desse projeto fiquei entusiasmado. Três grandes nomes - em talento e alcance -, unidos em prol da tradição dentro do contexto da música brasileira contemporânea. Confesso que pelo nome e capa até imaginei que eles contariam com o repertório do Dominguinhos. Mal sabia eu que o repertório seria o maior dos problemas. Vi uma apresentação deles no Altas Horas e foi um balde de água fria. Fiquei completamente desmotivado em ouvir o disco. Uma versão de “Pontes Indestrutíveis” do CBJR foi terrível demais pra mim. Daí pra frente não consegui embarcar no projeto com o mesmo entusiasmo. E olha que eu acho o João Gomes carismático e legítimo representante do piseiro; Jota.pê dono de voz maravilhosa; Mestrinho um ótimo instrumentista, uma renovação da sanfona. Os arranjos enxutos mais parecem apressados do que intimistas e espontâneos. A captação ao vivo traz essa abordagem de “encontro de amigos”, disfarçando o raciocínio mercadológico do projeto. Isso tudo são escolhas legítimas, mas que em alguns momentos carecem de força. Aqui a música nordestina remonta o início do século, naquela onda de forró universitário, solar, aconchegante e apaixonado, mas musicalmente vazio em elementos. “Arriadin Por Tu” tem seu charme, assim como “Mala e Cuia”. Mas no geral tudo é diluído num forró-pop-reggae que poderia tá no repertório do Melin. Mais uma vez, os três aqui são muito iluminados, então funciona. Por mais que eu tenha diversas ressalvas ao disco, não posso negar que eu colocaria “Flor de Flamboyant” numa playlist de festa junina com amigos. Bonita as vozes e a cadência da sanfona. Se o piseiro e o forró são forças pungentes na música brasileira, aqui temos um produto limpinho feito pro mercado sudestino. É certeiro, de “bom gosto”, assim como, para mim, insípido. Não me estranha o disco ter caído na graça de tanta gente. E longe disso ser um demérito, é êxito).

- Killswitch Engage: This Consequence (Só não coloquei entre ruins porque embora não seja nada inspirado, eles dão sequência a tudo que eles sempre foram e, provavelmente, por eu não ter mais 16 anos, não salta mais aos meus ouvidos. Os momentos pesados até continuam bacanas, pena que sempre cai em refrões melódicos previsiveis (antes ao menos eram mais ganchudos). Tentei até a ouvir na academia, mas comecei a catabolizar).
 
- Lady Gaga: MAYHEM (E mais uma vez a Lady Gaga peca na regularidade do repertório. Se no início ele chega a empolgar ao distribuir faixas de dance pop com um peso extra oriundo do industrial - incluindo o poderoso e inegável novo hit “Abracadabra” -, em sua segunda metade a coisa fica bem arrastada. Além disso, mesmo nas boas faixas, continua a me incomodar a afetação dramática que a Gaga coloca nas interpretações (e ela recurso técnico pra isso). Ela sempre parece uma personagem, nunca uma artista aberta a se despir. Ela pode continuar sendo uma gigante da indústria, mas enquanto artista da música pop cada vez importa menos. Não é ruim, mas não me empolga).

- Lily Allen: West End Girl (Estaria mentindo se dissesse que é um disco ruim, visto que ele é sonoramente tão pouco arriscado que soa como um pop agradável. Sua voz, melodias e produção são monótonas (quando não ruins, vide “Relapse”), servindo apenas a storytelling de sua vida aplicada as composições: uma mulher traída e o fim de um casamento. Poderia funcionar, mas na prática não é tão distante do que eu esperaria da Shakira ou Luísa Sonza, não de uma Lily Allen aos 40 anos. Pouco instigante).

- LISA: Alter Ego (Ah, é a bonitona do Blackpink. Ela tá grande, os adolescentes adoram. Gosto de ouvir com minha filha de 4 anos pra ensaiar nossa interação pela vida. E é um disco pop tão legalzinho quanto esquecível. Interessante a variedade de estilos (dentro do pop contemporâneo). Ok dentro do que ela se propõe. Rosalía e Future colaboram em exemplos de bons momentos).

- Lorde: Virgin (Olha, após 4 álbuns, me dou o direito de dizer que acho a Lorde superestimada. Seus discos - e incluo esse nisso - trazem sempre algumas boas produções, três faixas bacanas e o resto é insosso. Nem sua fase “sexy” e sequer os beats dançantes são suficientes para empolgar).

