PAÍS DO BAURETS
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Breves pitacos sobre o Rock In Rio
- Detonautas + Biquíni é uma junção do inferno hein! Que tipo de pessoa achou que essa junção seria bacana? Nem assisti, só a descrição já me causou calafrios. Obs: curiosamente, são dois grupos que fizeram amputação em seus respectivos nomes.
- Liguei a TV e tava o Rise Against tocando. Eles são muito eficientes em fazer punk rock esquecível. Encorpado, bem executado e sem inspiração alguma. Obs: eles enchem um Cine Joia? Bizarro eles no palco principal.
- Falar que achei bom o show da MC Taya seria um exagero, mas gosto de como ela é afrontosa. E acho legal existirem jovens metaleiros que se identificam com sua proposta, algo que não aconteceria na minha juventude. Nesse sentido, sou um defensor do “metal mandrake”. Engraçado o guitarrista emulando o John 5 (tava até com uma tele).
- Não gosto de detonar bandas do cenário alternativo brasileiro, mas achei terrível as canções do Malvada. Todas parecem tocar muito bem, mas as músicas são péssimas. Pior ainda foi a presença da Day Limns, essa sim sem talento algum.
- O Sepultura é realmente um capítulo à parte, né? Historicamente desfalcados, em tour de encerramento, abrindo mão do repertório clássico e ainda assim sendo um dos fortes candidatos a grande show da edição. Uma força da natureza. Sensacional!
- Vi somente uns cortes do Avenged Sevenfold. A impressão é que os integrantes tem vergonha do próprio repertório. Deveriam ter também da performance atual, mas no fim o dinheiro sempre fala mais alto.
- Infelizmente não consegui ver Poppy, Bad Omens e Bring Me The Horizon. Tinha curiosidade (mais que apreço pelos artistas).
- BaianaSystem é uma bandaça e faz grandes shows, mas não consegui embarcar nessa apresentação. Talvez não seja algo pra ver pela TV.
- O show do Jota Quest tocando Tim Maia até poderia ser uma boa sacada, mas a falta de vigor/sangue/coração na performance das canções só revelou a destreza técnica e fria da banda. Isso me refiro ao instrumental, claro, já que o quê o Flausino tem de simpático tem de péssimo cantor.
- Eu gostei do show do Barão Vermelho. O setlist é meio confuso dentro da proposta (formação original, mas tocando repertório dos anos 90), mas não chegou a me desagradar. Sem susto.
- Em algum outro lugar do mundo o Black Eyed Peas conservou tanto o público quanto aqui. Chega a ser impressionante como em 2026 alguém paga caro no ingresso e sai de casa num dia chuvoso pra assistir essa porcaria.
- Podem falar o que quiser, mas para mim o show do Roupa Nova beirou o perfeito. Até mesmo no sentido de representar a cafonice que é o Rock In Rio. Hit atrás de hit, performance excelente e, de quebra, participação do Guilherme Arantes pra trazer um peso extra. Eu adorei.
- O Péricles cantar o repertório da Motown é uma tremenda ideia, ainda que ele não tenha a voz que muitos imaginam que ele tem. Ao menos ele tem carisma e uma tremenda banda de apoio. Pena que ele leu 50% do tempo, sendo que em tempos de playback descarado, dá pra dar um desconto. Show ok. Se fosse o Ed Motta seria mais legal.
- Jon Batiste começou fazendo show com presepada e eu já mudei de canal. Sem paciência pra músico talentoso que de tanto inflarem o ego agora acha que é Stevie Wonder. Não fode!
- Melhor que assistir o Jon Batiste é lavar a louça ao som do show do Belo.
- Gilberto Gil em show seguro e sem inspiração é melhor que 90% do que rolou nesse festival.
- Não deu pra ver a Laufey. Foi segunda no horário da minha novela.
- A transmissão do show do Elton John começou as 23h30, então assisti três músicas e fui dormir. Foi o suficiente pra perceber que ele tá otimo (após enfrentar problemas de saúde), que comanda o palco como poucos (e sem pirotecnias), que tem uma banda muito bacana e que faria o grande show dessa edição do Rock In Rio. Levando em conta que ele já tocou em outras edições sem causar a mesma comoção, fica exposta a fraca escalação dessa edição. Elton John não tem nada com isso e fez sua parte.
- A escalação da segunda semana tava tão fraca que não me dediquei a assistir show algum. Espiei os esquecíveis shows do enfadonho Maroon 5, da Joelma, do Criolo/Amaro/Dino e acho que só. Jamiroquai até veria, mas perdi. É isso.
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
TEM QUE OUVIR: Violeta de Outono - Violeta de Outono (1987)
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
ACHADOS DA SEMANA: Elis Regina, Detrito Federal, Língua de Trapo e The Hidden Cameras
Elis Regina
A entrevista com o Roberto Menescal no Roda Viva desta semana me fez relembrar o clássico álbum da Elis Regina lançado em 1972. Com produção do Menescal, o disco foi um dos que mais vendeu da Elis. Não por acaso estão nele inúmeros clássicos, vide “20 Anos Blue”, “Bala com Bala”, “Mucuripe”, “Águas de Março”, “Cais” e “Casa No Campo”. Maravilhoso.
