Difícil desassociar o artista do seu habitat natural, o estúdio The Black Ark, um microcosmo tecnologicamente arcaico, que servia de laboratório sônico para o Lee Perry. Com poucos canais, mas muita ousadia, ele foi aplicando sobreposições de sons, graves densos, delays hipnóticos e reverbs naturais, construindo o que hoje conhecemos como dub.
"Zion's Blood" é um reggae vagaroso de primeira grandeza. Sua melodia é altamente fixante. Atenção para o papel da conga na criação do ritmo. Difícil saber quando é uma nota tocada ou quando é a repetição extraída do delay.
Falando em delay, a voz em "Croaking Lizard" parece se dissolver na nossa mente. Isso em cima de um groove elegante e linha de baixo pulsante. Atenção para as pausas, tão fundamentais para dar o efeito de levitação.
A carismática "Black Vest" é um dub delicioso, orgânico e festivo. A forma repetitivamente alucinante e os metais solares fazem seus quase 5 minutos passarem voando.
Com poucas notas (no baixo gravíssimo, na bateria espaçosa, na guitarra carrega de wah-wah e delay), "Underground" cria um efeito psicodélico.
Dá para visualizar o Lee "Scratch" Perry em frente as caixas de som e do console trabalhando nos efeitos de "Curly Dub" e "Dread Lion". A maneira com que ele muta um beat ou filtra algum elemento faz dele um DJ dos estúdios.
"Patience" tem um grave de bater no peito. É uma criação que traz para o substrato sonoro toda a fumaça de ganja que permeava o The Black Ark.
Já no final do álbum, a desfigurada "Dub Along" parece nos abraçar querendo que cantemos juntos. Por sua vez, "Super Ape" surge isolada em sua ilha. É um retrato com as melhores imagens da Jamaica.
Difícil imaginar a existência de gêneros como reggae, dub, dubstep, jungle, drum and bass e trip hop sem as contribuições Lee "Scratch" Perry, ainda que provavelmente ele nunca tenha cogitado ir tão longe. Na verdade, sua cabeça viajante já era distante demais. Ele nunca foi daqui e seu som também não.

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