É real a excelência e a tradição alcançada pelo hip hop nos EUA. Todavia, o país não detém o monopólio do estilo. A Inglaterra já havia se desenvolvido primorosamente na música eletrônica e, uma hora ou outra, isso iria desaguar no rap. Foi então que no começo do milênio, um negro franzino dos conjuntos habitacionais ingleses conquistou disco de ouro e o Mercury Prize. Boy In Da Corner (2003) abriu as portas para uma nova linguagem de música periférica, agora europeia.
O peso do UK garage/2-step somado aos breakbeats da música jungle (ou drum and bass), a malícia do hip hop e o gingado do dancehall, deu luz ao grime, uma vertente do rap genuinamente britânica, consagrada justamente neste disco do Dizzee Rascal. Há nas produções do gênero uma saturação e agressividade que destrói o ambiente seguro da música eletrônica.
O rapper atua brilhantemente enquanto MC e produtor. Os timbres por ele escolhidos são encorpados e criativos, além de estranhamente dançantes. Paralelo a isso, ele cria todo um enredo cinematográfico com sonoplastia gangsta (coloque sirenes e tiros neste pacote). "Sittin' Here" é o exemplo máximo disso.
O grave, colorido timbristico e a interpretação eufórica em "Stop Dat" é digna de um maniaco. O mesmo vale para energética "I Luv U', o single do álbum, dono de beat absurdo de esquizofrênico.
Diante de uma base complexa com elementos melódicos da música oriental, Dizzee dilacera seu flow veloz em "Brand New Day". Já na estranhíssima "2 Far", Wiley, outro expoente da cena grime, dá as caras oferecendo dinâmica vocal ao disco.
A mente psicótica do Dizzee reflete na produção corrosiva de "Cut 'Em Off", na ritmicamente elaborada "Hold Ya Mouf", na intensa "Jus' A Rascal" e na sinteticamente entorpecida "Seems 2 Be".
Poucos trabalhos deste milênio tem tanta personalidade e criatividade quanto essa obra-prima do grime. Pena que o Dizzee Rascal não voltou a repetir o êxito.

Nenhum comentário:
Postar um comentário