- Luedji Luna: Um Mar Pra Cada Um, (Meu primeiro contato com a Luedji Luna foi quando ela lançou o Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água (2020), disco que trata com finesse incomum à sua geração a música popular brasileira. Mas por mais que eu tenha gostado, não foi um disco/artista que permaneceu no meu radar, de modo que escutei esse seu novo álbum com ouvidos frescos. E convenhamos que abrir o disco com uma faixa instrumental, jazzística, climática, não é uma escolha óbvia para uma cantora. Mas “Gênesis” já posiciona a artista num ambiente bastante particular e cria uma expectativa honestamente não correspondida. Com elementos espaçados preenchendo o arranjo, “Karma” apresenta o canto sublime da Luedji, que mesmo diante de todo arrojo soa bastante pop. É como se a Sade encontrasse uma voz brasileira e contemporânea. Com uma bateria muito bem conduzida pelo Jhow Produz, “Kyoto” traz um groove envolvente que cresce com a canção. Agora, mesmo com um baixo poderoso e elegante arranjo de cordas, “Rota” entra pra mim num campo perigoso, onde a sofisticação caminha ao lado do marasmo e de uma noção de “bom gosto” que não sai do senso comum das rádios de música brasileira, sabe? Soa bem, mas não é nada memorável. Não por acaso, a sequência com “Dentro Ali” me remeteu ao Djavan, o que é tanto um tremendo elogio, como também um exemplo pasteurização da MPB. Mesmo o solo de sax da Nubya Garcia soa correto demais. Pra se ter uma ideia, a vinheta “4hz”, com seu texto político em tom de mensagem de WhatsApp e acordes dissonantes ao piano é um dos momentos de maior frescor sônico. Em parceria da Liniker, “Harém” é mais uma canção que não dá pra falar mal. Tem um groove esperto da cozinha, linda performance vocal da Luedji… mas parece não decolar. Agora, verdadeiramente tedioso para mim foi o “reggae cachoeira” “Gamboa”, que conta com a colaboração do Curumin. Nem seu piano meio cubano à la João Donato trouxe vigor. “Salty” - que tem uma participação ali cantando que sequer fui procurar saber quem é, mas que nada gostei -, traz uma guitarra esperta que adorei. O mesmo vale pra “Joia”, que contém até um solão no final, assim como citação de “Pérola Negra” do Luiz Melodia. Vale dizer que não encontrei quem tocou as guitarras (que falta faz ficha técnica em tempos de streaming). Pode ser o Kato Change ou o Mackson Kennedy, vai saber. “Baby Te Amo” é um desfecho poético e inacabado, justificando até mesmo o lançamento de Antes Que A Terra Acabe, que saiu pouco tempo depois. Mas aí é outro assunto. Álbum irregular, embora de muito bom gosto.

- Mac DeMarco: Guitar (O nome do disco me animou, ainda mais sabendo que era uma volta sua a canções de estrutura mais convencional. Mas o resultado é preguiçoso demais, no sentido sonoro mesmo. São arranjos enxutos e arrastados, que até trazem um alinhamento com o lirismo pessoal das canções, mas o resultado é sonicamente pouco instigante. No miolo do álbum até consegui me apegar a quatro faixas (“Rock And Roll”, “Home”, “Nothing At All” e “Holy”), mas o restante é de um marasmo impressionante).
 
- Matanza Ritual: A Vingança É Meu Motor (Eu não sei o quão as pessoas sabem - ou se importam -, mas o Matanza se dividiu em dois. Neste aqui, o Matanza Ritual, está o vocalista, compositor e personagem folclórico Jimmy, que chamou um time de peso para acompanhá-lo: Amílcar, Felipe Andreoli e o Antônio Araújo, sendo esse seu primeiro álbum desde a cisão em 2018. Fui ouvir com baixa expectativa e não fui surpreendido. Não é exatamente ruim, só não me serve. Se aos 15 anos achava as canções do Matanza irreverentes, aqui o sentimento de ódio a todos e descrença me parece mais do mesmo. Pode até ter razão de existir, afinal o mundo é terrível em vários aspectos, os conflitos com integrantes do passado parecem permear alguns temas e também é o que o público espera do Jimmy. Mas visto que ele tem algumas boas sacadas, ficaria feliz de ouvi-lo discorrer sobre outros temas. No quesito instrumental, é nítido que todos tocam tão bem que soou mecânico demais. Algo como um thrash metal milimetricamente pensado, sem dar vazão para energias espontâneas. Soa tudo separadinho, com a voz rasgada quente do Jimmy saltando na mixagem e os outros instrumentos soando tão pesados quanto comportados. E até tem boas faixas, mas que no geral parecem levar o público a querer ouvir o repertório não do Matanza Ritual, mas do Matanza original).

