Com um cabelo imponente que elevava sua baixa estatura, maquiagem burlesca e roupas típicas de uma princesa do campo, ela criou um demarcador estético reproduzido até hoje por nomes como Miley Cyrus e Sabrina Carpenter (exemplos que migram para além da música country).
O enorme sucesso "Jolene" abre o disco revelando a destreza interpretativa de Dolly, dona de vibrato característico, atingindo notadas agudas confortáveis para seu timbre (ao contrário de tantos que interpretaram a canção) e enorme capacidade narrativa ao tratar com admiração a amante "de seu homem". Não por acaso a canção virou um standard da música country. Destaque ainda para sua melodia com traços medievais e violão de dedilhado complexo.
Apresentado já na capa, o álbum guarda outro enorme sucesso: "I Will Always Love You". É verdade que foi a versão da Whitney Houston que jogou canção a níveis estratosféricos, mas a força já estava em Dolly. Fora que seu arranjo orgânico e a doçura contida na interpretação original envelheceu muito melhor. Vale lembrar que ambos os hits são de autoria da Dolly, demonstrando que ela não era uma marionete da indústria, mas uma artista de voz ativa. Inclusive, "I Will Always Love You" aborda seu rompimento com o Porter Wagoner, personalidade da TV norte-americana, que ajudou na difusão da música country e que tinha Dolly como sua pupila.
Eu sou um fanático pelo trabalho de cordas presente na música country, sendo que "When Someone Wants To Leave" expõe essa qualidade. Violão, slide e pedal steel amarrados com esmero. Bumbo no tempo forte, chimbal ditando o ritmo, levada na caixa em sua metade final e thumping bass completam o arranjo. Vale ainda se atentar a letra, que poeticamente trata com naturalidade o fim de um relacionamento. Para nós brasileiros, acostumados aos melodramas do sertanejo, é interessante analisar culturalmente esse aspecto dentro da música country.
É um destaque à parte o pedal steel do lendário Pete Drake em "Highlight Of My Life". Aqui há um template de como captar e construir um arranjo de country. Que sonoridade!
Em "Randy" as guitarras se entrelaçam com a voz de Dolly numa performance cheia de personalidade e carisma. Tremenda canção!
A melancolia de "Lonely Comin' Down" recebe contornos de arranjo e dinâmica épicos se comparado as outras canções deste disco. Beira o cinematográfico. Vale dizer que à composição é uma parceria com o Porter Wagoner.
Destaque ainda para a paisagem rural glamorosa construída na aconchegante "River Of Happiness"; o clima rock n' roll na excelente balada "Early Morning Breeze", o refrão choroso de "Living On Memories Of You" (mais um show de guitarras e belo uso de gaita no arranjo); e a caipirice adorável de "It Must Be You".
De curta duração - 10 faixas em 25 minutos -, Jolene é a concisão e excelência de Dolly Parton e, portanto, da country music. Um disco que ainda ecoa por suas canções e pela influência que deixou, seja na Shania Twain, Taylor Swift ou Kacey Musgraves.
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