Mas qual disco escolher? Por mais que o aclamado álbum em dueto com Ella Fitzgerald seja uma maravilha (e futuro candidato para “Tem Que Ouvir”), achei que seria importante abordar o início de sua carreira, onde ele colaborou nos alicerces do jazz. Dito isso, uma compilação era inevitável, visto que grande parte do que queria tratar saiu em compacto. Cheguei no monumental box Louis Armstrong: Portrait Of The Artist As A Young Man 1923-1934, mas achei uma escolha presunçosa demais. É biscoito fino, mas são 4 horas de material, não é para amadores, é para entendidos e eu sou um iletrado. Fui numa escolha pouco convencional, mas direta ao ponto: Ken Burns Jazz-Louis Armstrong, uma coletânea condensada, mas igualmente relevante, ainda mais se escutada após assistir a série Jazz do próprio Ken Burns. Ambas formam o mapa do ouro, a porta de entrada para a divindade.
Vejamos algumas faixas:
“Chrimes Blues” (King Oliver’s Creole Jazz Band) é por si só um registro histórico, justamente por conter o primeiro solo do Louis Armstrong. Mas não é qualquer solo, é na verdade uma das pedras fundamentais do jazz, de melodia certeira. Seus cromatismos são cheios de vida.
“Cake Walking Babies From Home” (Clarence Williams’ Blue Five) traz um duelo do Armstrong com o Sidney Bechet. A competição virtuosa, genuína e musical entre os instrumentistas resulta em mais um momento definitivo do jazz. É chavão dizer, mas o vencedor é o ouvinte
“Heebie Jeebies” é repleta de lendas. Dizem que, ao deixar a folha de sua partitura cair, Louis Armstrong começou a improvisar vocalmente, difundindo o canto scat. Verdade ou não, seu solo por si só é inspiradíssimo.
“Potato Head Blues”, já na liderança de seu emblemático Hot Five, Louis entrega uma gravação repleta de elementos extraordinários: a inclusão de tuba e bateria à sua banda; figuras melódicas reconhecíveis ao longo da história do jazz; as pausas rítmicas inspiradas no sapateado e no som das ruas de New Orleans; além do solo improvisado, que passeia pela harmonia com a elegância, audácia e carisma de alguém que desfila. Como diria Isaac Davis em Manhattan (ou melhor, o próprio Woody Allen): “Essa música é uma das razões pela qual vale viver”. Obra-prima.
“West End Blues” é o perfeito retrato da música americana (popular e clássica). É um típico blues de 12 compassos trabalhado com esmero. A liberdade na execução da introdução é uma clara evolução do jazz. Curiosa sua queda de andamento na sequência. O dueto entre clarinete e voz (scat-singing) é pura magia, capaz de extrair um sorriso do rosto. Isso sem mencionar o majestoso solo de piano do Earl Hines.
Já mais experiente e à frente de sua orquestra, Louis Armstrong toca com elegância e humor em “Ain’t Misbehavin’”. Seu timbre vocal tão característico está no auge da forma. A faixa é de uma época de grande popularidade do jazz, onde o estilo ainda era “feito para dançar”.
“Stardust” é uma composição histórica, que se encontra nesta versão do Armstrong como um de seus melhores momentos. É um arranjo carismático e cinematográfico. Redundância destacar o solo.
Não vou comentar todas as faixas, mas que através de um longo salto temporal ressaltar a exuberante “A Fine Romance”, que no mínimo serve de aperitivo para o histórico disco Ella and Louis (1956), embora ela esteja em outro disco.
E fechando essa compilação temos a batida, mas não menos irradiante, “What A Wonderful World”, dona de letra melodia, arranjo, gravação e performance vocal emocionante. Um desfecho amigável para um disco que nos coloca em contato com um dos maiores gênios - sem abuso ou superdimensionamento da palavra -, da música de todos os tempos.

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