sexta-feira, 23 de novembro de 2012

TEM QUE OUVIR: Dr. Dre - The Chronic (1992)

Pela primeira vez trago ao "Tem Que Ouvir" um disco de rap (já era hora!). E não é qualquer um. The Chronic do Dr. Dre consagrou o gangsta rap e popularizou o g-funk, além de ter revelado um jovem/talentoso MC chamado Snoop Dogg.


É sempre pertinente lembrar dos conflitos que ocorreram no gangsta rap através da sua gananciosa e egocêntrica guerra envolvendo dois remanescentes do emblemático grupo N.W.A.: Dr. Dre e Eazy E. The Chronic deu a vitória para Dr. Dre tanto em vendagens quanto em méritos artísticos.

O álbum foi o primeiro a ser lançado pela Death Row, gravadora fundada pelo próprio Dre. Todavia, o disco só saiu após parceria com uma então recente Interscope, do Jimmy Lovine. Anos depois, ambos fundaram a bilionária Beats Electronics, empresa especializada em headphones.

Ao ouvir o The Chronic é preciso entender e, ao mesmo tempo, se abster das letras. Afinal, o festival de mensagens de caráter duvidoso - envolvendo a violência entre gangues, vanglorização e misoginia -, não deve ser levado tão a sério, ainda mais por quem não viveu o mesmo contexto. Melhor que se apegar ao moralismo textual, é se atentar ao flow sagaz dos MC's.

Musicalmente, o disco é uma aula de bom gosto na utilização de samples. Em "Fuck Wit Dre Day" (uma diss endereçada ao Eazy-E) tem Funkadelic (synth bass característico do g-funk); "Let Me Ride" tem James Brown (espetacular linha de baixo); "Stranded On Death Row" tem Isaac Hayes; e até mesmo o Led Zeppelin aparece em "Lyrical Gandbang" (beat profundo), sendo que nelas dá para conferir as participações do The D.O.C., Kurupt, RBX e do próprio Snoop Dogg, proporcionando vasta paleta interpretativa.

O álbum é também, quando comparado aos trabalhos contemporâneos, muito mais melódico (sempre há uma linha de synth iluminando as rimas), funky, ensolarado e com forte influência de r&b - ainda que não abra mão dos beats vigorosos -, o que definitivamente ajudou no sucesso comercial, além de melhor retratar o clima californiano presente na produção. É o mais puro west coast hip hop. Ganchos melódicos como o do sintetizador na sacana "Nuthin' But A "G" Thang" (com direito a ótimo/característico flow do Snoop) ajudam a criar tal atmosfera quente, libidinosa e emaconhada. Quem não chacoalhar com "The Roach (The Chronic Outro)" está morto por dentro.

Por sua vez, o clima pesa nas produções cinematograficamente tensas de "A Nigga Witta Gun" e "The Day The Niggaz Took Over", faixa de um colorido timbristico impressionante. "Deeez Nuuuts" também é exemplo disso, visto que seu beat é costurado por sintetizadores sedutores.

Kl Jay (DJ/produtor dos Racionais MC's) disse que "Dr. Dre está para o rap assim como Quincy Jones está para o funk". Ao escutar The Chronic percebemos que a analogia é justíssima. Álbum de evolução furiosa e irresistível.

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