O jazz entrou na década de 1970 sem a mesma popularidade de outrora. Era o rock e o funk/soul que faziam a cabeça da juventude e exploravam territórios sonoros mais variados. Miles Davis, músico já consagrado no jazz, percebeu isso e buscou referência nos estilos, inaugurando o fusion (ou jazz-rock) no clássico Bitches Brew.
Foram principalmente Jimi Hendrix, Grateful Dead, Carlos Santana e Sly & The Family Stone - todos presentes em Woodstock - que fizeram o Miles se jogar nos sons distorcidos, grooves alucinantes, efeitos de wah-wah e delays em seu trompete, solos intermináveis e a convocar um time ilustre de jovens músicos para acompanhá-lo. Daí vieram Wayne Shorter (sax, presente desde o segundo quinteto clássico do Miles), Bennie Maupin (clarinete), Joe Zawinul (teclados), Chick Corea (teclados), John McLaughlin (guitarra), Dave Holland (baixo), Jack DeJohnette (bateria), Lenny White (bateria), Billy Cobham (bateria), Airto Moreira (percussão), dentre outros. Todos com carreiras destacáveis anos depois. Todos principalmente no território fusion.
Se já na capa há traços de psicodelia, musicalmente o disco percorre por territórios ainda mais ousados. O clima de free jam - preenchido por ritmos latinos, melodias herdadas da música indiana, performance transcendental dos músicos e colagens sonoras (e aqui entra o fundamental produtor Teo Macero) -, surge principalmente nas longas " Paraoh's Dance" e "Bitches Brew", transparecendo qualidade técnica e sofisticação/liberdade melódica. É a trilha do afrofuturismo.
Se em alguns momentos os solos trazem o peso do rock e uma certa barulheira cacofônica abstrata, por trás de tudo isso, mantém-se uma sólida base estrutural para as composições. "Spanish Key" talvez seja o maior destaque neste sentido. Por sua vez, “Feio” parece uma pintura sonora, preenchida por diferentes cores e camadas ao longo de seus 10 minutos.
Sendo um símbolo da vanguarda na música, Miles quebrou barreiras e propôs novos parâmetros sonoros, sendo Bitches Brew peça fundamental nesta caminhada. Audição difícil, mas recompensadora. Não por acaso o Miles é sempre lembrado como um dos grandes nomes das artes do século XX.

Nenhum comentário:
Postar um comentário