sábado, 15 de fevereiro de 2014

TEM QUE OUVIR: Jorge Ben - A Tábua De Esmeralda (1974)

Em 1974, Jorge Ben já era um artista experiente. Havia na década passada contribuído de forma direta, embora pouco lembrada, tanto para a ascensão da bossa nova, quanto do tropicalismo. Logo depois inventou o tal samba-rock, rótulo que não faz jus a sua grandiosidade musical. Embora tenha produzido discos fabulosos até então, com A Tábua De Esmeralda ele cravou sua marca na música popular brasileira, lançando algo incomparável com qualquer outra manifestação artística. 


Samba, soul, pop, funk, reggae, rock psicodélico e ritmos africanos se fundem com originalidade em canções alucinantes. Através de letras interpretadas com uma malemolência/métrica sobrenatural, misturando misticismo cósmico hermético e a cultura afro-brasileira, Jorge Ben construiu um repertório envolvente. Expondo todas essas características temos a clássica "Os Alquimistas Estão Chegando".

O clima alucinante das maravilhosas "O Homem da Gravata Florida" e "Minha Teimosia, Uma Arma Pra Te Conquistar" superficialmente servem de trilha sonora para uma festa tipicamente brasileira. Entretanto, há embutido no groove do violão de nylon do Jorge e nos arranjos (cordas, vocalizações, percussões) uma sabedoria formal tão espontânea que é gritante. 

Os arranjos ousados, costurados por interpretações descontraídas nas delirantes "Magnólia" e "Eu Vou Torcer" - uma faixa hippie tropical - não ficam para trás. 

A viagem proposta tanto na letra quanto na produção e arranjo de "Errare Humanum Est" é típica do rock psicodélico, mas a levada sincopada e sua cadência herdada do samba propõe a fusão de estilos. O resultado é exuberante como poucas vezes visto na história da música.

O groove embasbacante do violão de Jorge Ben em "Menina Mulher da Pele Preta" e "Hermes Trismegisto" também merecem atenção, assim como a densamente celestial "Cinco Minutos" (tremenda performance de baixo e bateria, que por falta ficha técnica não sei a quem pertence).

Menos “cósmica” e mais centrada no nosso plano, “Zumbi” é tão politizada quanto fluida 

Recentemente, André Midani (ex-chefão da Philips) explicou o porquê de uma gravadora multinacional tão poderosa ter bancado discos tão experimentais, dentre eles A Tábua de Esmeralda. A explicação foi simples: "Porque eu achei, com toda honestidade, que eram discos maravilhosos e fariam sucesso". A inegável maravilha sonora deu ao álbum status de cult, sendo frequentemente citado como o grande trabalho dentro da obra do Jorge Ben, ainda que o sucesso comercial tenha ficado no imaginário do Midani.

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