Nascido no Rio de Janeiro em 1911, Nelson Cavaquinho foi (é) um dos maiores sambistas da história. Cavaquista e, posteriormente, violonista (ambos instrumentos tocados com apenas dois dedos da mão esquerda), além de voz "falha" e ébria inconfundível, o artista é não somente um vinculo ao que há de mais genuíno na música brasileira, mas também um exemplo de lirismo, erudição e emoção da camada mais popular da sociedade.
Anos de roda de choro e convívio na escola de samba da Mangueira, refinaram um talento de nascença. Aqui, embora já veterano, está seu terceiro álbum, lançado pela Odeon. Um marco numa discografia enxuta e especial.
Começar o álbum com "Juízo Final" é covardia. Uma das mais bonitas canções de todos os tempos. Letra e melodia ultra emotiva, guiada por um bandolim choroso e uma cuíca frenética. Uma obra genial que nenhuma palavra descreverá o valor da gravação.
A dicção falha, timbre áspero e afinação irregular parecem contribuir para a perfeição melódica de "Folhas Secas", mais um clássico do samba, de letra soberba e ultra poética.
O estilo do Nelson no cavaquinho pode ser conferindo em "Caminhando", um choro-samba simples e eficaz.
A flauta e a melodia cantarolada no inicio de "Minha Festa" já nos introduz ao abraço que é a canção. Afinal, "quem me viu, quem me vê, a tristeza acabou". Só faltou colocar um "quem me ouviu".
A declaração em "Mulher Em Alma" equilibra tristeza, raiva e uma humorada ironia.
De arranjo inusitado, "Pode Sorrir" trata da finitude com a dignidade de quem passou por muitos percalços nesta vida.
Por traz de toda a crueza da interpretação, "Rugas" revela uma harmonia (e linha de baixo no bordão do violão) não menos que arrojada. Das canções mais belas da música brasileira. Se o Tom Jobim pedia pra ouvi-lo cantar, não seja você a besta a ignorar.
A singela "Visita Triste" é o desfecho deste álbum de grande coração, que preserva a raiz da cultura brasileira num de seus momentos mais elevados. Para sorrir e para chorar.
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