sábado, 30 de maio de 2026

TEM QUE OUVIR: Sonny Rollins - Saxophone Colossus (1957)

Sonny Rollins é um típico herói do jazz que, por mais prestígio que teve, não furou a bolha. Por não ter promovido transformações estéticas como as Miles Davis e John Coltrane, ficou restrito apenas aos apreciadores dons bons sons. Nada que pareceu tirar seu sono. Mas se Kind Of Blue e A Love Supreme já é assunto superado para você, talvez seja hora de dar o próximo passo em direção ao Saxophone Colossus (1957).

Esse foi o sexto álbum solo de estúdio lançado pelo Sonny Rollins. Oriundo do quinteto do Max Roach, o saxofonista chamou pela primeira vez o lendário baterista para participar do seu disco, assim como o pianista Tommy Flanagan e o baixista Doug Watkins, todos nominalmente apresentados na capa do disco, que traz uma imagem mitológica da silhueta de Sonny num fundo azul. Para fechar a escalação, contamos com a captação do mitológico Rudy Van Gelder. O trabalho saiu pela Prestige.


Sem qualquer tipo de afobação, o álbum tem um começo agradabilíssimo com o divertido tema de "St. Thomas", composição de melodia memorável de tradição folclórica. É interessante notar no inicio do solo de Sonny a insistência nas mesmas notas, como se não tivesse pressa de ganhar o ouvinte. Max Roach também já tira as manguinhas de fora, como se dissesse "esse disco não é meu, mas eu também vou bilhar!". A célula rítmica demarcada desde o início, a esteira da caixa fechada no seu solo, a condução no ride no segundo solo do Sonny... Tá tudo no lugar certo!

A profundidade do som do saxofone do Sonny Rollins encontra a luz na balada "You Don't Know Waht Love Is". Os saltos melódicos, o som grave, a projeção sonora com força não vulgar, o lirismo... que músico! Além de beleza e sofisticação harmônica, condução do piano traz o charme esfumaçado e noturno pra gravação.

Adoro a pausa brusca da energia hard bop de "Strode Rode" logo no primeiro minuto, deixando o sax no centro num improviso descritivo no sentido de forma e conteúdo. A levada do Max Roach por toda a faixa é uma escola de bateria jazz. Interação brilhante com Sonny na metade final da música.

No Lado B do vinil estão as duas faixas mais longas do disco, a começar por "Moritat", que na companhia da(o) amada(o) e de uma bebida amadeirada, faz a vida valer a pena. Aqui fica nítido como a arte da improvisação pode alcançar resultados tão complexos quanto agradáveis. Tem ritmo, melodia, fluidez, inquietude e história. Seu final é emocionante.

Com um walking bass irresistível, "Blue 7" é um desfecho saboroso. O quarteto preenche os espaços com sutiliza, levando a música por caminhos de graça. A raiz blues do jazz fica nítida no solo de piano. A condução (e solo) do Max Roach é aula fundamental pra qualquer baterista. 

Esse álbum foi um sucesso de crítica e serviu de apelido para o estilo de tocar do Sonny Rollins. Não dá pra deixar escapar do radar algo tão belo quanto o encontrado aqui.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

ACHADOS DA SEMANA: Anthrax, Youth Of Today, "Perú Selvático 1972-1986" e Sonny Rollins

Anthrax
Sound Of White Noise (1993). O disco grunge do Anthrax. Adoro esse álbum, vire e mexe volto nele. Acho curioso como os timbres de guitarra tão mais próximos do Pearl Jam que do Pantera. Além disso, aqui eles atingiram uma acessibilidade em termos de melodia que o Metallica sempre sonhou (tem provocação, tem verdade). E fica mais uma questão: até hoje não sei qual vocalista do Anthrax gosto mais. Na dúvida ouço ambos.

Youth Of Today
Break Down The Walls (1986). Sinto que poucos vocalistas deram tanto de si quanto o Ray Cappo nesse disco. Ele tá verdadeiramente emputecido. A banda o acompanha em fúria e precisão. Clássico do hardcore, clássico da Youth Crew. Adoro a capa!

"Perú Selvático 1972-1986"
Compilação muito legal de algo que pode ser entendido como “cúmbia lisérgica”. Se aqui no Brasil nós temos a guitarrada, no Peru surgiu essa música de herança caribenha calcada em guitarra, teclados e ritmos calorosos. Há algumas distorções horripilantes (isso é um elogio), provavelmente de gravação em linha. Divertidamente solar e psicodélico.

