A história de Beth Carvalho faz jus ao prestigio de rainha do samba que ela adquiriu. Filha de um advogado, estudou na infância piano clássico, balé e apaixonou-se pela bossa nova. Através da convivência com amigos em escolas e rodas de samba, aproximou-se do gênero mais brasileiro por essência, desenvolvendo uma carreira musical brilhante.
Com um faro apurado pra seleção de repertório e voz tão poderosa quanto graciosa, atingiu o sucesso comercial. Buscou parceria com bastiões do gênero, como Cartola e Nelson Cavaquinho, jogando luz em canções hoje tidas como clássicas. Com isso, tornou-se não somente uma das maiores intérpretes do samba, mas da música popular brasileira.
Atenta as rodas de samba do subúrbio carioca - os pagodes -, passou a frequentar o bloco do Cacique de Ramos, onde conheceu os integrantes do Fundo de Quintal (Bira Presidente, Ubirany, Sereno, Almir Guineto, Jorge Aragão, Sombrinha, Arlindo Cruz, dentre outros). Dessa parceria vieram ótimos discos, sendo seu 11º trabalho, De Pé No Chão (1978), um clássico maravilhoso desde a capa.
Foi determinante para o êxito, frescor e potência do disco as inovações na instrumentação aqui presentes. Surgem instrumentos mais volumosos, criados pela necessidade festiva do gênero: o tantã, repique de mão e o banjo de 4 cordas.
Mas é o cavaquinho, instrumento de Beth, que abre o disco. "Vou Festejar" dispensa apresentações. Uma faixa emblemática que traz a atmosfera de descontração presente tanto na letra quanto na capa do álbum. O coro de voz, o falatório, o ritmo frenético de matriz africana... tudo é brilhantemente arranjando por um grupo que tinha na química da prática o principal aliado. Um dos refrãos mais memoráveis e cantados Brasil afora.
A crítica a como o samba e carnaval foram tratados enquanto meros produtos econômicos - engana-se quem imagina que a problemática é recente - é abordado na elegante "Visual". Seu arranjo crescente é um espetáculo.
O som percussivo dos terreiros orienta a empolgante "O Isaura". Por sua vez, vale se atentar até mesmo ao uso de um acordeom, trazendo uma mistura cultura propriamente brasileira.
O lirismo do canto de Beth em "Marcando Bobeira", somado ao ritmo carnavalesco, revela Beto Sem Braço como brilhante compositor que é. Aqui o velho "malandro carioca" é mais uma vez retratado. Curiosamente, aqui ele se encontra num lapso momento de responsabilidade, não visto com bons olhos pela comunidade.
O violão de 7 cordas (por Dino 7 Cordas), a flauta e o estilo composicional do Nelson Cavaquinho na lindíssima "Meu Caminho" mostra que Beth estava atenta as novas sonoridades, mas sem abandonar a tradição do samba. Vale notar um breve momento em que o violão de 7 é substituído por um baixo elétrico, para logo depois voltar o instrumento acústico.
A clássica "Goiabada Cascão" celebra o passado e a excelência do samba através de uma frase que virou bordão. Composição divertida e inteligente de autoria de Wilson Moreira e Nei Lopes. Por sua vez, a sacana "Você, Eu e a Orgia" é assinada por Martinho da Vila e Candeia. Ela tem a alegria, malemolência e refinamento que tão bem marca a obra da Beth.
A dobradinha "Lenço" traz aquela espirito portelense na dinâmica do disco. Canção linda, genuinamente rica em melodia e ritmo. O mesmo vale para "Passarinho", dona de uma melancolia terna que tanto adoro no samba.
A exuberante "Linda Borboleta", com direito a arranjo de cordas e presença da Velha Guarda da Portela, faz jus a composição do Monarco. Já a poética e elegância melódica do Cartola em "Que Sejam Bem-Vindos" recebe um tratamento caprichado, com arranjo e interpretação charmosa.
Chega a ser curioso um disco que trouxe tanto frescor ao samba - verdade seja dita, com propriedade e sem invencionismo e oportunismo descabido - ser encerrado com a desolada "Agoniza Mas Não Morre" (Nelson Sargento). É até irônico. É também um manifesto, uma declamação de amor.
Impossível pensar no fenômeno cultural e comercial que tornou-se o samba e o pagode omitindo Beth e De Pé No Chão dessa história. Disco esplendoroso.