Primeiramente vou falar do Rock In Rio. Já aviso que não tenho certeza se discorrerei sobre os outros dias, visto que embora tenha interesse em assistir alguns shows (e provavelmente farei), não sei se renderá grandes observações. No caso do Dia do Metal é diferente, é um gênero de maior familiaridade, interesse e, convenhamos, provavelmente verdadeiramente mais interessante.
Infelizmente não consegui assistir o show do Black Pantera com o Devotos. Se a primeira banda ainda não me entusiasmou com o seu trabalho de estúdio, a segunda por sua vez eu guardo grande admiração. Acredito que ao vivo, em parceria, deve ter sido bem legal.
Dentre outros shows que não consegui ver estão o do Ratos de Porão, Dead Fish, Crypta e até mesmo do Gojira (era hora da minha filhinha assistir seus filmes da Disney e eu respeitei o direito dela). No caso da banda francesa, tenho certeza a excelência técnica e musical, pendendo a ser um dos melhores shows do festival. Mesmo no escuro, digo isso com convicção. Vale ainda dizer que consegui assistir umas três músicas do Gangena Gasosa. Me pareceu divertido e consistente.
Comecei minhas atividades com o show do Metal Allegiance, que confesso nem sabia da existência (esses supergrupos costumam passar despercebidos por mim). Quando vi Mike Portnoy, Alex Skolnick, Phil Demmel, Chuck Billy e John Bush (cantando MUITO, embora já beirando os 60 anos) no palco, já soube que mal a banda não iria soar. Mas a verdade é que fiquei muito entusiasmado com a apresentação. É um thrash metal redondo, pesado, "moderno" e muito bem executado. Releituras de clássicos do Anthrax e Testament colaboraram com o espetáculo. Show muito legal que adoraria ver pessoalmente.
Vale aqui dizer que achei a qualidade sonora da transmissão do Multishow ótima. Inclusive, mesmo a cobertura dos apresentadores/repórteres achei bem mais preparada que de edições anteriores.
Na sequência teve o Sepultura com a Orquestra Sinfônica Brasileira. Achei um show verdadeiramente emocionante. É comovente ver como a banda se supera há mais de três décadas, mesmo diante de inúmeros problemas (recentemente inclusive, como o acidente do Eloy e a morte do esposa do Andreas). Achei o show criativo, denso, pesado e, em alguns momentos, até vanguardista. Tudo reforçando a impressão de que eles são a maior banda do Brasil de todos os tempos.
Depois veio o Living Colour, que como todo mundo já sabe, é uma banda tecnicamente espetacular. Todos ali são exímios instrumentistas, sendo que desta vez foi o Vernon Reid que saltou aos meus ouvidos. Se em algum momento da minha vida considerei seus solos sujos, tortos e nonsense (no pior sentido), hoje fico admirado como ele é inventivo. Nem mesmo a participação do Steve Vai fez eu tirar o Vernon do meu holofote. Fantástico. Vale ainda deixar registrado uma observação que fiz no Twitter: "Living Colour e Faith No More são duas bandas que abdicaram do sucesso que tinham ao investir num som mais "estranho". Acho admirável demais".
Só liguei na programação novamente no meio do show do Bullet For My Valentine, que não acho necessariamente ruim, mas que quando estourou eu já tava em outra, sendo que no heavy metal a questão geracional conta muito. Ali é som pra molecada. Tem peso, é bem tocado, mas simplesmente não é para mim. Acabo achando as composições chatinhas.
Aí veio o Iron Maiden, banda seminal, clássica... uma verdadeira instituição. Dito isso, achei o show fraquinho. Execução comum, no piloto automático. Som meio embolado. A voz do Bruce Dickinson pode até estar melhor que o esperado (pela idade, pelos problemas de saúde, pelo alcance que ele tem que atingir), mas não dá pra dizer que tá boa. Em alguns momentos soa até angustiante. O repertório arrastado não ajudou, a começar pelas três faixas do Senjutsu que eles botaram logo no início do show. Sorumbático. A pior performance da banda no festival.