- Mateus Fazeno Rock: Lá Nas Zárea Todos Querem Viver Bem (Conheci Mateus no álbum anterior, o peculiar Jesus Ñ Voltará, onde de maneira criativa, afrontosa, estranha e, porque não dizer, irregular, ele tencionava gêneros como o pop rock, rap e o funk da virada do milênio. Aqui, a experimentação com esses gêneros se mantém, mas de forma mais controlada. Parte disso atribuo a produção do Rafael Ramos, que não como demérito, busca imprimir uma qualidade comercial dentro de artistas faróis do cenário alternativo. O grande Fernando Catatau, eterno Cidadão Instigado, também colabora na produção, bem presente não só no direcionamento estético, mas na sonoridade em si, dos synths, das guitarras, vide a malemolente “Saturno e a Intuição”. Mas é a faixa que nomeia o disco que o abre. De beat swingado e guitarras abelhudas que adoro, a canção tem um tempero de BaianaSystem. Seu refrão por sua vez poderia ser do Chorão (entenda como quiser). “Melo do Sossego” e “Daquilo Que Nois Merece” no passado seria radiofônica (ou MTVesca). Tem um quê de Rappa em ambas as faixas. São canções bonitas e aconchegante, muito por ter uma das melhores performances vocais do Mateus, o que diga-se de passagem, não é um elemento de destaque na sua arte. Relacionada estrategicamente no meio do álbum, “ARTE MATA” soa como uma grande vinheta, de poética contundente sob uma base abstrata. A faixa deságua num solo psicodélico de guitarra que é a cara do Catatau. Um dos melhores momentos do disco. Com cuíca e tamborim de samba, ótimos caminhos harmônicos e guitarras bem colocadas, a praticamente recitada “O Braseiro e as Estrelas” é outro ponto alto. As dificuldades do cotidiano dita tematicamente o dub/reggae “Mercado de Miudezas”. Composicionalmente, o cheiro de Rappa volta “Quando Você Volta”, embora aqui a soluções musicais melhores aos meus ouvidos. Dentro do ambiente do pop rock, “REC.ordacoes” é uma maravilha. Tem uma inventividade típica do Cidadão Instigado, mas com uma voz mais afiada e palatável. Inclusive, o Mateus tem um vibrato de quem ouviu muito Tim Maia. É o refrão mais forte do disco. “Licença Pra Desabafar” é um desfecho positivamente esquisito, soando como algo entre o Edgar e o Arnaldo Antunes numa faixa de rap rock. Embora com boas ideias, tanto líricas quanto sonoras, e até mesmo um fator social e representativo importante, esse disco peca por não ser ganchudamente atrativo. Ele funciona, mas é memorável ou suficientemente instigante? Não acho).

- Marina Sena: Coisas Naturais (Terceiro álbum de uma das maiores artistas da atualidade do pop brasileiro. Ou pop abrasileirado, nem tão popular, nem tão “brasileiro”, apesar das estereotipias. Tem muito corpo, sol, mar, calor, sal e aquela sensualidade batida e intrínseca a tudo que se entende como brasilidade. Com pontos mais baixos que altos, esse disco é uma tentativa de consolidação e amadurecimento de uma carreira que passou pelo hype inicial e, posteriormente, por um segundo álbum (Vício Inerente) ruim o suficiente para que sua música não ficasse em primeiro plano quando citada em portais de notícias. O tal namorado feio, a amizade com a Marquezine e a Juliette, o vicio em sexo anal… tudo era mais interessante. Aqui ela chama atenção pra música com um repertório irregular. Chama atenção os motivos étnicos (na falta de uma expressão melhor), ora da música árabe (com direito a melismas vocais), ora da música indiana, nas três primeiras faixas, sendo que “Numa Ilha” tem uma guitarrinha esperta à la Baianasystem. Já “Desmistificar” é de batida/produção criativa e interessante, desperdiçada numa composição pobrezinha. “Anjo” é bacana, começa meio bossa, deságua num rock à la Gal Costa, embora vocalmente em alguns momentos tenha me lembrado uma Tete Espindola que deu errado (vale dizer que a Tete deu muito certo). “Tokito” é um reggaeton ok e que marca o contraste entre a bela voz da Gaia e o timbre nasal da Marina. Em termos de latinidade gostei um pouco mais da divertida “Doçura”, com direito a participação do trio Çantamarta e um sample de rabeca muito legal. “Sem Lei” um pop que funciona, assim como “Mágico”, aqui mais luminosa e oitentista. A levada afiada ao violão de “Ouro de Tolo” seria um ótimo desfecho, não fosse seu final autocondescendente. Ainda tem a atmosférica “SENSEI” (com a melhor performance vocal da Mariana), “Lua Cheia”, que é uma espécie de piseiro pro público paulista, o reggae cachoeira “Combo da Sorte” e “Carnaval”, uma vinheta/funk que não faria feio num disco da Anitta. Tudo no disco, as boas faixas e as fraquinhas, preenchidas por um colorido instrumental e de produção que ajuda no repertório e a interpretação irregular da Marina. Ela conseguiu trazer, ainda que por um instante, os holofotes novamente pra sua música, aqui em seu melhor disco e, ainda assim, talvez não bom o suficiente).

- MC Taya: Histeria Agressiva 100% Neurótica Vol. 2 - Muito Mais Neurótico (Se há uma repaginação/reavaliação do new metal no mundo, acho importante que ele encontre sua forma no Brasil, sendo que acho bacana ele vir com a força de uma mulher e fundido a elementos do funk. Isso posto, o resultado nem sempre agrada. A produção peca em intensidade, os riffs são muito básicos e as letras meio bobas. Funciona por ser um EP, mas não dá pra dizer que o resultado atende todo o potencial descritivo do projeto).

