Existe uma enormidade de jovens artistas que tentam galgar espaço na indústria musical usando o aparato hereditário. Jeff Buckley poderia ter sido um desses, já que é filho do cultuado cantor folk, Tim Buckley. Todavia, seu trabalho é tão coeso que poucos - ao menos no Brasil - lembram do seu pai. Mesmo com a morte trágica e prematura aos 30 anos, Grace (1994), seu único trabalho em vida, foi grande o suficiente para colocá-lo entre os melhores intérpretes da década de 1990, sendo ainda hoje cultuado.
Sendo constantemente elogiado por nomes como Robert Plant e Jimmy Page, Jeff Buckley conseguiu espaço na pequena cena alternativa de Nova York. Com todos os holofotes virados para Seattle, a dramaticidade dele se contrapunha ao esporro grunge. As angústias eram as mesmas, mas foi abusando de lindas melodias, arrojadas harmonias, arranjos cuidadosos e uma capacidade vocal incomum que o artista construiu sua personalidade.
Embora algumas canções carreguem sentimentos depressivos, a atmosfera presente do álbum está mais próxima da reflexão do que do martírio. Essa abordagem posteriormente influenciou outros artistas, vide o Radiohead.
Compositor de mão cheia, Jeff Buckley emociona logo de cara com a bela "Mojo Pin", canção de melodia sinuosa, onde seu canto remete mais a Nina Simone que ao estereótipo vocal de um “rockstar másculo”. Sua dinâmica crescente é arrebatadora.
“Grace” é o mais auto grau de sofisticação dentro do pop rock. O compasso em 6/8, a levada de violão, as cordas arranjadas pelo Karl Beger, a bateria brilhantemente bem construída do Matt Johnson, os falsetes intercalados com berros vocais, a elegante linha de baixo do Mick Grøndahl, um certo tempero indiano… é um espetáculo!
Difícil saber o que gosto mais em “Last Goodbye”. A linha de baixo é o que chama atenção inicialmente, mas basta a voz serena do Jeff Buckley chegar para ir direto aos nossos corações. Destaque ainda para as cordas trazendo exuberância pro arranjo. Simplesmente lindo. Canção de força acústica zeppeliana.
Impressiona a vulnerabilidade de "So Real", faixa de dinâmica peculiar, acordes misteriosos e performance sedutora.
Todavia, nada soa mais sentimental e exuberante que as versões para "Lilac Wine" - literalmente de chorar! que interpretação! - e "Hallelujah", essa última sendo capaz de nos fazer esquecer da versão original do Leonard Cohen, o que definitivamente não é pouca coisa. Soberbo.
Vale ainda mencionar a maravilhosa balada “Lover, You Should’ve Come Over”; “Corpus Christi Carol”, onde guitarra e voz parecem ecoar dentro de uma catedral; a pesada "Eternal Life" (que soa como um poderoso power trio); e o blues derradeiro “Forget Her”.
Importante deixar registrado que esse é um dos poucos discos que traz a produção, engenharia e mixagem do grande Andy Wallace, mais conhecido por ser exclusivamente mixer.
Seja através das letras emocionantes, vocal afiado, melodias de amarrar o coração, sensibilidade pop e/ou arranjos perfeitos, fato é que Grace é uma obra de extremo bom gosto de um artista que tinha tudo para dar saltos ainda maiores.

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