sexta-feira, 18 de maio de 2018

ACHADOS DA SEMANA: Blind Willie Johnson, Built To Spill e Isaac Stern

BLIND WILLIE JOHNSON
Um daqueles bluesman que a gente burramente não dá a devida atenção. Que voz! Tudo que o Tom Waits queria ser enquanto performance vocal está aqui.

BUILT TO SPILL
Vão tocar no Brasil e eu nada conheço. Peguei o disco Perfect From Now On (1997) para ouvir e achei ótimo, mas não empolguei a ir no show não.

ISAAC STERN
Durante toda essa semana, antes de dormir ouvia algo do violinista Isaac Stern. Sua interpretação ao lado do pianista Alexander Zakin para composições do César Franck é impressionante.

terça-feira, 15 de maio de 2018

TEM QUE OUVIR: Eric B. & Rakim - Paid In Full (1987)

Em tempos onde se fala tanto sobre flow, o clássico Paid In Full (1987) do Eric B. & Rakim deve ser revisitado como fonte de inspiração


É verdade que grandes discos da cena hip hop já haviam sido lançados até então. Todavia, é facilmente perceptível o grau de amadurecimento lírico e rítmico do Rakim ao cantar. Seu flow faz parte do desenvolvimento do rap. Não digo isso apenas como forma de enaltecer a história do rap, mas como apreciação de um brilhante MC ainda para os padrões atuais.

Após samplear os metais da J.B.'s, Rakim surge com o pé na porta da grooveada "I Ain't No Joke". A épica "My Melody" é perfeito exemplo de lirismo e da profundidade de sua interpretação.

Eric B. também se mostra inquietante na pesada "Eric B. Is On The Cut", com direito a scratches violentos, que fazem sua música até mesmo se aproximar da cena industrial do Throbbing Gristle, tamanho o impacto rudimentar de suas produções.

Impossível passar indiferente diante do balanço contagiante de "I Know You Got Soul" e "Paid In Full". Muito do que foi feito no rap noventista tem suas raízes na malandragem de "Move The Crowd".

O som de baixo em "As The Rhyme Goes On" é estrondoso. Vale também se atentar para a produção de "Eric B. Is President", com direito a efeitos vocais, samples primorosos, beat consistente e variação timbristica.

Flow criativo, produção pesadas, mas sem invencionismo besta, além de composições bem amarradas. Tudo isso em apenas de 10 faixas. O mundo do rap atual, por melhor que seja, ainda tem muito o que aprender com Paid In Full.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

TEM QUE OUVIR: Earth - Earth 2: Special Low-Frequency Version (1993)

No começo da década de 1990, a música pesada já havia se desenvolvido o suficiente para subdividir-se em inúmeros gêneros. E todos nós sabemos que, com a chegada do desenvolvimento, surge a vanguarda, produzindo obras nem tão palatáveis ou comerciais, embora de grande relevância estética. É assim que podemos encarar o álbum Earth 2, lançado pela Sub Pop em 1993.


De capa graciosamente solene e com influência de new age, ambient e da música minimalista, o disco revela-se na realidade proximidade com a cena sludge/doom. Embora ainda bastante primitivo, é um dos álbuns fundamentais para o que ficou conhecido como drone, estilo marcado por sons continuos e reverberoso.

O que encontramos são camadas e camadas de guitarras e baixos distorcidos, cavernosos, graves, atmosféricos, frios, fúnebres, densos, lentos, dentre tantas outras características que tentam traduzir em palavras a massa sonora de difícil penetração criada pelo Earth, grupo americano liderado pelo Dylan Carlson.

Ao ouvir as longas três faixas que juntas formam os intensos 73 minutos do disco, sempre chego a conclusão que o melhor nome para a banda seria Center Of The Earth, tamanha a obscuridade produzida pelo grupo.

Sua audição, inicialmente estranha, é comparável a uma viagem de barco em alto-mar, que provoca desconforto devido seus movimentos, embora seja bela em sua paisagem.

É comum as paredes vibrarem com as frequências graves do álbum. Poucos discos conseguem fisicamente interferir no seu ambiente de reprodução quanto esse.

Embora bastante experimental e inovador no resultado, não é absurdo descrever o Earth como se fosse o Tony Iommi emulando o disco Music For Airports do Brian Eno. Por mais estranho, repetitivo, terroso e rudimentar, o álbum é de grande complexidade formal e estética.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

ACHADOS DA SEMANA: Bobbie Gentry, Gérard Grisey, Mike Marshall & Hamilton de Holanda e Metal Church

BOBBIE GENTRY
Ao que consta, "Ode To Billy Joe" é um clássico sessentista. Confesso que só agora escutei. Ótima faixa, mas destaco o disco de 1967 como um todo.

