Em 1994, enquanto Sepultura, Raimundos, Planet Hemp e Nação Zumbi animavam uma juventude rebelde, a Marisa Monte lançava o refinado Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão, apresentando produção e composições elaboradas, além de uma postura que fez a cabeça da MPB dali em diante.
O trabalho é impecável dentro da proposta. Ele une alcance comercial e sofisticação lirica de forma inacreditável. É espantoso, por exemplo, a jovem MTV Brasil sustentando canções como "Segue o Seco", faixa de poética rica, arranjo elaborado e melodia certeira herdada dos mouros.
O apoio que a Marisa Monte teve dos medalhões da música brasileira também a ajudou (isso desde os tempos de Nelson Motta), vide a participação de Gilberto Gil na swingada "Balança Pema" (Jorge Ben), o aval de Paulinho da Viola na regravação da maravilhosa "Dança da Solidão" e até mesmo a participação da Velha Guarda da Portela na impecável "Esta Melodia" (Jamelão). Neste oceano de segurança, sobrou até mesmo para o Velvet Underground, que foi otimamente revisitado em "Pale Blue Eyes".
Ao lado de nomes como Carlinhos Brown, Nando Reis e Arnaldo Antunes, Marisa Monte alcança o supra-sumo do pop brasileiro em canções como "Ao Meu Redor" e "Na Estrada",
Acho o bolero/samba-canção/seresta/choro "De Mais Ninguém" de beleza estonteante, muito por sua instrumentação elegante, com direito a um belíssimo bandolim e o violão do lendário Dino 7 Cordas.
“Alta Noite”, com sua paisagem etérea e canto à la Gal Costa, me remete a uma versão noventista da bossa nova.
Curiosamente, toda essa apropriação brasileira não seria tão exitosa sem a produção inteligente do norte-americano Arto Lindsay, um artista de vanguarda que já havia trabalhado com o Caetano Veloso. Com ele, o disco vira produto de exportação, trazendo tanto reverência a memória da canção brasileira quanto um polimento comercial.
Vale ainda destacar “Enquanto Isso”, canção de gosto fácil, que dê certo modo aponta para onde iria seu repertório. Aqui há participação da Laurie Anderson.
Para o bem e para o mal, Marisa Monte não merece ser condenada pelos erros de suas admiradoras/plagiadoras. Pena que sequer ela conseguiu manter a relevância, caindo tempo depois na própria armadilha que é sua representação.

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