Sonny Rollins
Sonny Rollins morreu. Dentre tantas homenagens, curiosamente chamou atenção um post descompromissado do Guilherme Guedes citando o álbum The Bridge (1962), visto que ele mencionou que havia uma interação brilhante do saxofonista com o guitarrista Jim Hall (um dos prediletos da casa). E não há do que duvidar, é excelente mesmo. Os improvisos, a condução harmônica do guitarrista, as performances, a maciez dos timbres… Tá tudo certo! RIP Sonny.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

TEM QUE OUVIR: Donny Hathaway - Live (1972)

Se o assunto for grandes vozes, não leve a sério a conversa se o Donny Hathaway for omitido. Ele é um ótimo parâmetro de seriedade entre os que gostam de música, visto que, embora não seja desconhecido, nunca encabeça as listas de "melhores" cantores, artistas da soul music, personalidades da música negra e, não menos importante, grandes discos. E por mais que seus álbuns de estúdio sejam majestosos, Live (1972) merece a atenção por ser um registro intimista, espontâneo e orgânico desse astro oculto em cima dos palcos.

E não são quaisquer palco, visto que o Lado A é registrado no Troubadour e o Lado B no pequeno The Bitter End, ambas casas lendárias, a primeira em Hollywood, a segunda no The Village em Manhatthan.

Eu sei, todos amam "What's Going' On" com o Marvin Gaye, sendo uma versão definitiva, mas acredite, não suficiente, visto que Donny não se intimida diante da canção e à interpreta com graça, técnica e sabedoria. É lindo!

Vale de imediato se atentar ao som natural presente na captação. Da pra ouvir a reação da plateia e a magia no palco. Inclusive, um palco com músicos da primeira grandeza. A dupla de guitarras formada por Phil Upchurch e Cornell Dupree é a perfeição no que diz respeito a condução rítmica, harmônica e de respeito, onde ambos não atravessam o espaço de ninguém. É uma consciência de arranjo ao vivo que até mesmo grandes instrumentistas tem dificuldade de compreender. No baixo está o gigante, Willie Weeks, que é melódico e dono de groove discretamente sacolejante. O som do seu instrumento é profundo. Fred White, aquele mesmo do Earth, Wind & Fire, fecha a cozinha. Ou não, visto que o percussionista Earl DeRouen traz ainda mais balanço, cor e latinidade. Instrumentalmente, não da pra omitir ainda a regência e as teclas (piano, piano elétrico, órgão) do próprio Donny Hathaway. Todos, em equipe, brilham na longa "The Ghetto". Nem a plateia é deixada de fora, visto que depois de uma sequência de improvisos é colocada pra cantar junto o nome da faixa. É força da música preta norte-americana em ebulição.

Escutando "Hey Girl" fica explicito que não estamos diante de "apenas" um disco de soul, mas time capaz de trazer um tempero jazzistico para as canções. Tanto a harmonia quanto a melodia da composição são sinuosas. Nada que Donny e banda não sejam capazes de executar com facilidade espantosa. De tirar um sorriso do rosto!

"You've Got A Friend" da Carole King é aqui cantada em coro pela plateia, ganhando uma aura gospel. Eu, mesmo sendo ateu, canto dirigido aos céus. Se seu coração não balançar, pode se internar. É de chorar!

A voz do Donny não é de excessos, é de paixão. Ouvir "Little Ghetto Boy" com atenção permite passear por floreios, timbre, projeção e nuances melódicas de um cantor de primeira grandeza. Isso enquanto a banda oferece a cama perfeita (Willie Weeks chega a deitar também, tamanha a elegância de sua linha de baixo).

Soul e blues se entrelaçam na vagarosa "We're Stills Friends", uma balada apaixonada que passa longe da cafonice. Amo as guitarras dessa música.

Sou capaz de afirmar sem pestanejar que "Jealous Guy" (John Lennon) nunca soou tão bem quanto aqui. O balanço, a voz, o sentimento... é cruel!

Passando dos 13 minutos, "Voices Inside (Everything Is Everythig)" é um desfecho com espaço para Donny brilhar também enquanto instrumentista. Já o solo do Willie Weeks é um dos grandes da história do baixo.