- Memphis Depay / MC Hariel: Falando Com As Favelas (Acho que não é pra levar esse projeto a sério. Parece mais uma peça de publicidade pra tentar transformar o Depay em ídolo corinthiano. Ainda assim, musicalmente até que funciona, até porque são só 4 musiquinhas. E também porque nesta onda de trap-funk brasileiro atual o MC Hariel é um dos nomes mais talentosos, sempre tentando trazer algo de perspicaz na sua escrita. A produção é robusta, os beats dentro da proposta são bem construídos… é divertido (ou ao menos curioso), mas esquecível também).

- Open Mike Eagle: Neighborhood Gods Unlimited (Os discos do Open Mike Eagle, por melhor que sejam - e são -, me dão a sensação que não decolam. Sua voz plena não traz dinâmica interpretativa. Por sua vez, os beats, recheados de samples lo-fi, acompanham a voz do rapper, servindo de uma cama confortável e pouco instigante. Ainda assim, há boas canções, principalmente para os que primam por bom gosto dentro do rap. Oba: Atenção para o uso de “Era Nova” (Gilberto Gil) em “almost broke my nucleus accubens”).
 
- Papatinho: MPC (Música Popular Carioca) (Papatinho, produtor carioca que ganhou destaque via seu trabalho com o ConeCrew e posteriormente colaborando na ascensão de nomes como Orochi e L7NNON, aqui em seu projeto pessoal. A relação dos pads/controladores MPC com a sigla pra Música Popular Carioca já aponta a forma das produções aqui presentes. Esse disco traz um panorama temporal do funk carioca, buscando muitos elementos na origem do gênero, naquela influência do miami bass. É curioso pensar nesse estágio do gênero, onde já há uma tradição a ser revisitada. Vale mencionar também como esse respeito ao passado no funk é típico do cenário carioca contemporâneo. Não quero aqui estimular nenhum bairrismo besta, mas é nítido que enquanto em São Paulo e BH o gênero evolui tensionando novas sonoridades, no Rio ele já se estabeleceu como cultura consolidada e, até por isso, acomodada e aceita pela indústria. Com isso, é justo então que o Furacão 200 seja a primeira participação a aparecer neste álbum, desencadeando na enorme lista de convidados que mapeiam o gênero no Rio. Com um baixo sintetizado irresistível, bom refrão e a presença da MC Carol com seu canto sempre energético, “Bonde dos Estraga Festa” começa bem o álbum. Se apropriando dos timbres do Miami Bass, “Solta o Pancadão” também empolga. A melodia e o ritmo são muito atraentes. Até um desprovido do dom da dança como eu consegue se imaginar num baile com essa música. Logo na faixa que tem a Anitta e o Cabelinho - duas das maiores participações - é que a coisa começa a desandar. “Conjuntão de Time” é mais pop, mas sem ser ganchuda. Fora que o estilo de interpretação do Cabelinho, meio “falso charmoso”, é horrível. “Meu Vício” com Kevin O Chris também não melhora. E aqui muito por conta do beat insosso, flat do Papatinho. “Passe a Respeitar” traz Fernanda Abreu com seu flow se sempre (até em “Rio 40 graus” ela falou), Naldo com a sua malemolência de plástico sempre e BK tentando se equilibrar nessa corda bamba. L7NNON e LEALL traz aquela maldade contemporânea em “Pixadão no Baile”, embora a batida ainda relembre o gênero em seu estágio noventista. “Gostinho do Amor” também tem esse eco do passado, mas seu refrão é mais forte e tem até mesmo uma melodia divertida de “sax” no beat. “Melo do Trenzão” tem como principal qualidade a indecifrável letra cantada de modo particular “Come Back”, em inglês, é um desfecho nada simpático pra Música Popular Carioca, aqui enaltecida e repetida em suas fórmulas. O funk tem muito mais pra oferecer).

- Playboi Carti: MUSIC (Minha tendência inicial é embarcar nesse tipo de projeto ambicioso, visto que aprecio a tentativa de artistas do mainstream de tensionar gêneros em voga. E o início do disco até colabora pra apreciação, já que as duas primeiras faixas são ótimas. Mas logo a produção abrasiva vai se esvaziando diante da mediocridade das composições (e são 30 FAIXAS!). Não é terrível, mas pouco inspirado. Se o tom pretensioso do álbum (olha a capa!) inicialmente achei engraçado, logo fica puramente bobo).
 
- Rachel Reis: Divina Casca (Sendo um novo nome da música brasileira e, mais precisamente, da música baiana, Rachel Reis personifica uma estética que já virou tendência e, que até por isso, soa com pouca personalidade, embora de bons resultados. Há um alicerce na tradição, na devida apropriação de células rítmicas do samba, pagodão baiano, que criam a brasilidade contemporânea. Muito groove, solaridade e belo timbre vocal enriquecem as canções. Entre meus destaque está “Furacão”; já entre minhas malqueridas está o poperô “Deixa Molhar”. Quase todo repertório é uma redundância temática ao que permeia a canção brasileira atual: sol, mar, sal, pele. Entre homenagem ao Jorge Ben, incorporação do dub e do rap com colaboração do Don L e Rincon Sapiência em “Tabuleiro”, uma repaginação de “Sexy Yemanjá” (Pepeu Gomes), além de selo de aprovação dado tanto pelo Baianasystem quanto pelo Psirico (sendo as duas participações bem bacanas), o disco evolui sem grandes explosões, mas oferecendo preenchendo toda cartilha da canção brasileira atual. Vale a gente se questionar se é isso que a gente espera da música brasileira contemporânea).