GÉRARD GRISEY
Eu estava pesquisando alguns trabalhos do Grisey, um dos mais relevantes compositores de música contemporânea, bastante conhecido por seu trabalho de música espectral. "Partiels" é uma daquelas obras que não dá para passar indiferente.

MIKE MARSHALL & HAMILTON DE HOLANDA
Dois virtuoses do bandolim. Um do instrumento mais usado no bluegrass, outro no choro, ambos de excelência técnica e interpretativa exuberante. New Worlds (2006) é um tremendo disco.

METAL CHURCH
Primeirão do Metal Church, lançado em 1985. Uma entre tanta pérola do heavy metal oitentista que nunca tinha escutado. É um bom exemplo de speed metal. Gostei bastante do instrumental, enquanto o vocalista da para tolerar.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

A antologia "correta" dos anos 80 pelo rock

Dentre as figuras mais interessantes do pop nacional está o Lobão. Ele é um compositor talentoso, teve passagem meteórica pelas bandas Vimana e Blitz, tocou em discos do Walter Franco e Marina Lima, é dono de bons momentos solo e comprou brigas com meio mundo (artistas, mídia e gravadoras). Goste ou não, é uma figura inquietante.

Tão inquietante que as vezes se perder no seu personagem. Sua visão politica retrógrada e infantil - ainda que com pose de intelectual - é tão falha que, sobre o trágico desabamento do prédio no centro de São Paulo essa semana, conhecidamente ocupado por moradores sem teto, ele de maneira simplista disse: "é o desmascaramento dessa milícia que fica invadindo prédios". Para ele, o não acesso a moradia é "vitimismo", "paumolecencia" e "cafonice". 

Foi então que tive contanto com seu mais recente trabalho - Antologia Politicamente Incorreta Dos Anos 80 Pelo Rock - e entendi o seu problema. Ouso dizer que o Lobão perdeu a capacidade de ser criterioso. O disco é de uma ruindade absurda. Escolha de repertório careta e ruim, interpretação vocal risível (o Lobão cantou alcoolizado, medicado ou doente?), a produção é um marasmo... tudo errado! Eis um exemplo da ruindade, que já virou um clássico nacional do mal gosto:


Ouvindo o disco eu lembre do Ed Motta, um cara que não economiza palavras, toma lado, mas ao contrário do Lobão, é de uma competência sonora impressionante. Aí dá até para levar a sério qualquer absurdo que o Ed ouse dizer, mas apresentando o que o Lobão tem apresentado, dá até uma certa tristeza. Ele tornou-se uma figura decadente. E não digo isso em tom de ofensa, mas de constatação.

Como uma das criticas que levantei ao novo trabalho do Lobão foi a escolha de repertório, refutarei postando aqui músicas dentro do tal BRock oitentista que ele deixou de fora, que seriam escolhas muito mais criativas e interessantes que "Vítima do Amor", "Primeiros Erros", "Louras Geladas", "Somos Quem Podemos Ser" e "Lanterna dos Afogados".


- Patrulha do Espaço: Festa de Rock
Rock nacional oitentista, mas ainda com o cheiro setentista. Banda importante.

- Rita Lee: Nem Luxo, Nem Lixo
Rita inaugurou o pop rock oitentista com uma classe que posteriormente ninguém foi capaz de produzir. Ótima composição, arranjo e execução. Pop, radiofônico e muito bem feito.

- Lulu Santos: Um Certo Alguém
O legitimo artesão do pop rock oitentista brasileiro em de suas boas canções.

- Arrigo Barnabé: Sabor de Veneno
Ousado, alternativo, complexo e irreverente. O Arrigo e toda a vanguarda paulista é um capitulo de destaque no rock brasileiro, embora muitas vezes ignorado.

- Robertinho de Recife: Metal Mania
Um dos instrumentistas mais talentosos do pop nacional em sua fase metal, inaugurando o estilo no Brasil. Um clássico de ingenuidade divertidíssima. 

- Ratos de Porão: Amazônia Nunca Mais
Uma das melhores banda de hardcore não só do Brasil, mas do mundo. Um clássico!

- Cólera: Medo
Redson, uma das grandes mentes do punk rock nacional.

- Inocentes: Ele Disse Não
Falar de punk brasileiro e não citar o Inocentes seria um erro grosseiro.

- Garotos Podres: Vou Fazer Cocô
Uma pérola cheia de humor que nem o Lobão conseguiria arruinar. Ou conseguiria? 

- Plebe Rude: Minha Renda
Com um repertório tão bacana, o Lobão tinha mesmo que recorrer a óbvia "Até Quando Esperar"?

- Camisa de Vênus: Correndo Sem Parar
Com um repertório tão bacana, o Lobão tinha mesmo que recorrer a óbvia "Eu Não Matei Joana D'arc"?

- Titãs: Igreja
A eterna birra ao tentarem deslegitimar os Titãs na história do rock nacional. Começou com a BIZZ, mas agora domina grande parte da cultura nacional. Tá certo que a banda só anda errando, mas eles tiveram bons momentos.