Depressivo e esquecido, Donny foi internado em clinicas psiquiátricas e diagnosticado com esquizofrenia. Seu suicídio em 1979, aos 33 anos, é um dos capítulos mais tristes da história da música.

ACHADOS DA SEMANA: Zé Vicente da Paraíba / Aristo José dos Santos, Red Hot Chili Peppers, Big Pun e John Williams

Zé Vicente da Paraíba / Aristo José dos Santos
Violeiros (1964). Não sei de onde tirei esse disco, mas só pela capa já entendo o porquê de tê-lo salvo. É o repente na essência. Pensei no rap, nos mouros, no Bo Diddley. Daqueles discos/documentos que sequer o Tinhorão ousaria falar mal.

Red Hot Chili Peppers
Stadium Arcadium (2006). Sendo justo, gostei desse disco quando ele saiu. Mas ele é longo, o tempo é curto e nunca mais voltei nele. Reouvindo agora achei ótimo (embora com gordurinhas). Aos poucos tô percebendo que, mesmo aqueles discos do RHCP que a gente adora bater (talvez pela postura prepotente de desprezar as bandas que gostamos quando chegam no enorme sucesso) são bem legais. Mais pop, mas com composições bacanas e ótimas performances (principalmente do Frusciante, o único solista do rock mainstream do período).

Big Pun
Eu adoro e estou sempre atento à produção do rap contemporâneo, mas tem algo na sonoridade noventista do gênero que habita na minha memória afetiva. É isso que passou pela minha mente ao ouvir o Capital Punishment (1998), um dos últimos grandes suspiros do gênero naquela década. Tem o apelo pop, o estilo mafioso, o boom bap, a latinidade e o flow trabalhado. É bem legal.

John Williams
Ao dormir costumo recorrer a orquestrações ou álbuns de guitarra para ouvir. Me conforta e me leva a uma analise critica/perceptiva que só a calmaria da noite possibilita. Como costumo cair no sono (perdão, sou falho) um único disco fica a semana toda nessa toada. Entre o erudito e a guitarra, o violão do John Williams (não confundir com o compositor de trilha-sonora) foi um caminho conciliador. Sou incapaz de fazer grandes análises técnicas, mas Spanish Guitar Music (1990) é daqueles momentos em que a ranhura do popular parece se aproximar do virtuosismo erudito. Tremendo fraseado, timbre, interpretação. Lembro que quando criança quis aprender a tocar "Asturias" (acho que ouvi num disco do Doors), mas mal conseguia "Roadhouse Blues". Talvez chegara a hora. E de que filme é "Tango"? Que lirismo! Escutem o disco todo.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

ACHADOS DA SEMANA: Ennio Morricone, Rita Lee & Tutti Frutti, Laraaji e Dead Boys

Ennio Morricone
Assisti o documento do Ennio Morricone e fiquei admirado com seus trabalhos iniciais enquanto arranjador. Nunca tinha pensado nele enquanto um arquiteto da música pop, que tensionou a canção popular inserindo cordas, contrapontos e sonoplastias em canções que, sem isso, perderiam muito do atrativo. Tem uma playlist no Spotify só com esse trabalhos para nomes como Rita Pavone, Paul Anka, Françoise Hardy Gino Paoli, Gianni Morandi, Jimmy Fontana e outro que sequer tinha ouvido falar. Muito legal. Verdadeiramente um gênio e revolucionário da música do século XX. 

Rita Lee & Tutti Frutti
Com a morte do Carlini foi inevitável não rever alguns discos que ele gravou, incluindo trabalhos com Guilherme Arantes, os subestimado discos com o Camisa de Vênus, mas principalmente o Entradas e Bandeiras (1976), disco espetacular, talvez até melhor que o clássico Fruto Proibido (1975). Tremendas canções e uma sensível lapidação nos arranjos, performances e produção. Foda. RIP Carlini. 

Laraaji 
Ambient 3: Day Of Radiance (1980). Não sou grande entusiasta dos trabalhos de música ambient do Brian Eno, de modo que esse tinha passado despercebido por mim. Mas vale escutar por ele ser uma parceria com o Laraaji, até então um artista de rua. Aqui o ambient é menos atmosférico e sintetizado e mais orgânico, minimalista e étnico, explorando instrumentos como o dulcimer e a cítara na criação de paisagens que parecem derreter numa cascata de notas. 