- Rubel: Beleza, Mas agora a gente faz o que com isso? (Antes de tudo devo assumir que o Rubel nunca fez minha cabeça. Seu canto de tão sóbrio me parece insosso. Já o repertório guarda um aconchego apaziguador que para mim é sonolento. Mas um novo disco, uma possível maior maturidade (minha e dele), talvez mude as impressões. Com ecos de bossa nova, “Feiticeiro Gozador” abre o disco com todos os elementos soando pequenos, seja o bonito arranjo orquestrado, o canto de pouca projeção ou o bom solo de violão. Embora não a tensão harmônica e melódica que definiu esse gênero brasileiro, não posso omitir sua beleza. Algumas faixas desse álbum me lembrou - dada as devidas proporções - o Muito do Caetano, um álbum com canções longas e menos convencionais em forma e texto, além de menos rítmico nos arranjos. “Ouro” é um bom exemplo disso. Aqui essa estrutura parece emulada, não de forma muito estudada e talentosa, mas mais como releitura de uma forma canção estabelecida. O mesmo vale pro samba truncado “Carta de Maria”. Não consigo embarcar nesse downtenpo acústico, de violão arrastado que define canções como “Azul, Bebê”. Mas quem curte Tim Bernardes vai adorar. O clima caído se mantém “Noite de Réveillon” e “Pergunte ao Tempo”, sendo que essa última por um instante eu achei que estava sendo cantada pelo Marcelo Camelo, o que não é um elogio. A bonita “Praticar a Teimosia” ‘até caberia numa novela do Manoel Carlos, o que revela uma pretensão caricata de imaginar a bossa nova. Fechando o álbum, uma versão vazia em texturas e elementos pra “Reckoner” do Radiohead, que aqui parece ter sobrado somente migalhas de um falsete. Esse disco parece consolidar o trabalho do Rubel dentro de uma posição que, pessoalmente, pouco me interessa. Problema meu, claro).

- Spiritbox: Taunami Sea (A banda tá entorne e acho bacana como um público jovem vem acolhendo novas bandas de metal. Essa traz uma imponente cantora na sua frente. A produção é ultra sintética, mas condizente com o momento do estilo. O problema é a irregularidade das composições. Tem muitas faixas melódicas que não representam a força da banda (e deixo claro que o problema nem é o direcionamento dessas canções pop metal-eletrônicas, mas o resultado). Agora, quando partem pra um new metal/metalcore/djent/eletrônico berrado, corrosivo e ultra pesado, eu acho bacana (vide “Soft Spine” e “No Loss, No Love”)).

- The Hives: The Hives Forever Forever The Hives (Gosto da banda, mas ia deixando esse disco passar batido. Foram elogios do Anthony Fantano e do Ciro do Brasil Que Deu Certo que me lembraram dele. Fui ouvir com expectativa alta e simplesmente não bateu. Achei as composições pouco inspiradas e a energia menos abrasiva. Claro, no meio disso tem boas canções (vide as ótimas “Pain A Picture” e “O.C.D.O.D.”), mas como um todo não me pegou).

- Twenty One Pilots: Breach (Embora eu entenda que composicionalmente é um pop rock rasteiro, eu tenho certo apreço pelos resultados sonoros que esse grupo atinge. Gosto da combinação de elementos eletrônicos contemporâneos com a bateria orgânica e baixos saturados, de modo que muitas das canções fluem bem (dentro da proposta). É bacaninha. Nada muito sério). Drum Show

- Tyler Childers: Snipe Hunter (Dentro do contexto da música country contemporânea é fácil reconhecer qualidades neste artista, que tem boas composições e investe em elementos do country rock em sua sonoridade (há ecos de Creedence). A produção do Rick Rubin colabora pra que isso seja feito com propriedade e bom gosto. Ainda assim, não há canções tão fortes assim. E sua voz (em timbre e performances) também não fez minha cabeça. Isso posto, se essa for sua praia, vale dar uma chance).