Restou ao Dream Theater fechar a noite, num ato de coragem e gentileza (deixem os velhinhos do Iron Maiden irem pro hotel mais cedo). E podem criticar o som deles, mas é uma banda de personalidade. Inclusive, desde sempre. Despontaram fazendo metal progressivo no auge do grunge, quando até o Melvins tava assinando com grande gravadora. Com seu conhecido virtuosismo, foram verdadeiramente alternativos à cena rockeira da época. No Rock In Rio meteram uma música de 20 minutos despreocupados se o público ia embora. Fizeram o show deles, frio e sem carisma, tecnicamente avançando. Não foi uma particularidade da noite, eles são sempre assim. Se para muitos o Iron Maiden é "jogo ganho", para mim ficou a sensação de que o Dream Theater foi a zebra. Vale ainda dizer que a banda, comumente associada a uma plateia de nerds adolescente, provou a renovação do público ao renovar o repertório. Não conheço grande parte das música ali tocadas. Curioso.
Já sobre o Tributo ao Taylor Hawkins, posso dizer que, contrariando a trágica situação que foi a prematura morte do baterista, foi um dos eventos musicais mais divertidos dos últimos tempos. A começar pelo Foo Fighters (com o Dave Ghrol na bateria) servindo de apoio para o Liam Gallagher em duas boas músicas do Oasis.
Josh Homme não fez feio ao interpretar "Let's Dance", ainda mais acompanhado do Nile Rodgers e do Omar Hakim. O por mim subestimado Chris Chaney também mandou muito bem.
Adorei rever a Kesha, ainda mais cantando muito bem, bonitona, saudável, num astral legal. "Children Of The Revolution" (T. Rex) foi uma ótima escolha de música.
Me surpreendi também com o Wolfgang Van Halen tocando as músicas da banda do seu pai, inclusive com timbre e fraseado bem parecido. Há justificativas óbvias para isso, mas ainda assim fiquei admirado.
Quem também demonstrou talento hereditário foi a Violet Ghrol, filha de vocês sabem quem. Ela interpretou muito bem (embora nitidamente tímida) duas faixas do Jeff Buckley, mas principalmente "Valerie", eternizada na voz da Amy Winehouse. Isso ao lado do Mark Ronson. Singelo.
Confesso que o Supergrass, Pretenders (com Dave no baixo) e o encontro do Them Crooked Vultures não me empolgaram. Em termos de reunião, chamou mais minha atenção o James Gang, que tocou com sua clássica formação após décadas. Joe Walsh deu algumas bolas na trave, mas ok, agora surpreendente foi perceber como a cozinha se manteve azeitada.
A combinação Foo Fighters + Brian Johnston + Lars Ulrich (o pior baterista da noite) só prestou para demonstrar o clima de descontração. Musicalmente foi esquecível. Muito melhor foi o encontro da banda mestre de cerimônia com o genial Stewart Copeland. Como ele toca, não?
Ainda que com tantos momentos legais, a entrada do Geddy Lee e Alex Lifeson ao palco subiu o sarrafo. Vê-los reunidos ao Dave Ghrol tocando o começo de "2112" e "Working Man" foi no mínimo emocionante. O eterno baterista do Nirvana comprovou mais uma vez o excelente instrumentista que é com as baquetas em mãos. Que pegada! Já o Omar Hakim mostrou em "YYZ" que não consegue tocar sem groovear, mesmo diante de ritmos quebrados. Ficou uma versão curiosa e espetacular.
Especial também foi a presença do Brian May e do Roger Taylor, que se por um lado não tocaram um repertório tão bacana, ao menos demonstraram a elegância de sempre. Que timbre lindo, vibrato emotivo e escolha perfeita de notas do guitarrista do Queen. Vale ainda dizer a sintonia que a banda tem com o público inglês, num exemplo até de patriotismo. Não consigo imaginar uma banda brasileira que alcance o tamanho feito em nosso país.
Chegara a hora do Foo Fighters tocar suas músicas. Logo de cara a presença do requisitado Josh Freese caiu tão perfeitamente que foi inevitável não pensar "olha aí o substituto do Taylor". Quem sabe, né? Travis Barker também mandou muito bem nas canções do grupo, assim como a prodígia Nandi Bushell. Mas não teve como, emocionante e espetacular foi mesmo a execução do Oliver Shane Hawkins, jovem filho do Taylor Hawkins, que tocou "My Hero" com convicção, energia e certa mistura de felicidade e raiva. Espetacular. E que canção, não? Nem mesmo o encontro do Foo Fighters com o Paul McCartney e a Chrissie Hynde conseguiram superar esse momento.
Uma noite memorável, neste dia que sequer sintonizei no Rock In Rio. Não tinha como ser melhor que isso.


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