domingo, 10 de julho de 2022

TEM QUE OUVIR: Sleater-Kinney - Dig Me Out (1997)

Em 1997, temas feministas não eram premissa dos(as) artistas que queriam se destacar na indústria. Se hoje é praticamente uma obrigação - e justamente por isso, superficial e oportunista -, naquele período o rock ainda pendia mais para o discurso estúpido, juvenil e machista de um Kid Rock ou Limp Bizkit.

Foi diante desce cenário que surgiu no underground o movimento riot grrrl, nada mais que bandas de punk/indie rock, em grande parte formadas por garotas, que abordavam em suas letras a violência contra as mulheres, sexualidade e patriarcado. Neste oceano de atitude, o Sleater-Kinney notorizou-se por ser sonoramente a banda mais redonda, acessível, ambiciosa e de canções memoráveis. Dig Me Out (1997) é um dos principais registros deste período.


Na linha de frente do grupo estava Corin Tucker e Carrie Brownstein, ambas intercalando simultaneamente entre guitarras e vozes. Completando o trio está a baterista John Weiss. Ou seja, nada de baixo. Essa formação extrai de seus instrumentos timbres quentes, alcançado por performances vorazes e produção crua que não deixa margem para invencionismo besta. O resultado pode ser conferido logo de cara na explosiva "Dig Me Out", dona de guitarras estridentes perfeitamente costuradas através de intervalos melódicos improváveis. A interpretação vocal traz ainda mais urgência. Clássico!

De arranjo inusitado, "One More Hour" é das melhores canções sobre término de relacionamento (justamente das líderes do grupo). Atenção para a batida desengonçada, os buracos propositais no arranjo e a angustiante performance vocal, meio esganiçada no tremendo refrão.

Embora o grupo abre mão de baixo em sua formação, vale se atentar para o som grave de uma das guitarras em "Turn It On". Aqui, toda a atitude feminina vem cercada de vulnerabilidade, que coloca a mulher não enquanto uma força indestrutível, mas como um ser em constante evolução e contradição.

O contraponto vocal de Tucker e Brownstein - tida como uma das principais características da banda -, tem na intensa (que guitarras!) "The Drama You've Been Craying" um de seus melhores momentos.

A letra muitíssimo bem escrita, a dinâmica crescente e os timbres saturados de "Heart Factory" são de excelência explicita. Incrível como elas soam grandiosas com tão pouco.

Se a garageira-new wave "Words And Guitar" não te colocar um sorriso no rosto ou até mesmo não te fizer dançar então você está morto por dentro.

Contra aqueles que curtem a sonoridade dos grupos de riot grrrl, mas ignoram as letras (ou mesmo a missão social), temos a sarcástica "It's Enough".

"Little Babies", mais uma vez com astral new wave, aborda o papel tradicional da maternidade para qual as mulheres são jogadas, não só com relação aos seus filhos, mas também diante de seus imaturos parceiros. A canção faz isso sem soar panfletaria. É uma faixa divertida e, até por isso, incisiva em seus discurso.

A performance em "Not What You Want" é de tirar o fôlego. Um rock n' roll básico e energético que mais parece um rolo compressor. 

Voraz, pop e empoderada, "Thing You Say" soa como uma transposição temporal da Patti Smith. Isso definitivamente não é pouca coisa.

Nas duas faixas finais, dois momentos mais "experimentais": "Dance Song '97", com seu teclado new wave engraçadinho e bateria mais "na cara"; e "Jenny", a mais longa do disco, de arranjo soturno, como um encontro dos drones do Velvet Underground com os blues do Tom Waitts e a frieza do Nirvana, além de letra enigmática e possivelmente trágica.

Um álbum curto (36 minutos), que embora sonoramente tenha força incisiva suficiente para ser lembrado, revelou com o tempo uma influência que transcende a música.

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