- Veigh: Eu Venci o Mundo (Após o Dos Prédios, álbum que, independente do meu gosto, ajudou no aperfeiçoamento e popularidade do trap nacional, Veigh volta agora com Eu Venci o Mundo. A sensação é que nesse meio tempo pouca coisa evoluiu. Até consigo ignorar o fato do flow do Veigh não ser dos mais intrincados e instigantes, mas suas letras, que nada comunicam comigo, não conseguem sair do meu campo de visão. Faixas como “Taylor” (que inclusive revela a falsa dimensão que ele tem de si mesmo) e “Belieber” são uma bobajada. Mas é “Reuniões Comigo Mesmo” que abre o disco. Seu beat esquelético somado a acordes misteriosos casam muito bem com a influência do r&b contemporâneo da voz do Veigh. A bipolaridade do seu monólogo interno de algum modo representa bem o que se passa na cabeça desses jovens artistas do trap alçados à fama de maneira tão rápida. Com cordas ao fundo no bom beat e detalhes nos arranjos e processamento da voz trazem uma beleza a “Hiperfoco”. Não o suficiente pra elevar a fraca composição. No início de “Ausência”, com uma descaracterizada segundo ao beat, tive a sensação de estar ouvindo uma faixa específica do Travis Scott que me foge o nome. Inclusive delays e reverbs tentam trazer - e de certo modo conseguem -, essa ambientação psicodélica do trapper americano. “Artista Genérico”, com batidas que batem no peito e synths arpejados, só funciona por isso. Mesmo seu forte refrão, que consigo imaginar um enorme público cantando, tem mais força de rebanho que de excelência composicional. “Talvez você precise de mim” é exitosa ao trazer ecos do funk noventista inserido dentro do contexto do trap. É inegável a sensualidade embutida no beat espaçado, nos graves, nos timbres, na ambientação de “Dono da Verdade”, mas a letra e voz do Veigh é tão sexy quanto um milheiro de tijolo. Se por um lado “Mônaco Freestyle” é um trap genérico, ao menos “Filho da Promessa” tenta trazer algumas reflexões e evolução bonita do arranjo. Entre a vulnerabilidade e a mania de grandeza excessiva, o interlúdio pianístico “Perdoe-me por ser um astro” é tão emotiva quanto risível. Eu adorei as estranhas vozes e o beat raquítico de “Sangue de Cordeiro”. Mais uma vez a batida é desperdiçada com uma letra cheia de clichês de superação e grandeza. O groove com fender rhodes e baixão de “Visões” também desce esgoto abaixo acompanhada da voz e “lirismo” do Veigh. Ficou ainda pro final as tão bacanas quanto esquecíveis “Influencie” e “Amor Fictício”. Confesso que aqui minha audição já estava desfocada. Foram 35 minutos de disco que pereceram o dobro do tempo. A impressão é que, independente de qualquer evolução que o trap brasileiro pareça ter, ele ainda não gerou um disco bom do começo ao fim).

- Vitor Brauer: Tréinquinumpára 05: Florianópolis (Nosso Sufjan Stevens continua a explorar territórios brasileiros num disco mais frio. Talvez resultado de condições climáticas, talvez da interação com as pessoas/cultura, talvez percepção minha diante de um repertório irregular, ainda que guarde sua inquietude textual (vide “Cama Brasileira”) que tanto me agrada, assim como uma sujeira corajosa que parece prestes a “arruinar” qualquer sinal de fácil assimilação. Tem algo de pós-punk em algumas canções. É ok).

"RUINS" (0-4)

- Addison Rae: Addison (Confesso que esse álbum me causou raiva. E não só pelo disco em si, que é um pop insosso, de produções vazias de elementos, interpretações nada carismática e composições pouco inspiradas, tentando surfar na onda do BRAT e trazendo o pior do pop da virada do milênio (inclusive na capa caricatamente tosca). Mas o que gerou indignação foi a bajulação em cima da loira padrão tiktoker que, até o momento, não mostrou talento pro clamor. Tudo bem, a indústria cria armadilhas, mas quem cobre música não poderia cair tão fácil nessas ciladas. Fraquíssimo).

- AJULIACOSTA: Novo Testamento (Um trabalho que recebeu bons elogios, com muita gente talentosa envolvida (Nave, Kl Jay, Mu540, dentre outros), mas que confesso ter sentido enorme tédio na audição. As composições não trazem nenhuma grande reflexão ou gancho. As rimas/flow são em grande parte constrangedoras (desculpem a palavra forte). Tem muitas camadas que levam as pessoas a apoiarem uma rapper mulher, mas se depender da sonoridade aqui alcançada, o olhar de piedade se manterá como único meio de chegar a aplausos).

- Lauana Prado: Transcende (Ao Vivo) (Essa moça é um fenômeno pop. Muitos dinheiro foi jogado nela, tá nas rádios, tá na Globo, é agro é pop. Esse disco apareceu na Billboard internacional entre os mais escutados quando lançado. Somando isso a uma publicidade dentro do Spotify que ficava jogando na minha cara o álbum, decidi dar o play. Fala mal do repertório é chover no molhado, mas vale dizer que a Simone Mendes e Marília Mendonça ao menos conseguiram emanar canções genuinamente carismáticas, mas aqui é tudo preso em fórmulas estruturais, temáticas, e de arranjos. Não consigo engolir, por melhor tocado e gravado que seja. No máximo achei “Dez Passos e Uma Curva” divertidinha. Se botarem num churrasco passa numa boa. Mas no geral é tudo muito previsível. Acho engraçado nesse sertanejo como sentimentalmente tudo é resumido a intercalar entre a curtição de uma paixão explosiva e a queda vertiginosa duma fossa alcoolizada. É um gênero bipolar. E são só esses dois sentimentos exacerbados mesmo, não há espaço pra mais nada. Vale dizer que a voz grave da moça, ora até com certo drive, não é das piores, mas também não ajuda. Se tem algo que achei interessante é ela ter uma música chamada “kamasutra” e numa outra falar em “transa bem dada”. Rola até um ménage com Zé Netto & Cristiano. Já em outros momentos o lesbianismo é a tônica. E assim o público agro hétero top e as sapatonas do interior convivem no mesmo ambiente. Curioso né. Mas é isso. Não salvo nada dessa audição e confesso que passei pra frente a maior parte das faixas no meio do caminho. Sou curioso, mas tenho meus limites).

