O rock brasileiro viveu seu ápice comercial na década de 1980. Bandas como Titãs, Paralamas de Sucesso e Barão Vermelho estavam presentes na TV e rádio. Todavia, a década de 1990 começou mal para o rock nacional. Raul Seixas e Cazuza morreram e o que sobrou envelheceu rápido, se intelectualizando e desconectando da juventude. Adolescente não aguenta quem se leva a sério demais.
Com o surgimento da MTV Brasil, o Plano Real melhorando a economia da classe média, a efervescência mundial do metal e rock alternativo - representada nacionalmente através de festivais como o Junta Tribo - e a revista BIZZ buscando o equivalente ao que o Nirvana causou no mundo, restou a quatro moleques de Brasília - com sangue nordestino - o posto de principal banda da renovação rockeira em solo tupiniquim. Surgia assim os Raimundos.
Influenciados tanto por Ramones quanto pelo desbocado Zenilton - cantor/compositor/sanfoneiro pernambucano -, os Raimundos fizeram a união perfeita de punk rock com o forró, algo que ficou conhecido como forró-core. Essa mistura bombástica chamou atenção do produtor Miranda, que levou a demo do grupo até as mãos dos Titãs, que por sua vez lançaram o debut dos Raimundos pelo selo Banguela (financiado pela Warner), com produção simples/eficaz/violenta e capa positivamente tosca.
Mas não foi só o Miranda e os Titãs que ficaram embasbacados com o som do quarteto. O público jovem adorou a banda. Todos se identificaram com aquele som pesado e sacana. As letras cheias de gírias coloquiais cantadas na velocidade da luz pelo Rodolfo, traziam temas corriqueiros para a molecada, vide a putaria explicita na clássica "Puteiro Em João Pessoa", canção impressionantemente bem escrita sobre um tema reconhecível e pouco abordado na música brasileira: a pressão machista para a desvirginação masculina. Havia também o hit involuntário "Selim", uma piada boba e maliciosa, mas divertida. Eram composições de certo modo subversivas aos padrões da família tradicional brasileira, ao mesmo tempo que se comunicavam conceitualmente com a cultura heteronormativa da Banheira do Gugu.
Sexo e palavrões são explorados naturalmente, vide o estrago presente em "MM's", "Minha Cunhada", "Carro Forte" e "Cintura Fina". Já as drogas aparecem nas espetaculares "Rapante" e "Nega Jurema". Se moralmente é possível tecer críticas sobre o conteúdo das canções, por outro é difícil negar a espontaneidade.
Instrumentalmente é incrível a quantidade de bons riffs despejados pelo Digão, além do baixo ultra encorpado do Canisso (sua palhetada é um soco!) e a pegada avassaladora do baterista Fred. Nestes quesitos, é fácil destacar a "dor de corno" "Palhas do Coqueiro" e a paulada "Bê a Bá".
O forró e a malícia de Zenilton surgem em "Deixe de Fumar/Cana Caiana" e "Cajueiro/Rio das Pedras", duas dobradinhas absurdamente inventivas, carismáticas e acachapantes. Escola Genival Lacerda de composição. "Marujo" chega até mesmo a incluir sanfona e triângulo no arranjo, isso numa época em que tribos eram muitos mais divididas, com o público rockeiro rejeitando diferentes gêneros, ainda mais os populares e brasileiros.
Grande parte do rock nacional posterior a esse disco foi de alguma forma influenciado pelos Raimundos, embora poucos demonstrem tanta atitude, carisma e inventividade quanto estes quatro candangos. Sendo assim, o disco de estreia do grupo continua relevante e, até mesmo, revigorante frente a um cenário pasteurizado. O mesmo não pode ser dito sobre o presente da banda, que envelheceu feito presunto esquecido fora da geladeira.

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