Hoje é muito mais fácil perceber as características estéticas do estilo, que se apropria do easy listening/muzak (seja smooth jazz ou temas lounge/elevador) aplicando timbres sintéticos retrô, algo na linha de videogames/séries oitentistas com uma "sujeira" de fita cassete. Visualmente há elementos cyberpunk, misturado com cores neon-pastéis e deturpação de símbolos pop (principalmente ideogramas japoneses e esculturas gregas). Um prato cheio para quem se interessa por semiótica.
Esse movimento é muito mais amplo que sua sonoridade - que isoladamente poderia ser enquadrada no hypnagogic pop -, sendo na verdade uma tendência cultural que se manisfesta desde em simples e ingênuos memes, até na sarcástica suavização de políticas fascistas da extrema direita (uma evidente apropriação cultural).
Assim como uma tecnologia ultrapassada, o estilo é difundido de maneira muito mais pulverizada e até mesmo descartável. Diversos álbuns são jogados na internet via Brandcamp e SoundCloud sem ganhar grande projeção, sem se atualizar nas mídias de streaming. Até hoje o Floral Shoppe não foi lançado do Spotify. Isso acontece enquanto uma crítica ao sonho futurista oitentista que não se concretizou, dando lugar a uma decadência econômica e ausência de perspectivas. A produtora americana Vektroid é quem comanda este feito.
Assim como no plunderphonic e no retrowave em sua plenitude, há no vaporwave um abuso de colagens sonoras. Isso fica nítido logo em "Boot" - todas as faixas são nomeada em japonês, mas vou colocar em inglês pra facilitar a nossa vida -, onde a voz ultra processada parece fruto da inteligência artificial. Todavia, essa tecnologia não se aplica a produção, vide os timbres altamente lo-fi do instrumental, emulando sintetizadores oitentistas mesmo quando equiparados de equipamentos modernos.
De melodia não menos que convidativa, "Lisa Frank 420 / Modern Computing" é o grande "clássico" da vaporwave. A canção da nova vida para "It's Your Move" (Diana Ross), soando ironicamente tão radiofônica quanto a original, além de grotescamente nostálgica.
A construção rítmica via som de CD riscado em "Floral Shoppe" funciona muito bem. Gosto também de como a faixa resgata a suavidade (e de certa forma, também a complexidade) do AOR. Conceitualmente é uma deturpação da música de departamento.
O instrumental de "Library" remete a um synthfunk que poderia ser usado no cine prive. Isso ao menos até entrar uma voz digitalmente gravíssima que o Ed Motta gravaria sem muito esforço.
Com uma sujeirinha glitch e alteração na velocidade, "Geography" soa bastante ousada. Ao contrário do clima suave das outras faixas, aqui há um forte elemento de tensão. Sua construção tem muito da música new age. Por sua vez, o sintetizador de "Chill Divin' with ECCO" explora uma aura etérea numa composição de estética oitentista. O reverb aplicado na caixa, o drive da guitarra... é muito AOR.
Como um sopro de música ambient, "Mathematics" soa altamente hipnológica, trabalhando diversos elementos e cores.
Embora haja um valor cultural muitas vezes ignorado na vaporwave (e eu entendo as razões para isso), o grande mérito do Floral Shoppe é conseguir apresentar boas composições dentro de uma estética solúvel. Conceitualmente, tudo aquilo que um dia pareceu futurista, funcional e vendável, aqui é desconstruído e “estragado” pela decadência capitalista. Álbum influente e de qualidades particulares.

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