Detrito Federal
Tanto se fala no punk de Brasília que fui ouvir essa banda de excelente nome. Lembro na adolescência de um amigo ter o disco (o da clássica capa amarela), mas acho que não cheguei a escutar na época, então fui ouvir agora. Achei que seria uma demonstração de atitude e peso em detrimento ao “punk” do Capital Capital. É mais “urgente” mesmo, mas ainda é uma bobeira mais tosca que exitosa. Longe de mim querer ser bairrista, mas fiquem com punk de São Paulo mesmo.
Língua de Trapo
Daquelas bandas que ouço falar desde sempre, mas que não me animava em ouvir com maior atenção. Mas caí no Língua de Trapo (1982) e dei uma chance. É o que eu imaginava: uma piada que perdeu a graça. Nada contra, é bacaninha, mas nesse sentido de equilibrar humor e uma reflexão/elaboração sobre a canção popular, o Premê faz muito mais minha cabeça (pra não falar do Grupo Rumo, que aí é outra categoria). Na época devia ter um frescor mesmo, mas ele não se conservou.
The Hidden Cameras
Estou involuntariamente em audição de grupos que desviaram daquela ideia heteronormativa do indie rock 00’s. Dessa vez cheguei por acaso no The Smell Of Our Own (2003), álbum de sonoridade grandiosa. Acho que eles mesmos chegaram a afirmar ser um “som de missa gay”. Faz total sentido. Uma pérola do indie pop.
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
ACHADOS DA SEMANA: Mike Stern, Rainbow, Derek Bailey & Dave Holland e Alberta Hunter
Odds Or Evens (1991). Vi a Juvi falando sobre esse disco ser um de seus prediletos de guitarra fusion. Gosto muito do Mike Stern, mas não lembrava ter escutado, então assim fiz. Ele já tem uma produção bem mais polida/cristalina, o que pro gênero não é um problema.
Rainbow
Desde aquele encontro do Blackmore com o Deep Purple, voltei a ficar obcecado pelo guitarrista, o que fez com que eu chegasse a discos que nunca dei grande bola. E sendo franco, Down To Earth (1979) passa longe da atrocidade que muitos falam. Bem mais comercial e inferior aos anteriores (normal, 97% do rock é inferior ao Rising), mas com ótimos momentos.
Derek Bailey & Dave Holland
Improvisations For Cello and Guitar (1971). Registo ao vivo lançado pela ECM. Seu nome é descritivo. Agora, o resultado sou eu que aviso: não é nada convencional. É um trabalho de experimentação. Esqueça forma, harmonia e melodia. Tem momentos que até confunde o quê é o quê, com as cordas tensionando próximo do limite. Eu me interesso pela ideia do improviso, mas assumo que não é prato pra toda hora. Vá por sua conta em risco.
Alberta Hunter
Amtrak Blues (1980). Fui procurar algo de blues que fugisse da guitarra - uma recorrência auditiva minha - e caí nesse excelente disco. Que cantora! Grande voz e carisma. Fora que esse blues que flerta com o jazz tradicional é de charme único. Uma beleza! Prepare uma bebida e divirta-se.
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
TEM QUE OUVIR: Marina - Fullgás (1984)
Quando o assunto é o rock brasileiro dos anos 1980, existem algumas verdades inquestionáveis. Uma é que há clássicos inegáveis do gênero - pra não dizer da música brasileira como um todo - vide Cabeça Dinossauro, Selvagem? e Dois, só para citar os mais óbvios. Todavia, mesmo esses, envelheceram mal aos olhos de um público que os vê como "rock de conservador de meia idade". Isso passa não somente pelos artistas, mas principalmente pelo público que formaram. Com isso, não espanta uma juventude, por ranço, virando as costas para esse período do rock brasileiro. Curiosamente, vejo o oposto ocorrendo com a Marina Lima.
Se na virada do milênio minha geração praticamente ignorou sua obra, agora ela voltou a ter o prestígio que merece, afinal, estamos falando de uma das interpretes mais elegantes do pop brasileiro. Nem mesmo suas limitações vocais atuais e lançamentos esquecíveis são capazes de tirarem Fullgás (1984) do centro da discussão do pop rock brasileiro.
Filha de economista e irmã do poeta Antônio Cícero, Marina passou parte da infância e juventude nos EUA. Juntando isso ao seu amor pela MPB, fermentou-se um caldo cultural diferenciado.
Embora com alguns bons discos e sucessos na bagagem, Fullgás, seu quinto álbum, escancarou a artistas aos olhos do público. Vale lembrar que ele foi lançado antes dos maiores clássico do tal BRock e do primeiro Rock In Rio. Sua produção é assinada pelo João Augusto.
O super hit "Fullgás" abre o disco já elevando os padrões do pop nacional. A letra do Antônio Cícero é poeticamente charmosa. Há um clima de suspense irresistível na construção harmônica e timbristica, sendo interessante perceber que seu arranjo é basicamente eletrônico, com bateria programa e sintetizadores (do Ricardo Cristaldi) em primeiro plano. Como elemento "humano" há a antológica linha de baixo do Liminha, com direito a fantástico solo no final. Clássico!
