A música sertaneja é um fenômeno genuinamente popular no Brasil. A área rural enorme, populosa, riquíssima e politicamente influente do país colabora para isso.
De Tonico & Tinoco (recordistas de venda de discos no Brasil), passando por Tião Carreiro & Pardinho (ninguém toca uma pagode na viola igual o Tião), Pena Branca & Xavantinho e até mesmo Milionário & José Rico, há inúmeros artistas, em duplas ou não, que escreveram a história deste gênero esteticamente rico e socialmente especial.
Todavia, como qualquer fenômeno de massa, foi explorado comercialmente e desconfigurado ao ponto de não sobrar sequer o bagaço. Não falo isso com desdém ao que é popular, mas é a realidade deste produto que tem sido comercializado nas últimas três décadas com o rótulo de sertanejo.
Uma mistura da influência de rádios locais, interferência de uma produção musical urbana e da música country americana, fez essa cultura perder qualidade e legitimidade (falo isso sem resquício de “conservadorismo estético”).
Esse é o motivo pelo qual não abordo o gênero quando falo de música popular contemporânea aqui no blog. Falo do funk, gênero também em parte cooptado pela indústria, mas que ainda se encontra em plena ebulição e transformação estética nas periferias de todo o Brasil. Já a música sertaneja foi criminosamente deturpada. Claro, sempre haverá um Almir Sater ou uma nova dupla num programa do Rolando Boldrin apresentando um trabalho autêntico e interessante, mas nada que consiga furar o monopólio da indústria musical e o imaginário popular do que é música sertaneja nos dias de hoje, muito mais relacionada a uma sonoridade radiofônica, urbana e romântica pós Leandro & Leonardo/Zezé di Camargo & Luciano. Vale lembrar que essa geração de trinta anos atrás, no auge do sucesso, apoiou a candidatura a presidência do Fernando Collor.
Mas se antes havia resquícios de inspiração e talento em nomes como o do Chitãozinho & Xororó, hoje o que se vê é a música pop da pior qualidade, com uma padronização melódica, temática e timbristica, usada como plataforma política do agronegócio. Tem alcance popular porque tem dinheiro, mas é completamente descolada da produção cultural brasileira. O mesmo não se pode dizer do funk (mais uma vez traçando a comparação com o outro gênero muito popular do Brasil), onde a produção e distribuição muitas vezes rudimentar dá vazão a criatividade (goste ou não).
Esse confronto do “Sertanejo x Funk” ficou explícito recentemente num Brasil polarizado não apenas ideologicamente, mas também na disparidade social. Só agora parece que ficou nítido para muitos que o país em crise econômica que assola as periferias, é o mesmo do agronegócio que fatura horrores. São dois pólos que até pouco tempo pareciam andar em harmonia, mas que diante da eclosão social, expõe as contradições formais dos gêneros musicais
Não é surpresa para ninguém a relação de prefeituras ligadas ao agronegócio com a contratação de shows em pequenas cidades do interior do país. Superproduções que param regiões inteiras diante das únicas atividades de entretenimento que a população tem a disposição. Tudo com dinheiro público. Verdadeiros showmícios da bancada ruralista-direitista travestido de uma imagem popular e caipira, que musicalmente soa como o Jota Quest ou qualquer outra experiência musical tão diluída quanto suco de orfanato.
É isso que são esses agroboys do Zé Neto & Cristiano e Gusttavo Lima. Não excluo também deste pacote duplas que angariam fama como representantes do “feminismo” (mais uma vez o identitarismo não rompendo com os reais problemas das mulheres) no sertanejo, embora com os mesmos estereótipos formais, vide Maiara & Maraisa. Nada disso é popular ou arte. É um engodo, um subproduto cultural do que há de pior na burguesia brasileira, tristemente consumido por uma população sofrida dos campos e grandes centros.
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