Dead Boys 
Young, Loud and Snotty (1977). Clássico do punk 77. Não é absurdo dizer que eram a banda mais perigosa daquela geração. Acho o Stiv Bators uma das grandes vozes do punk. Era um porra louca, mas sua atitude interpretativa faz valer a pena. E por mais maluco que fossem, eles tocam direito e, até mesmo, chegam a apresentar certo senso melódico. Esse debut envelheceu bem demais. 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

TEM QUE OUVIR: Jeff Mills - Live at the Liquid Room, Tokyo (1996)

A música eletrônica teve um caminho gradual de evolução estética e comercial, vindo desde experimentações de vanguarda no início do século XX, chegando em seu apogeu na década de 1990, quando virou uma cultura consolidada.

Dentre tantas expressões que trabalham diferente formas, BPM's, dinâmicas e climas, o techno explodiu como uma força de contracultura justamente num período onde a apropriação do emblema "música eletrônica" se difundia na música pop como uma saída para o futuro (feito isso de forma exitosa ou não). 

Oriundo de Detroit, berço do techno, Jeff Mills, um negro franzino de olhar singelo, se consagrou como um majestoso produtor e DJ, que fazia das suas performances uma amalgama de uma geração. 

A Tóquio de 1995 vivia o esplendor de uma economia acelerada e noites movimentadas. Neste cenário, o Liquid Room se consagrou como um centro do que havia de mais efervescente no período. E foi lá que Jeff Mills fez essa performance histórica, que passado mais de três décadas, continua circulando de mão em mão como exemplo de mixagem ao vivo, com imperfeições técnicas (de execução e gravação), mas transparecendo na captação (com microfone, pegando também a plateia) o clima quente de suor, cigarro, entusiasmo, paixão e liberdade.

A gravação tem pouco mais de 60 minutos (dizem, de uma performance de 3 horas) e 38 faixas, traçando um apanhado do trabalho do Jeff Mills enquanto produtor, mas também de seus contemporâneos que se consagrariam nesse circuito, vide Joey Beltram, Surgeon, The Advent, DJ Skull, Morgan, dentre outros, muitos do coletivo Underground Resistance, organização fundada por Mills em Detroit com o intuito de aglutinar um setor desfavorecido pelas politica do Reagan, dando a essa classe uma consciência social e identidade cultural.

Como instrumento artístico, Jeff Mills utilizou não "somente" o mixer com dois toca-discos, mas também dois toca-fitas de rolo. Com isso em mãos, Mills proporcionou uma mixagem intensa e ambiciosa, onde não bastava a mera seleção e transição fluida das faixas, mas também trocas e pausas bruscas, scratches (ou mesmo "rebobinagens"), alteração do pitch, manipulação nas frequências... tudo pra causar furor na plateia ali presente; tudo com transpiração e técnica. 

Jeff Mills se apresenta com uma faixa de nome sugestivo: "The Extremist". Mas é com "Magneze" (Surgeon) e a porrada "The Start It Up" (Joey Beltram) que o caldo começa a entortar. Em "Step To Enchantment" (Millsart) a plateia (e os ouvintes do disco) já está completamente rendida e absorvida pelo som paranoico que sai dos falantes. Quando começa a melodia de "Untitled A" parece que estamos diante de um hit das pistas.

Com a consciência rítmica de um atleta, velocidade de raciocínio de um improvisador de jazz, sujeira e rebeldia punk, além de uma personalidade urbana oriunda do hip hop, Jeff Mills vai construindo uma apresentação inesquecível.

É curioso ouvir "Play With The Voice In USA" (Joe T. Vannelli) hoje e perceber uma certa aura/alegria presente naquilo que entendemos como o elemento eletrônico do funk brasileiro.

Nas sobreposições de "i9" e "Changes Of Life" se revela o frescor não lapidado das produções executadas naquela noite.

Sou completamente enlouquecido pelo pelos timbres de "Eternal Sun" (IO), faixa que parece borbulhar em ondas elétricas. Sua junção com "Gameform" (Joey Beltram) é pra levar o ouvinte ao frenesi.

O pulso grave "AX-009" parece martelar no cérebro em BPM elevado. Dá até um certo calafrio. Ainda mais seguida da soturna "Move" (Surgeon). 