- Barão Vermelho: Declare Guerra
Barão, sem Cazuza, é o auge do rock n' roll nacional brasileiro. 

- Ira!: Rubro Zorro
Um clássico da cena alternativa paulistana.

- Patife Band: Poema Em Linha Reta
A Patife Band gravou aquele que é para mim o melhor (não o maior ou mais importante, mas o melhor) disco do rock nacional oitentista. Simples assim.

- Golpe de Estado: Não É Hora
Nada de influência brasileira. É o legitimo hard rock tocado por músicos muito acima da média.

- André Christovam: Genuíno Pedaço do Cristo
Um guitarrista espetacular em sua brilhante fusão de blues com sotaque brasileiro. É fino.

- Sarcófago: Satanic Lust
Influenciou meio mundo no metal escandinavo. Mas o Lobão só tem olhos para Engenheiros do Hawaii.

- Sepultura: Inner Self
Um clássico, que revelou a banda para o mundo.

- Fellini: Rock Europeu
Porque a Legião Urbana não é a melhor representante do pós-punk nacional. 

- Picassos Falsos: Bolero
Um dos grupos mais interessantes e subvalorizados do rock nacional. [1]

- DeFalla: Não Me Mande Flores
Um dos grupos mais interessantes e subvalorizados do rock nacional. [2]

- Violeta de Outono: Dia Eterno
Um dos grupos mais interessantes e subvalorizados do rock nacional. [3]

ACHADOS DA SEMANA: Alan Hovhaness, Elomar, Mulatu Astatke e Gonzaguinha

ALAN HOVHANESS
Confesso que até então nunca havia imaginado o cruzamento de baleias com orquestra.

ELOMAR
Um ótimo compositor/interprete da música genuinamente brasileira. Sempre com passagens de viola inspiradíssimas.

MULATU ASTATKE
O mestre do jazz etíope em sua constante incursão melódica pela música árabe. Incrivelmente tem um balanço de salsa. O álbum Mulatu Of Ethiopia (1972) é um espetáculo.

GONZAGUINHA
Cresci num mundo em que não é permitido gostar do Gonzaguinha. E no geral, nem gosto mesmo. Mas "Piada Infeliz" é boa, vai. Baita arranjo.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

TEM QUE OUVIR: Nina Simone - In Concert (1964)

Considerando todos os infortúnios da vida de Nina Simone - negra, mulher e pobre, numa América extremamente racista, machista e classista -, é possível dizer que ela não demorou tanto para se estabelecer como artista. Seu piano, que reunia técnicas eruditas com approach jazzistico, além de seu canto grave, logo chamaram a atenção. A música de Nina Simone agradava a todos.

Todavia, foi só quando a artista passou a inserir elementos de contestação social que sua obra ganhou valor imensurável. Embora muitos não tenham visto sua luta com bons olhos, sua rica musicalidade, somada a interpretação incisiva, quase ameaçadora, é indiscutivelmente de grande valor humano. Isso fica bastante claro no disco In Concert (1964).


Gravado no Carnegie Hall, Nina começa o show invocando os irmãos Gershwin na clássica "I Loves You Porgy". Seu canto suave é absurdo. Afinação e dicção perfeita. Puro brilhantismo.

Ousaria dizer que a Gal Costa pegou muito de seu canto da interpretação de Nina em "Plain Gold Ring", com destaque para o arranjo incomum, que cria uma ambientação cheia de suspense. Destaque para o baixo seguro do Lisle Atkinson. Os acordes que Nina discretamente insere ao piano no decorrer da faixa também são de grande sofisticação.

"Pirate Jenny" não se assemelha a nada feito até então na música popular. Por um instante parece que o show vira um musical - ou até mesmo uma ópera -, tamanha a força interpretativa de Nina e o arranjo nada convencional da bateria do Bobby Hamilton. Impressionante!

Mas é em "Old Jim Crow" que a coisa começa transgredir o âmbito musical. Sua letra faz clara referência as leis de Jim Crown, que institucionalizaram a segregação-racial nos EUA.

Já a emblemática "Mississippi Goddamn" é uma resposta ao assassinato de Medgar Evers e ao atentado a uma igreja no Alabama que matou quatro crianças negras. Embora eu tenha a tendência a dizer que música é no primeiro momento uma atividade artística, aqui seu uso politico é inegável e necessário. Histórico!

O disco ainda reserva a exuberante "Don't Smoke In Bed" - onde seu conhecimento erudito ao piano salta aos ouvidos (evitarei a redundância de destacar seu voz) - e a espetacular "Go Limp", uma valsa extremamente divertida, que apresenta uma Nina de humor e simpatia poucas vezes ressaltada em sua biografia.

Definitivamente uma apresentação história de uma das grandes artistas do século XX.