terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Sobre Ed Motta, Raul Seixas e música como um todo

Ed Motta é um personagem necessário e divertido. Num cenário tão chapa branca quanto o da música brasileira, o fato dele não poupar críticas ácidas a quem quer que seja é no mínimo respeitável. Além disso, goste ou não, sua carreira musical é cheia de acertos. Ele é um bom compositor, cantor, instrumentista, arranjador, produtor… ele é talentoso. Basta pegar sua discografia e conferir (destaque para Entre e Ouça, Dwitza e AOR). Não cair na falácia de subestima-lo gratuitamente é importante.

Esse combo de qualidades musicais somado ao fato de não ter papas na língua é perfeito para que ele emita opiniões equivocadas levadas pela emoção. Aplausos ou vaias, tanto faz, deu palco, ele fala.


Seu palco atualmente tem sido o YouTube (até pouco tempo atrás eram lives no Instagram). Ali tem ficado claro algo que já tinha reparado: ele não gosta exatamente de arte. Ao menos não arte enquanto expressão humana. Ele gosta daquela que cabe em estruturas convencionais. Seja a música barroca ou o free jazz, tudo para ele tem que acompanhar regras harmônicas, melódicas e de gravação.


Somado a esse raciocínio, há diversos preconceitos que revelam desinformação (vindo logo daquele que prima pelo conhecimento). Recentemente ouvi ele falando mal do Air, dizendo que era banda de “apertar botãozinho”, equívoco que com uma breve lida na ficha técnica do prestigiado Moon Safari já pode ser desmentido. Os instrumentos ali são tocados, não sampleados (o que, segundo ele, deslegitimaria o resultado final da obra).


Isso me lembra o atrito que o Ed teve recentemente com beatmakers, menosprezando os criadores enquanto instrumentistas. Honestamente, nem sei o quão vantajoso ou correto seria proclama-los “instrumentista”. Creio que o importante é ser artista e, com sua criação, transmitir alguma verdade, algo que provoque no ouvinte emoções fora do linear. J. Dilla consegue isso, chame-o de “músico”, “instrumentista”, “artista”, "charlatão" ou o que seja. Quem não me transmite isso é a Deise Cipriano (Fat Family), que o Ed Motta já chamou de “minha cantora predileta”. Subjetividade na percepção em detrimento de análises frias e técnicas é um dos grandes milagres da arte, não é mesmo?


Aqui, inclusive, acho que vale fazer uma breve crítica ao trabalho do Ed Motta que, repito, tanto admiro. Tudo ali é muito bem feito, mas poderia ser assinado por qualquer um. Ali não há a loucura, a emoção, a arrogância, a confusão, a personalidade atraente, o intelecto… muitas das qualidades que o Ed Motta aparenta ter. Tá ali o Ed pesquisador e colecionador, capaz de copiar a estética do Earth, Wind & Fire e do Steely Dan, o que não é pouca coisa, mas também não é a última bolacha do pacote. Na real beira o pastiche. Vejamos, algum disco do Ed Motta, por melhor que seja, é indispensável na cultura brasileira, seja por excelência técnica, interpretativa, emocional, lírica, social, influência ou na formação de uma identidade nacional? Não. Nem ele deve achar, por mais qualidades que ele veja no espelho. E algum disco dos Racionais MC's pode se enquadrar na categoria de clássico? Respondo que ao menos dois.


Agora, voltando as suas citações estranhas, lembro dele afirmando não gostar do Radiohead, visto que Thom Yorke não era capaz de fazer voicings* que o impressionaria (*mal explicando: uma espécie de condução melódica que inverte a hierarquia dos intervalos dentro de um acorde). Ok, o líder do Radiohead não é nenhum Brad Mehldau, mas precisa? Isso seria o mesmo que dizer que o João Gilberto é descartável porque com voz e violão ele não consegue alcançar o mesmo espectro de texturas, timbres e tessituras que uma produção do Burial. 


Esse raciocínio é estupido, visto que a música tem diferentes abordagens, muitas delas sequer técnicas, vide o grunge, que continha artistas que primavam por interpretações vorazes, emotivas e na contramão do que havia sendo feito no pasteurizado rock mainstream do período. Ou mesmo o Johnny Cash, um cancioneiro do lado marginal dos EUA. Ou Elvis Presley e seu carisma retumbante que levou a popularização do rock. Todos criticados pelo Ed Motta.


A última grande polêmica do Ed se deu ao tecer críticas ao Raul Seixas, algumas fugindo do âmbito musical. Ele afirmou que o cantor e compositor baiano era mal caráter, principalmente por ter trabalhado em gravadoras.


Raul Seixas realmente trabalhou em gravadora, assim como o Roberto Menescal, Braguinha e Aloísio de Oliveira. A crítica serve para todos esses? Caso não, visto que o Ed afirmou que o Raul teria prejudicado outros artistas, seria conveniente ele, que não poupa palavras, citar exemplo com nomes, datas e prejuízos em si que o Raul teria causado. Já li muito sobre o artista baiano e desconheço essa história. O que sei é que quando alguns chefões da CBS estavam fora da gravadora, ele chamou artistas comercialmente nada expressivos como Sérgio Sampaio, Miriam Batucada e Edy Star para gravar e lançar o cultuado Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez, disco que contém a bonita e irônica seresta “Sessão das Dez”, composição do Raul de melodia nada primária, como afirmou Ed ao citar a melodia do refrão de “Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás” numa nova tentativa de desqualificar o Raul. 


Ao Ed e a todos que concordam com suas afirmações, valeria pegar o disco Gita (1974) pra escutar atentamente e se questionar: pra época e pro Brasil, a produção do Mazzola é ruim? Os arranjos do Miguel Cidras em “Medo da Chuva”, “Moleque Maravilhoso” e “O Trem das Sete” são banais? Luiz Claudio Ramos, Rick Ferreira, José Roberto Bertrami, Luizão Maia, Paulo César Barros, Mamão, Paulinho Braga, dentre outros músicos excepcionais, tocam mal no álbum? As letras de “S.O.S.” e “Loteria da Babilônia” (ambas sem o Paulo Coelho, que erroneamente o Ed colocou no centro da obra textual do Raul) são fracas? Resumindo, é uma obra feita por um completo idiota como o Ed afirmou? Juro que não consigo visualizar isso. Se ele consegue e é capaz de afirmar além da crítica superficial de adjetivos e acusatória, adoraria ouvir. 


O mais provável é que o Ed Motta nunca tenha escutado Raul com a devida atenção, o que acho que tudo bem. Deve ter ouvido os hits e não se identificou. Tem em casa mais de 10 mil discos de gêneros que gosta, não tem porquê ouvir mesmo. Entretanto, para isso, basta falar "não me interessa, não emociona" ao invés de opinar com ignorância.


E pra não dizer que estou tacando pedras no Ed Motta, devo afirmar que em suas lives ele tem disseminado conhecimento sobre diversas obras e/ou artista que não conhecia (vide o instrumentista e escritor Ian Carr, só para citar um exemplo). Eu adoro ouvi-lo falar e, mesmo quando ele fala besteira, acho importante, desde que provoque o questionamento em quem o ouve (mas aí também não é com ele).


Inclusive, vou relembrar uma crítica divertidíssima que ele fez indiretamente ao blues-rock do Barão Vermelho, principalmente na época do Cazuza. Tem fundamento técnico, não leva para acusações pessoais e é engraçado. Por mais Ed Motta como esse:


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