No alicerce do Spacemen 3 estava o Jason Pierce (futuramente líder do Spiritualized) e o Peter "Sonic Boom" Kember (que posteriormente trabalhou com MGMT, Panda Bear, Stereolab, Yo La Tengo, dentre outros). Ainda que formado em 1982, o grupo patinou para alcançar uma sonoridade própria. Despontaram inicialmente como uma tentativa de garage rock barulhento que, de alguma forma, acabou prevendo o shoegaze. Mas foi com o Playing With Fire (1989) que eles entregaram um material mais consistente.
A instrumentação enxuta não impede a banda de alcançar momentos de grande beleza, vide a abertura do disco com "Honey", um drone hipnótico de melodia memorável. Adoro os timbres das guitarras, ora saturados, ora com tremolo, ora explorando feedbacks. Há muito de Velvet Underground na criação.
A balada "Come Down Softly To My Soul" traz beleza aos nossos corações por conta da voz cochichada que parece reverberar do outro lado da sala. Mais uma vez destaque para as guitarras tão singelas quanto cruas.
Na sequência demos de cara a altamente lisérgica "How Does It Feel", que embora demore para engrenar, em sua metade final surpreende na combinação de sons saturados e cristalinos de guitarra. Isso por baixo de uma voz apaziguadoramente cavernosa.
Pense num ritmo de acid house em cima de "I Believe It" e temos o perfeito presságio da cena Madchester. A interpretação vocal, o órgão... na verdade a própria pandeirola em pulso inconstante já é capaz de levantar a pista.
Poucas guitarras soaram tão vorazes até aquele momentos quanto as de "Revolution". É praticamente uma transposição temporal do MC5, fazendo a troca de heroína por acido lisérgico. Porrada!
Por sua vez, a épica, ruidosa e entorpecida "Suicide" é uma homenagem auto declarada ao duo liderado pelo Alan Vega. Faixa repetitiva e perturbadora.
A minimalista "Let Me Down Gently" é mais um drone-trance-spokenword hipnótico que, desavisada, tende a soar monótona, mas que embarcando na proposta, pode proporcionar viagem astral.
No meio de todo esse devaneio, há momentos onde a qualidade composicional de canções fica explícito. O exemplo mais nítido é "So Hot (Wash Away All Of My Tears)".
Fechando o trabalho, "Lord Can You Hear Me", um hino gospel de peito aberto. Que disco!

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