"Pé Na Tábua" não deixa o balanço cair. O baixo do Pedro Baldanza é um espetáculo. Faixa curtinha de leveza pop que muito lembra as rádios e novelas do período.
Ainda no campo da ficha técnica, vale notar Lobão e Sérgio Della Mônica em colaboração na construção rítmica de "Pra Sempre e Mais Um Dia", canção de caminho melódico elegante. Mesmo de voz "pequena", Marina dá a interpretação precisa para a canção.
Se a década de 1980 foi a década de synthpop, então podemos dizer que o gênero tem seu representante brasileiro de alta estatura através de faixas como "Ensaios de Amor" e "Nosso Estilo". Por sua vez, a new wave, que chegou como uma euforia de plástico que logo perdeu a graça, tem em "Mesmo Que Seja Eu" o astral pop na medida.
Lobão volta apareceu enquanto compositor e baterista no hit atemporal "Me Chama". Um canção enigmática, que na voz da Marina soa belíssima, noturna e sexy. Sua rouquidão frágil é irresistível.
Embora seja a mais datada do álbum, é interessante ouvir a construção sonora eletrônica do Lulu Santos em "Mais Uma Vez". Será que ele tava ouvindo Gary Numan?
Sofisticação e elegância prevalecem em baladas pop como "Mesmo Se o Vento Levou" e "Veneno". É o AOR/sophisti-pop brasileiro.
São muitas as artistas brasileiras atuais que atingiram sucesso comercial (financeiro), mas sem conquistar prestígio artístico. Marina conseguiu ambas as coisas naturalmente. Além disso, tem servido de influência direta para nomes como Mahmundi e Júlia Mestre.
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
ACHADOS DA SEMANA: Leo Peracchi e Sua Orquestra, Scissor Sisters, I Shot Curis e The Durutti Column
Leo Peracchi e Sua Orquestra
Exaltação Ao Baião (1956). Como bem explicita a capa do disco, aqui há uma interpretação das composições do Humberto Teixeira. É uma visão orquestrada/“erudita” (ou universal) do baião. Deste modo, é não somente um álbum lindo, mas também um documento cultural. Quem se interessa por arranjo vale dar uma atenção extra.
Scissor Sisters
Scissor Sisters (2004). Lembram quando isso era tido como uma novidade? E lá se vão mais de 20 anos. Que fim levou hein? É um pop rock bacana, principalmente por seu toque glam e balanço disco. A estética gay diante do padrão heteronormativo do new metal também revelava frescor.
I Shot Cyrus
Tiranus (2003). A banda andou fazendo show recentemente e empolguei a relembrar esse clássico do hardcore brasileiro. Um atropelo barulhento e descontrolado. É disso que gostamos. Perfeito pra ouvir na academia.
The Durutti Column
Esse mitológico grupo liderado pelo guitarrista Vini Reilly lançou álbum novo. Fui então dar uma atenção especial para alguns de seus discos antigos. A começar pela clássica estreia The Return Of The Durutti Column (1980), que nem considero dos mais instigantes, mas que surpreende ao não parecer com nada que havia no período. São peças de guitarras em cima de pequenos movimentos eletrônicos. Se for pra colocar em algum gênero, acho que seria o chill-out. Há um fluxo de consciência que se assemelha ao que aconteceria se o Robert Fripp e o Bill Frisell se encontrassem. Ultra recomendado para fanáticos por diferentes linguagens na guitarra. A sequência com o LC (1981) parte do mesmo princípio, mas aqui já criando temas mais fixos e timbres mais “etéreos”. Interessante perceber que o que aqui soa como invenção, virou uma escola de guitarra na década de 1980. Dá pra visualizar Johnny Marr, John Frusciante, Thurston Moore, Edgard Scandurra, dentre outros, bebendo dessa fonte. Fora as inúmeras bandas de dream pop. Curioso. Já no Without Mercy (1984) percebo uma evolução composicional, aproximando as guitarras da música minimalista e erudita contemporânea, por vezes até as tirando do primeiro plano. Dá pra dizer que rola um experimentalismo eletrônico abstrato (na falta de uma definição melhor). Álbum delicioso, soturno e delirante. Impossível para mim ignorar um disco chamado The Guitar And Other Machines (1987), onde, como só poderia chegar, a guitarra do Vini se soma a elementos eletrônicos. Há neste momento suas primeiras grandes distorções, bem com aquela timbragem oitentista, embora com uma linguagem e fraseado próprio. Ótimo exemplo da aproximação da música minimalista com a eletrônica. Muito legal. Pra finalizar (ao menos por enquanto), ouvi ainda o Vini Reilly (1989), talvez seu auge, onde ele tá ainda mais técnico, dramático e criativo. Aqui surge mais o violão, além de canto lírico. Álbum lindíssimo! Tá confirmado, eis um dos grandes
grupos da década de 1980 e um dos guitarristas mais subestimados da história.


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