- Pabllo Vittar: Prazer, Mamãe Noel (Adoro a Pabllo enquanto figura pública e artista pop brasileira contemporânea, por tanto salvar esse EP como uma forma de dar uma descontraída no Natal em família. Um zuera bem-vinda na música. Por sorte ouvi antes e percebi a ausência de graça e inspiração. São das canções mais esquecíveis que ela lançou. Dá nem pra odiar, tá mais pra esquecer mesmo).

- Sleep Token: Even In Arcadia (Eu não sou um xiita do heavy metal (juro!), mas é impressionante a capacidade do metal de chegar ao mainstream com o que há de pior no gênero. Ouvindo esse disco ficou claro que eles são sustentados somente pelo visual/conceito/mistério, já que as composições são terríveis e o vocalista é um pé no saco (dos mais intragáveis, seja pelo timbre, interpretação, dicção, escolhas melódicas). Isso aqui é um Imagine Dragons com pitadas de djent. Isso nos melhores momentos, porque no geral é só um pop pesado/cavalar somente por ser muito comprimido. Muitos falam que o baterista é bom, mas não pra saber, já que a produção desumaniza qualquer qualidade que ele possa ter. Disco difícil de se ouvir até o fim).

- Taylor Swift: The Life Of A Showgirl (Eu não teria porque falar mal gratuitamente do disco, já que inúmeras vezes demonstrei gostar das músicas da Taylor Swift. Mas esse álbum revela uma pessoa dissociada da realidade. Seus últimos dois discos já demonstravam um cansaço criativo alinhado com sua imagem desgastada (por produtividade mesmo). Ela poderia ter escolhido o descanso, mas decidiu por explorar um treta infantil (por parte dela) com a Charli XCX, falar sobre seu romance com um astro do esporte e sobre como é “perseguida”. Isso tudo com um lirismo frágil (quando não adolescente). Musicalmente voltou a trabalhar com o Max Martin, que regurgitou suas fórmulas de maneira nada exitosa (cadê os detratores do Jack Antonoff agora?). Engraçado (no sentido de vergonha alheia) perceber a Taylor emulando trejeitos vocais da Lana Del Rey. Pra não dizer que nada presta, a derradeira faixa ao lado da Sabrina Carpenter é simpática. Resumidamente, um álbum que soa como um suplício. Cansado).

- The Mars Volta: Lucro sucio; Los ojos del vacio (Salvei esse disco assim que saiu. Me esqueci dele. Quando me dei conta, havia passado meses e não tinha escutado comentário algum sobre ele. Logo entendi porquê todos ficaram em silêncio: ninguém quis descer a lenha nessa bomba. Trabalho nada inspirado. Canções chatas, num formato conceitual/interligado que deixa tudo um marasmo. As vocalizações do Cedric estão terríveis. Já a banda está sem vigor algum (Omar parece abatido). Há aquela “latinidade” típica da banda inserida num contexto de produção “pop contemporâneo” (na falta de uma descrição melhor) que não funciona. Cheguei a cogitar ser um disco feito de qualquer jeito só pra comprir algum contrato. Confesso ter aguentado somente ⅔. Verdadeiramente triste).

- The Velvet Sundown: Floating On Echoes (A tal “banda” de “rock psicodélico” gerada por IA que causou certo burburinho (e muitas audições, espontâneas ou não). Muitos criticaram por um viés moral. Entendo, mas não foi meu caso. Por mais estranho e inconcebível que seja ouvir voluntariamente uma música gerada artificialmente, estou disposto a estar errado. Não foi o caso aqui. Ouvi por cima e tudo soou pasteurizado, sem vigor, sem inspiração, sem calor, sem nada. Se tomar esse exemplo como capacidade criativa da tecnologia, a coisa ainda vai ter que evoluir muito).

- Tremonti: The End Will Show How Us (Eu confesso que costumo curtir os discos solos do guitarrista do Creed e Alter Bridge (embora ouça só quando sai, nunca mais voltando neles). Mas esse achei chato e genérico de imediato. As canções são nada inspiradas, as vocalizações são terríveis e a produção ultra comprimida cansa o ouvido. Até tem alguns riffs e solos legais, mas nessa altura do campeonato não é isso que me fará gostar de um disco).

