Se o assunto for grandes vozes, não leve a sério a conversa se o Donny Hathaway for omitido. Ele é um ótimo parâmetro de seriedade entre os que gostam de música, visto que, embora não seja desconhecido, nunca encabeça as listas de "melhores" cantores, artistas da soul music, personalidades da música negra e, não menos importante, grandes discos. E por mais que seus álbuns de estúdio sejam majestosos, Live (1972) merece a atenção por ser um registro intimista, espontâneo e orgânico desse astro oculto em cima dos palcos.
E não são quaisquer palco, visto que o Lado A é registrado no Troubadour e o Lado B no pequeno The Bitter End, ambas casas lendárias, a primeira em Hollywood, a segunda no The Village em Manhatthan.
Eu sei, todos amam "What's Going' On" com o Marvin Gaye, sendo uma versão definitiva, mas acredite, não suficiente, visto que Donny não se intimida diante da canção e à interpreta com graça, técnica e sabedoria. É lindo!
Vale de imediato se atentar ao som natural presente na captação. Da pra ouvir a reação da plateia e a magia no palco. Inclusive, um palco com músicos da primeira grandeza. A dupla de guitarras formada por Phil Upchurch e Cornell Dupree é a perfeição no que diz respeito a condução rítmica, harmônica e de respeito, onde ambos não atravessam o espaço de ninguém. É uma consciência de arranjo ao vivo que até mesmo grandes instrumentistas tem dificuldade de compreender. No baixo está o gigante, Willie Weeks, que é melódico e dono de groove discretamente sacolejante. O som do seu instrumento é profundo. Fred White, aquele mesmo do Earth, Wind & Fire, fecha a cozinha. Ou não, visto que o percussionista Earl DeRouen traz ainda mais balanço, cor e latinidade. Instrumentalmente, não da pra omitir ainda a regência e as teclas (piano, piano elétrico, órgão) do próprio Donny Hathaway. Todos, em equipe, brilham na longa "The Ghetto". Nem a plateia é deixada de fora, visto que depois de uma sequência de improvisos é colocada pra cantar junto o nome da faixa. É força da música preta norte-americana em ebulição.
Escutando "Hey Girl" fica explicito que não estamos diante de "apenas" um disco de soul, mas time capaz de trazer um tempero jazzistico para as canções. Tanto a harmonia quanto a melodia da composição são sinuosas. Nada que Donny e banda não sejam capazes de executar com facilidade espantosa. De tirar um sorriso do rosto!
"You've Got A Friend" da Carole King é aqui cantada em coro pela plateia, ganhando uma aura gospel. Eu, mesmo sendo ateu, canto dirigido aos céus. Se seu coração não balançar, pode se internar. É de chorar!
A voz do Donny não é de excessos, é de paixão. Ouvir "Little Ghetto Boy" com atenção permite passear por floreios, timbre, projeção e nuances melódicas de um cantor de primeira grandeza. Isso enquanto a banda oferece a cama perfeita (Willie Weeks chega a deitar também, tamanha a elegância de sua linha de baixo).
Soul e blues se entrelaçam na vagarosa "We're Stills Friends", uma balada apaixonada que passa longe da cafonice. Amo as guitarras dessa música.
Sou capaz de afirmar sem pestanejar que "Jealous Guy" (John Lennon) nunca soou tão bem quanto aqui. O balanço, a voz, o sentimento... é cruel!
Passando dos 13 minutos, "Voices Inside (Everything Is Everythig)" é um desfecho com espaço para Donny brilhar também enquanto instrumentista. Já o solo do Willie Weeks é um dos grandes da história do baixo.
Depressivo e esquecido, Donny foi internado em clinicas psiquiátricas e diagnosticado com esquizofrenia. Seu suicídio em 1979, aos 33 anos, é um dos capítulos mais tristes da história da música.


