terça-feira, 7 de junho de 2022

TEM QUE OUVIR: Coldplay - Parachutes (2000)

Uma recém noticia me deixou impressionado: o Coldplay esgotou os ingressos para SEIS (!!!) apresentações em São Paulo. Em estádio, sendo que eles também vão tocar no Rio de Janeiro.

Essa popularidade não é restrita ao Brasil. A banda britânica tem uma capacidade impressionante de levar multidões por onde passa. Isso faz dela a, possivelmente, maior banda do rock deste século. Longe de ser melhor (o que seria subjetivo), falo de tamanho mesmo.

Aí vem a contra argumentação: "mas o Coldplay deixou de ser uma banda de rock há muito tempo". Afirmação equivocada. Ok, eles vêm há anos - e com raras exceções -, apresentando um som bem diluído, pouco inspirado e padronizado para o mercado, mas ainda é um grupo de pop rock, exemplificando assim a decadência do estilo. 

Mas se hoje é fácil bater no grupo, vale lembrar que na virada do milênio eles surgiram com uma força arrebatadora, sendo a linha evolutiva natural do pop rock britânico. Sendo assim, Parachutes (2000), a estreia da banda, é o perfeito encontro do U2 com o britpop.

Um dos principais aspectos que agrada no disco é o fato da banda trabalhar seu senso de beleza e "orquestração" de forma orgânica e enxuta, se limitando a alcançar grandiloquência através de seus instrumentos, sem arranjos pomposos ou produções cinematográficas. Há na verdade uma vulnerabilidade e imperfeição que faz do álbum um encanto.

Mesmo os momentos mais grandiosos parecem configurados para a interação entre guitarra (violão), baixo e bateria. Isso fica nítido na exuberante "Spies", onde com ótimas texturas timbristicas, o Jonny Buckland preenche todo o espectro sonoro, fazendo da guitarra não um mero instrumento harmônico, mas uma peça de estrutura e ambientação.

Mas é "Don't Panic" que abre o álbum, curiosamente com uma sonoridade apaziguadora não muito distante do que o Jack Johnson produziria pouco tempo depois. Gosto muito da sua levada.

Por sua vez, "Shiver" revela uma influência mais animadora. Da guitarra na introdução passando pela interpretação cheias de falsetes do Chris Martin, há muito de Jeff Buckley na canção.

"Sparks" é uma linda balada acústica, de melodia apaixonante, além de arranjo inteligente e apropriado para um quarteto. A gravação é cristalina.

Eis que surge o hit "Yellow", faixa ultra melódica, mas com um certa energia shoegaze nas guitarras. A faixa teve enorme rotação.

"Trouble" é outra que tocou até cansar. Sua melodia ao piano é a apresentação da delicadeza que permeia toda a faixa. Por mais que tenha ganhado status cafona, ela tem uma atmosfera de devaneio que sempre me agradou.

Vale ainda se atentar para a ótima linha de baixo e as guitarras cheias de delay e reverb de "High Speed"; o aconchego de "We Never Change"; além da derradeira "Everything's Not Lost", que tem uma bonita harmonia, dinâmica crescente e esconde em seu final a tão curtinha quanto retumbante "Life Is For Living".

A sonoridade do Coldplay fez escola. Da Taylor Swift ao Imagine Dragons (e outras bandas "indies"), passando pelo fenômeno worship na música gospel e até mesmo artista da música country (e também sertanejos), o Coldplay encontrou a convergência do pop e rock enquanto gêneros separados. 

Nessa altura do campeonato, o Coldplay não precisa de defesa (embora esteja eu aqui). Seus integrantes não parecem se incomodar com as críticas. Vivem bem em suas mansões, fazendo parceria com o BTS, angariando novo público. Bater neles é bobagem. Tratar com indiferença pública e na calada da noite ouvir seus momentos de inspiração parece a melhor escolha.

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