Durante 50 anos, Let It Be (1970) foi tratado como um álbum de menor diante da esplendorosa discografia dos Beatles. Se não posso falar por todos, falo por mim. Todavia, nada como um relançamento remixado e, principalmente, o filme The Beatles: Get Back (2021) para colocar a obra em seu devido lugar.
Produzido num momento conturbado, o grupo parecia desmotivado e sem saber para onde ir. Cogitaram voltar aos palcos e na produção de um especial para TV. Mas o fruto deste momento foi mesmo o disco, lançado logo após a dissolução da banda, embora não tenha sido o último a ser gravado, visto que o Abbey Road (1969) foi produzido e lançado logo após as seções do que viria a ser o Let It Be.
Inicialmente sem overdubs, esse disco marca a volta dos Beatles a sua origem sonora. É rock n' roll e cru, embora sofisticado nas composições, que aqui parecem menos colaborativas na criação, embora desenvolvidas em conjunto.
"Two Of Us" abre o disco acusticamente, num clima intimista e folk. George Harrison faz a ótima linha de baixo enquanto Lennon e McCartney demonstram o natural entrosamento nos violões e nas dobras vocais. Linda e simples melodia.
Na sequência temos "Dig A Pony", captada na lendária apresentação da banda do telhado da Apple Studios. A gravação é sublime, expondo enorme entrosamento, interpretações poderosas e timbres calorosos. Fora que a canção tem um dos melhores refrães da banda. John Lennon canta demais e Ringo é um show à parte.
"I've Got A Feeling" é outra captada ao vivo diretamente do telhado do estúdio. É um rock n' roll de mão cheia, com todos trabalhando em conjunto numa liga absurda. Inclusive o tecladista Billy Preston, que tão bem fez para a harmonia (musical e pessoal) da banda neste momento.
"Across The Universe" é uma bela balada do John Lennon. Talvez um de seus momentos mais melodiosos. Mesmo numa gravação crua, sua beleza é revelada. Há uma grandiosa (e brega) orquestração (com direito a coro celestial) adicionada posteriormente pelo Phil Spector. Meio desproposital, mas ok.
Por sua vez, "I Me Mine" é o momento do sempre subestimado (enquanto compositor) George Harrison. Aqui o arranjo de cordas funciona melhor, ainda mais quando é bruscamente interrompido pelo momento rockeiro. É ao mesmo tempo uma balada dolorosa (em 3/4 e de arrojada harmonia) e uma paulada rocker.
Também do George, "For You Blue" parece um blues à la Canned Heat, principalmente por conta da interpretação vocal. O solo de slide e o som estragado de piano dão um charme extra para a gravação.
Agora, o que ainda não foi dito sobre "Let It Be"? Nada. Balada icônica, no maior estilo Paul McCartney de buscar (e encontrar) a melodia perfeita. É singela, linda e de interpretação majestosa de todos. Tocou demasiadamente? É cafona? Ok, mas honestamente ainda me emociona.
Em "One After 909" os Beatles parecem aquela mesma banda que tocou no inicio da carreira em Hamburgo. Rock n' roll certeiro!
Por sua vez, "The Long And Winding Road" já revela para onde a carreira solo do Paul iria. É uma balada pianistica cafoníssima que dilacera o ouvinte com seu arranjo pomposo orquestral (novamente do Phil Spector). Acho maravilhosa, embora entenda os detratores.
Fechando o disco está a clássica "Get Back", um rock cru e direto ao ponto. Dispensa apresentações. Impressiona ter saído num momento aparentemente tão desfavorável.
Assistir o The Beatles: Get Back e ouvir o Let It Be é uma das experiências mais emocionantes que a música pode nos proporcionar.

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