Se nos EUA o punk rock já havia desaguado no hardcore através de grupos do Germs, Dead Kennedys e Black Flag, da pra dizer que os ingleses do Discharge foram embriões do hardcore europeu, que como só podia ser, trouxe características próprias, a começar por uma produção ainda mais abrasiva e densa, oriunda do approach do heavy metal já estabelecido no velho continente.
Basta dar o play do disco pra ser jogado pra trás pelo avalanche sônico de "Hear Nothing See Nothing Say Nothing". A fórmula: Garry Moloney com sua bateria sequinha mandando seu influente d-beat, o canto impositivo do Cal Morris, o baixo gorduroso do Rainy, além do riff grave e solo tipicamente heavy metal do Bones. Simplesmente um clássico do punk hardcore!
Há um clima caos, euforia, distopia e podridão vindo de canções como "The Final Blood Bath". Seria enlouquecedora não fosse tão cativante.
A linha de baixo em "Protest And Survive" é maluquice pura. Parece que o instrumento borbulha em óleo diesel. Que riffão! Isso enquanto a letra faz um chamado para a sobrevivência através da luta.
Como já entrega a "cabeça de repolho" em meio a órgãos sensoriais na capa do disco, há um teor combativo/politico explicito no álbum. A veloz "I Won't Subscribe" aponta pra esse conteúdo.
Não há como traduzir o pânico da guerra nuclear do período com outra música que não seja "A Hell On Earth". Repare no seu conteúdo, mas também na amplitude intimidadora das guitarras. Seu desaguar nos choros de "Cries Of Help" é o fio narrativo perfeito.
Com acordes dissonantes e velocidade descomunal, "Drunk With Power" é o que há de mais brutal produzido no período. Isso se prolonga pela robusta "Meanwhile" e na virulenta "The Possibility Of Life's Destruction".
O som que sai dos falantes de "The Blood Runs Red" é capaz de esmagar fisicamente os ouvintes.
Há um certo experimentalismo na forma hipnótica de "Free Speech For The Dumb", uma espécie de krautrock do hardcore.
"The End", como só podia ser, encerra o álbum com baixo e guitarra mais parecendo motosserras.
Do Metallica ao Ratos de Porão, muitos foram os que beberam dessa fonte. Ainda que ninguém tivesse feito, valeria ouvir esse disco só para constar sua energia própria. Poucos minutos de pura selvageria e confronto.

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