A segunda seção do disco começa eletrizante com uma mixagem viva entre "Bad Boy" (The Advent) e "The 187 Skillz" (DJ Skull). Entre tentativas e "erros", se cria uma violência sônica pulsante e irresistível. Tudo isso para desaguar no clássico de Detroit, "Strings Of Life" (Rhythim Is Rhythim), uma faixa quase libidinosa, como o brilho da disco music.

O som bruto de "Avion" (Damon Wild) tem tanto um caráter repetitivo da música industrial quanto minimalista. Adoro sua construção. Sua resolução nas herméticas/ambient "X-102" e "Growth" é de grande valor estético.

Em "Casa", início da terceira seção, há o registro do Jeff Mills lidando com o improviso, com o erro. Em tempos onde a música eletrônica abusa de recursos digitais e quantizações, ouvir um DJ mixando na unha, de verdade, é um alívio para os ouvidos. Sua conclusão com a saturadíssima "Life Cycle" é digna de despertar a vontade de afastar os móveis de casa e abrir uma pista no meio da sala. 

Ao mesmo tempo que é papo de tiozinho apontar a saturação comercial presente na música eletrônica de massa, é nítida também a discrepante força estrondosa presente em registros como esse. É um documento de uma contracultura, um símbolo de resiliência. Pensada tecnicamente, é quase obsoleta, mas arte não é sobre isso. Se até mesmo o Jeff Mills as vezes é engolido pela demanda instantânea de um DJ histórico nos mais diversos festivais/casas ao redor do mundo, aqui se mantém registrado a essência de uma cultura que a cada soa mais imponente.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

TEM QUE OUVIR: Willie Colón & Rubén Blades - Siembra (1978)

Se é verdade que há uma demanda por "música latina", então um disco não pode passar batido diante dessa tendência. Me refiro ao histórico Siembra (1978), lançado pelo porto-riquenho Willie Cólon em parceria com o panamenho Rubén Blades. Ambos trazem o calor da salsa ao centro da música popular, principalmente na América Latina, mas também entre os imigrantes latinos nos Estados Unidos.

Cólon já era um trombonista e arranjador experiente quando saiu esse disco, tendo inclusive trabalhado com a grandiosa Célia Cruz. Mas foi com o Blades que sua música ganhou novo caráter, se revelando política em meio a alegria instrumental. 

O inicio funk de "Plástico" - com direito a baixo estrondoso, doce piano elétrico e tremendo arranjo de metais - logo é tomado por um ritmo irresistível. Citando Simón Bolívar e convocando a união entre os povos da América do Sul e Central, Blades relembra o verdadeiro valor dos jovens enquanto indivíduos e enterra deslumbramentos superficiais. Um começo fortíssimo.

O ritmo de "Buscando Guayaba" é de balanço especifico. O piano de escola cubana e os acentos percussivos (em bongos, congas, maracas) criam uma atmosfera quase delirante. 

De resultado comercial gigantesco, "Pedro Navaja" traz uma narrativa urbana fixante. É o mambo à serviço de um roteiro cinematográfico. Uma canção trágica e humorada.

Em meio ao crescente (e constante) ataque a Venezuela, "Maria Lionza" é um resgate a memória. Adoro seu refrão sendo entoado em coro, dando o caráter de unidade.

"Ojos" é um convite para puxar a(o) amada(o) para a dança. Uma canção apaixonada, de melodia lindíssima, interpretada majestosamente pelo Blades, um cantor muito acima da média.

Na balada "Dime" abre-se espaço para maior atenção aos trombones. Tremendo arranjo.

O desfecho com "Siembra" é altamente exuberante. Há uma dramaticidade no arranjo de cordas que proporciona um contraponto para o ritmo frenético. É como se as trilhas de blaxploitation englobassem os latinos. Soberbo.

Vale dizer que a gravação desse disco foi em Nova Iorque, despondo do que de melhor havia tecnicamente, incluindo músicos, vide o requisitado baixista Sal Cuevas, que debulha por todo o álbum.

Se hoje o reggaeton e mesmo a salsa são fenômenos da música pop, muito se deve a esse disco, que chegou a alcançar 3 milhões de cópias vendidas, uma marca insuperável para o gênero. Diante de uma ofensiva reacionária (vide a atuação do ICE e o sequestro do Nicolás Maduro), os jovens latinos podem encontrar aqui muitos elementos de diversão e conscientização.