quarta-feira, 4 de maio de 2022

A guitarra no hip hop

Dias atrás comecei a pensar em grandes guitarras presentes no rap. Busquei playlists no Spotify, mas o resultado não foi nada satisfatório. Montei a minha.

Deixo aqui a lista com pequenas observações. Não fiz grandes pesquisas, fui lembrando e colocando, de modo que peço que colaborem nos comentários com outros grandes momentos guitarristicos no hip hop.

Obs: Rage Against The Machine, Planet Hemp e grupos de new metal ficaram de fora pelo simples motivo de serem bandas de rock com guitarristas, ainda que com fortes elementos de rap.

Obs 2: Sample obviamente também vale. É uma ferramenta importantíssima dentro do rap e pode proporcionar passagens de guitarras especiais dentro das canções.

Relaxem, não vai ter Lil Wayne.

Run-D.M.C. - Rock Box
Desde de sua origem, a fusão do rap com o rock já existia. Na verdade, gosto até de interpretar a cultura hip hop como um braço do rock. Nesta faixa emblemática do Run-D.M.C. o cruzamento entre os gêneros é evidente, não só por conta das guitarras, mas pela forma da canção. Guitarristicamente, há uma tremenda melodia na introdução (meio Brian May, inclusive), ótimo riff, solos por toda a canção (muito bem executados) e um timbre completamente inserido na linguagem da época (tem cara de Rockman). O responsável pela gravação foi o Eddie Martinez.
Obs: Claro que o encontro com o Aerosmith em "Walk This Way" é histórico e fantástico, mas ele já foi suficientemente abordado né.

Time Zone - World Destruction
Afrika Bambaataa e John Lydon reunidos numa faixa de “miami bass-industrial”. As guitarras cacofônicas são um elemento de esquizofrenia e peso dentro da faixa. Funcionou muito bem.

Beastie Boys - No Sleep Till Brooklyn
Dispensa apresentação. Um dos grandes riffs da década de 1980 (simples e na cara). No nome da faixa já está explícita a homenagem ao Motörhead, embora musicalmente mais pareça um "glam rock porra louca" (tem algo de Twisted Sister). Lembrando que a guitarra foi gravada pelo Kerry King (o solo é total Slayer), numa ponte feita pelo Rick Rubin.

Public Enemy - She Watch Channel Zero?!
Uma das melhores e mais influentes faixas do hip hop. Sempre que alguém quiser combinar rap com rock a referência será essa, seja o RATM ou o Limp Bizkit. Guitarra total thrash metal. Pesado.

Eric B. & Rakim - Microphone Fiend
Um dos riffs mais memoráveis da história do rap, sampleado (e filtrado) do Average White Band. Ao fundo, ele serve de base para os versos do Rakim. Não por acaso o RATM fez uma versão para a faixa anos depois.

Ice-T - The Girl Tried To Kill Me
Pensei em mencionar somente o Body Count, mas vale também lembrar que o Ice-T sempre demonstrou interesse genuíno por sonoridades rockeiras. Aqui as guitarras são tão agressivas quanto melódicas. Parece uma fusão do Vivian Campbell com Carlos Santana. É muito legal como a guitarra serve de apoio no refrão, completando as frases do rapper. As seis cordas foram gravadas pelo Ernie C, o mesmo guitarrista do Body Count

Body Count - Body Count’s In The House
É rap ou é metal? Na dúvida, fica a menção. Hoje pode parecer simples, mas marcou uma época. Tem muita atitude envolvida, chegando até mesmo a remeter ao Ministry.

Geto Boys - Mind Playing Tricks On Me
Clássico do hip hop noventista, década em que a guitarra no rap deixa de ter papel apenas de peso e atitude rockeira para começar a trazer mais groove e organicidade para os beats, além de buscar uma tradição da música negra, principalmente com samples de funk e da soul music, vide aqui, com as guitarras de “We Can’t Be Stopped” do Isaac Hayes.

The Disposable Heroes Of Hiphoprisy - Music And Politics
Aqui o guitarra jazz (de groove funky) do Charlie Hunter é elemento exclusivo da base instrumental, que em cima de um canto falado (e belo refrão) acaba remetendo a "rap" em sua origem, ao Gil Scott-Heron.

Ice Cube - It Was A Good Day
Mais um hit. Aqui o rapper dialoga em cima de uma frase ganchuda extraída de “Footsteps In The Dark” dos Isley Brothers (guitarra do grande Ernie Isley). A ponte entre o rap e o r&b se encurta.

Del The Funky Homosapien - Mistadobalina
Quando pensei em fazer essa lista, logo meio veio a necessidade de lembrar alguma guitarra rítmica funkeada extraída do The Payback do James Brown, um dos discos mais sampleados de todos os tempos. Essa faixa é um ótimo exemplo de como tal fórmula funciona muito bem. O groove é quente.

2Pac - Dead Mama
O que gosto nessa simples linha de guitarra que se repete ao longo da música é que ela dá o tom confessional e apaixonado da canção. É quase como se, ao cantar sobre sua mãe, o rapper visitasse a trilha sonora da sua infância.

2Pac - It Ain’t Easy
Mais uma do 2Pac, só porque adoro esse timbre de wah-wah dialogando com o synth ao fundo. É solar e noturno ao mesmo tempo. É sexy e gangsta.

Racionais MC’s - Jorge Da Capadócia
Alguém sabe me informar quem gravou esse solo? Acho espetacular. Melancólico, bluesy, bem interpretado, funciona muito bem na faixa… uma maravilha.

DJ Shadow - Building Steam With A Grain Of Salt
O mestre do sample e do hip hop instrumental numa de suas melhores faixas. A segunda parte recebe uma guitarra grooveada e ácida. 

