segunda-feira, 20 de junho de 2022

TEM QUE OUVIR: Black Star - Mos Def & Talib Kweli Are Black Star (1998)

Dependo do ponto que olhamos, é possível observar o hip hop tanto como uma manifestação de contracultura, quanto como uma peça da indústria. Isso ficou nítido na virada do século, quando o gênero despontava comercialmente em artistas que não viam problema em diluir seu som, ao mesmo tempo que, no cenário alternativo, havia uma ebulição de novos talentos prontos para tomar a rédea sonora e intelectual do rap. Mos Def e Talib Kweli, sob nome de Black Star, trouxe os holofotes para o hip hop alternativo.


Este foi o primeiro e único trabalho em décadas lançado pelo duo. Foi o suficiente para causar uma revolução no estilo, curiosamente recuperando velhas heranças, a começar pelo som estrondoso de caixa, kick e baixo típicos do boom bap, servindo de passarela para os rappers. Tudo numa produção grave, pesada e cristalina.

A interação do Mos Def com o Talib Kweli em "Astronomy (8th Light)" é afiadíssima, trazendo ao discurso racial da letra uma elevação poderosa. Ótimo inicio.

"Definition" fez barulho na época. Ao contrário das tendência do gangsta rap, a música desmistifica a violência e a morte que cercavam o estilo. Isso em cima de um groove irresistível com certo calor do ragga. Fora que o flow dos versos são de tirar o fôlego. Seu refrão pegajoso embala a sequência igualmente urgente "Re:Definition".

Outra faixa que fez sucesso foi "Respiration". Isso se deve não somente ao duo, mas também a produção nebulosa do Hit-Tek e a participação de um já consagrado Common.

Adoro os timbres extraídos no beat de "Children's Story", assim como a performance carismática dos rappers.

Driblando os clichês machistas que permeiam o estilo, "Brown Skin Lady" exalta a mulher negra em sua natureza, descolonizando estereotipias de beleza ocidentais. 

"B Boys Will B Boys" traz a criatividade das ruas para o disco. São versos insanos em cima de uma baixo sintetizado bastante inusitado. Há ainda scratches e congas nervosas.

Em "K.O.S. (Determination)" o grande destaque é a voz singela da Vinia Mojica, que traz uma aura trip hop para a canção.

"Hater Players" é um dos patamares mais elevados em termos de performance dos rappers. São rimas intrincadas num fluxo que não deixa pedra sob pedra. O mesmo vale para a quase jazzistica "Thieves In The Night", que sabiamente escala o disco para seu ponto cume derradeiro, deixando explicita a excelência técnica e lírica da dupla. 

Um marco do hip hop que lembrou a todos que é fora da indústria que o gênero se sobressaí.

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