Vale essa introdução ao analisar o Quarup (2014) do Lupe de Lupe, quarteto do interior de Minas Gerais, da chama Geração Perdida. Distante de produções polidas - muito pelo contrário, é lo-fi na essência, digno de uma confecção genuinamente caseira - o disco guarda um amadorismo admirável. Com 21 músicas distribuídas em quase 2 horas, há uma rejeição talvez involuntária aos singles fáceis com divulgação no YouTube. O resultado é uma obra tão complexa quanto inocente.
Lançado no último ano do primeiro mandato da presidente Dilma, o álbum prevê o Golpe de Estado que ocorreria no país. A contemplativa "O Futuro É Feminino" abre o disco soando como uma prévia do obscurantismo que assolou o Brasil. Sua melodia e interpretação é sofrível, se assemelhando a um jargão dito sem convicção por uma classe média. Guitarras de jangle pop e percussão enxuta formam o arranjo.
No auge do burburinho memético em cima do tal "rock triste", a jovial "O Arrependimento" parece resumir o que foi aquela breve onda. Cativante e muito bem narrada. Baita canção de pop rock.
Há uma trinca geográfica no álbum, a começar por "(Rj) Moreninha", de groove duro, bateria falsamente reverberosa, desafinações vocais e final confuso, características falhas que soam autenticas através da boa composição ("viver é o maior castigo").
Na sequência está "Gaúcha", uma das mais lindas baladas do rock brasileiro. Exagero? Não acho. Espetacular letra, interpretação, ambiência e melodia. A guitarra ruidosa faz da faixa num shoegaze emocionante.
Já "Sp (Pais Solteiros)" é de euforia juvenil brilhante. Com citação de Caetano Veloso e Ludovic em pés de igualdade, a banda deturpa o coronelato da MPB com criatividade e leveza.
Caminhando entre o pós-punk e o jangle pop, a depressiva "Colgate" é mais uma boa balada. Também trazendo fusões oitentistas, "Ágape" mais parece uma construção de synthpop/dream pop em cima de uma poética angustiada.
Gravado ao vivo, está a alucinante "Ao Meu Verdadeiro Amor" (com muito de Ride, dada as devidas proporções) e a esquisita/espontânea "Esse Topper Foi Feito Para Andar" (com muito de Daniel Johnston).
Entre os integrantes da banda, eu tenho uma predileção para as composições do vocalista/guitarrista/produtor Vitor Brauer, sempre interpretadas de forma apaixonada e honestamente falha/desafinada (quase um spoken word berrado). Como exemplo está a brilhante "Fogo-Fátuo", dona de um arranjo crescente e letra dilacerante. Tão emocionante quanto está "Eu Já Venci", um hino recente do rock alternativo brasileiro. A célula rítmica do baião é aplicada num instrumental acachapante. Mesmo de produção barata, os timbres soam corrosivos. Mas os grandes trunfos são a letra sagaz/ácida e a interpretação ofegante do Vitor. Foda!
Com participação do Cadu Tenório, "Jurupari" é um drone-noise voraz como poucas vezes visto no Brasil. São 9 minutos de camadas e densidade instrumental que parece resgatar espíritos indígenas. Aqui vale mencionar que o nome do disco (Quarup) faz referência não somente ao ritual em homenagem aos mortos do Xingu, mas também ao clássico romance do Antônio Callado (publicado em 1967), que assim como esse disco, foi lançado em meio a um golpe político.
O lo-fi/noise-punk "Orquestra Pra Três" é de sujeira nocauteante. Ótimo riff e refrão. É das melhores faixas comandadas pelo vocalista/baixista Renan Benini.
Em meio a pedras de crack e a buceta da Sara, memórias pesadas são abordadas na vociferante "Minha Cidade em Ruínas". Citação de Racionais, tragédias realistas e o instrumental claustrofóbico à la Sonic Youth fazem da faixa uma das mais torturantes do rock brasileiro.
Ainda dá para citar a bonita "Querubim", que soa como se o Guided By Voices fizesse um épico; a oitentista "Reino dos Mortes", com pitadas de Legião Urbana; e a intensa "Você é Fraco", com beat de drum and bass que o Zach Hill ficaria feliz de tocar, baixo gorduroso, berros distorcidos, microfonias e letra paranoica.
No desfecho, "A César o que é de César, A Deus o que é de Deus", que une dramas contemporâneos com intensas guitarras; e a excessivamente longa "Carnaval", com uma narrativa tão surreal quanto contemporânea em cima de mais guitarras barulhentas.
Com todo bom disco de rock feito por jovens que não tem nada a perder e sabem que pouco vão conquistar além da liberdade de produzir uma obra, esse trabalho exala paixão, força, urgência, melancolia, acidez, versatilidade, ambição artística e espírito punk/DIY. Somado a isso, uma qualidade lirica incomum a sua geração. Tudo isso se sobressaí a qualquer problema técnico ou irregularidade. Clássico (desde a capa) que se revelará com o tempo.

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