O metal - independente do subgênero - é um estilo que criou um forte imaginário em torno de seus artistas e fãs. A estética sisuda e de adoradores do Demônio, por mais enganosa que seja, tem raízes artísticas que justificam a caricatura. Se por um lado o estilo nasceu e se desenvolveu na década de 1970 através de grupos como o Black Sabbath abordando temas ocultos e climas soturnos em suas canções, foi mais de uma década depois, com o Venom, que o metal pareceu pela primeira vez verdadeiramente extremo.
Black Metal (1982), o segundo álbum do grupo, é muito lembrado por batizar o subgênero mais radical do metal, sendo sua influência materializada em grupos como o Mayhem. Todavia, não está somente ali a influência do Venom. Na verdade, muito do que foi feito no metal dali em diante é resultado na virulência deste disco. Pode botar nesse pacote o thrash metal do Slayer e o death metal do Morbid Angel.
O curioso é que, como todo criador, os integrantes não pareciam ter completa ciência de sua criatura. Eles estavam ali no meio da NWOBHM, trazendo a energia crua de um power trio com uma "maldade" extra. Fora que ali não tinha nenhum galã. Eles não eram o Def Leppard, eles eram feios.
E quem são eles? Cronos (voz e baixo), Mantas (guitarras) e Abaddon (bateria). Um trio sem grande destreza técnica, mas com capacidade de tocar com energia e velocidade descomunal. O peso deles não vinha de magias sobrenaturais ou super produção, sendo na realidade a reação humana e material à Inglaterra da Margaret Thatcher. Do outro lado do Atlântico, diante de todo pânico moral envolto ao Satanismo, os jovens norte-americanos se identificaram com as heresias do grupo, a começar pelo medonho bode na capa do disco. Hoje uma estampa de camiseta comum em shows de heavy metal.
E musicalmente, o que esperar o disco? Uma desgraceira! Quase uma manifesto anti-musical (ou ao menos contra a indústria cultural).
A clássica "Black Metal" abre o disco com o nome da faixa sendo repetido num gutural em cima de bumbos desenfreados (eis o speed metal!) e acorde estático (com algumas tensões dissonantes) num dos refrães mais emblemáticos do gênero. Embora seja bobeira esse lance de "falso metal", acho justo considerar um "poser" quem não sabe reagir ao refrão berrando "Lay down your souls to the gods rock n' roll". Esse sectarismo também faz parte da cultura presente nesse disco. Afinal, não estamos falando de metal para os atletas do colégio. São os excluídos agora ditando sua subcultura.
Por trás de toda tosqueira, eu acho impressionante a potência sônica de "To Hell And Back". Uma bateria quadradona para um riff sufocantemente grave e pesado.
A climática "Buried Alive" revela uma bem-vinda pretensão artística ao trabalhar narrações, dinâmica lenta e timbres limpos de guitarra. Tudo isso a serviço de cenários de horror. A canção desagua em "Raise The Dead", nada mais que um rock n' roll à la Motörhead.
"Teacher's Pet" respeita as raízes do rock, seja na letra obscena ou na cadência blues. O resultado é um punk vitaminado de quem se formou ouvindo Damned e Sex Pistols.
Os riffs de "Leave Me In Hell" e "Sacrifice" são puro NWOBHM. Mas acho legal notar os solos velozes e caóticos, a interpretação teatral do Cronos, além do saturado e profundo timbre de baixo.
O disco segue com a descritiva "Heaven's On Fire". Em tempos onde o metal é milimetricamente produzido, impressionante sua agressividade espontânea.
Com um refrão memorável, "Countess Bathory" é o lado mais "acessível" do Venom. Curiosamente a faixa foi decisiva pra batizar o Bathory, outra banda influente do metal extremo. Atenção para seu solo de baixo ao final.
"Don't Burn The Witch" fecha o disco com um dos riffs mais legais da história do metal. Sua oposição a igreja em forma da defesa das bruxas é muito legal. Um clássico feito para bangear e tomar cerveja quente. Sensacional!
O desfecho com "At War With Satan" vem para demarcar o lado satânico da história. Uma faixa climática, soturna e aterrorizante. Acredite, não devia soar nada boba em 1982.
O Iron Maiden podia ter destreza técnica, lirismo, o Eddie, invocar o número da besta... nada disso se equipara ao radicalismo do Venom. Não por acaso o grupo teve tantos adoradores ao redor do mundo, sendo capaz de lotar o lendário Hammersmith Odeon em Londres e também fazer os emblemáticos shows no Brasil em 1986.

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