Não há quem duvide da importância do Toots and the Maytals. Formado ainda na primeira metade da década de 1960 pelo Toots Hibbert, o grupo é um caldeirão cultural que retrata todos os aspectos religiosos, rurais, trabalhador e colonial de uma Jamaica subdesenvolvida. Isso através de um som vagaroso, pulsante, espaçado e cheio de positividade. A isso se deu o nome primeiramente de rocksteady, posteriormente de reggae.
Por conta da gradativa ascensão comercial do gênero através principalmente do Jimmy Cliff, deu-se a possibilidade de um já experiente the Maytals registrar - com subsídios da britânica Island Records -, um disco melhor acabado, embora ainda na Jamaica, captando toda a atmosfera tão necessária no estilo.
Em 1973 saiu o primeiro* Funky Kingston, um trabalho de sonoridade excepcional, que traz toda a rusticidade do gênero através de faixas irresistíveis, a começar pela calorosa "Sit Right Down", de formato, peso e atitude rockeira. Atenção para as frases de guitarra, o arranjo do naipe de metais e a performance vocal rasgada do Toots Hibbert, que deixaria Otis Redding orgulhoso.
Essa influência rockeira fica explicita nas regravações de "Louie Louie" (famosa inicialmente na versão do the Kingsmen) e "I Can't Believe" (de autoria do Ike Turner e de melodia altamente fixante). Outra regravação presente neste disco é para a lindíssima "Daddy's Home".
Desconfie de quem escuta "Pomps & Pride" com a cara fechada. Seu ritmo e timbres são contagiosos. O mesmo vale para "Funky Kingston", que parece retratar as ruas da capital jamaicana. Atenção para a tremenda linha de baixo.
Vale ainda dizer que, para desespero de alguns, minha "Redemption Song" predileta do reggae está neste disco.
*Todavia, embora com tantas qualidades que faz deste disco de 1973 uma pérola do reggae, esse não é o Funky Kingston mais aclamado. Uma "nova versão" lançada em 1975 é para muitos o apogeu criativo não só do grupo, mas do gênero. Com mesmo nome e capa, mas diferente seleção de faixas (algumas também presentes no de 73), o disco compila gravações dos últimos três anos do the Maytals.
Logo de cara, a produção de "Time Tough" já soa mais cristalina quando comparada as gravações do disco anterior.
Como pode uma faixa sonoramente tão luminosa chamar "In The Dark". Sua vozes herdadas da música gospel são uma maravilha. É um canção esperançosa.
O groove de "Got To Be There" serve de cama para a louvação do Toots Hibbert em mais uma excelente performance vocal. O mesmo vale para "Country Road", mas aqui com destaque para os órgãos.
"Pressure Drop" é aquele típico reggae de baixo pulsante. Adoro o clima espontâneo que a captação transparece. Dá pra se sentir no estúdio com a banda.
Despercebido, no meio de uma playlist de soul music, "Sailin' On" é capaz de passar despercebida e até mesmo ser apreciada por um detrator de reggae.
Entre a versão de 73 de 75, fique com as duas. São álbuns que se completam, mesmo nas repetições. Os extras valem. Eis o melhor trabalho de reggae não assinado pelo Bob Marley.

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