- YUNGBLUD: Idols (Desconfiava que era uma porcaria, mas o rapaz tá em alta no Reino Unido - inclusive sendo endossado por veteranos como Steven Tyler e o finado Ozzy -, então fui conferir. É pior do que eu imaginava. Não gostei das composições, da voz, nem da produção. Tudo parece uma diluição mercantil de uma pretensa atitude rockeira, sendo que nada se sustenta sequer superficialmente. Muito ruim).

FILMES

Becoming Led Zeppelin
Embora autorizado pela banda (com direito a entrevistas inéditas) e inteligentemente ficando no início da banda (muito difícil abranger tudo), pra quem gosta minimamente da banda, o documentário não apresenta nenhuma novidade na história do grupo. Vale assistir “somente” por sua qualidade técnica, excelentes imagens de arquivo e para relembramos o quão foda era a banda. Inclusive constei que esse início do grupo representa o auge das performances (e não necessariamente das ideias) do Jimmy Page.

Guerreiras do K-Pop 
Uma mistura de The Monkees com Gorillaz (só uma provocação). A trilha dessa animação, assim como o filme em si, fez enorme sucesso, sendo que vale deixar registrado aqui. Não é algo que eu vá ouvir por espontânea vontade, mas enquanto produto pop funciona bem. Não por acaso é a obra mais assistida da história da Netflix.

Homem Com H
Assisti uma única vez, mas talvez possa afirmar que seja a melhor cinebiografia de um artista da música brasileira. Até gosto do filme do Cazuza (vi somente na época), do Tim Maia, da Elis, do Luiz Gonzaga com o Gonzaguinha… mas esse achei esteticamente melhor, muito pela direção, mas também pela atuação, com destaque óbvio pro Jesuíta Barbosa, que encarnou o Ney nos trejeito em cima e fora do palco. Confesso que achei que um filme sobre o Ney não renderia tanto (por mais esplendoroso que eu ache que ele seja), mas forma que foi tratada sua infância e juventude, o Secos & Molhados (que pensei que sofreria retaliações no enredo por conta de divergências pessoais - assim como acontece com Os Mutantes em tudo que envolve a Rita Lee -, o que, felizmente, não aconteceu), seu início na carreira solo, sua postura diante da ditadura, relações amorosas (inclusive com o Cazuza), a epidemia da AIDS… tudo fez desse filme uma obra a ser apreciada.

O Legado de Sly & The Family Stone
Com direção do Questlove, esse documentário se faz necessário, visto que a obra deste mitológico grupo é por vezes negligenciada. Veio a calhar sair pouco antes da morte do Sly Stone, que vale dizer, vivia envolto a mistérios, não sendo até então muito clara sua situação. É explicativo, cronológico e emocionante. Difícil não terminar o documentário pensando que o final poderia ter sido muito mais consagrador.

Pink Floyd At Pompeii
Vídeo histórico, presente na minha vida desde a infância, de modo que foi uma tremenda oportunidade assistir ao filme no cinema, com nova mixagem e um tratamento de imagem soberbo. Agora, se por um lado as imagens são estonteantes e tenha todo um conceito audiovisual ambicioso no projeto, ficou explícita uma verdade dura de admitir: eles não eram músicos tão bons. Alguns momentos são pura enrolação, que pra época até são esteticamente interessante (algo pós-psicodélico e proto-krautrock), mas é incrível como o Gilmour enrola em alguns momentos (e ele é dos meus guitarristas prediletos, tenho voz de fala). Roger Waters também nunca foi um baixista de saltar aos olhos. Curiosamente (ou nem tanto) Nick Mason e Richard Wright são os que mais brilham.

Rita Lee: Mania de Você
Infelizmente, lançamentos biográficos sobre a Rita Lee tem a pecha de serem ruins. Esse tem várias falhas, inclusive estéticas. Um formato que lembra um especial ruim da Rede Globo. A ausência dos Mutantes reforça o caráter “só entrou o que ela (ou a família) queria”. Só isso justifica. Seu problema com álcool até tenta passar um caráter menos chapa branca, mas isso mesmo vem com um verniz de clichê de astros do rock. Claro, há um tom emocionante envolto a sua morte e como isso reverberou em sua familia. Todavia, um filme sobre a Rita Lee não pode ter como clímax uma carta deixada aos filhos e ao Roberto de Carvalho. Frustrante.

Tony Tornado Tributo
A Rede Globo lançou programas especiais em tributos a alguns dos veteranos da emissora. Por acaso acabei assistindo justamente o do Toni Tornado. Não é exatamente um documentário, mas carente de produções audiovisuais sobre nossos ídolos, vale prestigiar e entender a transição do Toni de nome da black music/soul music brasileira, pra um dos mais representativos e queridos nomes da teledramaturgia brasileira. Muito legal.

Um Completo Desconhecido Bob Dylan 
A tal cinebiografia do Bob Dylan. Muitos elogiaram. Eu não consegui embarcar. Não traz nenhuma novidade, fica muito centrado em suas aventuras amorosas, as atuações são típicas do cinema norte-americano atual… Não é ruim, mas não empolga.

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