Mas voltando ao emo em si, por mais que hoje o estilo seja reavaliado e compreendido em toda sua complexidade comportamental, estética e de transformações da indústria musical - com direito a bandas como Fresno e Paramore ascendendo musicalmente em novas direções, levantando a bandeira do emo com verdade, mas também ironia -, não podemos omitir que boa parte do que pintou no emocore dos anos 2000 era uma porcaria. Ou no mínimo um produto de baixo valor agregado. Não vamos agora por revisionismo grosseiro enfiar goela abaixo Good Charlotte, Simple Plan e Panic! At The Disco, né?
O estilo incomodou até por ser uma "deturpação" não intencional do emotional hardcore (a.k.a. real emo). Na linha cronológica havia Rites Of Spring, Sunny Day Real Estate, Jawbraker, American Football, dentre tantas outros grupos que acumulavam prestígio do cenário alternativo. Mas foi naquele misto de euforia pop punk (já com Jimmy Eat World e The Used), rebelião de classe média (diante da falência do "sonho americano", do governo Bush), carência familiar e apelo publicitário juvenil, que a coisa desandou na virada do século, bombando na MTV bandas desprovidas de urgência, atitude, talento composicional e genuinidade. O emo não somente fez muito sucesso, mas virou um padrão comercial repetido massivamente em série.
No meio deste reboliço estava o My Chemical Romance. Superficialmente eles não destoavam. O visual dramático, com franjas escorridas, palidez estereotipada e olhos pintados até acentuavam os símbolos do movimento. Mas um olhar mais atento logo revelava diferenças.
A começar que a dramaticidade tinha uma raiz mais profunda. Musicalmente chegava até a trazer ecos de Smashing Pumpkins. Já a dupla de guitarras era muito acima da média. Por sua vezes, os clipes traziam roteiros e direções mais apurados, fugindo da estereotipia colégio/skate/festa. Tudo isso fez do My Chemical Romance a mais ambiciosa e emotiva das bandas emos. E, por incrível que pareça, isso era ótimo.
A banda já havia chegado ao sucesso com o hit "Helena", presente no (apenas) bom Three Cheers For Sweet Revenge (2004), mas quando saiu The Black Parade (2006) o patamar subiu. Não dava pra ignorar.
Produzido por Rob Cavallo, o disco trouxe um acabamento técnico, conceitual e performático gritante. Gêneros como hard rock, glam, rock alternativo, rock de arena, gótico, post-hardcore e pop punk se misturam ao emo. Resumidamente: foi o que Green Day tentou com o American Idiot (2004) - e de certo modo conseguiu! -, mas aqui com mais profundidade, inspiração e frescor.
The Black Parade é um álbum conceitual. Da até pra chamar de ópera rock. O tema central é a morte, sendo as etapas da vida (principalmente memórias da infância) o embrião narrativo. Para isso foi criado um personagem em conformidade diante de um câncer em estágio terminal. Poderia soar batido, apelativo, pueril, enfadonho ou dramático demais, mas sendo o Gerald Way um artista talentoso (inclusive roteirista e escritor prestigiado), há exuberância tanto no enredo quanto na interpretação.
"The End" abre o disco expondo referência latentes. Tem Pink Floyd (fase The Wall), David Bowie e Queen. Isso tudo numa canção épica de menos de 2 minutos. Impressionante! Seu desaguar na excelente "Dead!" impressiona. A produção densa/massiva colocam as guitarras no centro da canção, destacadas inclusive por ótimos solos (meio Ace Frehley) do subestimado Ray Toro. Backing vocals enormes trazem ainda mais grandiosidade para o arranjo.
Se muitas vezes o emocore foi lembrando por falta de vigor, "This Is How Disappear" desmente a tese apresentando sensibilidade através da energia. O mesmo vale para "The Sharpest Lives", dona de melodias pegajosa, ritmo quase dançante e ótimas guitarras.
Eis que surge "Welcome To The Black Parade", que devido se devido o sucesso tornou-se quase um hino geracional, mas que tem como verdadeiro triunfo servir de catarse emocional, vislumbrando a morte através de memórias. A interpretação vocal teatral, a bateria marcial, a melodia de guitarra (à la Brian May) e, no seu cume, a energia pop punk. Não vou julgar um adolescente que chegou as lágrimas em seu final. É uma tremenda canção!
De beleza pop, "I Don't Love You" tem uma melodia certeira. E aqui fica nítido que mesmo diante do comercialismo, o grupo não era rasteiro. É uma música verdadeiramente bonita.
Tiozões rockeiros se descabelando por uma juventude ouvindo canções como "House Of Wolves" só revela o rancoroso choque geracional. A música obedece todos os critérios de uma ótima música de rock.
Com teor melancólico, melodia afiada, belo arranjo de cordas e inteligente progressão harmônica ao piano, "Cancer" é uma baladona que deixaria Paul McCartney e Freddie Mercury orgulhosos.
"Mama" é uma das música mais singulares do período, inclusive revelando o humor e a qualidade técnica do grupo. Isso se dá tanto pelo ritmo gypsy punk, quanto pela presença improvável da Liza Minnelli. Divertidíssimo.
A energia catártica de "Sleep" passa pelos grandiosos acordes de guitarra, pela consistência da cozinha e, obviamente, pela performance voraz do Gerald Way.
Por mais que "Teenagers" seja um pastiche descarado de rock n' roll, acho ela tão divertida e bem feita que não consigo ignora-la. Se o riff é bacana, o solo é mais ainda. Já o refrão é feito pra cantar junto. Não por acaso, com o beneficio da distância temporal - onde pouco importa se uma gravação tem 20 ou 50 anos -, uma nova geração abraçou a música como se ela fosse um clássico do rock. Talvez ela seja.
A tristeza volta a imperar em "Disenchanted", uma balada bem construída que muito remete ao período que foi lançada. Por sua vez, "Famous Last Words" é mais triunfante e traz um desfecho narrativo consistente (além de ótimas guitarras).
Após décadas de lançamento, The Black Parade se consolidou como um vestígio de excelência num cenário de muito mais erros que acertos. No fim, as canções e performances são mais fortes que tudo.
Ah, sabem quem é ama esse disco? Gary Holt (Exodus e Slayer).

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