segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

TEM QUE OUVIR: Portishead - Dummy (1994)

No começo da década de 1990, em meio a efervescente cena da música eletrônica e a degringolada economia inglesa, a vocalista Beth Gibbons e o produtor/instrumentista/DJ Geoff Barrow popularizaram - não necessariamente por vontade própria - uma nova vertente musical que começava a chamar atenção através do Massive Attack. Me refiro ao trip hop, estilo natural de Bristol. Dummy (1994), o álbum de estreia do Portishead, praticamente definiu a sonoridade do gênero.


Com climas atmosféricos, timbres vintages, produção moderna e composições que transitam entre o jazz, ambient, hip hop, dub, rock progressivo e trilha sonora de filme noir, o grupo criou uma envolvente, soturna, introspectiva e sexual ambientação para dias cinzentos.

"Mysterons" abre o disco com um beat inteligente (espetacular timbre de caixa), fragmentos de áudio “estragados”, scratches e melodia sorrateira de theremin. Tudo isso coberto pela voz aparentemente frágil da Beth Gibbons, cantada no pé do microfone, privilegiando na captação a respiração, sibilâncias, vulnerabilidade e, no imaginário, o hálito de cigarro.

Não tem como passar indiferente pelo rico arranjo de "Sour Times", dona de uma atmosfera tanto de filme western quanto detetivesco.

A melodia de "Strangers" é ressaltada via seu beat martelante em loop (quase um boom bap) e interseções instrumentais que mais parecem colagens. A interpretação da Beth Gibbons é maravilhosa.

Vale ainda destacar a ternura aconchegante de "It Could Be Sweet"; o cruzamento do jazz com o rap em "Wandering Star" (esse beat é uma pancada!); o hammond da quase sinfônica "It's A Fire”; a densidade intensa, cinza e urbana de "Numb"; a melancolia de "Roads"; a ruides orgânica de “Pedestal”; e a produção esquizofrênica/criativa de "Biscuit".

Embora com tantas grandes canções, foi mesmo a clássica "Glory Box" que ficou mais conhecida. Suas guitarras angustiantes, sample de Isaac Hayes, groove sensual e letra amargurada fizeram do trip hop um estilo popular.

O disco agradou público e crítica, resultando em vendas altíssimas e diversos prêmios. A banda, embora com lançamentos esporádicos, manteve o nível elevado nos trabalhos posteriores. Todavia, foi o Dummy que certamente colocou o grupo entre os grandes nomes da década de 1990.

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