domingo, 20 de fevereiro de 2022

TEM QUE OUVIR: Burial - Untrue (2007)

De tempos em tempos, a música eletrônica parece incorporada no mainstream. Entretanto, o que chega ao grande público é uma diluição do que acontece no efervescente e criativo cenário eletrônico underground. Um exemplo é o Skrillex, que despontou comercialmente como representante do dubstep, sendo que esse gênero galgou espaço em festas noturnas dos porões ingleses, inicialmente influenciado pela house music, posteriormente se desenvolvendo no uk garage/2-steps até chegar ao dubstep.

O compositor e produtor Burial veio dessa escola. Seu segundo álbum, Untrue (2007 - lançado pela Hyperdub), de imediato foi aclamado como um pérola do seu tempo.


O groove intenso e inquietante de "Archangel" apresenta o clima voraz do disco. As vocalizações ganchudas, os ruídos de vinil, o reverb catedrático e os climas de música ambient acompanham essa saga tão urbana quanto atmosférica.

Há um certo experimentalismo no beat de "Near Dark". A faixa ecoa por texturas riquíssimas.

Somado a lindos melismas vocais, "Ghost Hardware" incorpora ritmos comuns ao trip hop, mas dentro num espectro industrial. Isso sem soar agressivo. É belo.

Diante de um cama de sintetizadores típica da new age, "Endorphin" cresce hipnoticamente irradiando exuberância. 

Agudos cristalinos e microscópios (oriundos do glitch) são combinados a graves subterrâneos na apaziguadora "Etched Headplate". Atenção para a criativa manipulação das vozes.

O interlúdio "Ian McDonalds" mais parece o recorte de um sonho. As vozes, pianos e sintetizadores são diluídos numa imagem abstrata onírica.

Não por acaso "Untrue" leva o nome do disco. Ela apresenta o que havia (e há) de mais criativo na música eletrônica. É grave, soturna, envolvente e cheia de balanço. É o que costumou-se a chamar de future garage.

O experimentalismo de "Homeless" remonta o cenário de uma balada já vivida. É como um delírio posterior a uma grande festa. 

"Raver" fecha o disco trazendo o clima da dance music. Sua batida consistente dentro de mixagem pulsante e vivida transparece o nascer do Sol.

Melhor que destrinchar cada faixa isoladamente é mergulhar na experiência totalitária deste disco, que caminha de forma fluida, abstrata e variada por nuances sonoras e emotivas que não se encontram em qualquer lugar.

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