quarta-feira, 2 de setembro de 2026

TEM QUE OUVIR: Marina - Fullgás (1984)

Quando o assunto é o rock brasileiro dos anos 1980, existem algumas verdades inquestionáveis. Uma é que há clássicos inegáveis do gênero - pra não dizer da música brasileira como um todo - vide Cabeça Dinossauro, Selvagem? e Dois, só para citar os mais óbvios. Todavia, mesmo esses, envelheceram mal aos olhos de um público que os vê como "rock de conservador de meia idade". Isso passa não somente pelos artistas, mas principalmente pelo público que formaram. Com isso, não espanta uma juventude, por ranço, virando as costas para esse período do rock brasileiro. Curiosamente, vejo o oposto ocorrendo com a Marina Lima.

Se na virada do milênio minha geração praticamente ignorou sua obra, agora ela voltou a ter o prestígio que merece, afinal, estamos falando de uma das interpretes mais elegantes do pop brasileiro. Nem mesmo suas limitações vocais atuais e lançamentos esquecíveis são capazes de tirarem Fullgás (1984) do centro da discussão do pop rock brasileiro.

Filha de economista e irmã do poeta Antônio Cícero, Marina passou parte da infância e juventude nos EUA. Juntando isso ao seu amor pela MPB, fermentou-se um caldo cultural diferenciado.

Embora com alguns bons discos e sucessos na bagagem, Fullgás, seu quinto álbum, escancarou a artistas aos olhos do público. Vale lembrar que ele foi lançado antes dos maiores clássico do tal BRock e do primeiro Rock In Rio.

O super hit "Fullgás" abre o disco já elevando os padrões do pop nacional. A letra do Antônio Cícero é poeticamente charmosa. Há um clima de suspense irresistível na construção harmônica e timbristica, sendo interessante perceber que seu arranjo é basicamente eletrônico, com bateria programa e sintetizadores (do Ricardo Cristaldi) em primeiro plano. Como elemento "humano" há a antológica linha de baixo do Liminha, com direito a fantástico solo no final. Clássico!

"Pé Na Tábua" não deixa o balanço cair. O baixo do Pedro Baldanza é um espetáculo. Faixa curtinha de leveza pop que muito lembra as rádios e novelas do período.

Ainda no campo da ficha técnica, vale notar Lobão e Sérgio Della Mônica em colaboração na construção rítmica de "Pra Sempre e Mais Um Dia", canção de caminho melódico elegante. Mesmo de voz "pequena", Marina dá a interpretação precisa para a canção.

Se a década de 1980 foi a década de synthpop, então podemos dizer que o gênero tem seu representante brasileiro de alta estatura através de faixas como "Ensaios de Amor" e "Nosso Estilo". Por sua vez, a new wave, que chegou como uma euforia de plástico que logo perdeu a graça, tem em "Mesmo Que Seja Eu" o astral pop na medida.

Lobão volta apareceu enquanto compositor e baterista no hit atemporal "Me Chama". Um canção enigmática, que na voz da Marina soa belíssima, noturna e sexy. Sua rouquidão frágil é irresistível.

Embora seja a mais datada do álbum, é interessante ouvir a construção sonora eletrônica do Lulu Santos em "Mais Uma Vez". Será que ele tava ouvindo Gary Numan?

Sofisticação e elegância prevalecem em baladas pop como "Mesmo Se o Vento Levou" e "Veneno". É o AOR/sophisti-pop brasileiro.

São muitas as artistas brasileiras atuais que atingiram sucesso comercial (financeiro), mas sem conquistar prestígio artístico. Marina conseguiu ambas as coisas naturalmente.

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