segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

TEM QUE OUVIR: Raekwon - Only Built 4 Cuban Linx... (1995)

Da família Wu-Tang, Raekwon foi inicialmente o membro que mais chamou atenção. Seu estilo mafioso apontava para o gangsta rap que explodiria pouco tempo depois. Quando lançou seu Only Built 4 Cuban Linx... (1995), o estilo já fervia, inclusive de forma violenta nas ruas. Com olhar afastado e enorme sabedoria - como se respeitasse um código de conduta -, Raekwon se manteve na arte, inspirando musicalmente o gênero e criando o guia perfeito do estilo gangsta.

Como tudo que cerca o Wu-Tang, muitas participações formam o disco, mas há de se destacar a importância no Ghostface Killah neste projeto, sendo um parceiro direito do Raekwon. Não por acaso ele está presente desde a capa. Também não podemos esquecer das mãos do RZA na produção.

Com um grave nebuloso em cima de uma batida de boom bap, "Knuckleheadz" é uma passarela para os rappers (Rae, Ghost e U-God) desfilarem suas rimas. O peso do beat se mantém em "Knowledge Gob", mas há um clima mafioso no ar, mais pelas orquestrações à la Nino Rota que pelo acorde arpejado ao piano. O mesmo volta acontecer na base sinistra de "Rainy Dayz", apaziguada na sabedoria islâmica dos versos do Raekwon.

A energia presente em "Criminology" é de tirar o fôlego. O flow dos rappers (Rae e Ghost) vem carregado de fúria, sendo acalmado somente por um sample de metais e cordas ultra memorável.

A sequência com "Incarcerated Scarfaces" expõe uma evolução conceitual ao disco, retratando a trajetória no crime. Mas vale dizer que embora o álbum seja recheado de violência, drogas e sangue, há também - ao menos nas entrelinhas - a vulnerabilidade masculina do jovem americano negro.

No que diz respeito a arte de rimar em cima de batidas duras e pesadas, "Guillotine" é uma aula. Vale se atentar a maneira com que cada palavra e divisão rítmica se faz presentes no flow dos rappers. 

A esquisita "Ice Water" - de produção elástica, ferozes scratches e uma voz em loop amedrontadora -, traz o Cappadonna somando forças. O resultado é tenebroso. Já em "Verbal Intercourse" é o Nas que dá os caras, preenchendo o beat espaçado com seu flow diferenciado. Por sua vez, "Wisdom Body", com versos dilacerantes do Ghostface Killah, é mais uma amostra do potencial lírico do hip hop.

"Ice Cream" é não somente o grande hit do disco, mas da carreira do Raekwon. É a faixa em que os integrantes do Wu-Tang chegam em peso, demonstrando categoria, fúria e personalidade nos versos. Uma cacetada.

"Wu-Gambinos" traz novamente o clima da máfia para o rap, com seus pseudônimos, aura de rivalidade e ilegalidade. A produção é tão esfumaça quanto charutos cubanos. Adoro esse som de caixa.

A bela e reflexiva "Heaven and Hell" guia para o desfecho do disco. Clássico gangsta/mafioso rap de NY. Um dos discos mais cinematográficos do hip hop. 

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