Jay-Z - 99 Problems
O que traz mais peso para a faixa: o beat saturado, os scratchs sujões ou os acordes distorcidos de guitarra?

Mos Def - Rock N’ Roll
Um timbre com flanger, recortado de “Memphis At Sunrise” (Bar-Kays), que deixa de soar como uma guitarra, funcionando como um elemento dentro do beat. Eu gosto muito dessas desconstruções que geram algo novo. Isso, claro, antes de seu final arrebatador, que vira um hardcore à la Bad Brains. Dois momentos guitarristicos discrepantes na mesma faixa.

Lauryn Hill - The Zion
Nessa tremenda faixa, Carlos Santana traz no violão sua conhecida latinidade. Grande encontro.

Outkast - B.O.B. Bombs Over Baghdad
Seu solo, em cima de uma produção não menos que cabulosa, é de acidez absurda. Mais que qualquer psicodelia ou blues rock pastiche, é isso que imagino o Jimi Hendrix fazendo se estivesse vivo.

Outkast - Prototype
Faixa moderna, sexy, funky e estranha. As guitarras tem as mesmas características, com direito a um solo psicodélico. Mais uma que o Prince deve ter gostado. Foi o Andre 3000 que tocou? Chuto que sim.

Outkast - The Rooster
Groove!

Eminem - Lose Yourself
Dispensa apresentações. Queira você ou não, é uma das guitarra mais memoráveis deste século. Eu gosto muito. Tem groove, clima sinistro e um timbre lo-fi legal. Foi gravada pelo Jeff Bass.

The Roots - The Seed (2.0)
Não poderia faltar o grupo mais orgânico da história do hip hop. Aqui numa faixa ultra pop. Guitarra não menos que solar. Sei que o James Blood Ulmer participou da gravação deste disco (Phrenology - 2002), só não sei em que música. Pode ser essa mesmo.

J Dilla & MF DOOM - Sniper Elite
Guitarra ácida, aguda, provavelmente sampleada, sabe-se lá de onde. Coisa de J Dilla. Muito legal.

MF DOOM & Mr Fantastik - Rapp Snitch Knishes
Mais um sample de guitarra caminhando ao fundo enquanto o DOOM rima com toda a sua personalidade. É divertido e psicodélico.

Kanye West - All Falls Down
Único rap no violão possível. Soa muito bem, principalmente no refrão.

Kanye West - Gorgeous
Melodia de guitarra não menos que ganchuda. Adoro o timbre, um fuzz lo-fi feião que funciona na produção. Já o ótimo solo tem uma “gordura” à la Santana.

Kanye West - Devin In A New Dress
Mais uma do homem, mais uma do MBDTF. Na metade final a faixa fica bastante guitarristica, ora soando como um fuzz bem legal, ora meio sintetizada, me levando a desconfiar se é uma guitarra mesmo ou não. Seja o que for, vale a menção.

Criolo - Não Existe Amor Em SP
A faixa em si não é exatamente um rap, mas é também. Balada lindona, levada numa toada meio Portishead, inclusive no que diz respeito a guitarra cósmica, reverberosa e distorcida ao fundo. Ao vivo, sob comando do Guilherme Held, é melhor ainda.

Kendrick Lamar - i
Mais um sample de Isley Brothers (“That Lady”). Essas guitarras caminham entre o Hendrix e o Santana. Nada mal. O resultado é ultra carismático.

Run The Jewels - All My Life
Ora parece um sintetizador, ora uma guitarra. Distorção, feedback e tappings parecem rolar. Difícil dizer o que é precisamente, de certo somente o resultado espetacular.

Travis Scott - 90210
Um dos maiores nomes do rap (e trap) contemporâneo numa de suas melhores faixas, que traz toda a atmosfera psicodélica e inventiva das suas produções. Sempre chamou minha atenção o solo de guitarra, numa onda meio Robert Fripp (frippertronics). Etéreo.

Travis Scott - Piss On Your Grave
Uma introdução à la rock psicodélico da década de 1960. Por essa muitos não esperavam. 

Danny Brown - Downward Spiral
Bizarrice. Altamente experimental. Sei nem dizer exatamente se é uma guitarra. Se o Hendrix fosse vivo, imagino que ele estaria extraindo do instrumento algo nessa linha.

Tyler, The Creator - Garden Shed
Uma guitarra enriquecendo a harmonia, outra dando clima Eddie Hazel. Uma maravilha.

Freddie Gibbs / The Alchemist - 1985
Adoro a linha de guitarra que percorre por toda a faixa, servindo de cama e holofote para que o Freddie Gibbs não se perca em seu flow veloz.


*Pra finalizar, chegamos no momento Judgement Night (1993), disco clássico que trouxe o encontro de grupos de rock com o de rap. O resultado ao todo é brilhante, mas temos alguns destaques. Vale dizer que algumas faixas deixei de fora simplesmente por achar mais rock que rap, é o caso de “Just Another Victim” do Helmet com o House Of Pain.

Living Colour & Run-D.M.C.
A guitarra do Vernon Reid interage perfeitamente com o hip hop. Sem erro.

Faith No More & Boo-Yaa T.R.I.B.E.
Mike Patton sempre demonstrou interesse pelo rap, inclusive na sua maneira de cantar. Mas aqui ele sabiamente abre espaço para o Boo-Yaa T.R.I.B.E., sendo o Faith No More responsável pelo peso doentio da faixa.

Mudhoney & Sir Mix-A-Lot - Freak Momma
Um encontro que gerou uma sonoridade particular. É uma tremenda faixa.

Dinosaur Jr. & Del The Funky Homosapien - Missing Link
J. Mascis não brinca. Sua guitarra oferece groove, acidez e intensidade sem atrapalhar o discurso do Del The Funky Homosapien. Sensacional

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