terça-feira, 4 de junho de 2013

TEM QUE OUVIR: Os Mutantes - Os Mutantes (1968)

Síntese: três jovens, debochados, talentosos e criativos músicos do bairro da Pompéia (SP) são acolhidos pelo Tropicalismo e gravam um dos melhores discos de estreia de todos os tempos. 


Poucos trabalhos são tão inventivos quanto Os Mutantes. Não por acaso ele foi eleito pela revista inglesa MOJO como um dos 50 discos mais experimentais da história, à frente de nomes como Beatles, Frank Zappa e Pink Floyd. O álbum tem uma energia/humor juvenil incrível, enriquecida pela maturidade dos arranjos do lendário maestro Rogério Duprat e produção do Manoel Barenbein.

Composta por Caetano Veloso e Gilberto Gil, "Panis Et Circense" abre o disco. A faixa é altamente sofisticada, tanto em sua letra crítica, quanto no seu instrumental sinfônico. O refrão é maravilhoso. Atenção para as trombetas inquietas em meio a doçura barroca. O efeito final, que simula a diminuição da rotação do vinil, revela tanto o humor quanto o experimentalismo do grupo. Talvez a canção mais representativa do Tropicalismo.

Outras canções de autoria do Caetano Veloso são as clássicas "Baby" - de singeleza ácida - e "Bat Macumba" - com sua forma poética concretista, percussão brasileira e tremenda linha de baixo -, ambas contendo efeitos peculiares de guitarra (tremolo, fuzz, wah-wah), construídos artesanalmente pelo irmão de Sérgio Dias e Arnaldo Baptista, o Cláudio Cesar Dias Baptista, um gênio da eletrônica.

Em "A Minha Menina" (Jorge Ben), a acidez do rock psicodélico e o balanço da música brasileira se fundem. É a canção dos Mutantes que os gringos adoram. O timbre estridente da guitarra é acachapante. "Adeus Maria Fulô" tem também essa (afro)brasilidade, só que aqui coberta por um arranjo inusitado de autoria do Duprat.

Arnaldo Baptista, ainda que muito jovem, já era um compositor extremamente talentoso, vide as faixas "Senhor F" - num jazzistico 7/4, lembrando o dixieland style -, a maluca "Trem Fantasma", o lirismo dream pop surrealista de "O Relógio", a divertida (e muito bem escrita) "Tempo No Tempo" e a vanguardista "Ave Gengis Khan". Já a ainda lolita Rita Lee encanta com sua doce voz em "Le Premier Bonheur Du Jour" (Françoise Hardy).

Lançado após o grupo ter acompanhado Gilberto Gil no Festival Record de 1967 com "Domingo No Parque" e ter participado do álbum manifesto Tropicalia ou Panis Et Circences (também de 1968), Os Mutantes, que outrora ficou empoeirado no ostracismo, tornou-se um clássico cult, muito graças aos elogios de fãs famosos como David Byrne, Kurt Cobain e Sean Lennon. O reconhecimento tardou, mas chegou.

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